CONSTRUÇÃO DE UMA PROBLEMÁTICA-UTENSÍLIO:
INTRODUÇÃO: A NDROCENTRISMO E D ESQUALIFICAÇÃO S OCIAL
C) por último, Durkheim alia a variação da solidariedade à funcionalidade das tarefas espe cializadas (1977, Vol II, 207) considerando que o «primeiro dever é actualmente elaborarmo-nos
6. P SICOLOGIA S OCIAL , S ENTIMENTO I NDIVIDUAL DE I DENTIDADE E P ESSOAL / SOCIAL Os primeiros estudos da Psicologia Social sobre a identidade sobrevalorizam a estabilidade, a
6.1. Do Sentimento Individual de Identidade
6.2.2. O modelo da Escola de Bristol
Maritza Montero (1996) organiza a diversidade destes estudos em três grupos: a Teoria do Conflito Inter-grupal de Tajfel e Turner; a Teoria da Identidade Social da Conduta Intergrupal (TIS) do primeiro – sendo, ambas, dos anos 70; e a Teoria da Categorização doEU, posterior-
mente aprofundada por Turner e seus colaboradores.
Orientação conformista-optimista da acção social; explicação motivacional-cognitiva; e foca- lização das relações inter-grupais a partir do indivíduo – são os limites apontados a estes estudos.
127 Estudos seus e com cols. de 1961, 1967 e 1979. Para aprofundar, cf.:Amâncio 1993a, 290 e ss.; Montero 1996, 397; Morales 1994, 297 e ss. 128 Tendência contra a qual combateu o próprio Henri Tajfel (1982, vol. I, 37).
Atente-se nas suas problematizações mais pertinentes para a presente pesquisa. 1) Conflito, Competição, Identidade e Conduta Inter-grupal: Tajfel e Turner129
A Teoria do Conflito Intergrupal de Henry Tajfel e de John Turner integra-se no conjunto mais amplo de análises orientadas, desde os anos 70, para a relação entre identidade social, compa- ração social, e respectivos impactos nos comportamentos intergrupais. Globalmente, tais análises questionam a noção do conflito inter-grupal «enquanto determinante da discriminação entre grupos sociais (...) salientada pelos estudos de Sherif.» (Morales et al. 1994, 297 e ss.).
Quanto à TIS, como boa parte da produção teórico-metodológica da Psicologia Social dos anos 70, ainda é influenciada pelas Teorias do Equilíbrio, paradigma dominante da década anterior. O pressuposto central destas Teorias é o de que a procura de equilíbrio individual é uma necessidade pessoal fundamental; e que a mesma é incompatível com informações e estímulos contraditórios ou estranhos ao contexto de inserção da pessoa. Face a paradoxos informativos, as Teorias do Equilíbrio apontavam três saídas possíveis para reconquistar o equilíbrio: 1- recusar essas informações; 2- alterar (o conteúdo) das atitudes de recepção das mesmas, enquanto estratégia para as reler como pacíficas; ou 3- familiarizar-se com tais informações, naturalizando-as para as enquadrar no já conhecido.
A influência das Teorias do Equilíbrio é notória na hipótese-suporte motivacional e cognitiva dos estudos sobre Identidade Social de Tajfel e Turner. Postula aquela que os indivíduos procuram um nível óptimo de funcionamento ou desempenho individual e social – objectivo para que se orien- tam hedonicamente. Por isso, aqueles manifestam a tendência racional para construir identidades
sociais positivas e, simetricamente, a tendência para evitar, transformar, ou abandonar130 situações
ou grupos socialmente avaliados como negativos.A bem ver, esta hipótese não tem só influência do postulado de orientação conformista-optimista da acção; comporta ainda uma concepção centrada no ‘EU’ individual, «una teoría del funcionamiento del auto-concepto en su contacto con la dinâmica
de los grupos de pertenencia y de las relaciones intergrupales.» (1996, 402).
