CAPÍTULO 2 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO ESCOLAR: UMA ANÁLISE CENTRADA NOS USOS E RELAÇÕES COM O CONHECIMENTO
2.1. O LUGAR DO CONHECIMENTO NA ACTUAL SOCIEDADE
Nesta secção procuramos fazer um retrato geral da actual sociedade, tentando mostrar o papel que nela tem o conhecimento. Por fim, apresentamos a nossa perspectiva acerca da forma como pensamos que o conhecimento deve ser entendido.
A teoria social tem utilizado diversas designações para se referir e estudar as sociedades actuais: globalização (Santos et al., 2001), modernização reflexiva (Beck et al., 2000), sociedade pós-industrial (Giddens, 2000b), sociedade de risco (Beck, 2000), modernidade (Touraine, 1994) e modernidade tardia (Giddens, 1992, 1997), pós-modernidade (Lyotard, 1989; Santos, 1994)), sociedade da informação (Castells, 1994, 1995), sociedade da aprendizagem (Jarvis, 1998), entre outras.
Apesar das diferenças de análise e perspectiva, todas estas abordagens se referem às profundas transformações ocorridas nas actuais sociedades e ao papel que nelas tem tido o conhecimento científico e tecnológico (Gonçalves, 2001). Não pretendendo aqui aprofundar a questão das transformações estruturais que as nossas sociedades (sobretudo as ocidentais) têm vivido, apenas nos deteremos em alguns dos seus efeitos e suas características, procurando perceber melhor o papel do conhecimento na actual sociedade, como acima dissemos.
Segundo Giddens (1992, 1997, 2000b), vivemos num tempo de modernidade tardia, que se caracteriza por um forte dinamismo das suas instituições, vida social e individual. Para o autor há, actualmente, três fontes interrelacionadas do dinamismo social. A separação e reorganização do tempo e do espaço, tendo a estandardização do primeiro provocado o esvaziamento do segundo e, com isso, uma forma completamente nova de organização espacio-social. Ou seja, hoje o local não é apenas influenciado por aquilo e por quem nele está presente, mas sobretudo ele «é completamente penetrado e modelado por influências sociais distantes», por isso «a “forma visível” do local oculta as relações distanciadas que determinam a sua natureza» (Giddens, 1992:14). Isto quer dizer que as instituições articulam o local e o global sem que as particularidades do lugar tenham que estar obrigatoriamente presentes.
Directamente relacionada com esta fonte de dinamismo da modernidade tardia está a descontextualização das instituições sociais, ou seja, «a “remoção” das relações sociais dos contextos locais e a sua rearticulação através de trechos indefinidos de espaço-tempo» (Giddens, 1997:16). Este processo é garantido através de dois mecanismos: o da criação de garantias simbólicas, que se referem aos «meios de troca que têm valor-padrão» (ibidem:16), sendo o exemplo mais relevante o dinheiro; e o dos sistemas periciais, que são «sistemas de realização técnica, ou de pericialidade profissional, que organizam vastas áreas» da nossa vida social (Giddens, 1992:21) de forma descontextualizada, pois os modos de utilização do «conhecimento técnico» a que se referem «têm validade independentemente dos praticantes e dos clientes que os usam» (Giddens, 1997:16).
Quer o funcionamento dum mecanismo, quer o do outro se baseia na relação de confiança que as pessoas depositam nesses mecanismos descontextualizados, independentemente dos seus representantes. Este processo de descontextualização não nega, porém, a possibilidade da recontextualização que os actores sociais possam fazer desses sistemas, ou seja, não nega a «reapropriação ou redefinição de relações sociais descontextualizadas de forma a fixá-las (…) a condições locais de tempo e espaço» (Giddens, 1992:61). Há, portanto, a possibilidade da efectivação de «processos por meio dos quais os compromissos não-presenciais são mantidos ou transformados pela co-presença» (ibidem:68).
Por fim, temos a reflexividade institucional, que consiste na reavaliação constante das práticas sociais «à luz de novas informações ou conhecimentos» sobre elas, resultando desse processo a sua reorganização ou transformação (Giddens, 1997:18).
Outra característica da actual sociedade é o risco, a incerteza, a imprevisibilidade. Isto não quer dizer que estes fenómenos não tenham existido no passado, mas estão hoje mais difundidos e visíveis que nunca (Beck, 2000; Giddens, 2000b; Lash, 2000a; Hespanha, 2001; Carapinheiro, 2001; Morin, 2002; Almeida, 2003).
