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2. O SISTEMA DE CUSTEIO – CESSAÇÃO DA OBRIGATORIEDADE DA

2.3 O Julgamento – Inconstitucionalidade Formal e Material

Pode-se dividir o julgamento em dois momentos referente a inconstitucionalidade proposta pela ADI 5794 - Ação Direta de Inconstitucionalidade genérica, conhecida também como ADIN advém do controle concentrado de constitucionalidade, e está prevista nos artigos 102 I, “a” e 103 da CF/88. O que se busca neste tipo de ação é a lei ou ato normativo que se mostrarem incompatíveis com o sistema, ou seja, a invalidação da lei ou ato normativo pelo Poder Judiciário. O julgamento da ADI 5794 concluiu-se pela constitucionalidade da Reforma trabalhista que “privilegia os princípios da liberdade sindical, de associação e de expressão, entendendo que, para esta contribuição específica – sindical –, a autorização deve ser individual e expressa”.

A arguição que roga a inconstitucionalidade formal e material da regra legal contradita não prosperou na ação que juntou dezoito ADIs em decorrência do art. 1º da Lei nº 13.467/2017, que alterou diversos dispositivos sindicais e colocou a necessidade prévia de autorização expressa do trabalhador referente a contribuição sindical a qual deu nova previsão legal aos seguintes artigos da CLT:

“Art. 545. Os empregadores ficam obrigados a descontar da folha de pagamento dos seus empregados, desde que por eles devidamente autorizados, as contribuições devidas ao sindicato, quando por este notificados.

Art. 578. As contribuições devidas aos sindicatos pelos participantes das categorias econômicas ou profissionais ou das profissões liberais representadas pelas referidas entidades serão, sob a denominação de contribuição sindical, pagas, recolhidas e aplicadas na forma estabelecida neste Capítulo, desde que prévia e expressamente autorizadas.

Art. 579. O desconto da contribuição sindical está condicionado à autorização prévia e expressa dos que participarem de uma determinada categoria econômica ou profissional, ou de uma profissão liberal, em favor do sindicato representativo da mesma categoria ou profissão ou, inexistindo este, na conformidade do disposto no art. 591 desta Consolidação.

Art. 582. Os empregadores são obrigados a descontar da folha de pagamento de seus empregados relativa ao mês de março de cada ano a contribuição sindical dos empregados que autorizaram prévia e expressamente o seu recolhimento aos respectivos sindicatos.

Art. 583. O recolhimento da contribuição sindical referente aos empregados e trabalhadores avulsos será efetuado no mês de abril de cada ano, e o relativo aos agentes ou trabalhadores autônomos e profissionais liberais realizar-se-á no mês de fevereiro, observada a exigência de autorização prévia e expressa prevista no art. 579 desta Consolidação.

Art. 587. Os empregadores que optarem pelo recolhimento da contribuição sindical deverão fazê-lo no mês de janeiro de cada ano, ou, para os que venham a se estabelecer após o referido mês, na ocasião em que requererem às repartições o registro ou a licença para o exercício da respectiva atividade. Art. 602. Os empregados que não estiverem trabalhando no mês destinado ao desconto da contribuição sindical e que venham a autorizar prévia e expressamente o recolhimento serão descontados no primeiro mês subsequente ao do reinício do trabalho. (Lei nº 13.467/2017)”.

Exposta a nova redação da CLT podemos visualizar no tocante as contribuições sindicais que o artigo 545 determina o desconto sindical em folha do trabalhador que antes independia de formalidades, ou seja, de notificar o mesmo. O artigo 578, de grande polêmica, corrigiu o que se determinava como “imposto sindical” para “contribuição sindical” podendo ser recolhido mediante prévia e expressa autorização individual do trabalhador. Já no artigo 579 faz um reforço estabelecendo a quem é devido fazer o pagamento, alterando a parte que determinava a contribuição para todos, de determinada categoria, condicionando a autorização dos que desejarem fazer a contribuição.

O artigo 582 determinava que o empregador automaticamente descontasse do funcionário, na folha de pagamento, em março o valor corresponde a um dia de trabalho, continuando assim, porém o funcionário deve expressa e previamente definir se concorda com o desconto em função prol de seu sindicato. No artigo 583 é a mesma situação do art.582, porém se refere aos trabalhadores avulsos que tinham o desconto em abril, estes também passam a se manifestar expressa e previamente para que aconteça tal desconto em folha, conforme o art. 579. E no artigo 587 que tornou opcional ao empregador o recolhimento da contribuição sindical no mês de janeiro de cada ano, ao quererem a licença para o exercício da atividade, o que não deixa de obrigá-lo ao pagamento, mas de forma mais convidativa.

