5. O SUPERENDIVIDAMENTO
5.5 EXPERIÊNCIAS DO DIREITO ESTRANGEIRO
5.5.1 O modelo francês
Na França, a estabilização da taxa de inflação a partir de 1970 favoreceu a subscrição de créditos a médio e longo prazo, destinados principalmente à aquisição da casa própria. Outrossim, difundiram-se novos produtos bancários, dentre os quais os cartões de crédito e as linhas de crédito permanente, o que ensejou um aumento da taxa de endividamento das famílias francesas. 568
No final da primeira década de setenta consagraram-se regras sobre a informação e proteção dos consumidores no quadro de certas operações de crédito, ensaiando-se uma primeira tentativa de prevenção dos riscos do superendividamento.
Somente em 1989 foi apresentado um Projeto de Lei ao parlamento destinado ao tratamento das situações de sobreendividamento dos particulares, que transformou-se na Lei 89-1010, mais conhecida por Lei Neiertz, em homenagem à sua autora, a então Ministra responsável pelas questões de consumo Véronique Neiertz.
Em 1993, o procedimento de tratamento das dívidas não profissionais de particulares sobreendividados passou a integrar o Código de Consumo, nos arts.L.331-1 a L.333-8. Em 1995 569sofreu uma primeira reforma, através da Lei 95-125, de 8 de fevereiro, e, em 1998 uma segunda através da Lei 98-657, de 29 de julho. Em 2003, nova lei oriunda do Ministério da Cidade e Renovação Urbana, inaugura o procedimento de “reestabelecimento pessoal”
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MARQUES, Maria Manuel Leitão et al. O endividamento dos Consumidores. Coimbra : Almedina, 2000, p. 230.
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para os casos de superendividamento mais grave, com possibilidade de perdão total. 570
A Lei Neiertz, e suas modificações, numa orientação social, previu um processo de reestruturação global das dívidas, de caráter misto, repartido, estrutural e funcionalmente, em dois momentos sucessivos, distintos, portanto, mas complementares: uma fase administrativa conciliatória, e uma fase judicial (redressement judiciare civil), desencadeada apenas no caso do insucesso da primeira fase. Ao lado dessas possibilidades, há a possibilidade da utilização do prazo de reflexão (délai de réflexion) como instrumento de prevenção do superendividamento, previsto somente em casos particulares como os de crédito ao consumo.(art.311-15, do Code de la consommation).
Na esteira da Lei Neiertz, o procedimento administrativo se abre obrigatoriamente pela própria iniciativa do consumidor perante as comissões de superendividamento571 dos particulares, instituídas em todos os departamentos da França. O primeiro passo consiste na análise do requerimento do devedor pela comissão de superendividamento, que deve preencher os critérios estabelecidos legalmente, quais sejam: ser pessoa física 572, cidadão francês domiciliado em França ou país estrangeiro e cidadão estrangeiro residente na França, de boa-fé 573, passivo ou ativo inconsciente, se encontrar em situação de impossibilidade manifesta de fazer frente ao conjunto de suas dívidas contraídas em território francês , exigíveis e a vencer ( art. 331-2, do Code de la consommation).
As condições de abertura do procedimento são as mesmas para todas as espécies de superendividamento, independente das causas e do nível de endividamento, e resultam da definição inserta no art. L330-1, do Código do Consumo, segundo o qual “a situação de superendividamento das pessoas físicas é caracterizada pela impossibilidade manifesta para o devedor de boa-fé de pagar o conjunto de suas dívidas não profissionais exigíveis e a vencer”.
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LIMA, Clarissa Costa de Lima. O tratamento do superendividamento e o direito de recomeçar dos
consumidores. São Paulo: RT, 2014, p. 88. 571
Compostas por 5 elementos: representante do Estado no departamento, o tesoureiro geral, representante local do Banco da França, diretor dos serviços fiscais, representante da associação francesa de instituições de crédito e um representante das associações de famílias ou de consumidores. ( Cf. MARQUES, Maria Manuel Leitão et al.
O endividamento dos consumidores. Coimbra: Almedina, 2000, p. 238) 572
Pessoa física que adquiriu bens ou serviços a crédito destinados ao seu uso pessoal.
