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2 ASPECTOS TEÓRICOS CONCEITUAIS

2.3 O MERCADO DO SOLO URBANO: O PLANEJAMENTO URBANO

Apesar de já termos apresentado algumas teorias sobre o meio urbano cabe destacar

aqui o que é pensado e analisado sobre uso e valor do solo, a influência do Estado como

agente no mercado do solo, o espaço público e a sua interferência na transformação em áreas

urbanas, a migração do campo para urbano e suas implicações na configuração da

organização urbana, e finalmente o planejamento urbano pelo Estado.

Sobre o uso do solo urbano e o valor deste numa economia neoliberal e capitalista

em nossa realidade brasileira inicialmente apresentamos o pensamento de autores

contemporâneos para construção de um entendimento sobre esse assunto.

Harvey (1980) discutiu a “imaginação geográfica” versus a “imaginação sociológica”

habilitando o indivíduo a se perceber no papel do espaço e do lugar. Crítico do planejamento

urbano que tinha a tendência de ‘“[...] copiar desenhos na prancheta” e seria desatento ao

processo social”’ (HARVEY, 1980, p. 16).

Singer (1978) em O uso do solo urbano na economia capitalista afirma que o solo

seria “disputado” por inúmeros usos e devido a aglomeração de pessoas o levaria a teoria

capitalista do consumo, daí a propriedade privada do solo proporcionando renda. ‘“O Capital

imobiliário seria um “falso capital”, seria uma “valor que se valoriza”, porém a origem desta

valorização não seria a atividade produtiva, mas a monopolização”’ (SINGER, 1978, p.22

Harvey (1991) descreve que o “direito à cidade” nos permite mudar aquilo que já

está eminentemente formalizado pela sociedade, constituído num espaço público. Destaca que

a globalização enfatizou as desigualdades sociais fortalecendo os fragmentos causados pelo

capitalismo. Os espaços públicos devem ser concebidos como locais para dar direito às

diferenças aos cidadãos de manifestarem suas diferentes visões, culturas e desejos individuais.

Salienta o autor que evitar o conflito é se “descolar” do sentido do processo de urbanização e

assim perder o sentido estratégico de praticar o “direito à cidade”. Fazemos nossa cidade

agindo, de forma individual ou coletiva, em cada ação diária, movimentos políticos,

intelectuais e econômicos, arquitetando, assim, nossos futuros urbanos. Precisamos pensar em

uma cidade mais inclusiva, mesmo socialmente fracionada, baseando-se em práticas

político-econômico que atendam a todos de forma coletiva.

Para Lefebvre (1999) a burguesia como agente imobiliário supera as expectativas

mercadológicas da produção, como diz:

[...] o capitalismo parece esgotar-se. Ele encontrou um novo alento na

conquista do espaço, em termos triviais na especulação imobiliária, nas

grandes obras (dentro e fora das cidades), na compra e venda do espaço. E

isso a escala mundial [...]. A estratégia vai mais longe que a simples venda,

pedaço por pedaço, do espaço. Ela não só faz o espaço entrar na produção da

mais-valia; ela visa a uma reorganização completa da produção subordinada

aos centros de informação e decisão (LEFEBVRE, 1999, p. 142).

No que tange ao Estado como produtor espacial e de cabe a transformação do espaço

urbano e a modificação do valor do solo através da formação de reservas fundiárias ou da

implantação de serviços e equipamentos públicos de uso coletivo (ex. praças, parques, etc.) ou

ainda financiando através de políticas públicas e a regulação das atividades imobiliárias.

As políticas públicas no mercado da moradia e no das práticas sociais são

importantes reflexos deuma grande variedade de interesses de diferentes agentes. Enquanto

que na apropriação urbana, que tem como agentes principais os incorporadores imobiliários, o

Estado historicamente beneficia as classes abastardas, enquanto que ações para as classes

sociais de menor poder aquisitivo são frutos de uma política de visibilidade e marketing,

tendo ações benéficas quando são interessantes para o Estado.

