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O julgamento do mérito (definição da tese)

3.5 LEGITIMIDADE PARA A INSTAURAÇÃO

3.5.4 O julgamento do mérito (definição da tese)

Apesar de se verificar certa confusão prática entre a admissão de um incidente e o julgamento do seu mérito, estes dois estágios processuais não se confundem na prática.

Segundo Rodrigues, e fazendo um paralelo com uma demanda clássica, o

“pedido” seria a definição da tese jurídica que resolveria a questão de direito controvertida, objeto-fim do IRDR. Já a “causa de pedir” é a demonstração dos fundamentos de admissibilidade (existência) do IRDR, quais sejam, efetiva repetição de demandas sobre a mesma questão, assim como a ofensa à isonomia e à segurança jurídica155.

Superado o juízo de admissibilidade, torna-se efetiva a suspensão dos processos vinculados à tese aqui discutida e que tramitem na mesma área de atuação dos tribunais.

De forma a instrumentar a suspensão dos processos e até mesmo possibilitar, na medida do possível, a capacidade das partes que tiveram seus processos sobrestados em influenciar na decisão que posteriormente lhes será aplicada, sendo favorável ou não, estipula o artigo 978, CPC, que se proceda à mais ampla divulgação do feito, com sua inclusão em banco de dados específico, sob responsabilidade do CNJ156.

Destarte, é neste momento processual em que o relator determina qual, ou quais serão os processos afetados para o julgamento. Ou seja, de qual demanda individual serão pinçados os “líderes” do debate a ser realizado em torno da definição da tese objeto do IRDR. Em que pese não haja um critério específico, a doutrina entende ser dever do relator convocar as partes que discutiram, no bojo do processo original, com mais abrangência e profundidade os argumentos referentes ao tema definido para julgamento157.

Embora seja um procedimento predominantemente abstrato, é dada voz às partes que compõe o processo afetado para o julgamento, bem como a todo o corpo

155 RODRIGUES, Marcelo Abelha. Notas sobre o juízo de admissibilidade e mérito do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas. Revista Jurídica Unicuritiba. v. 4, n. 49, p. 331-359. Curitiba, 2017. p. 341.

156 GRECO, Leonardo. Instituições de Processo Civil: Recursos e Processos da Competência Originária dos Tribunais. v. 3. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015. p. 410.

157 TEMER, 2020, p.178.

social interessado no feito, ainda que de forma indireta, e ao MP, que, inclusive, pode se tornar parte direta no incidente, em existindo desistência de uma das partes do processo afetado para o julgamento-definição de tema jurídico158. É possível ainda, a interferência da sociedade organizada, interessada no feito, através da figura do amicus curiae159160.

Ressalte-se que, considerando ser pressuposto de admissibilidade a efetiva controvérsia sobre a tese afetada pelo IRDR, sempre existirá o interesse público, o que garante a participação do Ministério Público em seu papel constitucional de fiscal da ordem jurídica161.

O Incidente deverá ter seu julgamento realizado pelo órgão colegiado responsável, no tribunal em questão, pela uniformização de jurisprudência, consoante o determinado pelo artigo 987, CPC. Considerando que este mesmo órgão estará prevento para o julgamento do processo afetado, caso este esteja em sede de juízo singular, observa-se a possibilidade interessante do resultado deste julgamento, à parte e posteriormente à definição do IRDR, formar, ele próprio, um precedente em si162.

Não obstante, convém observar que o disposto no artigo 978, em seu parágrafo único, é objeto de polêmica em razão de, supostamente, possuir uma espécie de dupla inconstitucionalidade, formal e material. 163

A polêmica em razão da suposta inconstitucionalidade, assim como o disposto nos enunciados 342 e 344 do Fórum Permanente de Processualistas Civis, e também em razão de uma eventual supressão de instância, levaram ao TJPR definir jurisprudência interna no sentido de acatar a impossibilidade de instauração do IRDR a partir de demandas ainda em 1º grau de jurisdição.

158 VIANNA, Lydia de Freitas. Primeiras Reflexões Sobre O Julgamento e Fixação da Tese no IRDR.

In: MENDES, Aloísio; PORTO, José Roberto Mello. (coord.). Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas: panorama e perspectivas. Salvador: Juspodium, 2020. p. 895.