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Frise-se, por oportuno, que a boa-fé contratual se presume em relação aos superendividados passivos que sofreram acidentes na vida , como divórcio, separação, desemprego, etc. Em relação ao superendividado ativo inconsciente , considerando-se o contexto de consumo generalizado, e ser esse devedor uma vitima de uma “espiral de endividamento infernal”, também presume-se a sua boa-fé contratual. Somente na hipótese de prestar o devedor informação falsa ao credor ou sonegar informação relevante e decisiva para obter o crédito serão reputados de má fé no momento da contratação, não merecendo participar do procedimento. A propósito, vale destacar que, em nosso entendimento, a imprevidência ou negligencia do devedor não é comportamento suficiente para caracterizar a má fé, que só resta caracterizada quando o devedor tiver consciência de criar ou agravar o seu endividamento para fraudar os credores.
Aceito o pedido (os credores podem recorrer judicialmente para contestar a falta de preenchimento dos requisitos) cabe à comissão promover a conciliação574entre o devedor e seus credores, a fim de elaborar um plano convencional de relacionamento das dívidas e medidas (reescalonamento das dívidas, perdão das dívidas, redução ou supressão dos juros, criação, reforço ou substituição das garantias, abstenção de atos que agravem o estado de insolvência, etc), com prazo máximo de 10 anos, que seja acolhido pelo devedor e seus principais credores (art. L. 331-6), e que reserve um “reste à vivre”575a favor do devedor, fixado com base na fração impenhorável da retribuição e tendo como limite o rendimento mínimo de inserção (art. L. 331-2). Até a aprovação do plano de pagamento ou homologação das medidas recomendadas pela Comissão ou até a abertura do procedimento de restabelecimento pessoal, as execuções em curso contra o devedor ficam suspensas, não podendo essa suspensão exceder a um ano (art. L331-5).
Depois de aprovado e assinado pelo devedor e principais credores o plano passa a constituir um contrato vinculativo. Em execução, o plano deve ser cumprido, de modo que o seu inadimplemento imputável ao devedor gera caducidade do plano de reestruturação dando aos credores o direito de reclamar individualmente seus créditos.
Quando o sobreendividado e seus credores não logram chegar a um acordo sobre o reescalonamento das dívidas, limita-se a comissão de sobreendividamento a atestar a ausência de conciliação. Doravante, avança-se à fase judicial, a partir de novo impulso da parte insolvente, a quem cabe, no prazo de 15 dias, requerer à comissão administrativa de sobreendividamento que proponha ao Juiz de execução competente, no prazo máximo de dois meses, um conjunto de medidas de recomendações576 sobre a reestruturação do seu passivo, a
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Essa fase de conciliação não faz parte do processo de falência americano, onde a tentativa de conciliação ocorre antes do processo, ou seja, extrajudicialmente, na prática conhecida como Credit Counseling.
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Na primeira década de aplicação da lei , a Comissão tinha a liberdade de decidir qual o valor reservado ao sustento , mas costumava deixar margem pequena (variava entre 180 a 800 dólares, conforme perfil do endividado ), o que prejudicava o reembolso das dívidas conforme o previsto no acordo. Para remediar essa situação a lei sobre exclusão social, de 29.07.1998, introduziu o conceito de reste a vivre, definindo-o como “uma parte dos recursos necessários para as despesas correntes do lar” ( art.L.331-2, do Código de Consumo.) , o que alcança despesas com eletricidade, gás, água, alimentação e escolaridade. O valor correspondente não pode ser inferior ao revenu minimum d’insertion ( RMI) e o valor dos reembolsos impostos ao devedor não pode ultrapassar a parte impenhorável de seu salário., de modo que o valor fixado para o reste a vivre ficará compreendido entre o RMI e a parte impenhorável do salário.( Cf. LIMA, Clarissa Costa de. O tratamento do
superendividamento e o direito de recomeçar dos consumidores. São Paulo: RT, 2014, p. 94-95) 576
Na consonância do art. L.331-7, da Lei Neiertz, as medidas que a Comissão de Superendividamento pode adotar são : reescalonamento do pagamento das dívidas ou mesmo o deferimento do pagamento de algumas delas durante o prazo máximo de oito anos; afetação dos pagamentos prioritariamente ao capital; fixação de taxas de juros mais reduzidas para os débitos já reestruturados, conforme a situação do devedor assim o exija; redução do remanescente da divida; sujeição do devedor a um conjunto de comportamentos destinados a garantir
fim de serem submetidas aos credores, e, uma vez aceitas por estes, e homologadas pelo Tribunal, serem aplicadas por um período de 8 anos.