Para Beck (2000:5), «os riscos sociais, políticos, económicos e individuais tendem, cada vez mais, a escapar às instituições de monitorização e protecção da sociedade industrial». A sociedade do risco afecta a vivência social na sua relação com os recursos naturais e culturais, o risco deixa de ser controlado pelas instituições de monitorização, incluindo as referentes à própria ciência, o que faz com que a segurança seja cada vez mais precária, o risco faz ainda com que «as fontes de significado, tanto colectivas como específicas de certos grupos» comecem «a sofrer de exaustão, quebra e desencanto» (Ibedem:7). Na sociedade do risco não há soluções definitivas, há o «viver e agir na incerteza» (ibidem:12), há o confronto entre grupos profissionais, entre profissionais do mesmo grupo, acerca de qualquer matéria, há a diferença de visão entre membros da mesma família e entre os indivíduos em geral, e há o aprender a viver com a incerteza.
Giddens (1992, 1997, 2000b) diz-nos também que o risco faz parte das nossas vidas, que o risco está globalizado, intensificado, institucionalizado, que há consciência colectiva dele, que há também consciência de que o conhecimento pericial, apesar de poder dar alguma segurança aos indivíduos, nomeadamente através do cálculo do risco, não consegue responder a todos os imprevistos, nem sequer calcular todo o tipo de riscos, ele é, inclusive, fonte de muitas dessas imprevisibilidades e riscos, ou seja, o maior conhecimento sobre nós próprios é também causa da contingência e é este aspecto que, segundo o autor, é completamente novo relativamente a outras épocas nas quais o conhecimento era tido como fonte de certeza.
Lash (2000a) refere-se igualmente ao risco, mais precisamente aos comportamentos dos indivíduos centrados no risco que caracterizam a actual sociedade, seja em relação ao ambiente, ao trabalho, ou ao lazer.
Morin (2002:19), para se referir a esta característica geral da actual sociedade evoca uma frase do poeta grego Eurípedes: «O esperado nunca se cumpre e para o inesperado um deus abre a porta». Com essa frase, Morin (2002:85,87) diz-nos que a ideia de inesperado, de incerteza, é antiga, mas que só hoje os homens começam a ter verdadeira consciência da sua real dimensão: «O fim do século XX foi propício (…) para compreender a incerteza irremediável da história humana (…). O século XX descobriu a perda de futuro, quer dizer, a sua impredizibilidade (…). O futuro chama-se incerteza».
Para este autor a incerteza faz-se sentir, ou provém de várias fontes: a tradução que fazemos da realidade não é um retrato totalmente fiel da mesma, estando por isso sujeita ao erro, não é sequer uma tradução da totalidade da realidade, pois «existe ainda um invisível no real»; por isso, o nosso conhecimento transporta consigo o risco e a incerteza; por fim, o risco e a incerteza provêm da nossa própria acção, isto é, quando alguém põe em prática uma acção não tem a
certeza absoluta dos seus efeitos, corre-se o risco de ela ter um efeito perverso, podendo também acontecer o inverso, ou seja, meios nefastos podem acabar em fins positivos.
A este último aspecto o autor chama a ecologia da acção, que consiste em ter em conta a complexidade da mesma, ou seja, do «risco, acaso, iniciativa, decisão, inesperado, imprevisto, consciência das derivas e das transformações» que as acções transportam consigo, sendo a consciência do risco que as acções acarretam e o recurso à estratégia, que permite modificar uma determinada acção se for acaso disso, os principais mecanismos para se lidar com a incerteza actual (ibidem:90-98).
Entre nós, são vários os autores que também se referem a esta característica da actual sociedade. Santos (2000), afirma que vivemos num tempo de desassossego. Este e outros autores apontam, entre outros, os seguintes efeitos deste tipo de configuração social: o aumento das desigualdades entre países do Norte e países do Sul; a intensificação da violência, da marginalização, da insegurança, nomeadamente a que se refere às questões do emprego, cada vez mais precário, e do desemprego, cada vez mais visível; o risco que corre o modelo de Estado- Providência sob o qual se organizou a sociedade europeia, que põe em causa, por exemplo, o direito às reformas, o serviço gratuito de saúde; a insustentabilidade da exploração dos recursos naturais, que tem causado a progressiva degradação ambiental; a globalização das operações de algumas empresas, o que põe em causa o poder independente dos países, sobretudo os do terceiro mundo; e a desconfiança relativamente ao conhecimento científico (Santos, 1994, 2000; Carapinheiro, 2001; Hespanha, 2001; Almeida, 2003).
