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A CIDADE DIVIDIDA

1.1. DA FÁBRICA AO NEOLIBERALISMO

1.1.3. OS INDIVÍDUOS E O CRESCENTE INDIVIDUALISMO

O projeto neoliberal desenvolveu nos habitantes da cidade um carácter racional, impessoal, alienado ou individualista (Sharpe e Wallock, 1987). Mas esta transformação na identidade dos habitantes da cidade, que decorre, também, da transformação das relações de produção, já tinha sido identificado por Georg Simmel no seu texto ‘A metrópole e a vida do espírito’, datado de 1903. Aqui o autor já se referia ao individualismo moderno, à atitude ‘blasé’ e às relações de estranhamento. Neste texto, Simmel (1997) fala-nos da vida moderna na cidade, referindo-se ao desvanecer da pluralidade das identidades, numa tendência global marcada precisamente por uma estética hegemónica e por padrões de consumo e estilos de vida padronizados (não uniformizados mas diferenciados em padrões distintos, estereotipados e separados por ‘fronteiras’, visiveis ou não, no espaço urbano): “os problemas mais complexos da vida moderna decorrem da vontade do indivíduo de preservar a sua independência e individualidade perante os poderes supremos da sociedade (…) O século XIX, para além da liberdade do homem, procurou promover a sua individualidade – relacionada com a divisão do trabalho – e as realizações que o tornam único e indispensável” (1997: 31). Segundo Fortuna (1997: 9), neste texto, “Simmel demarca-se claramente do sentimentalismo e da repugnância com que muitos contemporâneos seus (por exemplo, John Ruskin ou Friedrich Nietzsche) abordam a crescente superficialização das relações sociais nos grandes espaços urbanos”. Isto decorre de Simmel considerar a metrópole como ‘a sede da economia monetária’, o que tem a ver com a organização do capitalismo, dos seus modos de produção e monetarização das relações sociais: “A metrópole foi sempre a sede da

21 economia monetária, desde que a multiplicidade e a concentração da atividade comercial investiram os meios de troca de uma dimensão impossível de assegurar no quadro do mercado agrícola. Ora a economia monetária e o domínio do intelecto encontram-se em estreita relação entre si. Ambos requerem uma atitude pragmática no modo de lidar com as pessoas e com as coisas, na qual se combinam uma justiça formal e uma indiferença implacável. (…) O dinheiro põe em destaque aquilo que é comum, ou seja, o valor de troca, e reduz a um nível puramente quantitativo tudo quanto é qualitativo e individual (…) esta atitude psico-intelectual e a economia monetária encontram-se de tal maneira interligadas que é impossível garantir se foi a primeira que deu origem à segunda, ou vice-versa. A única certeza que temos é a de que a forma de vida na metrópole é o terreno que melhor alimenta esta interação” (1997: 32-33). Para o autor (idem), as características da metrópole moderna e dos seus habitantes estão estreitamente relacionadas ou resultam diretamente da economia monetária: “o espírito moderno tornou-se crescentemente um espírito calculista. O rigor do cálculo da vida corrente, resultante da economia monetária, corresponde ao ideal das ciências naturais, nomeadamente à ideia de transformar o mundo numa questão aritmética e de fixar cada uma das suas componentes numa fórmula matemática” (1997: 33); “devido às características de cálculo do dinheiro, instalou-se, nas relações entre os diferentes aspetos da vida, um grau de precisão e de certeza, a propósito das igualdades e das desigualdades, e uma ausência de ambiguidade nos acordos e negócios” (idem: 34); “a técnica da vida metropolitana não se pode conceber sem que todas as suas atividades e relações recíprocas estejam organizadas e coordenadas da forma mais pontual num calendário determinado que transcende todos os elementos subjectivos” (ibidem: 34); “a essência da atitude blasé encontra-se na indiferença perante as distinções entre as coisas. Não no sentido de que as coisas não são percebidas (…) mas antes no sentido de que não são percepcionadas como significantes. Elas surgem à pessoa blasé num colorido homogéneo, monótono e cinzento, sem que alguma delas possa ser preferida a outra. Esta disposição psíquica é o puro reflexo subjectivo da completa monetarização da economia, na justa medida em que o dinheiro toma o lugar de toda a diversidade das coisas e sujeita todas as diferenças qualitativas ao critério do ‘quanto custa’. Na medida em que o dinheiro, incolor e insensível à qualidade, se torna o denominador comum a todos os valores,

