TABELA 02 AS PRINCIPAIS EMPRESAS RESPONSÁVEIS PELOS GRANDES EMPREENDIMENTOS HIDRELÉTRICOS NA BACIA DO RIO
3. DINÂMICA ESPAÇO/TEMPORAL NA BACIA DO RIO URUGUA
3.3 O LOCAL E A TEMPORALIDADE DAS COLETIVIDADES
O Hábito é a síntese originária do tempo que constitui a vida do presente que passa; A Memória é a síntese fundamental do tempo que constitui o ser do passado (o que faz passar o presente).
Gilles Deleuze
As temporalidades, subjetividades, relações produtivas e intencionalidades capitalísticas geralmente se apresentam como corolário das inter-relações entre objetos técnicos e as ações que lhe são adjudicadas quando se tornam parte constituinte de um determinado espaço regional pré-estabelecido como racionalmente utilizável.
No entanto, o fragmento, o parcial, o local, o incompleto acabam apresentando-se, seja como subproduto colateral da produtividade capitalista e do estranhamento subjetivo dela resultante, seja como "corpo sem órgãos" não realizado como objeto ou ação capitalísticos, seja como elemento de resistência organizada em contradição com os fluxos hegemônicos.
Tudo, os pensamentos, o espaço, as relações interpessoais, as relações de produção, tudo se torna estranhamento, num mundo onde nada é controlável e já não existe mais nenhuma dimensão humana à qual recorrer150 como possibilidade de libertação ou de recuperação do ethos perdido ou de sua transmutação para uma nova coexistibilidade.
Como afirma Mészáros (2007, p. 25), "A única modalidade de tempo em que o capital pode se interessar é o tempo de trabalho explorável", colocando a temporalidade dos componentes subjetivos das coletividades em posição de opositora da livre expansão do capital e do meio técnico-científico-informacional ou de repositório de ações de poder transversais no sentido de sua transterritorialização.
Esta temporalidade, intimamente imbricada com formas tradicionais de apreensão do espaço e das relações sociais objetivas, é considerada por boa parte da literatura acadêmica ocidental como um estorvo extemporâneo. É temporalidade
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Uma visão que trata de uma fase anterior deste processo pode ser encontrada em Marcuse (1979).
de "espaço herdado", espaço que não é formado somente pelos processos de ocupação e densificação das últimas décadas ou pela última camada de modernização justaposta, superposta ou contraposta às componentes da formação socioespacial, espaço formado por um contínuo intercâmbio entre orgânico e inorgânico, memória e materialidade, imaterialidade e concretude, concretude que orienta e normatiza não só a vida material, como também a cultura imaterial.
Num espaço herdado, como em qualquer outro tipo de espacialidade tecnicizada, "os objetos contêm a ação (...) da mesma maneira que a ação refaz os usos dos objetos, atribuindo-lhes sistematicidade e atualizando-os" 151.
O espaço deixa de ter uma configuração racional-abstrata e contabilística, possibilitando novas cartografias com diferentes conotações e espessuras simbólicas e a interrupção de fluxos desejantes agenciados pelas subjetividades hegemônicas, reterritorializando os do "homem comum". Uma temporalidade lenta num espaço herdado apropriado para a difusão de "homem lento"152.
Como assinala Santos (1994), o conceito sartreano de prático-inerte exprime a possibilidade de linhas de fuga e resistência que colocam o homem lento em sintonia com o espaço herdado, já que;
(...) é o resultado de totalizações do passado, criando configurações resistentes na vida social e, digo eu, também no espaço. Cada lugar acolhe, através da História, seu prático-inerte local, formando — desculpem a simplificação — [por] uma tecnoesfera e por uma psicoesfera, ambas suscetíveis de alteração e mudança, ainda que a primeira, a tecnoesfera, por sua materialidade, mais pertença ao reino da necessidade, ao passo que a segunda, um dado empírico mas não material, mais pertença ao reino da liberdade. Se pobres, homens comuns, os homens "lentos" acabam por ser mais velozes na descoberta do mundo, seu comércio com o prático- inerte não é pacífico, não pode sê-lo, inseridos que estão num processo intelectual contraditório e criativo (Idem ibidem, p. 84).
