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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DE SÃO MIGUEL DO GOSTOSO

SECÇÃO 02 CONFIGURAÇÃO ESPACIAL E A APROPRIAÇÃO TURÍSTICA DO LUGAR

2.3 O mar como elemento sociocultural de trabalho e lazer

O mar, ao longo da construção da história da humanidade, foi apropriado para as atividades produtivas do homem em todos os períodos históricos e por todas as civilizações conhecidas. Nesse percurso, o mar proporcionou experiências e técnicas múltiplas de navegação (da rudimentar a mais sofisticada em termos de emprego de tecnologias), foi e é fonte de alimento para o homem contemporâneo por meio da atividade pesqueira (artesanal e industrial), para fins terapêuticos (saúde e estética), espaço de crenças religiosas e culto às divindades, cenário de guerras militares e, para muitos povos, também, serviu de opção para a realização de atividades recreativo-lúdicas.

Contudo, é a partir do século XVIII que o mar assume novas funcionalidades, destinando, também e de forma mais contundente, às atividades de lazer e, por conseguinte, ao turismo. O mar passa a fazer parte imprescindível do estilo de vida do homem moderno e contemporâneo, com destaque para o mundo ocidental, em que as atividades de vilegiatura, lazer, turismo, esporte e entretenimento possuem significados culturais que fazem parte do imaginário social das pessoas e dos ritos.

No portfólio dos novos usos do mar, o lazer ganhou espaço e projeção no século XX, embora o tempo social para o homem desfrutar de momentos de lazer tenha como marco histórico a Revolução Industrial ocorrida na Europa (século XVIII), caracterizado por um período conflituoso entre a classe Burguesa e o Proletariado pois, enquanto a burguesia, dona dos meios de produção se beneficiava com as riquezas geradas no campo do trabalho; o

proletariado (classe trabalhadora) reivindicava por mais “tempo livre” para o direito ao descanso e ao lazer.

O conceito de tempo livre é utilizado pelos estudiosos do lazer que qualificam esse tempo como livre de desobrigações em relação ao trabalho e aos afazeres domésticos, sendo destinado à realização de atividades ligadas ao lazer, à criatividade e ao ócio.

Dantas (2010, p. 11) defende “que os modos de vida ocidentais, levam os brasileiros a descobrir os novos usos do mar”. E complementa: “o túnel que abre as praias de Copacabana aos cariocas, no final século XIX, implica o início de tal processo”. Para o autor, nessa época não havia banhos nas praias de Fortaleza embora existisse uma frequentação para fins de saúde. A atração pelo mar se dá entre as duas grandes guerras mundiais. E a visitação às praias do Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Natal e Fortaleza, tornou-se mais frequente e se massificou nos anos subsequentes ao Pós-Guerra.

A expressiva influência do turismo de balneário praticado nos países desenvolvidos, o que deu origem ao turismo de massa em meados do século XIX e expandido para outras regiões do mundo a partir do século XX, promoveu a construção de uma infraestrutura litorânea no território brasileiro para o uso do mar, quer tenha sido para o fenômeno de segunda residência ou para fins terapêuticos. Nesse período, as praias que foram urbanizadas e equipadas de serviços para atender às demandas dos visitantes e residentes foram Copacabana (Rio de Janeiro), Iracema (Fortaleza), Boa Viagem (Recife). Esses novos espaços urbanos foram muito valorizados, especialmente devido à infraestrutura recebida na época e pela presença das elites locais que passaram a residir nessas praias e utilizar o mar com fins terapêuticos (DANTAS, 2010).

Dumazedier (1973) foi um dos defensores da construção de uma teoria do lazer, cuja essência do trabalho estar alicerçada na conquista do “tempo livre” pelo homem moderno (séculos XVIII e XIX) e nos conteúdos culturais do lazer. Para esse autor, o lazer é um conjunto de ocupações destinadas às atividades relacionadas ao descanso, à diversão e ao desenvolvimento, as quais os indivíduos podem se entregar de livre e espontânea vontade.