159 BUENO, 2022, p. 1.469.

160 TEMER, 2020, p. 204.

161 BUENO, op. cit., p. 1.469.

162 TEMER, op. cit., p. 219.

163 “Defende-se abertamente a inconstitucionalidade formal do dispositivo, porque ausente previsão similar nas versões aprovadas na Câmara e no Senado. Não se pode compreender que tal dispositivo tenha surgido como “emenda de redação”, porque tem conteúdo substancial distinto das versões anteriores. Defende-se em doutrina, ainda, a inconstitucionalidade material, por afronta ao art. 96, I da Constituição da República, que atribuiu privativamente aos tribunais a elaboração e seus regimentos internos, dispondo sobre a competência e o funcionamento dos respectivos órgãos jurisdicionais”

TEMER, op. cit. p. 110

Os elementos acima relacionados foram considerados quando da definição, em regimento interno, sobre a competência para o julgamento do IRDR na corte paranaense. Por considerar a soberania dos tribunais regionais na definição do seu respectivo regimento interno, soberania esta consolidada na nossa Carta Magna, em seu artigo 96, I, o TJPR definiu a competência no julgamento do IRDR em razão da matéria.

Desta forma, o IRDR será julgado por órgão especial quando envolver (art. 95, inciso III, alíneas “f” e “h”, RITJPR):

A) Inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do poder público.

B) Se suscitado a partir de processo competência do Tribunal Pleno.

C) Quando a matéria for comum a mais de uma Seção Cível.

Será julgado em uma das seções cíveis, porém com quórum qualificado quando: (art. 101, inciso II, alínea “a,” RITJPR)

A) For matéria cível, observada a especialização das Câmaras que as integram, previstas no art. 110 do RITJPR.164

Por derradeiro, o IRDR terá sua tese definida por uma seção criminal quando tiver por objeto matéria afeta ao direito criminal (art. 107, inciso I, RITJPR.

Superadas estas etapas, deverá, o incidente, ser incluído em pauta para julgamento com relativa antecedência, de forma a obedecer aos preceitos de publicidade, facultando a toda a sociedade interessada em acompanhar o feito. O processamento em si do julgamento é regrado pelo artigo 984, CPC, in verbis:

Art. 984. No julgamento do incidente, observar-se-á a seguinte ordem:

I – o relator fará a exposição do objeto do incidente;

II – poderão sustentar suas razões, sucessivamente:

a) o autor e o réu do processo originário e o Ministério Público, pelo prazo de 30 (trinta) minutos; b) os demais interessados, no prazo de 30 (trinta) minutos, divididos entre todos, sendo exigida inscrição com 2 (dois) dias de antecedência.

§1º Considerando o número de inscritos, o prazo poderá ser ampliado.

§2º O conteúdo do acórdão abrangerá a análise de todos os fundamentos suscitados concernentes à tese jurídica discutida, sejam favoráveis ou contrários.165

164

165 BRASIL. Código de Processo Civil. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em: 20 abr. 2022.

É importante observar que, na sustentação oral, as partes têm 30 minutos cada, salvo na condição de existir mais de um processo afetado, situação em que este mesmo tempo será dividido igualmente entre todos. Também é importante considerar como essencial a participação do MP, enquanto fiscal da ordem e que teria 30 minutos para uso da voz166.

Nas mesmas condições estão os representantes dos processos sobrestados que pretenderem se manifestar: terão 30 minutos para a sustentação, sendo este tempo dividido entre todos os interessados. Quando houver elevado número de partes, o relator poderá ampliar o prazo.

Ao pronunciar o acórdão com a definição da tese, deve o relator enfrentar todas as teses trazidas para o feito, independentemente de serem favoráveis ou contrárias ao entendimento firmado. Inclusive, não pode o relator se esquivar das teses que, eventualmente, não tenham pertinência estrita ao tema. Não se admite aqui, o comportamento usual nas repartições jurisdicionais, de não se sentir obrigado a enfrentar, um a um, os argumentos levantados. Da mesma forma, esse enfrentamento precisa ser devidamente fundamentado, ainda que somente para constatar a impertinência da questão167.

Tal cuidado é essencial por uma característica peculiar que recai sobre a decisão do IRDR: ela é vinculativa. Esta é a própria razão de ser do incidente, criar um precedente vinculante a ser aplicada a todos os casos, presentes e futuros, em que o mesmo ponto de Direito incida168. E, por ser vinculante, os elementos relacionados ao ratio decidendi precisam estar delimitados e bem definidos, de forma a possibilitar a técnica do distinguish aos processos sobrestados.

Por fim, com a definição da tese, é publicado o acórdão final do IRDR, que permitirá a aplicação do entendimento ali exarado, a todas as demandas que guardem relação com a tese enfrentada no incidente.

