4. CAPÍTULO 3 - A LEI DO SUPERENDIVIDAMENTO E O MÍNIMO EXISTENCIAL
4.2 O MÍNIMO EXISTENCIAL E A RESERVA DO POSSÍVEL
Na implementação da criação da Constituição Federativa Brasileira de 1988, a Assembleia Nacional Constituinte teve como influência diversos preceitos, como os alemães, a ideologia marxista26, o sindicalismo e os movimentos sociais existentes naquele momento.
Com isso, ideologias de asseguramento social e resguardo de políticas públicas foram discutidas e implementadas na Constituição Federal, transcrevendo direitos e garantias que nunca antes foram garantidos, respeitados e publicados, mediante a ditadura e poderio centralizado anteriormente definidos.
José Afonso da Silva preceitua o direito social como uma prestação positiva que é proporcionada pelo Estado, tentando viabilizar a igualdade em muito colocada somente ideologicamente:
[...] os direitos sociais, como dimensão dos direitos fundamentais do homem, são prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou
26SADER, Eder.Quando novos personagens entram em cena: experiências, falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo, 1970-80. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
25Proc. n° 1052817-83.2021.8.26.0100. 14ª Vara Cível. Juiz Christopher Alexander Roisin.
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indiretamente, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais. São, portanto, direitos que se ligam ao direito de igualdade. Valem como pressupostos do gozo dos direitos individuais na medida em que criam condições materiais mais propícias ao aferimento [SIC] da igualdade real, o que, por sua vez, proporciona condição mais compatível com o exercício efetivo da liberdade.
(SILVA, 2015, p.288-289).
Ou seja, os direitos sociais são encaminhados e inseridos na ideologia contemporânea para que as garantias mínimas, e de dignidade, sejam compartilhados entre todos os cidadãos e mostrados de forma clara para que todas as classes sociais tenham capacidade de compreensão e chance de aplicabilidade.
Dentre as garantias e princípios basilares, encontra-se o mínimo existencial.
Primeiramente constituído em 1954 no Tribunal Federal Administrativo Alemão, determinado como o dever de auxílio estatal para com o indivíduo carente e a subjetividade de sua necessidade (SARLET; SAAVEDRA, 2010, p. 82).
Posteriormente, teve sua primeira aparição no Direito Brasileiro como medida cautelar na Arguição de Descumprimento de Direito Fundamental (ADPF 45 MC/DF), decidida em 29 de abril de 2004, onde o Ministro Celso de Mello definiu pela primeira vez o mínimo existencial como princípio norteador quanto ao orçamento de políticas públicas.
Ao longo do tempo, definiu-se o mínimo existencial como um conjunto de direitos fundamentais sociais mínimos que detém como objetivo a preservação da dignidade da pessoa humana, presente no artigo 1°, inciso III da Constituição Federal:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
[...] III - a dignidade da pessoa humana;
Como bem define Ingo Wolfgang Sarlet (SARLET, 2019, p.137), o mínimo existencial não se limita somente a prestações que asseguram a existência do ser humano, chamado de mínimo vital, mas um conjunto de somatórias que proporcionariam uma vida saudável e com dignidade:]
[...] a noção de um mínimo existencial na seara dos direitos sociais revela a íntima correlação entre os conceitos de dignidade da pessoa humana e de justiça social, de tal sorte que, se por um lado, a dignidade serve de fundamento e justificação para as exigências essenciais em matéria de justiça social, por outro se percebe que apenas mediante uma ordem
institucional guiada por princípios de justiça social o respeito e a proteção da dignidade da pessoa humana poderão alcançar realização prática. (grifo)
O autor (SARLET, ZOCKUN, 2016, p.123) também demonstra em seu livro que, além do mínimo vital, o preservação do mínimo existencial traz a liberdade de escolha do indivíduo, garantindo um poder de colocação do mesmo na sociedade, política e culturalmente, levando em consideração o Estado Social embasado na CF/88.
Sendo assim, o mínimo existencial, além de uma necessidade de sobrevida, mas de garantia social e política de atuação plena do cidadão naquele contexto e momento, trata-se de uma categoria basilar de introdução do indivíduo na sociedade, preservando direitos básicos, como lazer, moradia, educação, saúde, etc.
Muito confundido com a definição da reserva do possível, conceito que também surgiu com uma decisão da Suprema Corte Alemã, decorrente da amplitude e possibilidade da abrangência estatal de garantir alguns direitos, utilizando a razoabilidade do garantidor estatal. Ou seja, é um princípio que determina a utilização do possível e razoável para a garantia de alguns direitos, não comprometendo a economia do Estado.
Coloca-se em pauta, que, de um lado, o mínimo existencial garante o direito social e a preservação do indivíduo na sociedade brasileira, enquanto a reserva do possível limita a utilização do direito social sem que haja o comprometimento da economia e da tutela estatal. Ou seja, para que haja a sincronicidade dos princípios constitucionais brasileiros, é necessário, muitas das vezes o equilíbrio e ação de ambos em uma mesma causa.
O Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu que a dignidade é um dos critérios para garantir o mínimo de uma existência decente (SARLET, 2019, p. 139), sendo, inclusive, entendimento do mesmo que não é cabível a reserva do possível, ou limitação da norma, para o não cumprimento de direitos que detém de alta relevância, como por exemplo, a proteção à saúde27.
27 DIREITO PÚBLICO DA SAÚDE. POLÍTICAS PÚBLICAS. RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO (LEI No 12.322/2010) – MANUTENÇÃO DE REDE DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE – DEVER ESTATAL RESULTANTE DE NORMA CONSTITUCIONAL – CONFIGURAÇÃO, NO CASO, DE TÍPICA HIPÓTESE DE OMISSÃO INCONSTITUCIONAL IMPUTÁVEL AO MUNICÍPIO – DESRESPEITO À CONSTITUIÇÃO PROVOCADO POR INÉRCIA ESTATAL (RTJ 183/818-819) – (...)A QUESTÃO DA RESERVA DO POSSÍVEL: RECONHECIMENTO DE SUA INAPLICABILIDADE, SEMPRE QUE A INVOCAÇÃO DESSA CLÁUSULA PUDER COMPROMETER O NÚCLEO BÁSICO QUE QUALIFICA O MÍNIMO EXISTENCIAL (RTJ 200/191-197) – O PAPEL DO PODER JUDICIÁRIO NA IMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS INSTITUÍDAS PELA CONSTITUIÇÃO E NÃO EFETIVADAS PELO PODER
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Mesmo delimitado e presente sua necessidade de coabitação, os princípios do mínimo existencial e da reserva do possível são discutidos amplamente, perante sua subjetividade e necessidade em cada caso levado à corte brasileira.
No caso dos consumidores, a reserva do mínimo existencial, quanto às relações de consumo, torna-se essencial perante a educação financeira e a manutenção de que o patrimônio, da maioria frágil economicamente, seja mantido e resguardado, preservando a dignidade e suas condições básicas constitucionais, como determina o artigo 5° e 6° da Carta Magna Brasileira:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (grifei)
Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (grifei)