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ele transforma-se num terrível nivelador: esvazia, de uma forma incontornável, a essência das coisas, as suas peculiaridades, o seu valor específico e as suas singularidades. Todas estas qualidades flutuam, com igual peso específico, no imparável fluxo monetário. Permanecem todas ao mesmo nível e apenas a sua quantidade as distingue” (ibidem: 35). E continua dizendo que “na metrópole, a atitude mental das pessoas, umas com as outras, pode ser tida como sendo, formalmente, uma atitude de reserva (…) Se não estou em erro, creio que não é apenas de indiferença que se compõe o lado íntimo desta reserva face ao exterior. Muito mais frequentemente do que julgamos, trata-se de uma leve antipatia, de mútuo estranhamento e aversão, que, ao mais pequeno contacto, pode deflagrar em repulsa e conflito” (Simmel, 1997: 36) e que “na metrópole, esta reserva (…) assegura ao indivíduo um determinado grau de liberdade pessoal, sem paralelo em quaisquer outras circunstâncias” (idem: 37).

Anos mais tarde, também Louis Wirth (19973) nos fala da superficialidade, do anonimato e do carácter transitório das relações urbano-sociais o que explica, também, através da sofisticação e da racionalidade “geralmente atribuídas aos habitantes da cidade. A relação com os nossos conhecidos tende a ser uma relação utilitária, no sentido em que o papel que cada um desempenha na nossa vida é basicamente encarado como um meio de atingir os nossos próprios objetivos (…) Isto constitui essencialmente o estado de anomia” (idem: 53). Wirth (ibidem: 57), justifica estes factos associando-os ao desenvolvimento das grandes cidades modernas e do processo de industrialização: “o surgimento da fábrica possibilitou a produção em massa para um mercado impessoal. Porém, a máxima exploração das possibilidades da divisão do trabalho e da produção em massa requer a padronização tanto de processos como de produtos. A economia monetária e este sistema de produção são, pois, indissociáveis. À medida que as cidades se desenvolvem com base neste sistema de produção, a relação monetária contida na aquisição de bens e serviços substitui as relações pessoais de natureza associativa”.

Mas o individualismo continuou a revestir-se de grande importância e Simmel refere que “ para a independência do indivíduo, a atitude de reserva e de indiferença, bem

23 como as condições mentais da vida dos grandes aglomerados, só é realmente apreciada nas densas multidões das metrópoles, em que o limitado espaço de movimento e a proximidade física dos indivíduos justificam de imediato o seu distanciamento mental. É apenas por oposição a esta liberdade que, naturalmente, em determinadas condições, nunca nos sentimos tão solitários e isolados como no bulício das grandes cidades. Porque aqui, como noutros lugares, não é de modo algum necessário que a liberdade dos indivíduos se reflicta na sua vida emocional como experiência agradável” (Simmel, 1997: 38). E o autor (idem) vai mais além dizendo que “basta assinalar que a metrópole é a sede desta cultura, que eliminou todas as características da pessoa. Nos edifícios e nas instituições educativas, nas maravilhas e nas benesses das técnicas de conquista do espaço, na constituição da vida social e nas instituições estatais concretas, por todo o lado, deparamos com impressionantes formas de cristalização e despersonalização dos empreendimentos culturais, perante as quais a personalidade dos homens, por assim dizer, só muito dificilmente pode ser conservada. De um certo ponto de vista, a vida fica infinitamente mais facilitada no sentido de que os estímulos, os interesses e a afectação do tempo e da atenção surgem de todos os lados e conduzem-na por um fluir que pouco ou nada exige dos indivíduos. De um outro ponto de vista, porém, a vida é cada vez mais composta por elementos da cultura impessoal, objetos e recursos que suprimem idiossincrasias e interesses pessoais específicos” (Simmel, 1997: 41).