Para além de todos estes aspectos há, pelo menos, um outro que normalmente é apontado quando está em causa a discussão da actual sociedade: a individualização, a responsabilização cada vez maior dos indivíduos em relação ao seu percurso de vida (Moisan, 1997; Holford, et al., 1998; Roca, 1999; Beck, 2000; Lash, 2000a; Carapinheiro, 2001).
Como refere Lash (2000a:106), «a teoria da modernização reflexiva representa um “forte programa” de individualização. O estado de coisas que descreve é cada vez mais o do “eu sou eu” descrito por Beck, em que o “eu” está cada vez mais liberto de laços comunais e está apto a construir as suas próprias narrativas biográficas (Giddens)». Apesar de isto não significar, como diz Beck (2000:13, 14), «o fim de todos os tipos de sociedade, ou a impossibilidade de relacionamento», significa que «o indivíduo seja o actor, o desenhista, o malabarista e o encenador da sua própria biografia e identidade, das suas redes sociais, dos seus compromissos e convicções (…) significa a desintegração das certezas da sociedade industrial, assim como a obrigação de encontrar e inventar novas certezas para si e para os outros». E se é verdade que esta nova concepção do actor permite pensá-lo como agente autónomo, permite encará-lo como agente criativo, não devemos esquecer os riscos que ela transporta, que se traduzem, por exemplo, na cada vez maior desresponsabilização dos Estados pelas suas políticas sociais e pela cada vez maior responsabilização dos indivíduos na procura de respostas a essa lacuna (Carapinheiro, 2001).
Este aspecto, no campo da educação de adultos, coloca o assento tónico na responsabilidade individual de uma aprendizagem ao longo da vida (Hake, 1998; Jarvis, 1998; Jansen et al., 2000), e coloca também, em nosso entender, muitos dos excluídos fora desse mesmo projecto de aprendizagem ao longo da vida, assim como muitos dos que se «situam na base da estrutura profissional» (Kovács, 1998:82).
Numa sociedade com estas características, que lugar ocupa nela o conhecimento? Numa época em que o conhecimento descontextualizado assume cada vez maior importância, faz sentido falar em conhecimento ou saber local? Numa sociedade caracterizada pela individualização podemos falar de aprendizagem social, de comunidades de prática e de aprendizagem (Wenger, 2001) ou de comunidades reflexivas (Lash, 2000a, 2000b)? De seguida, realizamos uma aproximação sobretudo à primeira questão, embora já o tenhamos feito parcialmente acima, deixando para mais tarde uma resposta às restantes.
A importância que assume o conhecimento nas actuais sociedade, nomeadamente o teórico, o científico, o tecnológico, apesar do que dissemos antes ir no sentido da sua relativização, é algo relativamente ao qual parece existir uma concordância geral.
As designações referentes à actual sociedade nas quais prolifera a dimensão do conhecimento dão disso conta. Assim, temos a sociedade da informação (Dores, 1997; López- Aranguren e Montero, 1997; Serra, 1998; Alcoba et al., 2000; Gonçalves, 2000; Moniz e Kovács, 2001; Gago, 2003), a sociedade informacional (Castells, 1994), a sociedade capitalista da informação (Lash, 2000a), a sociedade cognitiva (Bogard, 1996), a sociedade da informação ou do conhecimento (Simão et al, 1998), sociedade do saber (AAVV, 2000), entre outras.
Estas designações gerais, que reflectem a importância do conhecimento, materializam- se, por sua vez, em estruturas diversas, como os sistemas periciais (Giddens, 1992, 1997, 2000b), os sistemas “espertos” (Hart, 1988), as estruturas da informação e da comunicação (Lash, 2000a, 2000b), as redes de conhecimento (Dias, 2002), ou as comunidades de conhecimento (Wenger, 2001, Jones e Sallis, 2002). Para além disso, materializam-se também na saliência assumida por todo um conjunto de novos actores, como sejam os peritos (Giddens, 1992, 1997, 2000b), dos intermediários do conhecimento (Caria, 2002a), os fabricantes de sistemas (Cornu, 2003), os analistas simbólicos (Reich, 1996), os gestores do conhecimento (Jones e Sallis, 2002), entre outros trabalhadores que lidam com esse tipo de conhecimento.