Já no artigo 602 foi retirado da previsão legal o trecho em que se referia aos empregados admitidos posteriormente ao mês do desconto, ficou somente mencionado

aos empregados que tiverem reinício no mês subsequente, que poderá ter o desconto efetuado mediante autorização nos moldes do art. 579.

O que as ADIs alegavam, principalmente, é que a compulsoriedade da contribuição teria previsão na constituição segundo o artigo 8º, IV, e 149 da Carta Magna. Porém ao realizar a leitura destes dispositivos fica claro o equívoco cometido em seus argumentos. Dispõe o art. 8º, IV, da Constituição que, verbis: “a assembleia geral fixará a contribuição que, em se tratando de categoria profissional, será descontada em folha, para custeio do sistema confederativo da representação sindical respectiva, independentemente da contribuição prevista em lei”. No final deste dispositivo observamos que a contribuição está prevista em lei, não cabe a outra forma dispor. E prevê o art. 149 que “Compete exclusivamente à União instituir contribuições sociais, de intervenção no domínio econômico e de interesse das categorias profissionais ou econômicas” (CF/98). Esta por sua vez dá à União prerrogativa de extinção e modificação referente aos dispositivos legais das contribuições sindicais já existentes.

Outro ponto forte de protesto é referente ao aminguamento do caráter compulsório das contribuições sindicais que buscou embasar na previsão do artigo 8º, I da Carta Magna, que a nova legislação teria interesse em tornar os sindicatos mais vulneráveis e enfraquecidos, trazendo na previsão legal já mencionada, que a fonte de custeio sindical era impenetrável, sendo essa sua base mantedora.

Em continuação aos argumentos da inconstitucionalidade prosseguem relatando que ocasionaria um retrocesso social, além de violar os direitos conquistados pelo trabalhador com base nos artigos 1º, III e IV, 5º, XXXV, LV e LXXIV, 6º e 7º da Constituição Federal. Com o argumento teórico básico em favor da cobrança forçada de taxas para o custeio dos sindicatos que reside no problema dos “bens públicos” ou “coletivos”.

São os bens públicos identificados pela não rivalidade e não pela exclusão, sendo que o seu gozo por um sujeito não deve excluir o seu aproveitamento por um terceiro, assim analisamos o sindicato, como é impossível ou excessivamente caro impedir que não pagantes consumam o bem. Porém nessa situação o bem aqui disposto acaba por ser uma oferta sub-boa em que alegam o incentivo ao não pagantes “pegarem carona” no

investimento realizado por outros. Essa lógica é feita aos benefícios das negociações coletivas promovidas pelas entidades sindicais, que são aproveitadas a toda categoria de empregados e empregadores conforme o caso. É impossível impedir que não pagantes sejam beneficiados pela atuação dos sindicatos. À míngua da contribuição forçada, argumenta-se que não-sindicalizados seriam “freeriders1” no investimento feito pelos sindicalizados, gerando incentivos para a desfiliação sindical mesmo para aqueles que concordam com os objetivos perseguidos pela entidade. Porque o sindicato entende que muitos ex pagantes não sabiam que o faziam, sendo necessário a movimentação e trabalho do sindicato para chegar até estes, seu comodismo foi desarticulado e isso não o faz feliz.

Em luta para haver uma produção ótima de sindicatos, porém a deturpação que o problema da proliferação excessiva de organizações sindicais no país causa acaba por afetar aos bons sindicatos que pagam por estes. Inclusive este problema, foi apontado na apresentação dos motivos no Projeto de Lei nº 6.787/2016, substitutivo ao que deu origem à lei ora impugnada, in verbis:

“A existência de uma contribuição de natureza obrigatória explica, em muito, o número de sindicatos com registro ativo existentes no País. Até março de 2017, eram 11.326 sindicatos de trabalhadores e 5.186 sindicatos de empregadores, segundo dados obtidos no Cadastro Nacional de Entidades Sindicais do Ministério do Trabalho. Comparativamente, no Reino Unido, há 168 sindicatos; na Dinamarca, 164; nos Estados Unidos, 130, e na Argentina, 91. Um dos motivos que explica essa distorção tão grande entre o número de sindicatos existentes no Brasil e em outros países do mundo é justamente a destinação dos valores arrecadados com a contribuição sindical. Somente no ano de 2016, a arrecadação da contribuição sindical alcançou a cifra de R$ 3,96 bilhões de reais.” (Lei nº 6.787/2016)