Com o neoliberalismo, o espaço da cidade voltou a converter-se num lugar de negócio financeiro, com investidores cada vez mais fortes e incontroláveis (pelos Estados), que procuram o lucro imediato, com um mínimo de compromisso com o lugar onde investem (Montaner e Muxí, 2011: 21). Privilegia-se a homogeneização do espaço, produzem-se espacialidades ‘lisas’, sem conflito nem tensão, e reproduzem-se padrões privados de apropriação do espaço, desenvolvendo-se vivências superficiais. Para Smith (2005: 63) “estas novas formas urbanas estão marcadas por bifurcações extremas entre a riqueza e a pobreza, por transformações espectaculares das relações entre as classes e pela dependência de novos fluxos de mão-de-obra imigrante”. Ao mesmo tempo que se aposta na distinção e na diferenciação que se conseguem alcançar através da imagem, do marketing territorial, do perfil da cidade, da oferta

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cultural e da qualidade do ambiente urbano, homogeneízam-se comportamentos, formas de consumo, padrões culturais, perdendo-se e banalizando-se os elementos que os distinguiam. Mais uma vez, se evidenciam aqui algumas contradições. Por um lado, este modelo político-ideológico privilegia a distinção e a diferenciação, tornando os espaços especiais e excepcionais, mais valorizados e competitivos. Mas, por outro lado, aposta em segmentos globalizados de mercado que desenvolvem as suas criações segundo modelos globais e homogéneos. William Moris , no final do séc. XIX já criticava de forma directa o urbanismo capitalista dizendo “não vos deixais enganar pela aparência externa de ordem da nossa sociedade. Passa-se o mesmo que nas antigas formas de fazer guerra, que têm um aspecto exterior de uma ordem magnífica” (1882: s/p). Esta ordem aparente, de criar espaços limpos, higienizados, homogéneos e sem conflito, onde só é permitido acontecer o que é programado, esconde muitos dos problemas da cidade que não se pretende ou não se consegue resolver.

Olhando para as contradições que o modelo revela e perante a atual crise, é evidente que as soluções apontadas no projeto neoliberal apresentam grandes problemas. Mas não se procuram nesta investigação as contradições do capitalismo, e muito menos as do projeto neoliberal. Contudo, o desenvolvimento urbano assente num projeto neoliberal é a matriz da cidade contemporânea e, como tal, desta investigação. Assim, abordar a dinâmica estrutural da cidade torna-se uma necessidade de enquadramento. Nenhum destes factos é novo, “todos estes elementos têm uma larga história que coincide com o capitalismo” (Smith: 2005: 75), e como nos diz, também, Fortuna (2012: 7) são determinantes “para a sobrevivência do capitalismo”. Ao mesmo tempo que se vê a erosão do Estado social e a privatização e mercadorização da cidade, associados a um aumento das desigualdades sociais, a uma maior repressão policial - justificada pela insegurança que os media alimentam - e a frequentes défices de liberdade política, podemos ver também a emergência de novas práticas ligadas a uma renovação do pensamento crítico urbano, à revalorização da cidade enquanto plataforma de diálogo e à existência de espaços de esperança: “Os espaços para uma política transformadora existem porque o capital nunca pode permitir-se fechá-los” diz-nos Harvey (2005 a):56). São nestes espaços alternativos, que conjugam muitas

25 perspectivas diferentes, desde a cidade do Estado Social até às utopias anarquistas que marcaram o séc. XIX e início do séc. XX que se podem abrir outras e novas urbanidades.

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