Quatro outras noções estão subjacentes à mesma linha de estudo: os três processos sociais de
comparação, de categorização, de estereotipização131; e o processo de discriminação intergrupal:
«S’il est vrai, comme l'affirme Festinger, que la comparaison sociale au niveau individuel consiste à (...) s'associer avec ceux qui nous ressemblent, les comparaisons sociales entre groupes sont, par contre, centrées sur l'établissement de distinctions entre son propre groupe et les autres groupes.» (Tajfel 1972, 296).
129 Das obras da década de 70 dos dois autores, a referência mais forte é a do artigo de Tajfel e Turner 1979 In W. G. Austin e S. Worchel (Eds.),
cit. In Montero 1996.
130
Cf. Hinkle e Taylor (1996); Hogg e Abrams, 1988; Abrams e Hogg 1990 (Eds.); e Tajfel e Turner 1986 In Worchel e Austin (Eds.) 7 e ss.
A categorização132 decorre do pressuposto da claridade cognitiva; e, ao simplificar a reali-
dade, tem várias funções, destacando-se que, por um lado, estrutura e sistematiza o meio; e, por outro,
provoca efeitos de percepção acentuada, e de fundação da identidade do endogrupo (Tajfel 1972; Deschamps e Devos 1996).
Teoricamente, a acção social desenha-se entre os extremos de dois continua: um, ao opor as relações interpessoais às relações intergrupais, pressupõe a crescente complexificação da interacção social – desde a baseada única e exclusivamente nos atributos individuais dos actores, até à interacção baseada nas características dos grupos; o outro, que contrapõe mobilidade social a mudança social, refere-se aos sistemas de crenças individuais – quer aos elaborados sobre a estrutura do sistema social de inserção; quer aos relativos à natureza (legitimidade/ilegitimidade) das relações entre os grupos e da posição relativa do endo-grupo.133 Observa-se, pois, uma relação entre os pólos inter-grupal e
mudança social, a uniformidade de comportamentos, e a estereotipização da percepção.
Assim, da comparação entre os atributos do seu grupo (NÓS) e os atributos dos exo-grupos
(ELES-OS OUTROS), tiram-se duas ilações: i) a pertença grupal favorece os atributos do endo-grupo;
ii) a endo-sobrevalorização é simultânea à exo-subvalorização. Por outras palavras: a identidade so- cial é produto da pertença grupal e da categorização social associada à comparação inter-grupos.
Note-se que nesta abordagem o conflito intergrupal de per si não é o cerne da identidade social. É a relação dos sujeitos-posição de membros de determinado grupo (endo-grupo) com outros (exo-grupos), que provoca e mobiliza os juízos e comportamentos da diferenciação perceptiva e ava- liativa – discriminação do exo-grupo e favoritismo do endo-grupo. «Un groupe devient un groupe en ce sens qu'il est perçu comme ayant des caractéristiques communes ou un devenir commun, que si d'autres groupes sont présents dans l'environnement.» (Tajfel 1972, 296; cf. Montero 1996, 399; Amâncio 1993, 296).
Na Teoria da Identidade Social da Conduta Intergrupal, Tajfel desenha claramente a Identi- dade Social como um conceito sócio-cognitivo e emotivo.
É o que se depreende da fórmula Tajfeliana que associa a identidade social «ao conheci- mento da pertença aos grupos sociais e ao significado emocional e avaliativo dessa pertença.» (1972, 292). E, na TIS, conclui que a expressão da identidade social decorre do processo de compara- ção, sendo mediada pelo processo da categorização social, o que leva o próprio Tajfel a dizer: «O
132 Tajfel 1982, 67 e ss.; 1983, vol. II, 289.
133
Cf. Tajfel e Turner 1979. Desde 1974 (cit. In Deschamps e Devos 1996), Tajfel distinguia a priori, 2 pólos opostos do comportamento social: o dos comportamentos inter-pessoais, extremo meramente teórico para o autor; e o dos comportamentos inter-grupais. Cf. Amâncio 1993a, 295 e ss; Montero 1996, 398; e Serino 1996, 168 e ss.
