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2 ASPECTOS TEÓRICOS CONCEITUAIS

2.2 OS AGENTES MODIFICADORES DO ESPAÇO URBANO: UMA AÇÃO

Segundo Corrêa (1999) o espaço urbano é um espaço “[...] fragmentado e

articulado, reflexo e condicionante social, um conjunto de símbolos e campos de lutas”

(CORRÊA, 1999, p. 9).

Para Corrêa (1999) os agentes são produtores e consumidores do espaço urbano,

dividindo-os em proprietários do meio de produção (ex. industriais), os proprietários

fundiários, os promotores imobiliários, o Estado e os grupos sociais excluídos.

Corrêa (1999) afirma que as diferentes formas de como as desigualdades sociais se

especializam nos espaços são resultados de disputas num conjunto de diferentes usos do solo,

produzindo áreas com distintas formas e conteúdos. O espaço é fragmentado e se articula com

as práticas socioespaciais de agentes concretos.

Segundo Vasconcelos (2011) as primeiras definições das divisões dos grupos e

organizações que agem no mercado se obtém do artigo escrito em 1954 por William Form.

Os grupos e organizações identificados seriam os seguintes: (1) o imobiliário

(os negócios imobiliários e da construção); (2) as grandes empresas (as

grandes indústrias, os negócios e infraestruturas); (3) os residentes (os

proprietários industriais e outros pequenos consumidores); (4) o governo

(governo local) (VASCONCELOS, 2011, p. 76-77).

Imbricando agentes com mercado de solo urbano, para Arendt (2007), trazer à tona o

pensar sobre a vida humana e o empenho de se fazer algo é a vitaactiva. Nesse pensar o homem

está enraizado num mundo de coisas feitas pelos próprios homens. Nesse mundo o homem não

abandona nem transcende completamente. Segundo a autora (2008), as coisas e os homens

formam uma ambientação própria para cada atividade, que não significariam nada sem a noção

de localização e produzem o mundo que habitamos com coisas fabricadas. Arendt (2007)

salienta que as atividades humanas só são existentes e tem a condição de ação pelo fato dos

homens viverem em comunidade, assim essa ação produtiva não existe sem o homem em

sociedade.

Assim percebemos o valor da ação conjunta de homens com finalidades em comum.

Esses homens em uma sociedade tornam-se agentes quando fomentam mudanças nos seus

ambientes e nos daqueles que lhe envolvem. Os agentes são produtores e no espaço urbano

passam a adquirir a característica também de consumidores.

Um homem sozinho em uma cidade metropolitana na contemporaneidade é incapaz

de fazer mudanças a não ser que esteja engajado em uma rede de relações. São as redes de

agentes que articulam e causam mudanças de interesses próprios ou coletivos. O mercado

capitalista nos transporta à um mundo de homens com visão de mudanças que levam

impreterivelmente à valorização de espaços e do solo urbano.

Carlos (2011, p 53) ao dizer que “analisar a espacialidade como imanente à

existência constitutiva da sociedade” nos faz compreender que a sociedade produz-se num

determinado espaço e que assim como condição de sua existência, porém o espaço torna-se

próprio já que sua dimensão histórica e especificidades são definidas ao longo do tempo e em

escalas especificas. Nesse olhar a prática social que se realiza espacialmente nos leva a pensar

na relação dialética sociedade/espaço. “Esse caminho indica a imanência da produção do

espaço no processo de constituição da sociedade”(CARLOS, 2011, p 53).

Dessa forma a autora, articula três planos indissociáveis: o econômico, no contexto

de produção e reprodução do capital; o político com sua normatização do Estado; e o social

onde a reprodução da vida humana é elemento de uma prática socioespacial.

Com o tripé montado por Carlos (2007) evidencia-se que a produção do espaço

urbano necessita de agentes distintos para sua concretização, assim a construção ou

materialização do espaço urbano está condicionado a um longo tempo de relações entre os

agentes inerentes aos planos econômicos, político e social e, principalmente, a partir da

constante transformação da natureza humana no sentido de produção social.

A presença contraditória do Estado no espaço, fundada em uma estratégia

que se quer hegemônica, organiza as relações sociais e de produção através

da reprodução do espaço, através de uma ação planificadora, em que o

espaço do “habitar” aparece como algo secundário. [...] Ultrapassar o limite

estreito da produção do espaço enquanto mercadoria e do cidadão enquanto

força de trabalho torna-se necessário, o que envolve refletir o espaço urbano

em seu sentido mais amplo, entendendo o espaço geográfico como uma

produção social que se materializa formal e concretamente em algo passível

de ser apreendido, entendido e apropriado pelo homem, como condição e

produto da reprodução da vida, isto porque a relação entre o habitante e a

cidade é atravessada por modos de apropriação e usos envolvendo uma

multiplicidade de elementos. A análise do fenômeno urbano sublinha, assim,

o que se passa fora do âmbito do trabalho, mas ligado a ele, e com isso

acentua a esfera da vida cotidiana de modo que a reprodução do espaço

urbano, articulado e determinado pelo processo de reprodução das relações

sociais, se apresenta de modo mais amplo do que relações de produção

stricto sensu (a da produção de mercadorias), envolvendo momentos

dependentes e articulados. É nesse sentido que o plano da reprodução se

impõe àquele da produção (CARLOS, 2007, p. 85).