166 BUENO, 2022, p. 1.472.

167 Ibid., p. 1.473.

168 TEMER, 2020, p. 245.

4 O PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

Dentre todos os princípios a permearem a ideia de processo, o mais importante talvez seja o contraditório, como bem definiu Câmara. E é o mais relevante por ser, também, parte do próprio conceito de Processo, definido pela doutrina como um

“procedimento em contraditório”. Portanto, nem mesmo há processo sem contraditório169.

Assim, o princípio do contraditório, consubstanciado no brocado “audiatur et altera pars” é uma das garantias principais do devido processo legal e, portanto, do próprio sistema de tutela jurisdicional, componente indissociável do Estado Democrático de Direito170.

É preceito constitucional de garantia ao cidadão, uma das cláusulas pétreas da Magna Carta, conforme se depreende da leitura do artigo 5º, inciso LV da CF:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...]

LV – aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes. [...]171

Mas, ainda antes, tal princípio já era instituição clássica no processualismo.

O contraditório tem desde suas primeiras manifestações uma configuração de caráter dúplice, de defesa, mas também de ataque, visto que expressão da afirmação do direito, de um lado, e de negação da pretensão a este mesmo direito, quando da parte contrária172.

Na mesma linha, Cabral observa o caráter dualista do contraditório na perspectiva informação-reação. Desta forma, permite à parte a imediata reação, na intenção de preservar ou garantir a probabilidade do direito, afastando posições

169 CÂMARA, Alexandre Freitas. Levando os padrões decisórios a sério. São Paulo: Atlas, 2017. p.

90.

170 SANTOS, Welder Queiroz dos. Princípio do Contraditório e vedação de decisão surpresa. Rio de Janeiro: Forense, 2018. p. 50.

171 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 20 abr. 2022.

172 CÂMARA, op. cit., p. 91.

jurídicas que lhe são desfavoráveis, bem como a certeza da ciência assim que qualquer ameaça a direito que se presume seu sejam levadas a juízo173.

Assim, tem-se que o direito à informação lhe possibilita o conhecimento imediato de qualquer ofensa à probabilidade do direito, enquanto a faculdade da reação é a que lhe permite se manifestar no curso do processo, de forma a instrumentar a contra argumentação, participar ativamente da parte instrutória, assim como, ao final, sustentar oralmente as suas razões174.

Destarte, entende-se ser o contraditório um conceito formal-técnico, que ao mesmo tempo é princípio jurídico-político.

Superando o campo das possibilidades advindas de uma tradução literal, que o delimitariam no campo do contradito, do dizer o contrário, o conceito tradicional do contraditório admite múltiplas dimensões, transfigurando-se ora em instrumento de defesa, ora em ferramenta de ataque. Então, em um momento é instituto que garante a informação do fato a pôr em risco o gozo de determinado direito, e, em outro, é o conceito que admite a plena participação, o direito ao convencimento no tribunal, o mítico dia na corte.

No entanto, modernamente, considera-se o conceito de contraditório tipicamente formal, como ultrapassado. Não se concebe a possibilidade de um Estado Democrático de Direito sustentado por um contraditório estático175.

O entendimento primitivo consagrava o direito ao contraditório como a capacidade da parte, subdividida em duas vias, como dito acima. São, portanto, atos formais, restritos às partes. Não cabia ao órgão jurisdicional se submeter ao contraditório, apenas cuidar da ampla aplicação do princípio entre as partes, que seriam, a posteriori, as destinatárias da decisão final176.

No entanto, é preciso ressaltar que os conceitos, mesmo aqueles enraizados de forma profunda na cultura jurídica, não passam ilesos às mudanças na tecedura social. Do mesmo modo, os princípios, que em sua origem são vagos ou indeterminados e que exigem um trabalho constante de interpretação, com o estudo aprofundado pela doutrina e por sua própria aplicação prática, tendem a acomodar os

173 CABRAL, Antônio do Passo. Nulidades no processo moderno: contraditório, influência e validade prima facie dos atos processuais. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2010. p. 104.

174 Loc. cit.

175 CÂMARA, 2017a, p. 94.

176 SANTOS, 2018, p. 56.

anseios da sociedade, deixando de ser indeterminados. Os conceitos amadurecem com o tempo177.

Todas as mudanças tecnológicas já retratadas no primeiro capítulo, operaram mudanças profundas no processo jurisdicional, subvertendo e ampliando o escopo de aplicação dos mais diversos e fundamentais princípios que o regem. E, mesmo o contraditório, verdadeira espinha dorsal do Processo, precisou se adaptar.

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