A falta de transparência à sociedade gerou o incurso das alterações legais. No presente trabalho ficou demonstrada como se forma e a estrutura dos sindicatos, mas isso é só uma visualização ampla de quem “enxerga por fora” as informações demonstradas no trecho do projeto de lei nº 6.787/16 que são leves e a título de conhecimento da população, devida a batalha do MTE e da Controladoria Geral da União que venceram pela transparência. Um comparativo do Projeto foi os EUA com que no último censo IBGE/2010 enumerou a população americana em 308 745 539 pessoas,

1 Freeriders: Clandestino livre - Aquele em que acaba por usufruir de um determinado benefício proveniente de um bem, sem que tenha havido uma contribuição para a obtenção de tal.

estes possuem cerca de 130 sindicatos, sendo que o projeto apresenta essa informação em 2016. Já o Brasil, pelo censo IBGE/2010, apresenta a população em 190 755 799 habitantes e cerca de 17 mil sindicatos. O que causa espanto sem dúvidas, a representatividade não se qualifica na quantidade, repelindo os sindicatos desnecessários e atribuindo força e qualidade aos verdadeiros é o intuito da lei, melhorar a ligação do sindicato ao trabalhador.

O legislador democrático ao constatar que a contribuição compulsória não estava realizando seus devidos fins e excessivamente gerando oferta para organização de mais sindicais, o que estava configurando uma perda social em detrimento dos trabalhadores que lutaram séculos para ter essa representatividade. Inegavelmente não apenas pelo valor do desconto feitos nas folhas de pagamento, que era transferida às entidades sem consulta ao trabalhador, que estes possuíam pouca ou nenhuma gerência, mas o número elevadíssimo de sindicatos que não correspondiam ao aumento do bem estar da categoria.

Ainda existe a alegação de que a contribuição compulsória é devida para uma melhor representação, tonando-se forte e efetiva para os interesses do trabalhador, ignorando que é uma fonte de custeio, que independentemente de haver resultados, cria incentivos perversos para uma atuação dos sindicatos fraca e descompromissada com os anseios dos empregados.

Claramente, que antes da reforma trabalhista aceitando ou não a gestão sindical todos eram obrigados ao pagamento da contribuição sindical, sem a opção de escolha, supomos que a consequente sobrevivência do sindicato não vinha a vincular a satisfação dos seus membros ali representados pela categoria, dessa maneira, a Lei nº 13.467/2017 tem por escopo o fortalecimento e a eficiência das entidades sindicais, que passam a ser orientadas pela necessidade de perseguir os reais interesses dos trabalhadores, a cessação de atraírem cada vez mais filiados.

Quando o tribunal decidiu sobre a ADI e afastou o pagamento obrigatório da contribuição sindical não configurou indevida interferência na autonomia destes, conforme seguinte:

“AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ARTIGO 47 DA LEI FEDERAL N. 8.906/94. ESTATUTO DA ADVOCACIA E DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL. CONTRIBUIÇÃO ANUAL À OAB. ISENÇÃO DO PAGAMENTO OBRIGATÓRIO DA CONTRIBUIÇÃO SINDICAL. (...) O texto

hostilizado não consubstancia violação da independência sindical, visto não ser expressivo de interferência e/ou intervenção na organização dos sindicatos. Não se sustenta o argumento de que o preceito impugnado retira do sindicato sua fonte essencial de custeio.” (ADI 2522, Relator(a): Min. EROS GRAU, Tribunal Pleno, julgado em 08/06/2006).

Quando a corte decidiu dessa maneira observou que essa não era a única fonte de custeio. Em acréscimo, não menos importante, a Constituição consagra como um dos direitos fundamentais a liberdade de associação, sindicalização e de expressão, consoante o disposto nos artigos 5º, incisos IV e XVII, e 8º, caput.

Essa decisão foi no sentido de ao ser criada a contribuição em um período autoritário do Estado Novo foi o que deixou nula a liberdade associativa, visto que, de qualquer forma o trabalhador seria obrigado a financiá-la, um outro trecho da exposição de motivos, verbis: “não se pode admitir que a contribuição sindical seja imposta a todos os integrantes das categorias econômicas e profissionais e, ao mesmo tempo, que a Carta Magna determine que ninguém é obrigado a se filiar ou se manter filiado a entidade sindical”.(CF/88).

Ao cumprimento da liberdade de expressão é comum que entidades sindicais se atrelem a atividades políticas, as quais o fazem lançando e apoiando candidatos, para tanto mantendo conexão com partidos políticos. Ocorre aqui a explanação política núcleo para sua disseminação. Interferindo que sindicalizados financiem atividades políticas com as quais não concordam ou desconhecem por meio da contribuição compulsória a sindicato, o regime anterior certamente vulnerava a garantia fundamental da liberdade de expressão, protegida pelo art. 5º, IV, da Constituição.

