O Acolhimento constitui ação essencial para vinculação do usuário ao atendimento proposto pelo Núcleo, sinalizando o início do vínculo da família com o serviço e do cuidado com a criança ou adolescente. Neste espaço, busca-se compreender o significado da demanda, vulnerabilidades e necessidades apresentadas pela família, visando também a identificar os seus recursos e potencialidades. São de três a quatro encontros, de frequência semanal e com duração de uma a uma hora e quinze minutos O Acolhimento é feito em grupo e conta com a presença de duas profissionais, em geral, uma assistente social e uma psicóloga.
Na primeira entrevista os/as usuários/as falam um pouco sobre as razões pelas quais foram encaminhados/as ao NACA e as profissionais explicam sobre o Serviço e o atendimento. Somente após a conclusão do acolhimento e se a equipe entender como necessária será, então, a criança ou adolescente inserido/a no processo de avaliação psicológica. Muitas vezes, as pessoas chegam ao grupo com uma série de indagações
60 e/ou dúvidas de natureza jurídica, como: reconhecimento de paternidade, alimentos, regulamentação de visitas, registro de nascimento, direitos previdenciários; união estável e regime de bens; LOAS, pensão por morte; entre os autores de violência, e, por sua vez, as preocupações em geral gravitam em torno de questões pertinentes ao âmbito penal, tais como inquérito policial, sentença e prisão preventiva e temporária, auxílio reclusão, etc. Objetivando atender a essas demandas do grupo, é realizado, também, um trabalho de orientação jurídica por uma bacharel em Direito que compõe a equipe.
O acolhimento em grupo começou a ser realizado dessa forma a partir de 2008, quando o NACA registrava longas listas de espera que certamente decorriam da realização de procedimentos da avaliação psicossocial individuais. O que foi pensado, inicialmente como uma medida temporária para racionalizar o tempo e dar conta da demanda reprimida que se avolumava, acabou por se consolidar como uma prática permanente, uma vez que, mesmo que tal mudança pudesse ter causado certa estranheza nos/as usuários/as e algumas dificuldades para a equipe, os resultados mostravam muito mais riqueza pelo encontro de pessoas em situações semelhantes, pelas trocas operadas, pelo compartilhamento de experiências e, mesmo que sem perceberem, as pessoas foram dando os contornos do que lhes interessa tratar em cada grupo.
Quando falo em estranheza dos/as usuários/as, que às vezes não percebem a sua auto-gestão na modalidade grupo é porque, com bastante frequência, os/as usuários/as do Serviço manifestam uma insatisfação diante da proposta de atendimento em sua quase totalidade na modalidade Grupal. O levantamento feito pela Acadêmica de Serviço Social, Célia Regina Constenla, durante o seu Estágio Supervisionado realizado junto ao NACA apontou, ao analisar os 44 desligamentos por abandono dos usuários do serviço, no período de setembro a dezembro de 2016, que em oito (08) casos os usuários não estavam de acordo com a sistemática de atendimento grupal.
Lembro, também, de ouvir questionamentos de Conselheiros Tutelares, Promotores e tantos/as outros/as profissionais sobre o acolhimento e outros procedimentos em grupo. Os/as usuários/as alegam e, os profissionais concordam, que há um constrangimento de ter que relatar a violência sofrida na frente de outras pessoas. Esse constrangimento, quando mencionado pelos/as usuários/as, parece
61 contrariar a visão de animados compartilhamentos acerca de seus encaminhamentos ainda na sala de espera, em meio às suas crianças e aos profissionais que circulam pelo Núcleo, pais, mães, cuidadores e cuidadoras, falam sem reservas sobre as razões pelas quais estão naquele lugar. Será que o que constrange é falar para os profissionais? Falar diante de alguém que por sua condição de especialista caberá a função de dizer o certo e errado de cada uma das mazelas apresentadas?
Entretanto, o que eles/elas, usuários/usuárias, autoridades e/ou profissionais não sabem, mas precisam saber, é que essa violência que acontece fundamentalmente nas relações privadas, nas relações de afeto e de intimidade, normalmente se estabelece e se mantém as custas do silêncio dos/as envolvidos/as. Alguns/as teóricos/as (CORSI, 2004,2006 MINAYO E SOUZA, 1999) postulam que as práticas abusivas devem ser socializadas exatamente para que se rompa com os pactos de silêncio que geralmente envolvem a violência doméstica e a violência intrafamiliar.
Tratar dos discursos e das relações de poder nas práticas cotidianas e institucionais é um modo de fazer história, história do presente com um olhar crítico acerca das diferentes formas de produção de subjetividade. A utilização das trajetórias numa perspectiva arquegenealógica remete à forma de produção do relato e trabalhar com relatos, por esse caminho, é tomá-los, então, como um campo de atravessamentos de discursos. Deste modo e porque nos interessa descrever e analisar os enunciados relativos ao atendimento psicológico e à justiça quando inseridos no campo da promoção e defesa de direitos de crianças e adolescentes, valemo-nos dos conceitos de enunciado e discurso para pautar a análise.
Assim, partindo dos ditos que se cristalizam, buscamos descrever práticas discursivas e não discursivas em jogo, de tal forma que nos seja possível fazer aparecer e descrever a rede que constitui a multiplicidade e a complexidade dos fatos e das coisas e que resulte dessa descrição, a possibilidade de evidenciar um pouco dos regimes de verdade presentes nas narrativas (FISCHER, 2003).
