CAPÍTULO 1 – A EDUCAÇÃO DE ADULTOS A NIVEL (INTER)NACIONAL:
1.3. A UNIÃO EUROPEIA E A EDUCAÇÃO DE ADULTOS: LINHAS DE
1.3.1. O Conselho Europeu de Lisboa e os reflexos na aprendizagem ao longo da vida
1.3.1.1. O Memorando sobre aprendizagem ao longo da vida
Para Ribas (2004), o Memorando sobre aprendizagem ao longo da vida (UE, 2000b) surge como um momento de mudança no que refere a este tema. Nesse memorando, clarifica-se que a aprendizagem ao longo da vida é: “(…) toda e qualquer actividade de aprendizagem, com um objectivo, empreendida numa base contínua e visando melhorar conhecimentos, aptidões e competências” (UE, 2000b, p. 3). Da confrontação entre esta definição de educação de adultos, proposta pela UNESCO (1985, 1997), apesar de salvaguardadas as diferenças de estarmos perante dois constructos com extensão e significados diferentes, destacamos que, a definição apresentada pela UE, peca por demasiado generalista e pouco esclarecedora. Há aspectos, como o público a quem se destina a aprendizagem ao longo da vida, bem como a especificação dos tipos de aprendizagem (formal, não formal e informal), que não são contemplados. Além de carecerem de alguma clarificação, direccionam a aprendizagem ao longo da vida para o domínio da empregabilidade e como modo de melhorar aptidões e competências profissionais. Consideramos que, tratando-se este memorando (UE, 2000b) de um documento propositadamente feito para ser colocado à disposição de qualquer cidadão europeu, esta definição pouco contribui para que estes possam conhecer o que a UE entende por aprendizagem ao longo da vida.
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As metas traçadas pela UE na primeira década do segundo milénio exigem que “(…) todos os europeus deverão, sem excepção, beneficiar de oportunidades idênticas para se adaptarem às exigências das mutações sociais e económicas e participarem activamente na construção do futuro da Europa” (UE, 2000b, p. 3). Para isto, é necessário que os Estados se unam em torno da (re)qualificação de todos os cidadãos. Este trabalho hercúleo, que envolve toda a UE, exige que os Estados-Membros trabalhem em conjunto: (a) construindo uma sociedade que apresente aos indivíduos oportunidades equitativas de acesso à aprendizagem ao longo da vida, de modo que se possam minimizar necessidades e as exigências sociais e profissionais; (b) reorganizando o modo como são ministradas as actividades de educação e formação, de modo que os indivíduos possam participar nas acções disponibilizadas; (c) conquistando níveis elevados de participação activa dos indivíduos nas actividades disponíveis; e (d) mobilizando e disponibilizando os instrumentos necessários a uma aprendizagem de sucesso. Para a UE (2000b), a “chave do sucesso residirá na construção de um sentido de responsabilidade partilhada relativamente à aprendizagem ao longo da vida entre todos os intervenientes – Estados-Membros” (p. 5).
O memorando (UE, 2000b) estabelece também que a aplicação prática de uma estratégia de aprendizagem ao longo da vida deve constituir-se como uma prioridade para os Estados-Membros, uma vez que há duas razões para agir: (1) o contexto social e económico de transição que se vive no dealbar da era do conhecimento em que o acesso à informação e a conhecimentos actualizados está a tornar-se, progressivamente, a base de sustentação da competitividade, da empregabilidade e da adaptabilidade da força de trabalho; e (2) o complexo mundo social e político, onde a diversidade cultural e étnica exigem uma compreensão sistémica do mundo e dos indivíduos que o compõem. Estas motivações para o incremento de uma aprendizagem ao longo da vida têm subjacentes os objectivos de (…) “promover a cidadania activa e a empregabilidade” (UE, 2000b, p. 6). Estes dois aspectos configuram-se mutuamente numa relação de interdependência pois “(…) a empregabilidade e a cidadania activa estão dependentes da (…) [mobilização] de competências e dos conhecimentos adequados e actualizados indispensáveis à participação na vida económica e social” (UE, 2000b, p. 6). Então, caberá aos Estados-Membros incentivar a aprendizagem ao longo da vida, para conseguirem ultrapassar os desafios competitivos da modernidade.
