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O M´etodo de Newton-Raphson com Amortecimento

No documento CURSO DE ESTABILIDADE DE TENSÃO (páginas 54-60)

4.4 O Fluxo de Potˆencia sem Solu¸c˜ao Real

4.4.1 O M´etodo de Newton-Raphson com Amortecimento

n˜ao-lineares (4.4.1) para ∆P2 = 0 e ∆Q2 = 0.

Dependendo dos valores especificados para as demandas Pd2 e Qd2, o sistema de equa¸c˜oes (4.4.1) pode possuir duas, uma ou nenhuma solu¸c˜ao real [21]. O limite da opera¸c˜ao do sistema; isto ´e, a fronteira da regi˜ao onde as equa¸c˜oes da rede el´etrica possuem solu¸c˜ao real, caracteriza-se por pontos nos quais a matriz Jacobiana dessas equa¸c˜oes ´e singular. Neste caso, isto corresponde aos pontos onde o determinante da matriz Jacobiana ´e nulo. Uma vez que a matriz Jacobiana ´e dada por

J = 10V2cos δ2 10 sin δ2

10V2sin δ2 20V2− 10 cos δ2



ent˜ao

det(J) = 0 : V2cos δ2 = 0, 5 Da equa¸c˜ao (4.4.1) re-escrita como

V2sin δ2 = −0, 1Pd2

e da condi¸c˜ao do determinante nulo, pode-se concluir que V22 = 0, 01Pd22 + 0, 25 tal que

P2 d2

a qual ´e a express˜ao anal´ıtica que define a superf´ıcie limite Σ da regi˜ao onde existem solu¸c˜oes reais para o conjunto de equa¸c˜oes (4.4.1).

A figura 4.5 mostra a regi˜ao onde as equa¸c˜oes da rede tˆem solu¸c˜ao real, a superf´ıcie limite e a regi˜ao onde n˜ao existe solu¸c˜ao real para as equa¸c˜oes do fluxo de potˆencia. Observa-se que os pontos a, b e c representam condi¸c˜oes nas quais o fluxo de potˆencia possui solu¸c˜ao real. Nos pontos a e b, as equa¸c˜oes da rede el´etrica possuem duas solu¸c˜oes, e no ponto c, apenas uma. Por outro lado, o ponto d representa uma condi¸c˜ao na qual as demandas especificadas inviabilizam a existˆencia de uma solu¸c˜ao real para o sistema de equa¸c˜oes n˜ao-lineares. Portanto, o conjunto de pontos abaixo da superf´ıcie Σ caracteriza a regi˜ao onde solu¸c˜oes reais existem para a demanda especificada. O conjunto de pontos situados acima de Σ representa a regi˜ao onde a especifica¸c˜ao da demanda inviabiliza a determina¸c˜ao de solu¸c˜oes reais para o problema de fluxo de potˆencia. Q(pu) P (pu) a b c d Regi˜ao com duas solu¸c˜oes reais

Regi˜ao sem solu¸c˜oes reais 2,5

5,0 Superf´ıcie limite Σ

Figura 4.5: Regi˜ao das solu¸c˜oes do fluxo de potˆencia convencional

Para ilustrar o efeito das especifica¸c˜oes da demanda na barra 2 sobre as solu¸c˜oes correspondentes aos pontos a, b, c e d, defina-se uma fun¸c˜ao F como

F (V2, δ2) = ∆P22+ ∆Q22

Se o fluxo de potˆencia possui solu¸c˜ao real, o valor de F deve ser nulo, ou seja, as equa¸c˜oes dos balan¸cos de potˆencias s˜ao satisfeitas. Caso as equa¸c˜oes do fluxo de potˆencia n˜ao tenham solu¸c˜ao real,

∆P2 6= 0 e/ou ∆Q2 6= 0 e portanto F (V2, δ2) 6= 0.

A tabela 4.1 mostra as solu¸c˜oes obtidas especificando-se diferentes valores de potˆencia demandada.

A an´alise da tabela 4.1 mostra que, conforme a demanda na barra 2 vai aumentando, as solu¸c˜oes do fluxo de potˆencia v˜ao se aproximando, at´e o ponto em que as duas solu¸c˜oes se unem numa ´unica solu¸c˜ao, no ponto de bifurca¸c˜ao sela-n´o. A partir desse

