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5. O SUPERENDIVIDAMENTO

5.5 EXPERIÊNCIAS DO DIREITO ESTRANGEIRO

5.5.2 O modelo americano

Foi nos EUA que, no início do século XX, nasceu o crédito ao consumo, onde primeiro perdeu a sua conotação moralmente negativa e se vulgarizou.577

O modelo neoliberal americano encara o superendividamento como um risco associado à expansão do mercado financeiro, e, em razão disso, investe na socialização do risco de desenvolvimento do crédito, concebendo uma responsabilidade limitada para o consumidor. Outrossim, encara a proteção desse mesmo consumidor como uma forma de aumentar sua confiança no mercado, a aquisição de produtos financeiros, gerando crescimento econômico, enfatizando as técnicas de transparência e controle das abusividades.

Como observa Clarissa Costa Lima, o sistema americano sempre incentivou o empreendedorismo e os gastos de consumo por meio do crédito, como forma de criar uma economia vibrante, Portanto, nada mais natural, que a lei de falência objetive incluir o devedor como um agente produtivo, para que permaneçam altos os gastos de consumo, e, consequentemente, a economia se desenvolva.578

577

MARQUES, Maria Manuel Leitão. O endividamento dos consumidores. Coimbra: Almedina, 2000, p. 273.

578

A propósito, observa Marques Leitão que o regime jurídico norte-americano direcionado ao tratamento do sobreendividamento é complexo na prevenção e no tratamento, na medida em que combina direito federal com direito estadual.579 Entretanto, o que importa analisar é o regime de falências propriamente dito, que oferece proteção aos sobreendividados, oportunizando o escalonamento das suas dívidas, sem terem de recorrer à imediata liquidação dos bens.

Os EUA permitem a falência dos devedores, pessoas físicas, desde 1898 e o perdão das dívidas é a principal medida concretizadora do fresh start concedida ao consumidor.

Atualmente, o regime americano sobre falência encontra-se no Bankruptcy Code, de 1978, podendo as pessoas físicas recorrer aos arts 7, correspondente a filosofia do “fresh start

policy”, ou 13, baseado na filosofia da “reeducação”, ou, marginalmente, ao 11, baseado na

“reorganização”, concebido preferencialmente para as empresas.580

Certa investigação ocorrida em 1991 revelou que os consumidores que efetivamente recorriam ao processo de falência encontravam-se em condições financeiras difíceis, com baixa do poder econômico, e que a instabilidade no emprego era um importante indutor dos processos de falência, assim como o acesso ao crédito pelas classes menos favorecidas, nomeadamente através do cartão de crédito, o aumento de despesas de saúde, dentre outros fatores.581

O consumidor tem que proceder a escolhas, ao recorrer ao regime de falências. Primeiramente, deve escolher entre o recurso ao capítulo 7 e o recurso ao capítulo 13. Ao abrigo do capítulo 7 está a obrigação do consumidor de abrir mão de todos os seus bens não- isentos de modo a que de sua venda resulte o valor necessário para pagar a dívida. Ao abrigo do capítulo 13 esta a permissão da manutenção dos bens, desde que o plano proposto pelo devedor preveja o pagamento das dívidas ao longo de certo período, jamais superior a 5 anos, devendo o devedor reservar o “rendimento excedentário” ( que excede o mínimo necessário à sobrevivência) . 582

A opção pelo capítulo 7 representa a liquidação dos bens penhoráveis do devedor para a quitação das dívidas. As dívidas que remanescem são perdoadas, à exceção das fiscais e

São Paulo: RT, 2014, p. 125.

579

LIMA, Clarissa Costa de. O tratamento do superendividamento e o direito de recomeçar dos consumidores. São Paulo: RT, 2014, p.272 580 Ibid, p. 272 581 Ibid, p. 277 582 Ibid, p. 279

alimentares. Essa opção, outrossim, representa a manutenção de todos os rendimentos futuros que o devedor venha a angariar, pois a responsabilização do devedor cessa com a venda dos seus bens. Trata-se de uma via um pouco lenta, já que se concede ao devedor um novo começo (fresh start) em 04 meses, mas que o impede de recorrer ao mesmo sistema por um período de 06 anos. 583

Assim, no sistema americano o perdão das dívidas é o fim e o começo, no sentido de que encerra o procedimento legal da falência com efeito de coisa julgada, e o começo, porque está relacionado à concessão de uma nova oportunidade aos devedores honestos de recomeçar a vida sem o peso opressivo psicológico de dívidas anteriores.

O perdão pode ser obtido no início do procedimento, quando não há bens a liquidar, como ocorre no capítulo 7, ou após o cumprimento de um plano de pagamento que contemple o reembolso de parte das dívidas, como ocorre no capítulo 13.

