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1. Introdução

1.5 Modelos de competência intercultural

1.5.4 O modelo de Darla Deardorff

O modelo de competência intercultural de Deardorff apresenta a primeira definição de Cl e respetivo modelo baseados no método de amostragem teórica (Deardorff, 2006). Num estudo conduzido pela autora, vários especialistas em interculturalidade, originários principalmente dos Estados Unidos, acordaram quanto a uma definição e quanto aos elementos essenciais da competência intercultural. O trabalho descreve os aspetos essenciais para o desenvolvimento desta competência numa ampla variedade de contextos, tendo em conta que se manifesta de forma diferente em função do âmbito ou disciplina. O estudo destaca que a aquisição da competência intercultural é um processo contínuo, ao longo da vida, que a competência intercultural deve ser intencionalmente abordada através de intervenções de aprendizagem intercultural baseadas na teoria e que o processo do seu desenvolvimento é tão importante quanto o resultado. Além disso, recomenda que se avalie a competência intercultural dos alunos recorrendo a uma apreciação centrada numa abordagem multimetodológica e multiperspetiva (Deardorff, 2009).

Deardorff juntou os dados obtidos e concebeu dois modelos/ quadros de referência diferentes. O primeiro, traduzido numa pirâmide da competência intercultural, representa graficamente os elementos fundamentais e a sua relação implícita com resultados externos, que consistem na comunicação eficaz e no comportamento apropriado em interações interculturais (fig. 1.5):

Figura 1.5 Modelo em pirâmide de competência intercultural. Deardorff (2006),“The identification

and assessment of intercultural competence as a student outcome of internationalization at institutions of higher education in the United States”. Journal of Studies in International Education, 10 (3), p. 254.

No modelo, Deardorff destaca três atitudes-chaves, que são o respeito, a abertura e a curiosidade. Como LeBaron & Pillay notam (2006:94), “dialogue with genuine curiosity is a precondition for […] addressing cultural conflicts”. Estas atitudes são fundamentais para desenvolver os conhecimentos e capacidades inerentes à competência intercultural, para direcionar os indivíduos para as atitudes necessárias e desafiar ideias feitas; vão-se desenvolvendo gradualmente,

passando por níveis intermédios cognitivos (conhecimentos e compreensão/ competências).

No que se refere ao conhecimento necessário para competência intercultural, foi considerada a autoconsciência cultural (ou seja, as formas como a cultura influencia a identidade e a visão de mundo), o conhecimento específico da cultura, o conhecimento cultural profundo (incluindo a compreensão de outras mundividências) e a consciência sociolinguística. Para todos os investigadores envolvidos, foi consensual a importância de compreender o mundo a partir das perspetivas dos outros.

As capacidades necessárias à CI que emergiram a partir deste estudo foram as que se relacionam com o processamento do conhecimento: observar ouvir, avaliar, analisar, interpretar e relacionar. O ritmo do conhecimento global avança tão rapidamente que se torna imperativo para os indivíduos usar estas competências- chave para obter e processar informações, em vez de depender exclusivamente do conhecimento – daí a importância de “thinking interculturally” (Bok, 2006).

As atitudes, conhecimentos e capacidades conduzem idealmente a um resultado interno que consiste na flexibilidade, adaptabilidade, etnorrelativização e empatia; envolve aspetos que ocorrem no indivíduo como resultado de atitudes, conhecimentos e capacidades necessárias para a competência intercultural que foram adquiridos em determinado grau. Nesta etapa, os indivíduos são idealmente capazes de começar a “ver” a partir de perspetivas dos outros e a interagir adequadamente. O somatório de atitudes, conhecimentos e capacidades, bem como os resultados internos, são evidenciados através do comportamento e comunicação do indivíduo. O grau de eficácia comportamental e de comunicação nas interações interculturais consubstancia-se nos resultados externos visíveis da competência intercultural. É esta então a definição acordada pelos investigadores que participaram no projecto: “Ability to communicate effectively and appropriately in intercultural situations based on one’s intercultural knowledge, skills, and attitudes.” (Deardoff, 2006:247).

Estes cinco elementos gerais (atitudes, conhecimentos, competências e resultados internos e externos) podem ser visualizados através do modelo de competência intercultural de Deardorff, que fornece um referencial para desenvolver e avaliar a competência intercultural. Note-se que, no modelo, o desenvolvimento da CI é encarado como um processo contínuo, não havendo nenhum ponto em que uma pessoa se torna totalmente competente interculturalmente. Além disso, são cruciais para o processo de desenvolvimento a autorreflexão, o dialogismo e a aprendizagem empírica para além da sala de aula. O conhecimento apenas, tal como a língua, não são suficientes para a assegurar a competência intercultural. Na literatura sobre CI surgiu entretanto o termo “humildade cultural” (Pinto & Upshur, 2007), que se concentra mais nas atitudes, combinadas com autoconsciência cultural.

As limitações deste modelo são óbvias, incluindo tratar-se de um modelo de CI centrado nos EUA, como a própria autora reconhece: “Given that this framework represents a more US-centric perspective of intercultural competence, how do other cultures’ perspectives of intercultural competence impact our work?” (Deardorff, 2010:2). Além disso, há aspetos que não são contemplados no modelo como, por exemplo, o papel da língua no desenvolvimento da competência intercultural. Dado que compreender outras visões do mundo e as perspetivas dos outros foi o tópico consensual para todos os especialistas envolvidos, pode perguntar-se quais são as outras perspetivas culturais sobre o conceito de competência intercultural, especialmente perspetivas não-ocidentais. Finalmente, é difícil para qualquer modelo ou estrutura refletir realidades complexas da vida humana, pelo que será útil visualizar este modelo dentro dos vários contextos e realidades históricos, sociais, culturais e políticos.

No entanto, este modelo pode ser aplicado na educação, para orientar o currículo (por exemplo, enfatizando a importância de incluir múltiplas perspetivas culturais), para avaliar a competência intercultural dos alunos usando métodos multimetodológicos e ancorados numa multiplicidade de perspetivas (Deardorff, 2009) e para informar o desenvolvimento de experiências de aprendizagem significativas. A autora defende que dada a crescente interdependência do mundo

atual, a competência intercultural já não é opcional; pelo contrário, é vital para a sobrevivência e os professores desempenham um papel fundamental na abordagem intencional ao desenvolvimento de competência intercultural das gerações futuras.

Deardorff (2006) concebeu ainda um modelo processual que identifica atitudes que facilitam a CI, representado na fig. 1.6:

Figura 1.6 Modelo de competência intercultural em espiral. Bertelsmann Stiftung & Fondazione Cariplo (2008), “Intercultural Competence – The key competence in the 21st century?” (com base

em Deardorff, 2006), p. 7.

Ao invés do modelo anterior, que estratificava as várias componentes do modelo numa pirâmide que definia as bases que permitiam ascender ao topo, este modelo interrelaciona-as de acordo com as conexões estabelecidas simultaneamente

entre cada uma das componentes e as suas dimensões – a individual e a de

interacção com o outro. A “espiral de aprendizagem” mostra claramente que a aquisição da competência intercultural requer educação contínua e se insere num processo de desenvolvimento pessoal.