ROTEIRO METODOLÓGICO
1.1. O MODELO DE ANÁLISE E AS HIPÓTESES
Uma lição fundamental que aprendi e que tentei apresentar foi a de que não existe tal coisa como um ponto de partida dado, ou sequer disponível: os princípios têm de ser feitos para cada projeto de modo a ‘possibilitar’ o que vem a seguir a eles.
Edward W. Said, 1978
Tendo em conta a revisão bibliográfica elaborada na primeira parte desta investigação, que contribuiu para a análise das transformações que têm ocorrido na cidade contemporânea à luz de um projeto neoliberal que se tem reproduzido no espaço através da aplicação de modelos económicos e financeiros; para a desconstrução do discurso de suposta neutralidade em redor dos conceitos que abordam a produção de cidade; para a clarificação da abordagem ao conceito de conflito urbano no âmbito das cidades contemporâneas; e para compreender o papel da criação artística coletiva na transformação da cidade, desenvolveu-se um modelo de análise que possibilitou, à
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posteriori, a construção de duas hipóteses de trabalho a desenvolver no Raval, em
Barcelona, e na Mouraria, em Lisboa.
Este modelo de análise (Figura 10) assenta nos três conceitos base desta investigação: a cidade, o conflito urbano e a criação artística coletiva. A cidade contemporânea tem reproduzido o projeto neoliberal que se começou a desenvolver no final dos anos 1970 e que rompeu com os princípios de um Estado social, que privilegiava a produção de uma cidade mais justa e democrática. Assim, o esvaziamento do Estado social no sentido da privatização e da mercadorização da cidade desencadeou mecanismos que levaram à produção de uma cidade desigual e violenta (sistema rígido). Contudo, dentro desta cidade dividida há espaços que tendem a resistir às forças hegemónicas de poder, conseguindo construir novas urbanidades (sistema elástico) através da mudança, da criatividade e da criação e produzindo lugares onde o conflito se pode expressar.
No sistema rígido em que se transformou a cidade neoliberal a mercadorização do espaço, muitas vezes, associada a grandes eventos tornou-se atractivo para o investimento financeiro. Deste modo, e na procura de lucro, os investimentos foram direccionados para eixos, como a habitação, que dividiu e fragmentou a cidade contemporânea em pedaços sem relação. No entanto, estas práticas, apoiadas em políticas públicas, conseguiram desenvolver um projeto político que possibilitou o reconhecimento destas cidades ao nível das cidades globais. Muitas são distinguidas pela qualidade do seu turismo e dos seus espaços criativos e inovadores. Mas o que se esconde num lugar invisível nestas cidades? Se por um lado, se desenvolvem espaços exclusivos onde apenas alguns têm o privilégio de aceder, por outro lado, há espaços que se desenvolvem na invisibilidade violenta de uma cidade desigual. Nesta invisibilidade reside uma crescente desigualdade socioeconómica, uma precaridade social assente em níveis de segregação e estigmatização que tendem a aumentar perante a atual crise financeira e económica. Perante este cenário, tornam-se possíveis situações de controlo, onde o medo e a dialética entre segurança e insegurança se tornam uma arma poderosa. A construção destes espaços de medo, a que se associam, muitas vezes, aos espaços estigmatizados e segregados da cidade onde residem
123 pessoas com baixas condições socioeconómicas e um ‘outro’ que é considerado desconhecido, perante uma certa homogeneidade que se quer criar, são factores decisivos que justificam e possibilitam determinadas acções, como as que aconteceram em Paris ou Londres.
O espaço público tem sido um elemento chave na definição desta cidade dividida. Se por um lado, este deveria ser um espaço de liberdade e de democracia, por outro, esta utopia desmancha-se quando a tendência é para a sua privatização e para um controlo cada vez maior. Muitas vezes, este controlo está apenas assente em práticas e comportamentos simbólicos que se foram tornando ‘norma’, afastando quem não se encaixe nestes modelos. Apesar desta formatação de políticas, de comportamentos e de práticas, têm-se, também, produzidos espaços de novas urbanidades, de diversidade e de participação democrática coletiva. Ainda que exista uma tendência para uma certa individualização dos indivíduos, os actuais movimentos sociais têm tido um papel importante na contestação, na resistência e na reivindicação do direito à cidade, abrindo assim lugar à existência de conflito. Também nos espaços de criação artística coletiva o conflito se pode expressar. Enquanto lugar político, os espaços de criação coletiva são lugares de resistência a práticas hegemónicas que tendem a reproduzir modelos. Assim, são espaços onde o conflito, a reflexão e a crítica, associados à criatividade, desenvolvem práticas que espelham realidades que se escondem por trás da imagem bonita e de perfeição em que se quer transformar a cidade.
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125 Tendo por base este contexto, o projeto neoliberal presente na produção da cidade contemporânea condiciona a existência de conflito. Contudo, e apesar disso, há alternativas de transformação, de desenvolvimento e de produção de cidade que surgem à margem do paradigma vigente. Deste modo, as práticas artísticas coletivas1, que refletem uma consciência política de transformação e de crítica, podem ser espaços onde é possível existir conflito e onde as tensões acumuladas não desencadeiam situações de violência. Deste modo, coloca-se a seguinte questão: de que modo as práticas artísticas coletivas abrem a possibilidade da existência de espaços de conflito (dentro de uma produção de cidade que privilegia um sistema rígido, que oprime o conflito e que dá lugar a fraturas e a situações de violência)? Assim, tendo em consideração a questão e o modelo de análise de dela decorre, as duas hipóteses que se colocam são as seguintes: 1) os espaços rígidos, associados à produção de cidade assente em princípios de homogeneidade, controlo, eficácia ou competitividade e afastam a possibilidade da existência de conflito. Logo, bloqueia-se a possibilidade do debate de ideias e do pensamento crítico sobre a cidade contemporânea, mantendo-se uma imagem de uma sociedade pacífica e ordeira. Um sistema rígido reprime a existência de conflito exercendo uma pressão que dá lugar ao surgimento de fraturas e de violência; e 2) a existência de conflito está estreitamente relacionada com o espaço público, a possibilidade do exercício da linguagem, uma unidade coletiva, contrariando tendências de relações de submissão e de domínio, a democracia e a cidadania. Os espaços elásticos, que coexistem dentro da cidade ‘dividida’ e que estão associados à heterogeneidade, aparecem como espaços onde o conflito é possível.
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As práticas artísticas coletivas surgem, nesta investigação, em detrimento das práticas individuais, pela importância que atribuem à heterogeneidade e às particularidades de cada espaço, que se tornam mais relevantes e visíveis nestes contextos em análise.
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