Dafne ou Metamorfose
95] O laurel de Apolo
Que outrora brotou dentro do sábio...
O primeiro estádio de libertação na ioga é o da descoberta da árvore em si mesmo; a onda que sobe pela coluna vertebral. A sabedoria no Ecclesiasticus, 29.1
7: sou exaltado como o cedro no Líbano, e como o cipreste no Monte Sião. Sapientia é uma dama; a. anima em todos nós; a aura em Laura. A dama e o
amante são uma árvore.
J. Onimus, "La poétique de l'arbre". In: Ver. Sciences Hum., nº 101, p. 107. Ovídio, Metamorphoses, VII, 1. 813.
A metamorfose da sexualidade: a sublimação.
Os deuses que a beleza mortal desejaram Imóveis em árvore a busca findaram.
Em vez da dama, o laurel. Hanc quoque Phoebus amat. Orfeu canta, uma árvore cresce; em pura sublimação. Ou são uma e a mesma coisa, a árvore e a moça, Laura — remanet nitor unus in illa — ou a árvore, a moça e a canção. A árvore está no ouvido; ou é a moça que se torna leito em meu ouvido.
Rilke, Die Sonette an Orpheus, I, nos i-ii.
Ovídio, Metamorphoses, I, 11, pp, 552-553.
Do ouvido sensual ao espírito, poemas sem tom. A espiritualização dos sentidos; uma purificação. O laurel purifica. Folhas de louro; Laura se lava. Dafne é arte ou, através da arte, a noiva ainda intocada. Na sublimação a sexualidade não
é consumada...
[96]
Amante ousado, jamais, jamais beijá-la poderás Inda que vencendo a meta — não te entristeças porém Ela não esvaecerá, mas tampouco o êxtase terás Pois sempre amarás, e ela será bem!
M. B. Ogle, 'The Laurel in Ancient Religion and Folklore", In: American Journal of Philology, 31 (1910), pp. 287-311.
A noiva ainda intocada. A luta amainada. A caçada louca mortalmente quieta. A caça apreendida. A moça fugitiva imóvel, sem movimento carnal.
Ovide Moralisé, I, 1. 3178.
A caça apreendida, a caçada prossegue sempre. Como nos romances góticos descritos por Leslie Fiedler: 'Através de uma paisagem de sonho, geralmente chamada pelo nome de alguma localidade italiana, uma moça foge aterrorizada (...) Escapa e é apanhada; escapa novamente e é apanhada; escapa e é apanhada (...) A Donzela em fuga representa a alma arrancada do artista (...) a moça em fuga e seu perseguidor se tornam apenas versões alternadas do mesmo conflito (...) cada um é a projeção do seu oposto — anima e animus."
Fiedler, Love and Death in the American Novel, pp. 107-111.
A noiva ainda intocada, a sempre-viva. Um verdor virginal.
Ovide Moralisé, I, 1. 3108
[97] A verde sempre-viva é dourada: grün des Lebens goldner Baum. O aurum em Laura; a coroa dourada. O ouro alquímico da sublimação. A verde moça sempre-viva é de ouro.
Goethe, Faust, I, 1. 2039.
A sempre-viva é sempre-ardente. Dafne é uma tocha; o louro é cheio de fogo. Os ramos da árvore que a Antigüidade dedicava ao sol para coroar todos os conquistadores da Terra fazem fogo quando são esfregados. O laurel é o ramo em
chamas, a Virgem Maria; bucha ardente que não se extingue. No ofício da Virgem:
rubum quem viderat Moisés incombustum conservatam agnovimus tuam laudabilem virginitatem. Na sarça que Moisés viu arder sem se consumir, reconhecemos tua
gloriosa virgindade conservada.
Eusebius, Preparatio Evangelii, III, §112: o laurel consagrado a Apoio, dti Purs ts futsn
Bacon em Bachelard, The Psichoanalysis of Fire, pp. 69-70. Greene, Early English Carols, nº 199.
E. Harris, "Mary in the Burning Bush". In: Journal of the Warburg Institute, I (1937-1938), pp. 281-282. (Fragmento tríptico, 1476).
L. Réau, Iconographie de Vart chrétien, II, I, p. 187. Dafne, δαΐς (δαίω)
Cf. H.Boas, Aeneas' Arrival in Latium, p. 98.
Vel rubus incombustus humanitas Christi a divinitate non absorpta; vel ecclesia probat vel turbata tribulatione no consumpta. A sarça é a humanidade de
Cristo não absorvida por sua divindade, a igreja tentada ou atormentada mas não consumida pela tribulação.
Harris, "Mary in the Burning Bush", p. 286.
[98] Que ela se torne uma árvore oculta a florescer. Virgo, virga, a haste da raiz de Jessé. A moça é flor-de-maio, ramo de maio; tua é flor-de-maio.
Ele também repousará
Onde a mãe dele está Qual orvalho de abril Que à noite caiu.
Yeats, "A Prayer for my Daughter". Greene, Early Englis Carols, nº 172 e 182.
A equação simbólica Moça = Árvore; a equação simbólica Moça = Falo. A virgindade é virilidade; o verdor é virilidade. Endurecemos como árvores.
Odeio o rico libertino, desprezo o janota em desvario: Desses caçadores foge a bela virgem;
E como as doces parábolas de Ovídio dizem Enrijamos como a árvore e esfriamos como o rio.