Ainda no caso dos EUA, a lei obrigava o pagamento das contribuições sindicais e a mais alta Corte do país declarou a prática incompatível com os direitos fundamentais insculpidos na Constituição. Ao examinar nossa constituição a lei brasileira faz menção e impede a cobrança de contribuições sindicais sem prévia e expressa autorização do empregado. Os requerentes das ADIs querem a declaração de que o pagamento forçado é decorrência da Constituição, o que é de malgrado aos artigos 5º, incisos IV e XVII, e 8º, caput, que garantem a liberdade de expressão, de associação e de sindicalização.

Sem houver nas ADIs em seus argumentos e elementos empírico e razões teóricas que as tornem admissíveis, visto que o legislador foi democrático com a reforma trabalhista sancionada pelo Presidente da República, em homenagem à presunção de constitucionalidade das leis.

Afinal, os estudos comprovam que assim como ficou demonstrada através do Supremo Tribunal Federal em sua decisão afastando o argumento de que a lei iria comprometer o acesso à justiça dos trabalhadores investidos pelos seus sindicatos, o mesmo se garante em outros dispositivos que todos terão acesso à justiça, independente de vinculação ou representação para tal. As alegações ignoram ainda que os sindicatos dispõem de múltiplas formas de custeio, incluindo a contribuição confederativa (art. 8º, IV, primeira parte, da Constituição), a contribuição assistencial (art. 513, alínea ‘e’, da CLT) e outras contribuições instituídas em assembleia da categoria ou constantes de negociação coletiva. A Lei n. º 13.467/2017 aprimorou, ampliando as formas de financiamento da assistência jurídica que são prestadas pelos sindicatos, passando a prever o direito dos advogados sindicais à percepção de honorários sucumbenciais (nova redação do art. 791-A, caput e § 1º, da CLT).

Por último, a própria Lei n. º 5.584/70, em seu art. 17, já dispunha que ante a inexistência de sindicato, cumpre à Defensoria Pública a prestação de assistência judiciária no âmbito trabalhista, não havendo motivos para os trabalhadores temer. Nossa constituição é suprema e serve de parâmetro para todo o resto do ordenamento, temos nossos direitos solidificados e resguardados e ainda mesmo que a constituição não os trouxessem somos um povo em constante evolução e não permitiríamos.

CONCLUSÃO

Com o objetivo de analisar a reforma sindical é possível perceber as mudanças ocorridas no tema e a interferência do sindicato nas mudanças sociais e trabalhistas no Brasil. É possível compreender ao final que estas alterações não afrontam a Constituição, e não mudam o modelo sindical vigente, podendo inclusive gerar uma maior efetividade nas entidades sindicais e uma maior participação dos trabalhadores.

Essa mudança pode levarmos a um novo pensar sobre a forma da sociedade trabalhar em diversas categorias, seja ela, econômica, trabalhista e outras formas de atuação na sociedade. Caso a ‘contribuição sindical’ fosse considerada um tributo, nesse sentido, não existe agressão ao que a Constituição estabelece, e poderia ser, como foi, alterada na forma ajustada e, ao final, promulgada pelo Congresso Nacional.

Dessas leituras todas em relação a reforma é possível perceber que o sindicato preocupou-se pelo fato dos trabalhadores escolherem optar pela não contribuição sindical. Lembrando que existem também a contribuição confederativa, a assistencial, dentre outras que podem ser criadas, mas autorizadas pelos trabalhadores, garantindo assim que se tenha o empenho dos sindicatos, com o real objetivo dos sindicatos, que é o de lutar pelos direitos dos trabalhadores.

Também nos estudos encontra-se observação que menciona a quantidade de sindicatos no Brasil que não corresponde ao número de associações atuantes, que estariam superando o número de dezessete mil, considerado por especialistas como um verdadeiro absurdo.

As novas regras não ofendem a Constituição Federal, o artigo 8º da Carta Magna manifesta associar-se profissional ou sindicalmente é de livre escolha do trabalhador, desta forma corrigisse um direito anteriormente posto, à liberdade sindical.

Percebe-se que este estudo não deve encerrar-se nesta etapa de conclusão da graduação em Direito, pois mesmo com as alterações na CLT iniciada em 2017 as mudanças são contínuas e poderão ser temas de extrema importância, pois não esgotam devendo continuar sendo objeto de estudo em outras esferas, como por exemplo na pós- graduação.

REFERÊNCIAS

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