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1.4 O mínimo existencial e a reserva do possível

John Rawls, embora não utilizasse a expressão mínimo existencial, preocupando-se com o mínimo necessário à sobrevivência digna do ser humano, em Liberalismo Político, definiu mínimo existencial como a garantia de que cada homem disponha de um conjunto mínimo de condições materiais é pressuposto para que o procedimento decidido pelos indivíduos no estado original seja verdadeiramente eqüitativo.54

Segundo Ana Paula de Barcellos,

a posição eqüitativa de oportunidades é um conjunto de condições materiais mínimas que Rawls reconhece como pressuposto não apenas do princípio da diferença mas também do primeiro princípio, o da liberdade, uma vez que a carência daquele mínimo existencial inviabiliza a utilização pelo homem das liberdades que a ordem jurídica lhe assegura.55

Rawls considera mínimo existencial como um elemento constitucional essencial, pelo qual se deve garantir o conjunto das necessidades básicas do indivíduo.

Para Ricardo Lobo Torres, o mínimo existencial deve ser entendido “como o conjunto imprescindível de condições iniciais para o exercício da liberdade”,56 esclarecendo

54 RAWLS, John. Liberalismo Político. Trad. Sergio René Madero Báez. México: Fondo de Cultura Econômica,

1992.

55

BARCELLOS, Ana Paula de. Eficácia Jurídica dos Princípios Constitucionais: o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. Rio de Janeiro: Renovar, 2002. p. 127.

56

TORRES, Ricardo Lobo. Tratado de direito constitucional financeiro e tributário. Rio de Janeiro: Renovar, 2005. v. 2 e TORRES, Ricardo Lobo. O Mínimo existencial e os direitos fundamentais. In: Revista de Direito

que são condições pré-constitucionais, decorrentes do direito de liberdade e não se confundindo com direitos econômicos e sociais, que decorrem da justiça social e dependem de políticas positivas a serem implementadas pelo legislador.

Certamente que as condições mínimas e iniciais de que cuidam os dois autores estão diretamente relacionadas à existência humana com dignidade e dela não pode se descasar.

Em breve síntese, o mínimo existencial traduz uma garantia para os excluídos das condições materiais de liberdade.

A Constituição de 1988, embora não tenha utilizado o título mínimo existencial, instituiu, como um dos objetivos da República Federativa do Brasil (artigo 3º, inciso III), “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;”, fazendo crer que considerou que, para atingir os demais objetivos – construção de uma sociedade livre, justa e solidária, o desenvolvimento nacional e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (incisos I, II e IV, do mesmo dispositivo constitucional) – precisa garantir um mínimo para a existência digna dos integrantes de sua sociedade.57

Aliás, o artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos do Homem já definia o que considerava o “mínimo existencial”:

Toda pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para assegurar sua saúde, seu bem-estar e o de sua família, especialmente para a alimentação, o vestuário, a moradia, a assistência médica e para os serviços sociais necessários.

Similar ao mínimo existencial, tem-se a reserva do possível, criação da doutrina alemã, adotada pelo direito brasileiro, a fim de preencher o descompasso entre os direitos inscritos na Constituição de 1988 e a realidade brasileira.

Tanto o mínimo existencial quanto a reserva do possível se relacionam aos direitos sociais, que visam a garantir a igualdade material. São direitos que têm por finalidade não só a sobrevivência, mas a inserção na vida em sociedade. Parte-se da idéia de que de nada adianta Administrativo, v. 177, 1989, p. 29-49.

57 Sobre mínimo existencial, veja-se a Lei 8742/93 que, em seu artigo 1º, também trata do mínimo existencial:

“A assistência social. Direito do cidadão e dever do Estado, é Política de Seguridade Social não contributiva, que provê os mínimos sociais, realizada através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento às necessidades básicas.”

assegurar liberdades, sem a correspondente garantia de um mínimo necessário para a vida humana. O exercício da liberdade está associado à educação, à saúde, à capacidade de realizar escolhas. Daí a natureza eminentemente prestacional dos direitos sociais, não exigindo uma contraprestação por parte dos beneficiários e tendo como principais destinatários os órgãos do Poder Público.

Na verdade, o grande desafio imposto ao Estado é a efetividade das normas constitucionais, e, em especial, daquelas que se referem aos direitos sociais, que dependem de prestações positivas. Todavia, os recursos não são suficientes à satisfação dos requisitos de fato exigidos para a efetivação desses direitos sociais. Portanto, pela teoria tradicional, referidas prestações não seriam exigíveis.

É exatamente neste momento que se esclarece o conceito de reserva do possível: o indivíduo somente pode requerer do Estado uma prestação que esteja dentro dos limites do razoável (ou do racional) e o Estado, por sua vez, tem que observar seus limites orçamentários, para poder atender às demandas do cidadão carente.

A partir desta idéia, chega-se à equação da máxima efetivação possível dos direitos sociais, impondo-se ao Poder Público o estabelecimento de políticas públicas que visem à redistribuição dos recursos existentes, observando-se as regras constitucionais e os limites impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar 101, de 04.05.2000) e, na área de educação, a Lei Darcy Ribeiro (Lei 9394/1996).

Em breve síntese, mínimo existencial e reserva do possível se inter-relacionam e se referem à efetividade dos direitos sociais. Não sendo possível a prestação, pelo Estado, de todas as demandas dos indivíduos, ainda que expressamente relacionadas a direitos fundamentais previstos na Constituição, exige-se a implementação de políticas públicas que assegurem o mínimo para a sobrevivência digna do cidadão, reservando-se aquilo que for resultante da equação ótima entre recursos e demandas razoáveis e racionais.