A saliência do conhecimento pode também ser ilustrada pela discussão em torno da sua produção, difusão, acesso e uso (Gibbons, et al., 1997; AAVV, 2000; Gago, 2003). Gago (2003:57) fala-nos, a este propósito, da «consolidação, indexação e incorporação institucional do conhecimento» como uma das características mais salientes da actual sociedade, distinguindo três níveis de incorporação: técnica, que tem a ver com «o conhecimento que se inscreve na matriz funcional e na materialidade operativa dos objectos, dos processos, de consumo, produção ou controlo, e nos modos de usar»; simbólica, que diz respeito à natureza social do «modo de ver o conhecimento e os modos institucionais de o “processar”»; e a normativa e regulamentar, que se
refere simultaneamente ao facto de «o conhecimento complexo e suas relações com a acção» se inscrever, «de forma sumária e operacional» nas normas, e ao facto de essa inscrição funcionar «como efectiva porta de acesso ao próprio conhecimento nas suas relações não só com a matéria como com os seus usos sociais». Segundo o autor, é essa incorporação institucional do conhecimento que permite falar de um «arquivo vivo» de conhecimento, que é usado a vários níveis e graus, que vai sendo transformado e actualizado na nossa sociedade.
Dentro desta linha de discussão podemos ainda incluir outros temas paralelos, como por exemplo: os usos sociais da ciência (Bourdieu, 1997); a separação entre a produção e o uso do conhecimento e a comercialização do mesmo (Bernstein, 1993, 1998; Gibbons, et al., 1997; Usher et al., 1997; Gonçalves, 2000, 2001; Jarvis, 2000b); a legalidade do acesso e uso do conhecimento produzido por outros (Gonçalves, 2000, 2001); a importância da gestão do conhecimento em geral e em particular a realizada nas organizações (Friedberg, 1995b; AAVV, 2000; Senge, 2002; Argyris, 2003), nomeadamente nas educativas (Sallis e Jones, 2002), o que faz com que se fale na gestão do conhecimento como uma disciplina (Sallis e Jones, 2002).
Por fim, a relevância do conhecimento pode ser vista ainda pelo facto de aparecer como estando associado aos diferentes sectores da sociedade. Desta forma, fala-se, por exemplo, numa economia baseada no conhecimento (Soete, 2000; Lindley, 2000), ou na economia do saber (Lundvall, 2000), pensa-se um Estado-Providência para o século XXI tendo em conta as economias baseadas no conhecimento (Esping-Andersen, 2000), a transformação do emprego é também articulada com o conhecimento (Moniz e Kovács, 2001), a educação de adultos é pensada tendo por pano de fundo a sociedade da informação (López-Aranguren e Montero, 1997; Alcoba et al., 2000), a indústria e a agricultura concebem-se em sintonia com os sistema de conhecimento (Castells, 1994), o desempenho no trabalho é pensado por referência ao conhecimento (AAVV, 2000; Senge, 2002; Argyris, 2003).
Estes são apenas alguns dos indicadores que nos mostram a pertinência do conhecimento na actual sociedade, alguns dos quais estão directamente ligados aos objectivos do nosso estudo. É o caso da produção, distribuição, acesso e uso do conhecimento, aspectos a que voltaremos no capítulo 4, remetendo a análise aí realizada para a questão da sua descontextualização e da reflexividade institucional, procurando mostrar a pertinência que nesses processos têm as estruturas de informação, bem como os diferentes actores que com eles/elas lidam de forma directa ou indirecta.
Terminamos esta secção com a forma como pensamos que o conhecimento deve ser entendido. Não pretendemos realizar uma abordagem dos diferentes paradigmas ou teorias do conhecimento, tal tipo de abordagem é feita por autores como Habermas (1987), Olivé (1988), Apps (1994), Santos (1995, 2000), Morin (1995), Deshaies (1997), Berger e Luckmann (1999), Garcia et al. (2000), entre outros.
A perspectiva que temos relativamente a esta matéria não sobrevaloriza à partida qualquer tipo de conhecimento. Assim, não pensamos que o conhecimento teórico, científico,
abstracto seja o mais legítimo, seja o único digno de ser tido em consideração na nossa sociedade. Há, certamente, outras formas de conhecimento, como o experiencial, por exemplo, que têm a sua validade. Portanto, o que afirmamos é que há tipos de conhecimentos diferentes, não necessariamente antagónicos, mas sim potencialmente complementares (Santos, 1995).
