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Capítulo II Revisão bibliográfica

2.6 Uma perspectiva de redes industriais

2.6.1 O modelo ARA – Actores, Recursos e Actividades

A Abordagem de Redes Industriais, providencia uma base conceptual coerente para a compreensão da complexidade desta intrincada rede de relacionamentos. O modelo de redes industriais é constituído por três classes de variáveis, nomeadamente os actores, os recursos e as actividades (Håkansson, 1987; Håkansson e Johanson, 1992). Håkansson e Johanson (1992), consideram que o objectivo principal do modelo é tornar possível uma análise integrada de estabilidade e mudança na indústria e o secundário, providenciar a base para o estudo dos papeis desempenhados pelos actores nos processos de desenvolvimento industrial. Na estrutura base do modelo, cada uma das três variáveis (actores, recursos e actividades) insere-se numa rede própria, mas por serem interdependentes entre si, o conjunto total assume a designação de rede industrial (ver a Figura 1).

Figura 1. O modelo de rede.

Os actores controlam recursos, Os actores desempenham actividades. alguns em conjunto. Os actores têm algum conhecimento Os actores têm algum conhecimento dos recursos. das actividades.

REDE

As actividades ligam recursos uns aos outros.

RECURSOS Os recursos são heterogéneos, humanos e físicos e mutuamente dependentes ACTIVIDADES As actividades incluem o acto de transformação, o acto de transacção, ciclos de actividade e cadeias de transacção

ACTORES

Em diferentes níveis – desde indivíduos a grupos de empresas – os actores visam aumentar o controlo

As actividades mudam ou trocam recursos através

do uso de outros recursos.

Os actores são aqueles que executam actividades e/ou controlam recursos e dependendo do nível de análise, podem ser indivíduos, grupos de indivíduos, partes de empresas, empresas ou grupos de empresas (Håkansson e Johanson, 1992). Os relacionamentos entre os actores são desenvolvidos através de processos de troca, o que lhes permite o acesso aos recursos de outros e faz com que cada actor esteja integrado numa rede de relacionamentos com outros actores. Uma vez que os actores controlam recursos e desempenham actividades, pretendem de uma forma geral aumentar o seu controlo sobre a rede, fazendo crescer a sua autonomia e reduzindo a influência de outros que tenham objectivos diferentes ou conflituosos. Este controlo sobre os recursos pode ser obtido directamente através da posse, ou indirectamente, através dos relacionamentos e a dependência de vários actores de um actor focal pode permitir que este tenha acesso aos recursos controlados por aqueles.

O facto de controlarem diferentes combinações de recursos e actividades e estarem inseridos em diferentes relacionamentos, permite que cada actor seja perspectivado como sendo único, em virtude de adquirir um conhecimento diferenciado acerca das actividades, recursos e de outros actores na rede (Håkansson e Johanson, 1992). Segundo os autores, numa rede há interesses conflituosos e comuns assim como esforços conjuntos para providenciarem por aqueles interesses. Nestes esforços, os actores usam o seu conhecimento da rede e os relacionamentos com outros actores, para aumentarem o seu controlo sobre a rede.

As actividades ocorrem, quando um ou vários actores combinam, desenvolvem, trocam ou criam recursos através da utilização de outros recursos (Håkansson e Johanson, 1992). Podemos distinguir dois tipos de actividades básicas: de transformação e de transferência ou troca. No primeiro tipo de actividades, os recursos

são alterados de alguma forma e são sempre controlados directamente por um só actor; no segundo tipo, aquelas são transferidas entre actores e ligam as actividades de transformação destes. Em virtude das actividades de transformação e transferência estarem ligadas, formam-se cadeias de transacção potenciando a criação de redes de actividades.

