3 DO PRIMEIRO GRAU AO MOBRAL: ESPAÇOS ESCOLARES E PRÁTICAS
3.4 O MOBRAL: Movimento Brasileiro de Alfabetização
Na história da educação brasileira, o problema do analfabetismo de jovens e adultos perdurou por muitas décadas na sociedade e ainda se constitui como um problema atual. Historicamente, esse problema teve maior ênfase na região Nordeste do Brasil, onde se encontrava maior carência e dificuldades econômicas.
Diversas instituições e governos criaram programas e políticas de alfabetização, sobretudo na década de 60 do século XX, em que a educação popular ganhou mais ênfase e maior destaque na conjuntura educacional no país.
Em 1961 tivemos: as escolas radiofônicas, através do Movimento de Educação de Base (MEB) projeto da Igreja Católica36. Encontramos também o
período das 40h de Angicos, a campanha “De pé no chão também se aprende a ler” (Natal - RN), as praças de cultura e os movimentos de cultura popular (MCP, Recife- PE)37 derivados dos projetos de educação popular, entre outras políticas e
programas que ganharam destaque e ênfase nesse período, realizando um trabalho de cunho educativo e crítico.
Todos esses programas foram extintos a partir da implementação do Regime Militar Brasileiro (1964 -1985), que considerou os programas equivocados e que não correspondiam ao modelo político e educacional que fora imposto à sociedade brasileira naquele momento.
Órfãos de programas educativos de erradicação de analfabetismo e tendo um dos maiores índices de analfabetismo, o Governo Militar criou o MOBRAL - Movimento Brasileiro de Alfabetização - através do Decreto 5.370, de 15 de dezembro de 1967, como um projeto integrado no ensino brasileiro a partir de uma política pública governamental na área da educação alfabetizadora. Tentou-se preencher o vazio deixado pelas políticas públicas de educação e alfabetização de jovens e adultos que estavam há alguns anos inertes, mediante a ação política do Regime Militar.
Diante dessas situações, percebemos que o Brasil, ao longo das décadas de 60 e 70 do século XX, continuava com um processo de erradicação do analfabetismo, que começara com maior efetividade nos primeiros anos da República brasileira e perdurou todo o século XX e ainda se configura como tema atual na educação e alfabetização em pleno século XXI. Na história da educação no Brasil, os anos 70 ficaram marcados pela atuação do MOBRAL. Com efeito, foi criado em 08 de setembro de 1970 como um organismo executor de uma campanha alfabetizadora, o Movimento Brasileiro de Alfabetização. (PAIVA, 2015, p. 336)
36 Conferir: FÁVERO (2006); CORREIA; PERNAMBUCO (2011) 37 Conferir: VANILDA (2015); ANDRADE (1996)
Em relação ao MOBRAL, precisamos compreender o contexto da época. Já estava em vigência o Regime Militar e esse programa era do Governo Federal. Foi implementado através de Lei e estabelecido como uma modalidade de ensino brasileiro. É nesse contexto que surge o MOBRAL, que perpassara todo o período do Regime Militar, a partir da década de 70 do século XX, como um dos principais projetos deste Governo.
Em uma matéria publicada no Diário de Natal do dia 27/06/1970 tem-se depoimentos do então Ministro da Educação, Jarbas Passarinho (1920 - 2016), que planejou inicialmente a alfabetização para 2,5 milhões de pessoas radicadas em 500 municípios brasileiros e que, a partir do sucesso desse plano, “[...] outro partirá para a alfabetização de 13 milhões de analfabetos radicados em zonas rurais, estabelecendo um programa que prevê a participação dos alunos do ensino secundário e será lançado entre janeiro e fevereiro do próximo ano.” (DIÁRIO DE NATAL, 1970, p. 4)
A partir de estudos e para atender a uma demanda muito grande que era o número de analfabetos que havia ainda no Brasil, “O resultado do censo de 1970 foi de 17.936.887 analfabetos de quinze anos ou mais, correspondendo a 33% da população adulta” (BRASIL, 1973, p. 7). De acordo com o recenseamento geral do IBGE de 1970, o Rio Grande do Norte tinha uma população de 851.503 habitantes maiores de 15 anos e desses, 461.313 não sabiam ler nem escrever. O Estado potiguar correspondia a 54,2% da população adulta como analfabeta, uma porcentagem ainda maior que a taxa de analfabetismo do Brasil. O projeto MOBRAL iniciou, no Rio Grande do Norte, atendendo 12 municípios potiguares e começou suas atividades em setembro de 1970.
De acôrdo [sic] com as comunicações encaminhadas à Secretaria de Educação do Estado, o Rio Grande do Norte será integrado no movimento de alfabetização, a ser iniciada em 8 de setembro, em todo o Brasil, pela fundação MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Informou a professora Zilda Lopes do Rego, secretária de Educação, que já designou a sra. Iracema Brandão coordenadora do MOBRAL local, para o desenvolvimento da ação local, para o desenvolvimento da alfabetização e que 12 municípios do Estado (Natal, Mossoró, Caicó, Santa Cruz, Nova Cruz, São José do Campestre, Pau dos Ferros, João Câmara, Macau, Ceará-Mirim e mais dois serão beneficiados com o plano de alfabetização. (DIÁRIO DE NATAL, 1970, p. 1)
Nessa matéria publicada no Jornal Diário de Natal de 21 de julho de 1970, destaca-se a abrangência inicial do programa, que atendeu, inicialmente, a todas as regiões do Estado do Rio Grande do Norte. Passando para a abertura do programa, ele se estendeu e atendeu, rapidamente, todo o Estado potiguar. 08 de setembro marca uma simbologia, pois a United Nations Educational, and Cultural Organization (UNESCO)38 oficializou essa data como o dia do combate ao analfabetismo, sendo o
dia mundial da alfabetização. Então, a oficialização do MOBRAL, nesse contexto, trazia um significado e um simbolismo marcante para construção de uma ideologia de combate ao analfabetismo.