Como dissemos antes, o conhecimento científico tem vindo a ser posto em causa. Existe uma certa desconfiança relativamente ao conhecimento científico e pericial, conclui-se que ele não resolve todo o tipo de problemas e incertezas e que ele é inclusive fonte de alguns desses problemas e incertezas actuais, ele é, por isso, insuficiente por si só. A frequência com que teorias, investigações e tecnologias mudam e são postas em causa contribui certamente para a relatividade e erosão desse conhecimento. Contudo, isso não quer dizer que se defenda, pelo menos do nosso ponto de vista, uma desvalorização desse tipo de conhecimento, bem pelo contrário. Se ele é relativo também o são todos os outros tipos de conhecimento, se ele é incompleto e provisório o mesmo sucede com os outros, se é verdade que é incerto o mesmo acontece com os outros conhecimentos.
Assim, defendemos, sobretudo, uma perspectiva de integração, pois não há nenhum tipo de conhecimento que, por si só, seja capaz de representar toda a realidade, nem sequer a realidade a que particularmente se dedica. Como refere Santos (2000), há sempre ausências que não são representadas pelo conhecimento, daí defendermos a tal perspectiva de integração, de articulação dos vários tipos de conhecimento como forma de reduzir parcialmente essa insuficiência.
Desta forma, pensamos que o conhecimento teórico, científico, abstracto deve articular- se com os saberes da acção (Barbier, 1996b), o conhecimento científico deve articular-se com as práticas sociais, que são também «práticas de conhecimento», formando-se, assim, «constelações de conhecimento» complementares (Santos, 2000:229). Portanto, ciência e senso comum são duas formas diferentes de conhecimento, mas não têm que andar necessariamente de costas voltadas (Santos, 1995).
Como refere Nunes (2001:302), a teoria e o conhecimento científico devem dialogar com os “outros”, ou seja, com a prática, com a pesquisa empírica, com a política, que são formas territorializadas, contextualizadas «de relação com o mundo», pois é no diálogo com o local, o particular, ou seja, é no quadro de constelações particulares que aqueles tipos de conhecimento ganham relevo. Como afirma Morin (2002:40): «o conhecimento das informações ou dados isolados é insuficiente. É preciso situar informações e dados no seu contexto para que tomem sentido». Também Wells (2001:75) tem uma posição semelhante, ao defender que o «conhecimento só tem relevância e valor no contexto da interacção e da acção conjunta».
Portanto, defende-se também a articulação do conhecimento global, abstracto, enfim, aquele tipo de conhecimento que pretende dar conta do todo, com o conhecimento local, particular. É este aspecto que, segundo Morin (2002), torna o conhecimento pertinente, é quando se articula o todo com as partes e quando se tem noção da multidimensionalidade e complexidade do real que o conhecimento se torna pertinente. Por isso, não se deve entender o conhecimento
como algo fragmentado, disjunto, parcelar, disciplinar, mas sim como um processo inacabado que tem em conta o todo e as partes (Morin, 1995, 2002; Santos, 1995; Pourtois e Desmet, 1999), ou seja, um conhecimento que distingue, mas que não isola as partes do todo e o todo das partes.
Enfim, concebemos o conhecimento como um exercício de mestiçagem, de articulação entre teoria e prática, entre global e local, entre individual e colectivo, como um exercício inacabado de aculturação positiva que se pode traduzir em fenómenos de simbiose, osmose ou de fusão.
Desta forma, defende-se um entendimento de racionalidade enquanto racionalidade reflexiva. Uma racionalidade: que admita a subjectividade, a afectividade (Apps, 1994; Morin, 2002); que admita a interferência do sujeito no objecto observado (Santos, 1995); que seja feita das várias racionalidades, ou seja, que contemple os diferentes tipos de conhecimento/saber (Santos, 1995, 2000; Schön, 1922, 1998; Freire, 2001); que conceba todo o sujeito como sujeito de conhecimento, como construtor e portador de conhecimento (Ramos, 1994; Damke, 1995; Freire, 2001), que valorize a co-construção colaborativa do conhecimento feita com base no diálogo, na linguagem, que é o processo através do qual a experiência se converte em conhecimento (Wells, 2001); que admita e integre o princípio da incerteza (Beck, 2000; Morin, 2002), o «princípio da incerteza racional», esse princípio que permite chegar a um conhecimento pertinente, pois tal como «o oxigénio matava os seres vivos primitivos até que a vida utilizou este corruptor como desintoxicante, assim a incerteza, que mata o conhecimento simplista, é o desintoxicante do conhecimento complexo» (Morin, 2002:29,36).
Portanto, concebemos o conhecimento como um processo inacabado e aberto de diálogo com a realidade, e não como um processo que pretende encerrar essa realidade «num sistema coerente», pondo de lado tudo o que não se encaixa nesse mesmo sistema (Morin, 1995).