Solu¸c˜ao Pd2 Qd2 V2 δ2 V2 δ2

(MW) (Mvar) pu graus pu graus

1 100 80 0,1414 -45 0,9055 -6,34

2 180 144 0,2910 -38,20 0,7920 -13,14

3 240 192 0,5546 -25,64 -

-4 340 272 - - -

-Tabela 4.1: Resultados do fluxo de potˆencia - sistema de 2 barras

ponto, n˜ao h´a solu¸c˜ao real para as equa¸c˜oes do fluxo de potˆencia. Isto caracteriza o limite entre as regi˜oes com e sem solu¸c˜oes reais para o fluxo de potˆencia. Utilizando-se um m´etodo de fluxo de potˆencia convencional (Newton-Raphson, por exemplo), a determina¸c˜ao deste ponto de opera¸c˜ao ´e invi´avel. No caso do ponto d, a fun¸c˜ao F possui um ´unico ponto de m´ınimo, igual a 1,3671, correspondente a uma demanda de 239,98 MW e 192,41 Mvar na tens˜ao de 0,5546 ∠ − 25, 640 pu.

4.4.1 O M´etodo de Newton-Raphson com Amortecimento

As abordagens baseadas no m´etodo de Newton-Raphson com a utiliza¸c˜ao de um con-trole sobre o passo da itera¸c˜ao s˜ao idˆenticos em sua estrutura. O que as distingue ´e a forma de determinar o fator de passo. As diferentes vers˜oes se baseiam nas carac-ter´ısticas particulares de cada formula¸c˜ao do fluxo de potˆencia; isto ´e, em coordenadas cartesianas ou polares. Essas abordagens procuram explorar tamb´em outras carac-ter´ısticas da fun¸c˜ao desbalan¸co inerente ao m´etodo de Newton-Raphson. Os m´etodos baseados nestas abordagens se caracterizam por uma convergˆencia mais robusta do que a do m´etodo de Newton-Raphson convencional; ou seja, o uso do fator de passo utili-zado na corre¸c˜ao dos incrementos garante que n˜ao haja uma divergˆencia do processo.

A utiliza¸c˜ao do m´etodo de Newton tem mostrado que a solu¸c˜ao para o fluxo de potˆencia ´e obtida rapidamente para uma ampla variedade de problemas. A aplica¸c˜ao deste m´etodo requer que a cada itera¸c˜ao um sistema linear da forma da equa¸c˜ao (4.3.13) seja resolvido. Na forma compacta isto pode ser expresso por

J(x0)∆x = −f (x0) (4.4.2)

onde, x ´e o vetor das vari´aveis do fluxo de potˆencia, J(x0) ´e a matriz de primeiras derivadas parciais (matriz Jacobiana) do sistema calculada no ponto que representa a estimativa inicial x0 e f (x0) ´e o vetor dos desbalan¸cos de potˆencias ativa e reativa calculado em x0.

A solu¸c˜ao do problema expresso pela equa¸c˜ao (4.4.2) ´e dada por ∆x = −J(x)−1f (x)

fornece uma corre¸c˜ao `a estima inicial x0 para obter-se um novo ponto x1 = x0+ ∆x

o qual ´e utilizado como um novo ponto de partida para o processo iterativo formado pelas equa¸c˜oes (4.4.2). O processo termina quando o maior desbalan¸co de potˆencia em magnitude satisfaz uma tolerˆancia pr´e-especificada.

O m´etodo de Newton-Raphson com amortecimento utiliza um fator de corre¸c˜ao, o qual tem por finalidade controlar a magnitude do incremento calculada a cada itera¸c˜ao do processo. O objetivo ´e fazer com que a cada itera¸c˜ao uma melhor aproxima¸c˜ao do problema linear ao problema n˜ao-linear seja obtida. Ao final de cada itera¸c˜ao, as vari´aveis s˜ao atualizadas usando-se a express˜ao

x1 = x0+ ∆x

onde  ´e um escalar positivo geralmente menor do que a unidade, denominado multi-plicador ´otimo, fator de passo ou fator de amortecimento.

O crit´erio utilizado para a obten¸c˜ao do valor do multiplicador (ou fator de passo) ´e baseado no quadrado da fun¸c˜ao norma Euclideana dos desbalan¸cos de potˆencia; ou seja,

F (x) =k f (x) k2=f(x)tf (x) = f1(x)2+ f2(x)2+ . . . + fm(x)2

A cada itera¸c˜ao, o m´ınimo de F (x) na dire¸c˜ao ∆x ´e encontrado minimizando-se a fun¸c˜ao

F (x0+ ∆x)

A forma como este problema de minimiza¸c˜ao unidimensional ´e tratado constitui a principal diferen¸ca entre as abordagens apresentadas a seguir. Essas abordagens apresentam duas etapas distintas, as quais podem ser resumidas como:

• calcular o vetor de incrementos ∆x atrav´es do da solu¸c˜ao do sistema linear do m´etodo de Newton-Raphson convencional;

• atualizar a estimativa corrente utilizando o fator de passo.