Em contraposição às conformações espaciais e imperativas temporais hegemônicas; planas, retas, contínuas e opressoras, o homem lento das cidades e das urbes rurais, ou cidades locais (SANTOS, 2005, p. 85 - 92), afirma as rugosidades (SANTOS, 2004a, 139 - 141), os planos de consistência, onde o não
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RIBEIRO, Ana Clara Torres. Outros territórios, outros mapas. Sítio OSAL - Observatorio Social
de América Latina, Año 6, nº. 16, jun., 2005, Buenos Aires, p. 9. Disponível em:
http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/osal/osal16/D16TRibeiro.pdf. Acesso em 12 de dez. de 2008.
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Sobre o "homem lento" e sua relação intima com a formação de um "espaço herdado", ver: Santos, (1994, p. 81 - 86).
formado, o não organizado nem estratificado, os objetos desestratificados, os corpos sem órgãos, permitem que tudo escorra, atribuindo-lhes intensidades puras e singularidades livres.
As comunidades onde predominam o tempo lento tendem a abrir pontos de convergência nos quais toda uma série de dispositivos e agenciamentos libertadores podem suportar territorialidades não-alienadas e uma práxis contraditória que possibilita apreender formas de coexistência e existência não estranhadas e resistentes às cooptações e reificações instituídas pelos poderes hegemônicos sobre e sob as comunidades.
Assim, novas racionalidades não opressoras, nascidas de um espaço herdado, ou no "espaço banal" (SANTOS, 2004a, p. 339), podem se formar e se difundir por entre as frestas abertas nas formações discursivas modernas por estas territorialidades transterritorializadas e pela nova práxis a elas associada, reconhecendo o simesmo como outro e o outro como simesmo e dando base genuína à ação solidária espontânea, levantando trincheiras contra a passagem dos fluxos globalizantes.
Deste modo, podemos, finalmente, distinguir de maneira nítida, junto com Guattari (1985), território e espaço.
Os territórios estariam ligados a uma ordem de subjetivação individual e coletiva e o espaço estando ligado mais às relações funcionais de toda espécie. O espaço funciona como uma referência extrínseca em relação aos objetos que ele contém. Ao passo que o território funciona em uma relação intrínseca com a subjetividade que o delimita.
Ao mesmo tempo em que se intensifica e extensifica o alcance e a influência do meio técnico-científico-informacional nas comunidades e cidades espalhadas pelo Vale da Bacia do Rio Uruguai, clareando o caminho para a super-exploração do capital em crise de formação de valor e desterritorializando/transterritorializando tudo que esteja ao seu alcance e não esteja em conformidade com a lógica hegemônica, formam-se territorialidades e práxis alternativas e racionais, com base nas experiências e imperativos das subjetividades marginalizadas, "inseridos num processo intelectual contraditório e criativo", constituindo-se como:
(...) parte de uma rebelião muito mais profunda, contra o tipo de racionalização do ímpeto libertário que prevaleceu, talvez tempo demais, como uma aposta redentora da Modernidade. Tal racionalização fundamentou-se numa associação entre progresso acumulativo no tempo e
integração progressiva no espaço. O caminho da liberdade tem sido
pensado, talvez com demasiada insistência, no cruzamento destas duas coordenadas (HOPENHAYN, 2001, p. 268).
O hábito e a memória, como agenciamentos livres da subjetividade capitalística, têm um papel fundamental na formação do espaço herdado, assim como dos territórios de resistência.