O. Fenichel, "The Symbolic Equation Girl = Phallus". In: Collected Papers. Lady Mary Wortley Montague, "The Lover: A Ballad".
Máscula virgo; vai contra o grão do próprio sexo. Dafne era caçadora, como
Diana; e o único rapaz que amou se disfarçava de mulher.
S. Sontag, Against Interpretation, p. 279. Parthenius, Narrationes Amatoriae, nº 15.
[99] Metamorfose em árvore. A sublimação é ao mesmo tempo a queda numa ordem mais baixa da criação; uma encarnação. A subida é a descida. O sublime Apolo é dessublimado, descende; apaixonado pela natureza humana, ele toma forma humana, excessivamente humana — o cão do céu, ut canis in vácuo leporem
cum Gallicus arvo — para se unir a Virgem. E o que ela lhe dá é madeira, o
material materno. A Virgem é sua mãe; Osiris, Adonis, nascido de uma árvore. No ventre dela, ele põe madeira; no ventre dela, ele está cercado de madeira, coroado de louro, abraçado pela Virgem.
Ovídio, Metamorphoses I, 1. 533. Ovide Moralisé, I, 11. 3245-3250.
O que ela lhe dá no fim é a madeira da cruz.
Os deuses que a beleza mortal desejaram, Imóveis em árvore a busca findaram.
Em árvore ou na árvore. Sublimação é Crucificação. Mesmo assim, o Filho do Homem deve ser erguido. Um fragmento de tapeçaria copta de uma tumba do século V mostra a moça-árvore, nua e sexuada, estendendo a Apoio uma flor que é uma cruz. Ovídio diz oscula dat ligno. Beija a cruz.
No Museu do Louvre.
Ovídio, Metamorphoses, l, 1. 556.
Ela é a mãe dele; a Grande Mãe; a deusa nua se elevando entre dois ramos. E. Neumann, The Great Mother, pp. 241-256.
[100] Ela é a mãe dele, pode ter sido uma prostituta. Laura, Laurentia; alguns
dizem que era a ama de Rômulo e Remo, outros dizem que era prostituta. Freud, "A Special Type of Choice of Object Made by Men". In: Collected Papers, IV, p. 199.
Varro, De Língua Latina, V, § 152; VI, § 23.
Da donzela andarilha a árvore da família: ela se aquietou, na terra laurenciana. Laura se torna Lar. Na soleira de Augusto
...
postibus Augustis eadem fidissima custos ante fores stabis.
como um laurel verde qualquer enraizado num amado lugar perpétuo
Vico, New Science, § 533. Cato, Originum, Frag. # 10.
Ovídio, Metamorphoses, I, 11. 562-563. Virgílio, Aeneid, VII, 11. 59-62.
Metamorfose em árvore. Uma queda para o estado da natureza. O espírito, a essência humana, se esconde enterrado no objeto natural; "projetado". O Grande Pan está morto. As Metamorfoses de Ovídio, a morte dos deuses e o nascimento da poesia. Schiller, "Die Götter Griechenlands".
[101] Morto e enterrado. As musas como museus; a arte como sarcófago.
com raça
De homens e donzelas em mármore forjados.
Como o laurel, prometendo imortalidade.
Prometendo imortalidade. Ou aguardando ressurreição. Não morta, mas adormecida. A donzela não está morta, adormeceu. A árvore é a bela adormecida. Fez um leito em meu ouvido e foi dormir. E tudo é o sono dela.
Mateus 9.24.
Despertar o espírito de seu sono. Orfeu ou Cristo dizendo a paus e pedras:
árvores
E os cumes dos montes que congelam...
Donzela, a ti eu digo, levanta.
Shakespeare, Henrique VIII, Ato III, cena 1. Lucas 8.54.
Nem todos nós dormiremos, mas todos seremos transformados. A ressurreição é a revelação dos filhos de Deus. No Apocalipse:
[102]
Dafne rompeu a casca, e o pé ligeiro, Que irados deuses ataram com raiz
À terra fixa, liberto do grilhão sai a correr Rumo aos abraços do jovem sol
Correndo ao encontro do filho, de quem antes fugia. Nescis, temerária,
nescis quem fugias.
Romanos 8.19. Carew, 'The Rapture".
Ovídio. Metamorphoses, I, 11. 514-515.
O laurel triunfante. In hoc signo vinces. Conservai a fé até a morte e vos darei a coroa da vida. A coroa de glória que não esmaece; a coroa de ouro. O laudo em Laura. O laurel na testa de César; a coroação de Petrarca, o poeta laureado. O imperador, o poeta e a amante triunfante.
Ite triumphales circum mea tempora laurus! Vicimus, in nostra est, ecce, Corinna simu.
Revelações 2.10; Pedro 5.4.
Danielou, 'The Palm and Crown". In: Primitive Christian Symbols.
Kantorowicz, "On Transformations of Apolline Ethics", em K. Schauenburg,
Charites (Berlim, 195 7), pp. 265-274.
Wilkins, "The Coronation of Petrarch". In: The Making of the Canzoniere. Isidoro, Etymologiarum lib., XVII, § vii. Laurus a verbo laudis dieta — apud
antiquos autem laudea nominabatur... ut in auriculis, quae initio audiculae dictae sunt, et medidies quae nunc meridies dicitur.
Restituir às árvores e plantas sua animalidade original; sua espiritualidade original; sua humanidade original. Erasmus Darwin no Proêmio de seu Loves of
the Plants: "Enquanto P.
[103]