As actividades podem estar encadeadas entre si de diferentes maneiras e com vários graus de interdependência. A procura de eficiência na execução de actividades, pode envolver esforços visando a redução da quantidade de recursos utilizados para as desempenhar, adaptações mútuas de recursos e actividades ao longo do tempo e a aprendizagem de como desempenhar e coordenar as actividades de novas formas. As melhorias incrementais ocorrem, em virtude de alguma estabilidade, que resulta de rotinas e regras informais criadas devido à repetição continuada das actividades e à adaptação e aprendizagem dos actores ao longo do tempo. Conforme referem Håkansson e Johanson (1992), em virtude da eficiência poder ser sempre melhorada através da mudança da estrutura da rede de actividades existentes, dificilmente se pode assumir a existência de níveis óptimos de eficiência.

Os recursos, são os meios controlados pelos actores para levar a cabo as actividades de transformação e de troca, requerendo a sua combinação também recursos, pelo que as actividades de transformação requerem recursos de transformação e as de transferência requerem recursos de transferência (Håkansson e Johanson, 1992). O uso e o valor de um recurso específico, depende de como ele é combinado com outros recursos. Segundo Håkansson (1987), os recursos consistem em activos físicos (e.g. equipamento e material), financeiros e humanos (e.g. força de trabalho, conhecimento e relacionamentos). Os relacionamentos, ao permitirem o acesso e confrontação de

recursos de vários actores, podem também ser perspectivados como um dos recursos mais importantes para as empresas.

De acordo com Håkansson e Johanson (1992), o conhecimento e a experiência dos recursos é importante dada a sua natureza heterogénea, uma vez que quando são combinados, o seu desempenho conjunto aumenta através da aprendizagem experimental e da adaptação. Esta cria, por sua vez, novas possibilidades para combinações novas e melhoradas. Håkansson (1987), considera que apenas a criatividade humana será o limite às combinações possíveis de recursos, já que estas são ilimitadas e estão fortemente associadas ao conhecimento e à aprendizagem dos actores.

Em resumo, as três classes básicas de variáveis (actores, actividades e recursos), estão funcionalmente ligadas, formando no seu seio uma estrutura em rede. Isto porque, as actividades e recursos que cada actor controla, estão inseridos em cadeias de actividades e constelações de recursos interligados entre si de diferentes formas. Os investimentos tangíveis e intangíveis dos actores, na criação destas estruturas ao longo do tempo, geram algum grau de estabilidade; mas a variedade de percepções, interesses e de processos de aprendizagem contribuem para a mudança. Nessa medida e de acordo com Håkansson e Johanson (1992), as redes combinam estabilidade e mudança; algum grau de estabilidade nalgumas dimensões da rede é necessária para que a mudança ocorra e vice-versa.

Uma vez que uma parte importante dos recursos da empresa se encontra para além das suas fronteiras proprietárias, a interacção entre actores é essencial para a compreensão dos relacionamentos (que no modelo de rede são perspectivados também como recursos) e portanto para a interacção entre empresas. Dada a existência de interdependências entre relacionamentos, as interacções no âmbito de um relacionamento podem afectar e ser afectadas por outros relacionamentos. Ao

reconhecer-se a possibilidade de interacção entre actores (e.g. o controlo indirecto de recursos através das relações) e da aprendizagem nesse contexto associada à presença de relacionamentos substanciais entre actores, pode-se assumir que os produtos (e as suas arquitecturas) são desenvolvidos e adaptados ao longo do tempo (não são um dado adquirido), envolvendo processos que vão além das fronteiras proprietárias de cada empresa. É pois no seio desta densa rede de cooperação e afiliação, mas também de conflito, onde há troca e desenvolvimento de conhecimento (Håkansson e Waluszewski, 2002), que as arquitecturas dos produtos podem também ser concebidas em relação estreita com as redes de aprovisionamento e envolvendo os actores, os recursos e as actividades. Esta perspectiva, como se verá em seguida, constitui uma abordagem possível à análise da relação entre arquitecturas de produto e organizacionais. O contraste com as abordagens a este tópico existentes, será discutido mais detalhadamente nas secções seguintes.