A praia como espaço social para uso do lazer e fins turísticos ganha mais projeção no cenário tropical, cuja presença da luz e do calor do sol são elementos da natureza com forte apelo comercial na sociedade contemporânea. Para Machado (2000, p. 213), “à medida que a praia começa a ser frequentada na altura do dia em que o “quente” se sobrepõe ao “frio”, chega-se mais tarde à praia, permanece-se mais tempo e desenvolve-se outras atividades além do banho de mar”. E continua a reflexão, dizendo que a praia é cada vez mais incorporada aos ritos sociais como um espaço de alegria, convívio e lazer que, progressivamente, assume um caráter de espaço público por excelência.

É no domínio do lazer que surge o turismo moderno nos moldes contemporâneos, uma vez que, o turismo é uma modalidade ou uma forma ou uma expressão do lazer e que compõe um dos interesses culturais do lazer (artístico, manual, físico-desportivo, intelectual e social). Sobre esses interesses, Dumazedier (1974, p. 101) esclarece que o “interesse artístico se caracteriza por todas as manifestações de arte, como teatro, cinema e artes plásticas”; o “manual, por tudo aquilo ligado à manipulação e à transformação de elementos da natureza”; os “físico-desportivos, às atividades esportivas em geral ligadas ao corpo”; as “atividades ligadas à ciência, à informação e ao conhecimento dizem respeito ao interesse de ordem intelectual”; já as “atividades que objetivam a sociabilização se ligam ao de ordem social”. Cumpre ressaltar que, ocorre uma interligação deste com os demais tipos de interesse.

Camargo (2003, p. 18) inseriu na discussão o interesse turístico que, na visão do autor: “direcionam-se a viagens e a tudo que implique mudança do cotidiano”. O interesse turístico não foi contemplado nos estudos de Dumazedier, ficando a cargo dos discípulos brasileiros se debruçarem sobre o tema.

O interesse turístico também pode ser compreendido como um dos elementos responsáveis ou que contribui para a apropriação de cenários para o desenvolvimento da atividade turística no campo dos negócios e na construção de territórios turísticos.

Nesse contexto, em que o lazer se tornou uma conquista social, historicamente construída, surgem novas atividades comerciais (modernas) voltadas para o mar como as práticas desportivas e o turismo. No caso do turismo, o mar também é apropriado para atender aos desejos de consumo dos turistas, na viabilização de viagens em cruzeiros marítimos, na construção de meios de hospedagem voltados para o lazer como é o caso dos resorts20, na oferta de parques de entretenimento e nas últimas décadas com o desenvolvimento dos esportes de aventura realizados no meio aquático, ou seja, o turismo de aventura, turismo de mergulho e turismo náutico (com foco na natureza).

O turismo de aventura para o Ministério do Turismo “compreende os movimentos turísticos decorrentes da prática de atividades de caráter recreativo e não competitivo”. A Associação Brasileira de Normas Técnica (ABNT) por meio da NBR21 15500/2007 define atividades de aventuras como aquelas oferecidas de forma comercial, que tenham ao mesmo tempo o princípio recreativo e envolvam riscos avaliados, controlados e assumidos pelos praticantes (esportistas e turistas), bem como pelas empresas especializadas no segmento que ofertam serviços dessa natureza. Assim como os demais segmentos, o turismo se especializa orientado pelas demandas do mercado para atender às necessidades do lazer da modernidade.

O turismo de aventura é o principal segmento desse mercado em São Miguel do Gostoso, sendo responsável pela atração de visitantes nacionais e estrangeiros que buscam praticar esportes de aventura de natureza náutica em diversos períodos ao longo do ano.

A apropriação do mar para fins de lazer e turismo, sobretudo, do litoral, originam-se territórios turísticos, construídos a partir de relações de poder e forças políticas e econômicas, especialmente. Sendo assim, se faz necessário

20Resort é um meio de hospedagem com infraestrutura de lazer e entretenimento que dispõe de serviços de estética, atividades físicas, recreação e convívio com a natureza no próprio empreendimento. (SISTEMA BRASILEIRO DE CLASSIFICAÇÃO DE MEIO DE HOSPEDAGEM, MINISTÉRIO DO TURISMO, 2010).

21NBR é uma abreviação adotada pela ABNT em que: N = Norma e BR = Brasileira (Norma Brasileira).

compreender com mais profundidade as consequências dessa apropriação na construção do território turístico do destino São Miguel do Gostoso.