A partir da apresentação das propostas, independente de contestação às mesmas, passa a ser obrigatória a intervenção do Juiz, a quem caberá a verificação dos créditos, se solicitado pela comissão ou devedor; suspender os processos executivos pelo prazo máximo de um ano; conferir força executória às recomendações ou à moratória proposta pela Comissão; analisar as contestações das recomendações da Comissão de Superendividamento.
O sistema francês de falência se caracteriza pela filosofia da reeducação, ou seja, os devedores devem ser responsabilizados pelo pagamento dos credores ainda que isso implique o comprometimento do seu rendimento futuro. Assim, uma vez submetido o pedido ao magistrado, este, embora desempenhe um papel consideravelmente reduzido em todo o processo, quando comparado com a Comissão de Sobreendividamento, pode requerer informações a qualquer entidade para melhor apreciar a situação do endividado, ordenar medidas de reescalonamento, solicitar nova tentativa de conciliação das partes; ordenar a pedido a execução provisória de algumas medidas recomendadas pela Comissão; perdoar a totalidade ou parte das dívidas não fiscais ou de alimentos; substituir o plano da comissão pelo seu de reestruturação do passivo; conferir exequibilidade ao pedido de moratória proposto pela Comissão, por dois anos, durante a qual poderá reduzir as taxas de juros.
Percebe-se que, para remediar as situações agravadas de “superendividamento- insolvabilidade”, na qual o devedor não dispõe de bens e nem de recursos para o pagamento de suas dívidas, o legislador francês previu o perdão das dívidas, parcial ou total, e a moratória, cabendo ao Juiz conferir exequibilidade ao pedido dessa moratória, proposto pela Comissão, por dois anos, durante a qual poderá reduzir as taxas de juros. A corte de cassação recomenda a aplicação conjunta da medida extraordinária do perdão parcial das dívidas do art. 331-7-1 com as medidas ordinárias do art.L331-7 (reescalonamento, prorrogação dos pagamentos, redução das taxas de juros).
Interessante fixar que, se após a moratória, o devedor permanecer insolvente, poderá a Comissão recomendar excepcionalmente o perdão total das dívidas, não alimentares ou fiscais, ficando proibido por 8 anos outro perdão a dívidas semelhantes às que foram perdoadas ao abrigo da moratória.
Se, ao contrário, registrar melhora na condição do devedor, a comissão recomendará o pagamento das dívidas e a evitar o agravamento da sua situação do extremo endividamento.
quaisquer das medidas previstas no art. L. 331-7, do Code de la consommation: reescalonamento do pagamento das dívidas, ou mesmo o deferimento do pagamento de algumas delas durante o prazo máximo de oito anos; afetação dos pagamentos prioritariamente ao capital; fixação de taxas de juros mais reduzidas para os débitos já reestruturados, conforme a situação do devedor assim o exija; redução do remanescente da divida; sujeição do devedor a um conjunto de comportamentos destinados a garantir o pagamento das dívidas e a evitar o agravamento da sua situação do extremo endividamento.
Se após a moratória, a situação do devedor piorar, não sendo possível apurar o passivo mediante a conjugação do perdão parcial com outras medidas ordinárias, estará caracterizada situação irremediável, que autoriza a abertura do procedimento de restabelecimento pessoal (art. L.331-7-2, do Código do Consumo).
O sistema adotado pela França, portanto, encara o superendividado como ser responsável e decente, que, numa visão humanizada, precisa ser reeducado, como fator de desenvolvimento da economia e social, estimulando os credores na composição amigável e valorizando o esforço no cumprimento das obrigações.