processo de categorização é o molde que dá forma às atitudes inter-grupais».134 Deste modo é prete-
rida a formulação da «necessidade social positiva» como fundamento da avaliação assimétrica; para passar a centrar-se «no desejo de auto-estima, no desejo de auto-avaliação positiva (…) [e na] neces- sidade de positividade individual», associados à procura da coerência (Deschamps e Devos 1996, 45 e ss.; Serino 1996, 167). Esta procura da coerência consiste na capacidade da pessoa fazer frente a (e compreender as) novas situações sociais da vida social sem, contudo, desintegrar nem pôr em risco «tanto quanto possível, a imagem de si próprio ou a sua integridade.» (Tajfel 1982, Vol. I, 154).
Então, cada um de nós procura estabilizar a sua acção social fixando a sua inserção social através da pertença a grupos sociais relevantes porque tal pertença grupal garante-nos a identidade social e protege-nos no presente e face ao futuro: i) no presente, ao conferir-nos padrões de opinião, de julgamento e de comportamento estáveis internamente (ao EU-NÓS), e discriminatórios face aos
estranhos meios exo-grupais (1972, 286); e ii) face ao futuro – i.e.: face à mudança social – ao pre- servar a nossa identidade individual, pois pressupõe-se que as bases avaliativas e comportamentais constituem equipamentos de segurança face ao imprevisível.
Parecem aclaradas as repetidas críticas de tautologia e de individualismo, pois esta abor- dagem não ultrapassa a anterior, nem do ponto de vista do olhar nem do objecto. De acordo com Montero135: «la teoria se basa en un modelo de un observador mucho más solitário, restringido a la
evidencia de sus sentidos y atrapado dentro de un marco más perceptual que social.» (1996, 402)136.
Então, se o molde das relações sociais são os processos de categorização nas pertenças grupais; e se as categorizações permitem ao indivíduo preservar a sua positividade nas mutáveis relações sociais, urge perguntar: a partir de que massa emergem tais moldes perceptivos e avaliativos, garantias da procura da coerência?
Em Tajfel, o conteúdo das atitudes intergrupais consiste na assimilação dos valores e das
normas sociais (1982, 153);137 o que leva a que o molde das categorizações trabalhe para a assimila-
ção de conteúdos dos padrões socialmente dominantes. Por isso, «no caso dos estereótipos sociais, o "contexto social" significa que os estereótipos comuns a um grande número de pessoas provêm de, e são estruturados pelas relações sociais, entre grupos sociais e entidades em larga escala. O funcio- namento e utilização dos estereótipos resulta duma profunda interacção entre esta estruturação con- textual e o seu papel na adaptação dos indivíduos ao meio social em que estão inseridos.» (1982, 163, sn).
134 Tajfel 1982, Vol. I, 153; e 1972, 297. Ver tb todo o Cap.ítulo 8.
135 Se bem que a mesma autora (1996, 402) não escamoteie a menção de Turner à construção social dos grupos. (A fonte citada por Montero
refere-se à edição madrilena da obra de Turner, Hogg, Oakes, Reicher e Wetherell).
136 Esta crítica da autora converge com a sua citação de Wetherell Y Potter 1992, 48. 137Para aprofundamentos, ver a obra do autor de 1982, Cap. 6,145-160.
Ora, a explicação dos componentes sociais da identidade dos indivíduos, e da categorização de atributos perceptivos-avaliativos enquanto processo identitário social, não pode resumir-se ao tecer das relações sociais num contexto estruturado e emissor de normas sociais; normas assimiladas, por sua vez, para reforçar-garantir a continuidade da auto-estima individual e da identidade social posi- tiva. O raciocínio tautológico, defensivo, deixa-nos insatisfeitos de novo. Se, como se sublinhou, ad- vém uma importante inovação da defesa de associar o psicológico ao sociológico na identidade social, os modos de entender esta associação permanecem menos associativos do que dicotómicos.