As se¸c˜oes seguintes apresentam algumas metodologias propostas na literatura para o controle eficiente do fator de passo na dire¸c˜ao de Newton.

4.4.1.1 M´etodo de Iwamoto e Tamura

Sejam as equa¸c˜oes de balan¸co de potˆencia da rede el´etrica em regime permanente expressas como

ys− g(x) = 0 (4.4.3)

onde, ys´e o vetor (m×1) das inje¸c˜oes de potˆencia especificadas e g(x) ´e o vetor (m×1) das inje¸c˜oes de potˆencia expressas em fun¸c˜ao das tens˜oes nodais x.

Expressando as tens˜oes nodais na forma retangular, as inje¸c˜oes de potˆencia nas barras podem ser escritas como uma fun¸c˜ao quadr´atica da forma [23]

g(x) = 1 2x

t

Q0x (4.4.4)

onde Q0 ´e um arranjo de dimens˜ao (m × m × m) e x ´e um vetor (m × 1), cujas componentes s˜ao as partes real e imagin´aria da tens˜ao complexa nas barras.

A expans˜ao da ´ultima equa¸c˜ao em s´erie de Taylor, em torno do ponto x e na dire¸c˜ao do vetor ∆x, at´e o termo de segunda ordem fornece

g(x + ∆x) = g(x) + (Q0x)t∆x + 1 2∆x

t

Q0∆x Se xe ´e o ponto em torno do qual ´e feita a expans˜ao,

ys = g(xe) + J∆x + g(∆x) (4.4.5)

onde J = (Qx)t.

Sendo β um escalar, a substitui¸c˜ao do vetor ∆x por β∆x na equa¸c˜ao (4.4.5) fornece ys− g(xe) − βJ∆x − β2g(∆x) = 0 (4.4.6) ou, na forma compacta,

a + βb + β2c = 0 (4.4.7)

onde, a = ys− g(xe), b = −J∆x e c = −g(∆x).

Na equa¸c˜ao (4.4.7), deve ser observado que: 1) a = ys− g(xe) corresponde aos desbalan¸cos de potˆencia ativa e reativa; 2) b = −J∆x corresponde a lineariza¸c˜ao das equa¸c˜oes do fluxo de potˆencia; 3) c = −g(∆x) representa as inje¸c˜oes de potˆencia calculadas em fun¸c˜ao dos incrementos nas vari´aveis.

O parˆametro β pode ser interpretado como um fator de amortecimento nos incre-mentos ∆x, sendo o seu valor ´otimo obtido atrav´es da minimiza¸c˜ao da soma quadr´atica dos desbalan¸cos de potˆencia, expressa pela seguinte fun¸c˜ao:

Ψ(β) = 1

2 a + βb + β

2ct

a + βb + β2c

(4.4.8) O valor ´otimo de β ´e obtido derivando-se esta fun¸c˜ao com rela¸c˜ao a β e igualando-se o resultado a zero. Isto fornece a equa¸c˜ao c´ubica

atb + β btb + 2atc + β2 ctb + 2btc + β3 2ctc = 0 representada na forma compacta por

d0+ d1β + d2β2+ d3β3 = 0

A solu¸c˜ao desta equa¸c˜ao c´ubica pode fornecer: 1) trˆes ra´ızes reais, o que indica que h´a solu¸c˜oes m´ultiplas ou 2) uma raiz real e um par de ra´ızes complexas conjugadas, o que indica que apenas uma solu¸c˜ao real pode ser encontrada [21].

A solu¸c˜ao da equa¸c˜ao (4.4.3) ´e determinada atualizando-se o vetor x durante o processo iterativo; isto ´e,

xk+1 = xk+ βk∆xk

com os incrementos ajustados pela aplica¸c˜ao do fator de amortecimento.

Quanto `a obten¸c˜ao de solu¸c˜oes para o sistema de equa¸c˜oes (4.4.3) sob a aplica¸c˜ao do fator de amortecimento, dois casos b´asicos s˜ao observados. Se a solu¸c˜ao existe, o fator β tende a unidade, com um leve retardo na convergˆencia do processo iterativo. Por outro lado, o fator de amortecimento tende a zero quando solu¸c˜ao das equa¸c˜oes n˜ao lineares n˜ao existe. Neste caso, um ponto correspondente ao valor m´ınimo da fun¸c˜ao que representa a soma quadr´atica dos desbalan¸cos de potˆencia ´e obtido.