O fundamento do tempo é a Memória. (...) A memória [deve ser vista] como síntese ativa e derivada, repousa sobre o hábito: com efeito tudo repousa sobre a fundação. Mas o que constitui a memória não é dado desse modo. No momento em que ela se funda sobre o hábito, a memória deve ser fundada por uma outra síntese passiva, distinta do hábito. E a síntese passiva do hábito remete a esta síntese mais profunda que é da memória:
Hábitus e Mnemósina, ou aliança do céu e da terra. O Hábito é a síntese
originária do tempo que constitui a vida do presente que passa; A Memória é a síntese fundamental do tempo que constitui o ser do passado (o que faz passar o presente) (DELEUZE, 1998, p. 142).
A memória não é a transposição do antigo para o presente, mas as referências por ele visadas sobre o passado; é o que foi especificamente, representado no atual, pretérito imperfeito, ou mais que perfeito, nunca pretérito perfeito, nunca o que era genericamente, ou o que deixou de ser. É, enfim, uma dimensão pela qual o presente reproduz objetos determinados do passado e representa a si mesmo.
A síntese do tempo com o espaço local e cotidiano das comunidades não trás o passado como resistência ao moderno, mas como possibilidade de estabelecer agenciamento de linhas de fuga para a construção de um futuro não contingente, pois:
O presente não é um resultado, uma decorrência do passado, do mesmo modo que o futuro não pode ser uma decorrência do presente, (...) O passado comparece como uma das condições para a realização do evento, mas o dado dinâmico na produção da nova história é o próprio presente, isto é, a conjunção seletiva de forças existentes em um dado momento. Na realidade, se o Homem é Projeto, como diz Sartre, é o futuro que comanda as ações do presente (SANTOS, 2004a, p. 330).
É o hábito que funda a experiência da memória, já que cobre todas as possibilidades do presente em geral, mas, em sua síntese passiva objetiva, ele só é passado na medida em que pode ter objetivação no presente, constituindo-os, memória e presente, como síntese ativa, como tempo vivido.
As comunidades atingidas por alagamentos sistemáticos do Vale da Bacia do Rio Uruguai vivem entre um presente que lhes escapa, uma memória que lhes naturaliza a vivência e um futuro que temem, mas que se lhes apresenta como
possibilidade de controlar racionalmente suas existências através da luta e do trabalho duro.
Não é por acaso que os habitantes das comunidades dos locais atingidos pelos alagamentos sistemáticos, ao serem entrevistados e instigados à recuperação da memória, tenham-na altamente eivada por aspectos emocionais.
Na verdade, são versões emocionadas do passado, revisitado a partir da incerteza do presente e da antecipação negativa do futuro, carregadas de melancolia e de indignação moral, freqüentemente mal contidas durante o trabalho de memória. Nele há pouco lugar para lembranças alegres e prazerosas. (...) Os espaços privilegiados da memória são aqueles basicamente colocados à recriação objetiva das precondições destinadas a garantir a sobrevivência e a reprodução biológica e social dos membros de cada unidade familiar, bem como à restauração de relações comunitárias. Não é de estranhar, portanto, que o trabalho forneça o fio condutor da rememoração, voltada, em primeira mão, para a construção dos espaços físico e social (REIS, 1998, p. 125).
É por meio de formas de resistência e persistência inspiradas em dispositivos temporais ativos e passivos conjugados que as comunidades acabam por se organizar e se relacionar com o global a partir de seus próprios parâmetros alterados a cada momento através de novas sínteses introduzidas por objetos e ações que vão sendo elencadas no processo de justaposição e sobreposição de um sistema complexo de objetos hidrelétricos no Vale da Bacia do Rio Uruguai.
Estes objetos serão analisados no próximo capítulo, tanto individualmente, quanto como componentes de sistemas complexos articulados indissoluvelmente às ações dos protagonistas sociais, após uma breve incursão sobre algumas das ações que se desencadeiam em torno de dispositivos e agenciamentos de controle e organização das subjetividades espaço-temporais manifestadas durante o estudo dos processos perscrutados na presente tese.