Na actual terminologia sociológica dir-se-ia que, através da socialização conformista dos actores sociais, as relações sociais garantem a prescrição de identidades socialmente adaptadas. Daqui infere-se que o socialmente negativo é percepcionado-categorizado como o-em vias de-reajus- tamento social. E daqui decorre, ainda, considerar-se transitória a negatividade social uma vez que, pela pertença-identificação grupal, a identidade social permite a mobilidade individual, e a competi- ção e a criatividade sociais. Desta forma, a negatividade social apenas significa a possibilidade de re- categorização positiva, pelo que nem sequer chega a constituir, nem a ser modelo de tipos de identi- dade social: «le fait qu'un individu désire que son propre groupe ressemble à un autre groupe (...) signifie, pour ce point de vue, que son propre groupe n'a pu remplir sa fonction: contribuer à l'iden- tité sociale positivement valorisée.» (Tajfel 1972, 296).
Porquê? Porque a negatividade social não é “social”. Porque apenas são (coercivamente?) sociais, os padrões socialmente categorizados como positivos; e porque o que motiva o indivíduo é a necessidade de obter uma auto-imagem positiva. E, afinal, identidade pessoal ou social, são única- mente os garantes da positividade; logo são pólos não complementares, mas exclusores, produtores de um(a noção de) social enviezad(a)o pelo obstáculo individualista: «a partir de esta dicotomia (...) entre comportamiento interindividual e intergrupal, se llega a decir que cuanto más fuerte es la iden- tidade social, menos importante es la identidad personal y cuanto más saliente es la identidad per- sonal menos necesidad tiene el individuo de una identidad social» (Deschamps e Devos 1996, 46).
A limitação individualista convive assim com a involuntária-latente leitura abstracta da sobredeterminação dos padrões sociais face aos processos de categorização, assimilação e procura da coerência.
Abstracta determinação dos padrões sociais, porque os três processos em causa são gene- ricamente postulados e universalizados como base de todas as relações intergrupos; i.e.: pressupõe-se uma relação de exterioridade entre o contexto social mais abrangente e os actores (individuais ou grupais). Sobredeterminação dos padrões sociais porque, ao postular a assimilação socializada dos padrões sociais de positividade social, desvalorizam-se os padrões não aceites socialmente.
Aplicada a mesma linha de análise ao actual objecto de estudo obtém-se que, durante os pro- cessos de desqualificação social, as sujeitos-mulheres são negatividades sociais-transitórias se, pelos processos de requalificação sociais forem positivamente re-categorizadas.
Mas a mesma leitura crítica conduz também a 4 preciosas linhas de configuração da identidade social:
1.ª - a pertença e a identificação grupais, que instituem as posições relativas dos actores nas relações sociais, são marcadores dos processos de categorização e representação simbólica e, consequentemente, marcam também a orientação das práticas quotidianas da acção (individual e/ou colectiva);
2.ª- as relações sociais partem de, e assentam em, conteúdos conferidos a experiências sociais que i) nem são necessariamente concretizados-objectivados pelos sujeitos sociais – os desejos, os sonhos, os projectos, as expectativas, as crenças, os sentimentos afectivo-emocionais, as intuições, as sensibilidades estética ou performativa, e o imaginário em termos latos; ii) nem são necessariamente consciencializados – como é o caso, entre componentes já identificadas pela ciência, dos processos inconscientes ou subconscientes.
3.ª- o processo de socialização, ou outros modos de mediar a experiência (Giddens 1994), são basilares na construção da memória das relações sociais;
4.ª- a memória das relações sociais é um dos componentes da categorização social, da representação simbólica, e da orientação da acção.
Dos elementos da Teoria da Categorização do EU138 de John Turner vejam-se os mais signi-
ficativos para o objectivo da presente pesquisa.