Para que a aprendizagem ao longo da vida se configure como um pólo de mudança, é essencial um aumento da oferta e da procura de oportunidades de
67 aprendizagem, em que a oferta possa beneficiar os que têm menos oportunidades de acesso à educação. Contudo, para que a aprendizagem se concretize, é necessário que os indivíduos reconheçam a necessidade e o interesse de aprender. Caso contrário, as actividades podem ser diversificadas, e até originais, mas se não cativarem os indivíduos, não cumprirão o desígnio de contribuir para a apropriação de conhecimentos ou para a mobilização e desenvolvimento de capacidades e competências essenciais ao desempenho profissional actualizado, contribuindo, também, para a configuração de uma Europa mais competitiva (UE, 2000a, 2000b, 2001).
No memorando (UE, 2000b), os Estados-Membros divulgam seis mensagens- chave apresentadas publicamente para debates alargados e que são consideradas indispensáveis para uma estratégia que se pretende global e coerente, ao longo da vida: (1) “Garantir acesso universal e contínuo à aprendizagem, com vista à aquisição e renovação das competências necessárias à participação sustentada na sociedade do conhecimento” (UE, 2000b, p. 11); (2) “Aumentar visivelmente os níveis de investimento em recursos humanos, a fim de dar prioridade ao mais importante trunfo da Europa – os seus cidadãos” (UE, 2000b, p. 13), promovendo oportunidades de formação, de um modo particular, para os indivíduos que desempenham um papel profissional activo, em especial os que têm mais de 35 anos, que necessitam de formação para poderem acompanhar as mudanças técnicas e tecnológicas que ocorrem; (3) “Desenvolver métodos de ensino e aprendizagem eficazes para uma oferta contínua de aprendizagem ao longo e em todos os domínios da vida” (UE, 2000b, p. 15), em que os métodos e contextos de ensino se adaptem à diversidade de interesses, exigências e necessidades, não apenas dos indivíduos mas também dos grupos sociais europeus; (4) “Melhorar significativamente a forma como são entendidos e avaliados a participação e os resultados da aprendizagem, em especial da aprendizagem não-formal e informal” (UE, 2000b, p. 17, grafia original), fomentando a aprendizagem e a obtenção de qualificação por parte dos indivíduos, bem como valorizando a validação das aprendizagens anteriores à frequência do ensino de adultos e que se adquire ao longo da vida; (5) “Assegurar o acesso facilitado de todos a informações e consultoria de qualidade sobre oportunidades de aprendizagem em toda a Europa e durante toda a vida” (UE, 2000b, p. 19), contribuindo para a melhoria do aconselhamento e orientação profissional, nomeadamente, para os jovens que terminam a escola ou a universidade e que lhes permita a entrada mais adequada na vida profissional; e (6) “Providenciar oportunidades de aprendizagem ao longo da vida tão próximas quanto possível dos
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aprendentes, nas suas próprias comunidades e apoiadas, se necessário, em estruturas TIC” (UE, 2000b, p. 21), de modo a proporcionar-se uma aprendizagem que, on line, possa chegar a todos.
1.3.1.1.1 Contribuição de Portugal para a reflexão em torno do memorando sobre aprendizagem ao longo da vida
Na cimeira de Lisboa, realizada em Março de 2000 (UE, 2000a), os chefes de Estado e de governo da UE estabeleceram como objectivo estratégico global preparar os países que compõem a UE para a sociedade do conhecimento, para a modernização do modelo social europeu, bem como para a sustentação e desenvolvimento económico da UE (UE, 2000a). O Memorando sobre aprendizagem ao longo da vida (UE, 2000b) surge, neste enquadramento, como um processo de consulta alargada a todas as populações dos Estados-Membros, realizadas pelos serviços da Comunidade Europeia, com o objectivo de construir um sentido de responsabilidade partilhada relativamente à aprendizagem ao longo da vida. Este memorando (UE, 2000b) deveria ser disseminado por todos os Estados-Membros, de modo a chegar a todos os locais, mesmo os mais remotos, bem como aos diferentes grupos sociais (UE, 2000a), para que se pudessem pronunciar sobre os princípios orientadores que consideram adequados para a aprendizagem ao longo da vida do novo milénio.
