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CONSTRUÇÃO DE UMA PROBLEMÁTICA-UTENSÍLIO:

INTRODUÇÃO: A NDROCENTRISMO E D ESQUALIFICAÇÃO S OCIAL

1. I DENTIDADES S OCIAIS : V OCAÇÕES DE UM C ONCEITO E NTRE M ARGENS E C UMPLICIDADES

1.1. Os Estudos da Identidade na Tradição Reflexiva Ocidental

Tem sido notado o cariz dicotómico dos conceitos de identidade, pela oposição entre compo- nentes pessoais e sociais, cuja raiz mergulharia em trabalhos da Psicologia Social. Contudo, esta tra- dição dicotómica nem é invenção desse Domínio, nem dos produzidos no último século. Aliás, não é pacífico nem legítimo definir a Identidade como uma noção “da” Psicologia Social. De facto, de en- tre as problemáticas transversais a diversos domínios, a das questões identitárias é, justamente, uma das multiplamente comprometidas. Recorra-se a algumas formulações dessa visão dicotómica:

desde o espanto face à existência, base da indagação filosófica (Sledziewski 19991; Gallissot

1991): Que é a pessoa humana? Que é o saber? Quais os sentidos da realidade e do devir da vida? Como se demonstra – ou se infirma – a hipótese da marca divina na obra natural e humana? Como negar que a acção sobre a natureza e a humanidade se funda nos valores do humanismo? Quais os limites do duvidoso conhecimento humano e quais os elementos diferenciadores das naturezas divi- na, humana e natural? Quais as possibilidades (e a verdade) da distinção entre o real-externo-tempo e

23 Este Capítulo visa expor analíticamente e problematizar as perspectivas de identidade e de actor-sujeito sociais que se afiguram pertinentes

para fundamentar, conceptualmente, o actual objecto de estudo. Sem a pretensão de realizar uma síntese de todas as abordagens, também a retórica do discurso se afasta da desvalorização de toda a obra dos autores em análise.: não deitar fora o menino com a água do banho...

o vivido-interno-espaço? Como acreditar numa humanidade sem sentido nem futuro? Como mobi- lizar as consciências e os conflitos humanos (na história objectiva) para a magnífica obra colectiva e material (objectiva) da igualdade? Como é que conhecimento e acção técnica sobre a natureza garan- tem a vitória do Progresso representado pela explicação-controle humanos? Como conciliar o sem- sentido do quotidiano com a esperança, a justiça e as energias criativas duma existência humana con- creta? Como ter a consciência de si, senão pela criação de laços e olhares interactivos com o “OU- TRO”? Quais as marcas ideológicas e epistemológicas (estruturais, espontâneas, subterrâneas, simbó-

licas) das categorias mentais e dos princípios de cientificidade, e sua inerente relatividade e fragmen- tação? Qual, enfim, o significado da noção totalitária de «existência humana» num mundo individua- lista, massificado, esvaziado de significados e de «humanidade»? Eis alguns exemplos (entre outros possíveis) de interrogações fundadoras de correntes tão diversas como, respectivamente: pensa- mentos Socrático, Platónico e Aristotélico; reflexão dominante da medievalidade; Renascentistas; lei- tura de Descartes; os, marcantes desde o século passado, Kantianismo, Nihilismos, Marxismo, Positi- vismo e Fenomenologia; o Existencialismo (retoma da problemática hegeliana); as propostas de Wittgenstein e colaboradores; como, ainda, as abordagens pós-modernas e suas críticas;

passando, do ponto de vista jurídico, por delimitar critérios para os direitos humanos e os

campos de conformidade e de desvio social às normas instituídas – podendo tomar-se o ex.º da defi- nição internacional da categoria refugiado por perseguição política, militar, cultural ou calamidade; a mais recente oposição entre cidadão e residente europeu; ou , desde fins da Idade Média, a gradual instituição da categoria pobre a partir dos critérios mutáveis de humildade-piedade, improdutividade orgulhosa, privação ou exclusão (Toscano 1993c);

• até ao percurso da Etnologia e da Antropologia – que é a longa discussão em torno do etno-

centrismo senão uma profunda análise da relação entre diferentes identidades culturais?;

• e, especificamente para o presente objecto de pesquisa, a Sociologia: quer as tradições, clássi-

cas ou actualizadas, «macro» –Estruturalistas e Funcionalistas– e «micro» –Fenomenológicas e Inter- accionistas; quer escolas críticas como as do Sistema Mundo, do Individualismo Metodológico, dos Estilos de Vida, dos Novos Movimentos Sociais, das Relações Interculturais e da Cidadania Activa.