[...] a nossa história urbana recente tem sido centralmente marcada pelos

modos de produção e circulação da moradia e pelos modos de gestão do solo

urbano e de distribuição dos equipamentos e serviços que atendam às

necessidades de consumo urbano diferenciado e diferenciador das classes

médias (RIBEIRO, 2000, p. 67).

Harvey (2005) afirma que somente o Estado é capaz de produzira troca capitalista,

através de investimento nas infraestruturas sociais e físicas do lugar, o que nenhum agente

capitalista poderia prover com lucro.

[...] o valor do uso, o valor de troca de solo e as benfeitorias, como sendo

mercadorias diferentes, pois não poderiam deslocar-se livremente. Passa

assim, a investigar a Teoria do uso do solo urbano, quando lembra a

existência dos diferentes atores no mercado da moradia: os usuários da

moradia; os corretores de imóveis; os proprietários, os incorporadores; as

instituições financeiras; e as instituições governamentais. Afirma que “[...] o

rico poderia dominar o espaço enquanto que o pobre estaria aprisionado

nele” (HARVEY, 1980, p. 135).

Segundo o mesmo autor “se as rendas absolutas e de monopólio dominam as

locações centrais, o valor do solo determinaria seu uso, se as rendas diferenciais dominam, o

uso é que determinaria o valor do solo” (HARVEY, 1980, p. 160)

Ribeiro (2007) afirma que a estruturação do espaço urbano e o mercado de terras

possuem uma dialética, dando ao solo urbano um estado de propriedade não produzido e o

mercado econômico determina o preço de acordo com a oferta e a demanda. Os

proprietários fundiários são agentes que através da especulação imobiliária ou da

produção de objetos imobiliários (loteamento, conjuntos habitacionais, co ndomínios etc.)

praticam a transformação do espaço urbano com o objetivo de auferir lucro por meio do

valor do solo. Assim há uma produção de capital por meio da apropriação do solo urbano

e diferentes usos dos espaços urbano.

Nesse processo de revitalização ou construção de espaços urbanos para o consumo

dirigido às classes de média e alta capacidade econômica/financeira os grupos sociais

excluídos são “empurrados” para áreas menos favorecidas de infraestrutura com menores

valores do solo, quase irrisório às vezes, se comparados aos da classes abastadas. Esses

grupos produzem assim espaços que não seguem normas urbanísticas com irregularidades e

por vezes ilegais, mas às vistas de todos. Um problema social no qual o estado por questões

políticas prefere fazer de conta que inexiste.

Entende-se também que os agentes interagem com o espaço e o tempo integrando o

conjunto de fatores locais que determinam o uso e o valor do solo.

Corrêa (1999) afirma que as ações dos agentes ocorrem simultaneamente no espaço.

Como os interesses são diversos as relações são pacíficas ou conflitantes na busca de

concretizar seus objetivos. Nesse sentido o uso do solo está diretamente ligado à necessidade

de alguns agentes que desejam aferir valor ao solo e assim renda no meio urbano.

Villaça (2001) constata que a burguesia é a favorecida pelos investimentos dos

agentes imobiliários e dos investimentos do Estado, movimentado-os para “sub-centros” nos

quais o espaço urbano ainda é passível de transformações e benfeitorias atrativas, causando a

segregação de classes na espacialidade urbana.

O Estado possui uma influência muito importante e direta no mercado do solo da

cidade, através de suas ações e regulamentação. Essa influência do Estado repercute na forma

e na produção do espaço urbano. A acessibilidade que o Estado oferece através do sistema

urbano fomenta um valor produzido à localização dos espaços. Essa acessibilidade poderá ser

através deinvestimentos em equipamentos e da infraestrutura, trabalho, lazer e educação.

Os agentes imobiliários necessitam que seus investimentos deem lucro obviamente.

Mas eles são incapazes de, sozinhos, produzirem ações, como infraestrutura e melhorias no

social, por isso fazem suas parcerias com o Estado. O público e o privado se unem em prol do

desempenho da produção do espaço urbano. Assim, a partir do consumo espaços urbanos são

construídos ou revitalizados.

2.4 A MIGRAÇÃO BRASILEIRA DO CAMPO PARA CIDADE: CONSEQUÊNCIA