Os principais objetivos do MOBRAL podem ser traduzidos nos seguintes tópicos: “a) erradicação do analfabetismo; b) integração dos alfabetizados na sociedade; c) dar oportunidade a todos através da educação, beneficiando dessa forma a população menos favorecida. (NISKIER, 2011, p. 410). ” O MOBRAL também deveria, conforme Werebe (1994, p. 228-229 apud COLARES, 2013, p. 45) “propiciar as bases eleitorais, uma vez que escrever o nome era condição legal para que alguém pudesse atingir o conceito de cidadão, evidentemente que limitado ao fato de se tornar eleitor”.
Daí, surge um estímulo político para que as pessoas se alfabetizassem para se tornar eleitoras. Ao saber escrever o nome, o indivíduo já não era mais considerado analfabeto, podendo pleitear o seu direito ao voto. É bem verdade que escrever o nome não significa que o indivíduo está alfabetizado, mas essa foi uma prática muito comum ao qual o MOBRAL cumpriu esse papel. Os convênios eram celebrados entre os setores educacionais do Governo Federal e os representantes dos municípios. Em Riachuelo - RN aconteceu que
Houve muitas reuniões de pessoas idôneas, de secretários, pessoas diretamente, não sei da presidência da República, talvez, eu não me lembro, mas que era para quê? Para procurar aquelas pessoas de idade. Não era só criança, porque criança já tinha no município. [escola]. Aquelas pessoas de idade e a gente encontrava aquela dificuldade para aquelas pessoas virem. Umas pessoas diziam: mas, eu não vou não, já tô velho... Eu dizia não faça isso não, velho também aprende. Aprende a ler. Não tenha dúvida. Por sinal até saiu à história “de pé no chão também se aprende a ler”, isso foi dito aqui várias vezes [...] (CRUZ, 2018, p. 4, grifo nosso)
Como podemos observar, identificamos que representantes da presidência mantiveram contato com os municípios. Em seu depoimento, o presidente do MOBRAL no município, Cleudisson de Azevedo Cruz, destaca as reuniões para organização e celebração do convênio entre a Prefeitura Municipal de Riachuelo e os representantes do Executivo Nacional. As reuniões podem ter acontecido ao final dos anos 60 e os entrevistados na pesquisa não souberam informar a data precisa, mas há documentos, levantamentos e registros do ano de 1973.
Figura 29: Ofício 01/73
Fonte: Arquivo da Secretaria Municipal de Educação (1973)
A partir da leitura desse ofício, chegamos à conclusão de que o programa estava em atividade e que já se havia feito e renovado convênios do MOBRAL e do município anteriormente a 1973. De acordo com projetos educacionais da Secretaria Municipal de Educação de Riachuelo - RN, “O programa de educação de adultos teve início no ano de 1970, tendo fracassado por um certo período por falta de recursos humanos, dando continuidade no ano seguinte. ” (SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO, 1986).
De acordo com o IBGE, no recenseamento de 1970, Riachuelo tinha mais de 40% de analfabetos entre área urbana e rural, um índice maior que o Estado do Rio Grande do Norte e o Brasil. A equipe local do MOBRAL era composta pelo Presidente do MOBRAL, Chefe de Posto Cultural, Supervisora de Ensino, além de todos os professores que faziam parte dessa equipe. Para o município de Riachuelo - RN tivemos o modelo de programa de combate ao analfabetismo funcional. Em outro ofício, verificamos o processo de celebração de convênios.
Figura 30: Ofício circular 19/76
Fonte: Arquivo da Prefeitura Municipal de Riachuelo/RN (1976)
O MOBRAL trabalhava mediante convênios diretamente com os municípios e cada Estado da federação tinha uma coordenação estadual responsável por organizar e informar ao MEC a situação dos municípios, bem como oferecer um suporte pedagógico e organizacional. A cada seis meses, a referida prefeitura recebia um oficio para que fosse celebrado um novo convênio.
Percebamos que é dada muita ênfase à gestão do prefeito, para que ele se sensibilize para o problema do analfabetismo, colocando-o como um agente
responsável para que, na sua administração, fosse possível “erradicar ou diminuir consideravelmente o número de analfabetos existentes”, conforme descrito no ofício 19/76. O MOBRAL também realizou outras ações e programas para que pudesse diversificar e consolidar suas ações de combate ao analfabetismo.
O Programa de Educação Integrada (PEI), implantando em 1971, tinha por finalidade promover a continuidade dos estudos dos alunos que haviam iniciado no Programa de Alfabetização Funcional. No período de 1972 a 1976, houve uma grande expansão desse programa que, por sinal, foi ampliado com base em convênios estabelecidos com as secretarias de educação. [...] O programa MOBRAL Cultural, criado em 1973, como um desdobramento e continuidade dos programas educacionais, procurava estabelecer um processo de alfabetização já iniciado e motivar os alfabetizandos a continuar a frequentar os cursos. Nessa situação, o lema do apoio a comunidade era frequentemente utilizado. (FREITAS; BICCAS, 2009, p. 250)
Para que esse analfabeto também pudesse consolidar seus estudos e aprimorar seus conhecimentos com os cursos de analfabetismo funcional, também eram oferecidas salas de aula com a educação integrada, termo usado para as salas de aula que eram compostas por alunos que davam continuidade aos estudos após ser alfabetizados e ações de cunho cultural, como projeto Tonus, cantadores de viola, Mobralteca, dentre outros.