Porquanto, as coisas ditas são amarradas às dinâmicas de poder e saber de seu tempo, as narrativas não se confundem com a mera expressão de ideias, pensamentos ou formulação de frases, significa falar segundo determinadas regras e expor as relações de poder que atravessam essas narrativas. Isso quer dizer que quando se descreve uma
62 narrativa ou que se pretende analisá-la não estão em jogo as relações entre o autor e o que ele disse (ou quis dizer, ou disse sem querer); mas determinar qual é a posição que pode e deve ocupar para ser o seu sujeito (FOUCAULT, 2012, p.116).
Já fazia alguns anos que não acompanhava os grupos participando dos atendimentos, deixara de fazê-lo quando a minha atuação junto ao núcleo se restringiu- se exclusivamente a função de coordenação, entre 2007 e 2008. Mas, de qualquer sorte, eu nunca havia participado dos Grupos de Acolhimento, também nunca estive nesse lugar de espectadora de modo que a novidade desses momentos me causou alguns estranhamentos que não sei ao certo se decorreram do meu desconhecimento ou se foram porque, estando estimulada pela experiência da pesquisa, consegui ver coisas que antes não percebia.
O primeiro estranhamento já aconteceu na primeira entrevista do primeiro grupo e também se repetiu nas entrevistas iniciais dos dois outros grupos. Naquele exato momento em as pessoas estão chegando ao serviço, tive a sensação de que se deixava de ouvir/acolher o que as pessoas estavam dizendo por necessidade de atender questões protocolares. Que questões protocolares são essas? Estabelecemos, em razão de algumas exigências, alguns protocolos de atendimento para coletar informações, tais como, composição familiar, renda, escolaridade, serviços e benefícios sociais acessados pelos/as usuários/as, vinculação a outras políticas públicas todas as informações necessárias ao preenchimento de relatórios a serem encaminhados ao gestor municipal.
Durante a supervisão discutimos longamente essa sensação, mas as profissionais da equipe me tranquilizaram quanto ao caos inicial e a estabilização na sequência. E realmente, à medida que os encontros iam acontecendo, a turbulência do começo ia cedendo espaço para as trocas.
Mas ainda acho que devemos ouvir mais e falar menos, parece que colocados nesse lugar de especialistas sentimo-nos legitimadas como aquelas que sempre têm algo a dizer, ou aquelas que, por sua condição de expert, sabem o que é certo ou errado nos modos de agir e de viver e devido a isso está neste lugar.
Outra razão para o estranhamento é que cada grupo criou uma espécie de “identidade” própria e desenvolveram um jeito de funcionar ao longo dos encontros que evidenciava similaridades nas demandas apresentadas, no modo como se colocavam nos
63 atendimentos e, ainda, nas expectativas em relação a todo o processo. Não sei se isso já acontecia e eu nunca tinha percebido, mas, de repente, é como se todos daquele grupo tivessem as mesmas queixas; como se todos quisessem coisas semelhantes; como se o senso de justiça de cada um deles fosse similar ao do companheiro de grupo.
Mesmo que as “problemáticas” pudessem tratar de violências diferentes, em contextos diferentes, o grupo, como um todo, acabava “gravitando” em torno de questões muito parecidas; é como se as pessoas contagiassem umas às outras com suas histórias. E aqui se deixam anunciar os discursos forjados a partir de uma rede discursiva já disseminada no social quando se trata de violência contra crianças e adolescentes.
Me senti muitas vezes sendo conduzida a pensar isso ou aquilo. Foram narrativas cuidadosamente construídas no sentido de legitimar a demanda e o sofrimento imposto pela violação denunciada, permitindo-nos vislumbrar a forma como esses/as narradores/as interpretam as relações sociais nas quais estão imersos e o modo como os enunciados referentes à proteção atravessaram e constituíram as suas falas.
Diante do objetivo primeiro desta tese que é: descrever e analisar as relações de poder que constituem o campo da proteção e promoção de direitos de crianças e adolescentes, sobretudo no tocante às práticas psi a partir das narrativas daquelas/es cujas vidas foram avaliadas e geridas pelo Estado no que tange à violência e ao sistema de garantia de direitos, me lancei na tarefa de descrever o campo enquanto uma rede onde interagem saberes múltiplos e de onde emergem os discursos que definem os regimes de verdade, coloquemo-nos, então, a serviço de mostrar como se articulam esses jogos de verdade.
64 5. TRAJETÓRIAS
Como já mencionado a escuta dos usuários se deu pela participação em três grupos distintos que denominarei de Grupo 1, Grupo 2 e Grupo 3 obedecendo a cronologia: primeiro, segundo e terceiro, respectivamente.
Os grupos, em geral, iniciam com um número relativamente alto de participantes previamente agendados, mas alguns já não comparecem na primeira entrevista, outros desistem ao longo do processo de Acolhimento.
As guias de encaminhamento apontavam suspeitas de abuso sexual em 25 casos; 11 de abuso psicológico; 5 casos de abuso físico e 2 de negligência, mas ao fim dos processos de acolhimento de cada um dos grupos, restaram somente os casos de abuso sexual.
Os encaminhamentos feitos pela DPCA costumam ser em formato de oficio onde solicitam a avaliação psicológica da criança ou adolescentes, seguem uma linha similar os encaminhamentos oriundos da Justiça e do Ministério Público. Já os do Conselho Tutelar vem numa guia de encaminhamento e habitualmente utilizam-se do número do CID para nos situar quanto as razões do encaminhamento, mas muitas vezes utilizam algumas consignas como: conflitos familiares; comportamento hipersexualizado;
agressividade.
Uma mesma pessoa pode figurar como cuidador de mais de uma criança e/ou adolescente, do mesmo modo que uma mesma criança pode estar relacionada a mais de uma forma de abuso, razão pela qual os números não revelam linearidade.