Podem ter acesso ao capítulo 7 uma pessoa singular ou uma sociedade, sendo indiferente o valor da dívida envolvida, mas somente a pessoa singular pode ser beneficiada com o perdão da dívida, o qual não anula as garantias sobre determinado bem. 584

Quanto ao procedimento específico, o devedor entrega uma petição no tribunal de falências com informações precisas sobre os credores, natureza e montante das dívidas, fonte, valor e regularidade dos rendimentos que aufere, seus bens e seus encargos mensais essenciais (alimentação, transporte, impostos, medicamentos, aluguel, etc.). Com a mera entrega da petição, as execuções contra o devedor ficam suspensas. Nos 20 a 40 dias após a entrega da petição, realiza-se uma reunião de credores, com a presença indispensável do devedor, que deve responder a eventuais questões apresentadas pelos credores sobre seus bens e negócios , e do administrador da falência. 585

O Tribunal deve estar atento para evitar um recurso abusivo ao capítulo 7, quando for possível o recurso ao capítulo 13, podendo, inclusive, rejeitar o pedido de falência se

583

LIMA, Clarissa Costa de. O tratamento do superendividamento e o direito de recomeçar dos consumidores. São Paulo: RT, 2014, p.280. O credor pode exigir do devedor um “reaffirmation agrément” assinado pelo devedor e legitimado pelo Tribunal, o que consiste numa promessa de pagamento de dívidas e permite ao devedor a manutenção dos bens que seriam de garantia. A proposito, o reembolso de uma dívida perdoada na falência só pode ocorrer se houver acordo voluntário entre devedor e o credor, ou seja se ocorrer o “reaffirmation

agrément” 584

Ibid, p. 280

585

Ibid, p. 280. Frise-se que o administrador da massa falida tem como tarefa inicial liquidar os bens penhoráveis do devedor, de forma a maximizar o montante a pagar aos credores sem garantia. Deve também empenhar-se na recuperação de dinheiro ou propriedade retirados do patrimônio do devedor de modo indevido. No mais, não tem muito o que fazer , já que os pedidos de isenção do devedor retiram da massa falida uma parte dos ativos disponíveis.

descobrir, por exemplo, que o perdão de dívidas constituiria um “abuso substancial”, em razão de poder o devedor possuir rendimento para pagar parte delas.

Depois da distribuição do montante apurado com a venda dos bens pelos credores sem garantias o devedor fica, em princípio, desonerado das obrigações anteriores ao requerimento da falência. Entrementes, o perdão de dívidas não é total, subsistindo algumas dívidas após o encerramento da liquidação, tais como as dívidas não mencionadas no requerimento de liquidação, impostos, multas, pensão de alimentos, empréstimos para educação concedido por órgão oficial.

O capítulo 13 permite ao devedor a oportunidade de reestruturar o seu passivo sem ter de liquidar os seus bens, fazendo seus pagamentos à custa do rendimento futuro, num montante que equivale, no mínimo, ao que os credores receberiam caso o capitulo 7 fosse aplicado.

A iniciativa pelo capítulo 13 é mais restrita do que a prevista no capítulo 7, pois somente o devedor pessoa física, com rendimentos regulares, cujas dívidas sem garantias sejam inferiores a determinado patamar, pode desencadear o procedimento. Assim como ocorre no capítulo 7, o processo tem início com a entrega de uma petição no Tribunal de Falências pelo devedor, a qual deve ser acompanhada da indicação dos bens e encargos, dos rendimentos e das despesas atuais, dos negócios desenvolvidos, da lista dos credores, do montante e natureza das dívidas. Quinze dias após a entrega, o devedor deve formular um plano de pagamento, com base no seu rendimento disponível, ou seja, excluído o mínimo necessário à sua sobrevivência.

O plano apresentado pelo devedor pode ser contestado pelos credores, mas não são os credores que decidem a favor ou contra, ficando essa missão a cargo do Tribunal, que homologará o plano, desde que preenchidas certas condições, a saber: os créditos com garantia serem pagos durante a execução do plano, rendimentos do devedor serem suficientes para a execução do plano, plano aplicar-se a totalidade do rendimento disponível.

No caso de ter o devedor dificuldade de cumprir o plano proposto, o administrador pode anular o capítulo 13, e o devedor pode decidir converter o seu plano de pagamento do capítulo 13 num processo do capítulo 7, obtendo, assim, o perdão das dívida, com as exceções já referidas. Em caso, ainda, de incumprimento do plano por motivos que transcendem o seu controle (doença, por exemplo), pode ser beneficiado com uma “hardship discharge”, ou seja, um perdão, quando já não é possível modificar o plano inicialmente proposto.

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