O algoritmo para o m´etodo de Iwamoto e Tamura pode ser sumarizado nos seguintes passos:

1. Calcular o vetor de incrementos ∆x(k) do processo iterativo do fluxo de potˆencia convencional;

2. Calcular os vetores a(k), b(k) e c(k); 3. Calcular os coeficientes d0, d1, d2 e d3. 4. Calcular o valor ´otimo de β(k);

5. Atualizar as vari´aveis: x(k+1) = x(k)+ ∆x(k)

Note que a aplica¸c˜ao do algoritmo de Iwamoto e Tamura demanda um m´ınimo de esfor¸co computacional. Ela consiste apenas na extens˜ao do processo convencional da solu¸c˜ao do fluxo de potˆencia em coordenadas retangulares para incluir: a forma¸c˜ao de uma equa¸c˜ao c´ubica baseada nos resultados intermedi´arios do processo iterativo e a solu¸c˜ao desta equa¸c˜ao c´ubica.

4.4.1.2 M´etodo de Dehnel e Dommel

O estudo realizado em [11] apresenta outra metodologia para a determina¸c˜ao do com-primento de passo ´otimo a ser aplicado na corre¸c˜ao das vari´aveis do fluxo de potˆencia. Neste caso, o problema pode ser formulado tanto em coordenadas cartesianas como em polares.

Para se computar o valor do fator de passo ´otimo, a fun¸c˜ao norma euclidiana dos desbalan¸cos de potˆencias

F (x) =k f (x) k2=pf1(x)2+ f2(x)2+ . . . + fm(x)2

´e aproximada no ponto x(k), ao longo da dire¸c˜ao de Newton ∆x(k), por uma fun¸c˜ao quadr´atica Φ(ε), onde ε ´e um escalar que indica o comprimento do passo na dire¸c˜ao ∆x(k). Com a utiliza¸c˜ao de trˆes pontos Φ1, Φ2 e Φ3, respectivamente, em ε1 = −∆ε, ε2 = 0 e ε3 = ∆ε, a fun¸c˜ao de aproxima¸c˜ao ´e

Φ(ε) = Φ2Φ1− Φ3 2∆ε ε +

Φ1− 2Φ2+ Φ3

2∆ε2 ε2 (4.4.9)

onde Φi = F x(k)+ εi∆x(k).

O valor do passo ε ´e determinado de forma que Φ(ε) tenha valor m´ınimo. Isto pode ser obtido derivando-se esta fun¸c˜ao e igualando o resultado a zero; isto ´e,

dΦ(ε)

= 0 : ε =

∆ε(Φ1 − Φ3) 2Φ1− 4Φ2+ 2Φ3

Precau¸c˜oes devem ser tomadas no c´alculo do valor de ±∆ε. Se ∆ε for muito pequeno, erros de arredondamento podem tornar-se excessivos nos c´alculos de Φ1 e Φ3, comprometendo a constru¸c˜ao da par´abola. Por outro lado, se ∆ε for muito grande, a par´abola pode n˜ao pertencer `a vizinhan¸ca de x(k). Para garantir que ∆ε possua uma magnitude adequada, Φ1 e Φ3 da equa¸c˜ao (4.4.9) s˜ao calculados em duas dire¸c˜oes a partir do ponto x(k), a uma distˆancia

ao longo da dire¸c˜ao ∆x(k), onde d ´e uma fra¸c˜ao da atualiza¸c˜ao de Newton obtida na itera¸c˜ao anterior; isto ´e,

d(k)= ξε(k−1) k ∆x(k−1) k

Comparando as duas ´ultimas equa¸c˜oes, pode-se deduzir que ∆ε = ξε(k−1)k ∆x(k−1) k

k ∆x(k) k

Esta formula¸c˜ao assegura que Φ1 e Φ3 s˜ao calculados em distˆancias que s˜ao fra¸c˜oes da corre¸c˜ao da itera¸c˜ao anterior, um de cada lado de x(k). Segundo os autores, o valor de ξ igual a 0,25 mostrou-se adequado nos testes realizados.

Os principais passos para a aplica¸c˜ao do algoritmo de Dehnel e Dommel est˜ao apresentados a seguir.

1. Calcular o vetor de incrementos ∆x(k);

2. Calcular a norma euclidiana do vetor de incrementos ∆x(k)0 ; 3. Calcular o valor de ∆ε(k);

4. Calcular os valores das fun¸c˜oes res´ıduos Φ1, Φ2 e Φ3; 5. Calcular o valor ´otimo de ε(k);

6. Atualizar as vari´aveis: x(k+1) = x(k)+ ε(k)∆x(k)

Durante as itera¸c˜oes do fluxo de potˆencia, deve ser atribu´ıdo a ε o valor unit´ario a cada vez que |ε| > 1, 0. Isso tem por objetivo evitar problemas nos casos em que o fluxo de potˆencia ´e normalmente convergente.

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