deveria atender às demandas e aos anseios do grupo social local, de forma que todos os aspectos do mundo da experiência transmitissem o sentido de uma harmonia ideal que repousa numa obscura dimensão de assombro. Causa-nos espanto a força de integração e estruturação da vida, presente até na mais simples organização tradicional dos símbolos míticos.
II. Pensamento Tradicional e Criativo
Então como fica a situação atual?
Como já observei a respeito das quatro funções tradicionalmente atendidas — mística, cosmológica, social e psicológica —, as duas que mais radicalmente mudaram com o tempo são a segunda e a terceira, as esferas cosmológica e social. Pois, se a cada avanço da tecnologia mudam o conhecimento humano e o controle dos poderes da terra e da natureza, velhas cosmologias perdem a força e outras passam a existir. Para ser efetiva, a mitologia (em termos rudimentares) deve acompanhar a ciência e se apoiar em conceitos atualizados do universo, aceitos e convincentes. Nesse ponto, é evidente que nossas próprias tradições têm um problema grave, pois as principais prerrogativas tanto do Novo como do Antigo Testamento se fundamentam em uma imagem cosmológica do segundo milênio a.C. que já estava desatualizada quando a Bíblia foi composta, nos últimos séculos a.C. e no primeiro d.C. Os gregos alexandrinos já tinham abandonado as antigas três camadas sumério-babilônicas de ''céu em cima, terra embaixo e águas sob a terra" há séculos, e em 1543 d.C. Copérnico nos levou ainda mais longe. No moderno universo de milhões e milhões de galáxias espiralando a distâncias de anos-luz nas fronteiras do espaço-tempo, as histórias da carochinha outrora
[145] críveis, da Torre de Babel ameaçando a Deus, José parando o Sol e Elias, Cristo e a Virgem ascendendo fisicamente aos céus, são simplesmente impossíveis, por mais que sejam atenuadas e revisadas. Além do mais, as maravilhas do nosso universo e mesmo os trabalhos do homem de hoje são infinitamente maiores, mais maravilhosos e grandiosos que qualquer coisa relatada desde os anos a.C. de Iavé. Por isso as lendas, que no passado recente produziram nos leitores reverentes ao menos algum sentimento — se não experiência — de um mysterium tremendum na fantasia levantina, hoje só podem ser lidas como documentos da infância de nossa raça. E comparadas a certas contrapartes primitivas, antigas e orientais, nem chegam a ser mitos interessantes.
Além disso, acerca do valor moral dessa herança, com sua ênfase no privilégio racial e a crença numa lei moral de validade eterna, divinamente transmitida à raça eleita no cume do Monte Sinai, cabe perguntar agora se no mundo moderno, onde é infinita a mistura de povos participativos, um tal racismo ainda pode ser considerado edificante ou mesmo tolerável. E mais, se todas as condições da vida fluem (de fato, muitas virtudes de ainda ontem são hoje um mal social), se alguém possui o direito a pretensão de um conhecimento de leis eternas e de uma ordem moral geral para o bem de toda a humanidade. Como na ciência de
hoje não existe uma Verdade descoberta" fixa e final, mas apenas hipóteses de trabalho que no momento seguinte podem exigir revisão de acordo com algum fato novo, assim também na esfera moral não há mais uma fundação fixa, Pedra das Eras, na qual o homem de princípios morais possa se firmar. A vida, no saber e no fazer, hoje é uma "queda livre", por assim dizer, em direção ao próximo minuto, ao futuro. Se antigamente quem não queria se arriscar a aventura de uma vida individual podia se refugiar na paliçada de uma ordem social confortável e garantida, hoje
[146] todos os muros estão em ruínas. Não nos é oferecida a aventura de uma vida sem precedentes: a aventura cai sobre nós como uma onda que quebra.
Isso me conduz ao próximo ponto, a saber, que não só na cosmológica e sociológica, mas também na dimensão psicológica de nossa vida está nascendo a percepção do relativismo em todas as medidas. Só no cérebro humano há cerca de 18 mil células nervosas; diante disso, observa um grande fisiologista: "Se a natureza não consegue reproduzir o mesmo padrão simples em um par de dedos, muito mais impossível é reproduzir o mesmo padrão em dois cérebros!"5 Nenhum par de seres humanos é idêntico: cada um é uma maravilha sem precedentes. Então, quem é capaz de dizer a mim ou a você qual será nosso presente ao mundo, ou o que no mundo será bom para nós? Já na Europa do século XIII, no auge do prestígio de uma religião-para-todos levantina que fora imposta, surgira a percepção de que cada indivíduo é único e cada aventura de vida é igualmente única. Na versão em prosa da aventura do Graal da antiga França, conhecida como a Quieste del Saint Graal, por exemplo, há uma passagem que defende essa questão com a maior clareza. O Santo Graal, pairando no ar mas coberto com tecido de samito, havia aparecido aos cavaleiros reunidos no salão de jantar do Rei Arthur e depois desaparecera. O sobrinho de Arthur, Gawain, levantou-se e propôs a todos o voto de partirem no dia seguinte numa busca geral para conquistar o Graal revelado. E partiram no dia seguinte. Aqui vem a passagem: "Eles acharam que seria uma desgraça saírem em grupo. E cada um entrou na floresta em um ponto diferente, que achava ser o mais espesso, sem trilha nem caminho."6 Pois quando você segue um caminho ou trilha, está
[147]
5 Sir Arthur Keith, em Living Philosophies, um simpósio (Simon and Schuster, Inc., 1931), p. 142.
seguindo o caminho ou destino de outro. O seu caminho é ainda desconhecido e embrionário (por assim dizer) dentro de você, como sua personalidade inteligível, pressionando para se manifestar no caráter conquistado, único, de uma vida individual. É exatamente essa noção de potencial pessoal a ser realizado que conferiu aos maiores trabalhos criativos e biografias ocidentais o caráter de anseio pelo desconhecido indefinido. A vida de cada um inclui o processo de gerar um espécime da humanidade nunca antes visto na face da Terra, e a maneira de consegui-lo não está no caminho de ninguém mais que já tenha vivido. Nos últimos episódios da antiga Queste francesa, sempre que um cavaleiro, na "aventura florestal" de sua busca, encontra o caminho de outro e tenta segui-lo, acaba se perdendo.
E aqui nos encontramos, no Ocidente moderno, ante um desafio implacável. O Graal nos foi apresentado para suscitar uma busca individual, a vida individual que se aventura na percepção do próprio potencial inato. Contudo, o principal sentido de nossa grande herança ocidental de ortodoxias mitológicas, teológicas e filosóficas — sejam de linhagem bíblica ou clássica — trata de certas normas a serem conhecidas, crenças a serem sustentadas e objetivos pelos quais lutar. Em todos os sistemas tradicionais do Oriente e do Ocidente as formas mitológicas autorizadas são apresentadas em ritos nos quais se espera que o indivíduo responda com uma experiência de compromisso e crença. Mas e se ele falhar? E se toda a herança das formas mitológicas, teológicas e filosóficas fracassar em despertar nele uma autêntica resposta daquele tipo? Como deve se comportar? A reação normal é a impostura, sentir-se deslocado, fingir acreditar, e viver, a imitação dos outros, uma vida não autêntica. Por outro lado, o caminho criativo autêntico, que eu chamaria o caminho da arte em contraposição a religião, vem reverter essa ordem autoritária. O padre apresenta
[148]