1. Introdução
1.5 Modelos de competência intercultural
1.5.3 O modelo de Byram
O modelo de competência intercultural que se aplica especificamente às línguas e que é mais conhecido nesse contexto é o de Byram (1997), no qual assenta atualmente a maioria das definições sobre competência intercultural. O autor afirma explicitamente o modelo foi projetado para ajudar os professores de
línguas a entender o conceito competência intercultural10. O modelo teve grande
influência sobre a aceção de competência intercultural no Quadro Europeu Comum de Referência (QECR), assim como para o estabelecimento de descritores de desempenho e metas nos currículos de vários países europeus (por exemplo, Inglaterra, Alemanha, Portugal). Os trabalhos de Byram e Zarate estimularam os programas de língua do Conselho da Europa e os programas Lingua da União Europeia.
O modelo de Byram (1997) baseia-se no modelo de competência comunicativa de Hymes e de Van Ek (vd. 1.1) e fornece uma análise aprofundada dos fatores que influenciam a comunicação intercultural, ou seja, atitudes, conhecimentos e competências, sintetizados na fig. 1.3:
10 Em 2002 foi publicado pelo Conselho da Europa Developing The Intercultural Dimension In
Language Teaching. A Practical Introduction For Teachers, da autoria de Byram, Gribkova, &
Figura 1.3 Fatores envolvidos na competência intercultural. Byram (1997), Teaching and Assessing Intercultural Communicative Competence, Clevedon: Multilingual Matters, p. 34.
Segundo Byram, Gribkova & Starkey (2002:12), atitudes de curiosidade e abertura, “of readiness to suspend disbelief and judgement with respect to others’ meanings, beliefs and behaviours“ a par de “a willingness to suspend belief in one’s own meanings and behaviours, and to analyse them from the viewpoint of the others with whom one is engaging” são indispensáveis para a comunicação intercultural bem-sucedida; acrescenta que as atitudes não precisam necessariamente ser positivas, sugerindo que podem até impedir a compreensão intercultural. Portanto, Byram carateriza as atitudes como a capacidade de distanciamento da mundividência e identidade cultural próprias.
Outro fator importante que os indivíduos trazem para a comunicação intercultural é o seu conhecimento e Byram divide-o em duas categorias: o primeiro é “about social groups and their cultures in one’s own country, and similar knowledge of the interlocutor’s country” (Byram, 1997:35). A segunda categoria considera o conhecimento processual e é resumida como “knowledge of the processes of interaction at individual and societal levels” (idem, ibidem). Este conhecimento abarca o comportamento linguístico e cultural dos intervenientes na comunicação intercultural.
Finalmente, Byram comenta duas capacidades que dependem de conhecimento e atitudes dos participantes e que têm, portanto, influência sobre a eficácia da comunicação intercultural. Por um lado, existem capacidades de interpretar e de
relacionar entendidas como “the ability to interpret a document or event from another culture, to explain it and relate it to documents from one’s own” (Spencer- Oatey & Franklin 2009:66). O segundo conjunto de capacidades, descobrir e interagir, é descrito como a “ability to acquire new knowledge of a culture and cultural practices and the ability to operate knowledge, attitudes and skills under the constraints of real-time communication and interaction” (idem:50), implicando ambas um compromisso ativo dos participantes na comunicação intercultural.
Nesta perspetiva, a competência intercultural tem um domínio afetivo (atitudes), um domínio cognitivo (conhecimento) e um domínio de competências. Byram, além disso, combina no modelo a competência intercultural com competência comunicativa e cria um modelo de competência comunicativa intercultural (CCI) para o ensino de línguas (fig. 1.4):
Figura 1.4 Dimensões da competência comunicativa intercultural. Byram (1997), Teaching and Assessing Intercultural Communicative Competence, Clevedon: Multilingual Matters, p. 73.
O modelo mostra que Byram define a competência comunicativa intercultural como a interação das competências linguística, sociolinguística, discursiva e intercultural. Isso demonstra que não rompe totalmente com os objetivos e
diretrizes da abordagem comunicativa de ensino de LE, antes a expande, acrescentando-lhe uma dimensão intercultural.
Byram garante também que a conexão entre a língua e a cultura é reconhecida. De acordo com o modelo, são necessárias cinco competências (“savoirs”) para desenvolver a competência intercultural e todas elas estão fortemente interligadas com a competência comunicativa. “Savoir comprendre” e “savoir apprendre” integram-se melhor no domínio de capacidades da competência intercultural, que se correlacionam com o que foi já descrito como as capacidades de interpretação e de relacionação.
A última pode ser definida como “an ability to produce and operate an interpretative system with which to gain insight into unknown cultural meanings, beliefs and practices either in a familiar or in a new language and culture” (Byram & Risager, 1999:66). Os “savoirs” correspondem ao "knowledge of aspects of a culture, beliefs and reference points likely to be familiar to natives” (Stroinska, 2001:162), ou seja, ao domínio cognitivo. O domínio afetivo é representado no “savoir être”, aquilo que Neuner (2000:43) descreve como “an affective ability to give up ethnocentric attitudes and opinions when faced with otherness and a cognitive ability to bring about and to maintain a relation between one’s own and a foreign culture”. Além disso, Byram descreve como as atitudes desempenham um papel em “savoir s'engager”, ou seja, “a critical engagement with the foreign culture under consideration of one’s own” (Sercu et al., 2005:4-5).
A influência do modelo de Byram foi grande. Esboça com detalhe o que é a competência intercultural e que tipo de capacidades precisam ser consideradas para o ensino de LE, de acordo com a abordagem intercultural. É útil para os professores medida em que decompõe um conceito complexo nas suas partes constituintes. Além disso, o modelo é projetado especificamente para as aulas de língua, considerando, portanto, o aluno e os resultados esperados de uma abordagem intercultural para o ensino de línguas. Prevê as competências necessárias aos falantes interculturais, não se limitando à competência do falante nativo. O modelo não descura a importância da língua e faz questão de salientar
que a competência linguística é necessária para alcançar a competência intercultural.