Segundo Nóvoa (1999) a crise docente arrasta-se há muitos anos e não se vislumbram perspectivas de superação em curto prazo.
Para o autor
As consequências da situação de mal-estar que atinge o professorado estão à vista de todos: desmotivação pessoal e elevados índices de absentismo e de abandono, insatisfação profissional traduzida numa atitude de desinvestimento e de indisposição constante. (p. 22)
Esse crise prolongada do professorado conduz os profissionais da educação a um mal-estar funcional. De acordo com Esteves (1999a), a expressão “mal-estar docente” é propositadamente ambígua, pois o termo “mal-estar” refere-se a um desolamento ou incômodo indefinível. A dor é algo localizável, determinado. A doença tem sintomas manifestos, mas o termo mal- estar indica que algo não vai bem, porém não conseguimos definir, precisar o que não funciona e por quê.
É exatamente isso que se passa com a educação brasileira, especialmente com a formação de professores, sabemos que ela não vai bem, mas não temos um diagnóstico preciso.
A passagem de um sistema de ensino de elite para um sistema de ensino de massas implica um aumento quantitativo de professores e alunos, mas também o aparecimento de novos problemas qualitativos, que exige uma reflexão profunda. Ensinar hoje é muito diferente do que era há vinte anos. Fundamentalmente porque não tem a mesma dificuldade trabalhar com um grupo de crianças homogeneizadas pela seleção ou enquadrar a cem por cento as crianças de um país, com os cem por cento de problemas sociais que essas crianças levam consigo. Daí o desencantamento que atinge muitos professores, que não souberam redefinir o seu papel perante esta nova situação. (Esteve, p. 96. 1999b).
As rápidas transformações do contexto social, em que o professor exerce sua função, apresentam, a cada dia novas demandas, novas exigências. A democratização, a massificação do ensino público nas últimas décadas, sem a devida estruturação – física e pedagógica – de nosso sistema de ensino, dificultou o trabalho em sala de aula. Os docentes encontram-se
ante o desconcerto e as dificuldades de demandas mutantes e a contínua crítica social por não chegar a atender essas novas exigências.
Os professores encontram-se diante do paradoxo de que essa mesma sociedade, que exige novas responsabilidades dos profissionais da educação, não lhes fornece os meios que eles reivindicam para cumpri-las, afirma Esteve (1999a).
A metamorfose social das últimas décadas causou mudanças profundas em nosso sistema educacional. As mudanças levaram os docentes a uma crise de atuação em sala de aula. Para Esteve (1999b)
A situação dos professores perante a mudança social é comparável à de um grupo de actores, vestidos com traje de determinada época, a quem sem prévio aviso se muda o cenário, em metade do palco, desenrolando um novo pano de fundo, no cenário anterior. Uma nova encenação pós-moderna, colorida e fluorescente, oculta a anterior, clássica e severa. A primeira reação dos actores seria a surpresa. Depois, tensão e desconcerto, com um forte sentimento de agressividade, desejando acabar o trabalho para procurar os responsáveis, a fim de, pelo menos, obter uma explicação. Que fazer? Continuar a recitar os versos, arrastando largas roupagens em metade de um cenário pós-moderno, cheio de luzes intermitentes? Parar o espetáculo e abandonar o trabalho? (...) O problema reside em que, independentemente de quem provocou a mudança, são os atores que dão a cara. São eles, portanto, quem terá de encontrar uma saída airosa, ainda que não sejam os responsáveis. As reações perante esta situação seriam muito variadas; mas, em qualquer caso, a palavra mal-estar poderia resumir os sentimentos deste grupo de actores perante uma série de circunstâncias que os obrigam a fazer um papel ridículo. (p. 97).
A imagem criada pelo autor traduz com muita precisão a situação do professorado que, diante das mudanças do cenário educacional, ora abandona o palco, ora apresenta-se diante de um público surdo, isto é, um alunado indiferente.
Os professores, afirma Esteve (1999b), enfrentam circunstâncias de mudanças que os obrigam a desempenhar mal o seu ofício, tendo de suportar a crítica generalizada que, sem analisar o contexto social e escolar, os considera como responsáveis imediatos pela má qualidade de nosso sistema de ensino. Assim, o termo “mal-estar docente” surge com um conceito da literatura pedagógica que pretende resumir o conjunto de desconfortos e angustias dos professores como grupo profissional desajustado frente à mudança social.
A expressão mal-estar docente (...) emprega-se para descrever os efeitos permanentes, de caráter negativo, que afetam a personalidade do professor como resultado das condições psicológicas e sociais em que exerce a docência, devido à mudança social acelerada. (p. 98)
O exame do mal-estar docente, como efeito da mudança social e da alteração do contexto educacional, não deve ser entendida como um exercício de autocomplacência ante aos males da educação.
De acordo com Esteve (1999b), a análise do mal-estar docente tem três objetivos precisos:
1. A de ajudar os professores a eliminar o desajustamento. Se as circunstâncias mudaram, obrigando-os a repensar o seu papel como professores, uma análise precisa da situação em que se encontram ajuda, sem dúvida, a dar respostas mais adequadas às novas interrogações. Provavelmente, muitas questões são de difícil solução no âmbito da atuação individual de um professor isolado, mas, mesmo neste plano, um conhecimento mais exato do problema pode contribuir para evitar o desajustamento.
2. O estudo da influência da mudança social sobre a função docente pode servir como chamada de atenção à sociedade, para que compreenda as novas dificuldades com que se debatem os professores. Um elemento importante no desencadear do mal-estar docente é a falta de apoio, as críticas e a demissão da sociedade em relação às tarefas educativas, tentando fazer do professor o único responsável pelos problemas do ensino, quando estes são problemas sociais que requerem soluções sociais.
3. Só a partir do estudo do modo como a mudança social gera mal- estar docente, é possível traçar linhas de intervenção que superem o domínio das sugestões, situando-se num plano de ação coerente, com vista à melhoria das condições em que os professores desenvolvem o seu trabalho. Para isso, preciso atuar, simultaneamente, em várias frentes: formação inicial, formação contínua, material de apoio, relação “responsabilidades – horário de trabalho – salário”. (p. 98)
As avaliações internas e externas de nosso sistema educacional indicam um baixo nível da qualidade de ensino, mas esta conta não deve e não pode ser paga somente pelos docentes; há toda uma conjuntura social, como os apontados acima, que influencia nos resultados da qualidade de ensino. É necessário evitar o desajustamento e a desmoralização do conjunto de professores, bem como o crescente mal-estar docente, visto que, um ensino de qualidade torna-se cada vez mais imprescindível.
Alinhar a formação dos professores às novas exigências do ensino e revalorizar a imagem social do professorado são hoje medidas urgentes com
as quais os nossos governantes e dirigentes devem se preocupar, propondo e, principalmente, efetuando políticas públicas que vão ao encontro dessa necessidade social do Brasil, ou seja, ofertar uma educação pública de qualidade, especialmente para as camadas populares, as nossas crianças e jovens.
Para que isso ocorra, é fundamental enfrentar de forma efetiva o mal- estar docente, atuando prioritariamente sobre às condições de trabalho e sobre o apoio de que os professores recebem para realizá-lo, assevera Esteve (1999a).