Em Portugal, as acções de divulgação deste memorando (UE, 2000b) não tiveram o eco social que seria esperado e necessário, apesar da sua divulgação por meio dos seminários regionais e internacionais realizados, bem como da publicação e difusão de artigos temáticos e de opinião em revistas da especialidade, que tornavam públicas diferentes reflexões acerca deste tema central da vida europeia (mundial). No sentido de tornar este documento mais acessível e para cativar os jovens para a reflexão que este tema exigia, o governo português criou um sítio (www.alv.gov.pt), que resultou da colaboração entre os Ministérios da Educação, do Trabalho e Solidariedade e do Ministério da Juventude e dos Desportos. Com estas iniciativas pretendia-se, promover um debate e uma reflexão alargada que permitisse identificar as prioridades nacionais em termos de aprendizagem ao longo da vida, os obstáculos que se impõem a essa aprendizagem e recolher exemplos de boas práticas e de actividades concretas que ajudassem a promover a discussão e a encontrar respostas para as dificuldades sentias no âmbito da aprendizagem ao longo da vida, em Portugal.
69 Tendo sido constituído em Janeiro de 2001 um grupo de trabalho que agregava elementos destes três ministérios, as conclusões surgiram em Julho desse mesmo ano (ME, MTS, & MJD, 2001). Das conclusões e recomendações que resultaram da reflexão de Portugal em torno do memorando (UE, 2000b) e (do futuro) da aprendizagem ao longo da vida (UE, 2000b), destacamos a necessidade de: (a) incentivar as empresas a promover formação para os trabalhadores e despertar nos trabalhadores interesse por frequentarem acções que contribuam para a sua qualificação pessoal e profissional; (b) incrementar o investimento estatal, empresarial e individual que permita um desenvolvimento permanente dos indivíduos activos; (c) promover ofertas formativas de curta duração, flexíveis e capitalizáveis de modo a permitir percursos diversificados e a combinação entre a formação escolar e a formação qualificante; (d) proporcionar a criação de uma rede de CRVCC com o objectivo de dar resposta à validação das aprendizagens realizadas pelos indivíduos em contextos formais, informais ou não formais; (e) motivar os indivíduos para o investimento pessoal e profissional em torno da aprendizagem e da formação; e (f) orientar e apoiar os indivíduos na gestão dos percursos de formação, identificando oportunidades e apoios disponíveis no âmbito das ofertas locais, regionais, nacionais e europeias de educação e formação (ME, MTS, & MJD, 2001).
No seguimento do que era solicitado pela UE (2000b), Portugal enuncia uma série de exemplos de boas práticas que podem servir de modelo e de estímulo para os parceiros europeus. Neste sentido, enuncia: (a) o desenvolvimento do Programa Integrado de Apoio à Inovação (PROINOV), com o objectivo de contribuir para a estratégia de desenvolvimento enunciada na Estratégia de Lisboa (UE, 2000a); (b) a criação da ANEFA, com competências para definir uma nova oferta integrada de educação e formação de adultos, nomeadamente na criação de CRVCC disseminados um pouco por todo o país e disponibilizando uma formação mais próxima dos cidadãos; (c) o desenvolvimento de uma estratégia global e coerente de aprendizagem ao longo da vida, começando por identificar as necessidades do conjunto da população, bem como (d) identificar as necessidades e mecanismos adaptados às características dos diferentes grupos sociais (ME, MTS, & MJD, 2001). Como podemos observar, algumas destas boas práticas tiveram um período de vida demasiado curto para se observarem resultados, como é o caso da ANEFA, que foi extinta, em parte devido a limitações de ordem económica e financeira. De referir, no entanto, a disseminação dos CRVCC, que decorreu em Portugal, mas que demorou sete anos até entrarem em funcionamento.
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Permanecemos (ainda hoje) à espera do anunciado plano de desenvolvimento estratégico e global (ME, MTS, & MJD, 2001) que deveria estudar as características, necessidades e também as expectativas dos cidadãos portugueses, dando-lhes voz, de modo a que se pudessem definir as linhas orientadoras da educação e formação de adultos, em Portugal. Pensamos que este seria o passo mais urgente em direcção a uma educação de adultos convergente com os interesses dos cidadãos portugueses, bem como da economia e competitividade europeias.
Os resultados desta consulta popular nos Estados-Membros da UE acabaram por ser divulgados em Novembro de 2001, sob a forma da comunicação da Comissão Europeia: Tornar o espaço europeu de aprendizagem ao longo da vida uma realidade (UE, 2001). Nesta comunicação podemos encontrar as principais directrizes da UE no que refere à educação ao longo da vida.
1.3.1.2 A Comunicação da Comissão Europeia: Tornar o espaço europeu de