O pensamento de Corrêa (2011, p.41) parte do pressuposto que os agentes sociais

possuem uma relação com a escala e a produção do espaço de forma que agentes sociais

concretos agem sobre a produção do espaço com papeis não definidos, com contradições e

práticas que ora são própria de cada um ora são comuns a todos. A escala é uma dimensão

espacial na qual a ação humana se realiza.

Vasconcelos nos traz uma “possibilidade de ampliação do uso dos agentes sociais na

Geografia Urbana” (VASCONCELOS, 2011, p 91) com o intuito de avançar no estudo dos

agentes sociais na Geografia, examinando as

[...] diversas possibilidades das ações dos agentes sociais no espaço urbano,

tendo em vista as diferentes estratégias e práticas espaciais seguindo

interesses convergentes ou contraditórios (VASCONCELOS, 2011, p 91).

Assim o autor propõe:

1) Agentes vistos como indivíduos, como famílias ou ainda como grupos

sociais;

2) Agentes vistos como empresa, associações ou outras instituições coletivas

(como contratos, normas etc.);

3) Agentes privados ou públicos (limites do privado; papel normativo e outros

do público);

4) Agentes legais ou ilegais (ou “formais” ou “informais”) (Direito,

regulamentação);

5) Agentes hegemônicos ou dominantes, ou dominados (poder, economia,

cultura etc.);

6) Agentes visíveis ou invisíveis (ex. decisões tomadas por agentes do mercado

financeiro);

7) Agentes móveis ou imóveis (ex. mobilidade dos empresários, dos

residentes);

8) Agentes examinados segundo suas ações locais, regionais, nacionais ou

globais (escala);

9) Agentes centrais ou periféricos (em diferentes escalas);

10) Agentes internos e externos à cidade (decisões locais ou decisões externas);

11) Agentes revolucionários ou reformistas (na sociedade com reflexo nas

12) Agentes transformadores ou “conservadores” das cidades (ex. imobiliários,

defensores do patrimônio);

13) Agentes ativos ou passivos (cidadania, participação política, movimentos

sociais);

14) Agentes estáveis ou efêmeros (ex. Igreja, organizadores de eventos);

15) Agentes difusores ou receptores (da técnica, da cultura etc.);

16) Agentes articulados ou desarticulados (noção de redes);

17) Agentes unifuncionais ou plurifuncionais (vários papeis ou funções

exercidos por um agente);

18) Agentes sociais, culturais, econômicos, políticos etc. (plurifuncionais);

19) Agentes religiosos ou seculares;

20) Agentes atuais ou pretéritos.

A listagem não esgota o assunto. No campo da Geografia Histórica Urbana,

por exemplo, o papel dos agentes históricos é fundamental, através do exame

das práticas espaciais dos mesmos, para a análise das mudanças diacrônicas

ocorridas tanto na paisagem como na sociedade urbana, o que tenho tentado

em minhas pesquisas (VASCONCELOS, 2011, p. 91-92)

Diante de tantos exemplos de agentes percebemos que as ações ocorrem de formas

múltiplas e simultaneamente. Os interesses são imbricados e se articulam e em alguns

momentos entram em conflitos em busca de seus objetivos. Segundo Corrêa (2011, p. 43) a

produção do espaço é consequência da ação de “agentes sociais concretos, históricos, dotados

de interesses, estratégias e práticas espaciais próprias, portadores de contradições e geradores

de conflitos”. Os processos sociais como ambientes construídos são materializados pelos

agentes. Agentes sociais e processos sociais são inseparáveis, e ainda são “elementos

fundamentais da sociedade e de seu movimento” (CORRÊA, 2011, p. 44)

Segundo Corrêa (2011), os tipos ideais de agentes são aqueles com ação na

produção, na propriedade latifundiária rural ou urbana, agentes imobiliários, o Estado e os

grupos sociais excluídos.

A partir de sua ação, o espaço é produzido, impregnado de materialidades,

como campos cultivados, estradas, represas e centros urbanos com ruas,

bairros, áreas comerciais e fabris, também pleno de significados diversos,

como aqueles associados a estética, status, etnicidade e sacralidade

(CORRÊA, 2011, p.44).

Para Serpa, (2011) os moradores dos bairros populares são os agentes de

transformação do espaço urbano com uma multiplicidade de ações e uma rede de relações

própria.

Nos bairros populares das metrópoles capitalistas são os moradores os

verdadeiros agentes de transformação do espaço. Pesquisas realizadas no

âmbito das atividades do Grupo Espaço Livre de Pesquisa-Ação

(DGEO/UFBA), nos bairros populares de Salvador, mostram que são

múltiplas as representações desses espaços, entre os grupos/agentes que

compõem suas redes de relações sociais. Descobre-se que os bairros são

culturas transversais que abarcam muitas e múltiplas subculturas (SERPA,

2011, p.98).

Complementando o pensamento de Serpa podemos incluir o pensar de Anna

Tibaijuka, Diretora Executiva da ONU-HABITAT:

Aunque solo sean económicas, las marcadas desigualdades Dan un aspecto

paradójico a labrecha urbana. Las zonas comerciales y residenciales

acomodadas suelen prosperar gracias a los numerosos contatos

internacionales que tienencomla exclusiva red de ciudades "globales"

que dominan la economía mundial. La prosperidad resultante ES lo que

atrae a los campesinos e inmigrantes pobres hacia las zonas urbanas,

com La esperanza de obtener lo que consideran que les corresponde

(TIBAIJUKA, 2009).

2.3 O MERCADO DO SOLO URBANO: O PLANEJAMENTO URBANO DIANTE