Mas, a mencionada dicotomia não é só herdeira da tradição filosófico-científica ocidental; ain- da é aliada de outros modos de reflectir sobre a pessoa humana e os meios envolventes (natural, so- cial, ecológico e cósmico)24. Krewer (1994) alerta para os estilos reflexivos centrais desta tradição: 24 Para Cazeneuve (1995, 13 e ss.), a Sociologia, a Psicologia e a Antropologia interessar-se-iam pela relação “EU”-“OUTRO” segundo 3 mo-

dos diferentes e complementares: Antropologia: o “EU” semelhante a “TODOS OS OUTROS” (membro da espécie humana); Sociologia: o “EU”

apenas semelhante a “ALGUNS OUTROS” (família, grupo profissional…); e o “EU” não semelhante a nenhum “OUTRO”, orientação da Psico-

• concepção substancialista da alma humana – oposta à divindade e à animalidade na Antigui-

dade e Idade Média – viabiliza os atributos de consciência e capacidade de acção do “EU” (SELF); • ruptura entre razão e corpo no Renascimento e no Iluminismo, institui a distinção entre um

“EU” dotado de reflexividade interna (subjectividade-res cogitans) e outro “EU” observável e cog- noscível pela razão, mediante regras e princípios de observação precisas (objectividade-res extensa);

• complexificação do estilo dicotómico do “EU”-OBJECTO”/“EU”-sujeito devida aos impactos

dos movimentos empiricistas (“EU” empírico) e racionalistas (“EU” inato-substancial), e da formu-

lação Kantiana do “EU” transcendental (a condição prévia da possibilidade de conhecimento);

• introdução, pelo romantismo, do estilo dicotómico “EU”/ “NÃO-EU” e de noções inovadoras

— como a de desenvolvimento sócio-histórico de um “EU” composto por elementos inconscientes e

holísticos; ou a da valorização do desenvolvimento do “EU” na relação com o “OUTRO”;

• definição, pela biologia evolucionista, da organização sistémica estrutura/função como mo-

delo da tendencial evolução do “EU” para a adaptação (bio-fisiológica) e o equilíbrio (orgânico); • centralidade do “EU” social, no paradigma materialista, fundado na consciência e nas rela-

ções de tipo conflitual – interclasses – como de tipo cooperador – intra-classe. E, ainda, o postulado da inerente consciência de classe em relação às actividades produtivas vistas como os modos de hie- rarquizar-legitimar e transformar, pelo trabalho, as actividades humanas de superação da natureza;

• renovação da concepção sistémica, nomeadamente por Edgar Morin, reintegrando a com-

plexidade da actividade racional limitada e errónea (se racionalizadora) do homo sapiens, e a con- dição relacional de homo demens, num sistema antropo-bio-cósmico; e

investigação sobre os tipos inteligência – racional, cognitiva, emocional, clonada e artificial.

Neste percurso, os critérios dos estilos reflexivos sobre o “EU” enunciados, a par de outros

componentes dessa mesma reflexividade, fundamentariam distintos paradigmas de análise do “EU”.

Para Krewer a tradição ocidental da reflexão sobre o “EU” constrói-se, gradualmente, através

de quatro direcções: Conhecimento do “EU”; Subjectividade, externa e interna, e Intersubjectividade.

A orientação das duas primeiras funda-se no eixo “EU”-OBJECTO, e será território lavrado por corren-

tes como o empirismo lógico; o estruturalismo, o funcionalismo e o construtivismo. É já no eixo “EU”-SUJEITO que eclode o interesse pela Inter-subjectividade e pela vertente interna da Subjectivi-

dade. Tomem-se, a título de exemplo, os objectos do Historicismo, do Pragmatismo ou – dos forte- mente influenciados por este – sociólogos da 1ª Geração da Escola de Chicago, como os posteriores Interaccionistas; e a proposta Fenomenológica, presente na fundação da sociologia compreensiva.

Ora, às 4 direcções referidas estão subjacentes distintas concepções de “EU”. Assim, ao 1.º

abriga as noções centrais de auto-conceito e de auto-estima. A viragem cognitivista abre uma versão oposta do “EU”, enquanto estrutura activa que trata as informações. Ao 2.ºVECTOR SUBJECTIVIDADE

EXTERIOR é central a «relação “EU”-“OUTRO”». Como protótipo do VECTOR SUBJECTIVIDADE IN- TERIOR tome-se o entendimento do “EU” como a experiência privada e fenomenológica do sujeito,

contemplada no conceito de «proprium» por Allport, mas algum tempo negligenciada pela Psicolo- gia (Amâncio 1988a; 1993a). Enfim, ao 4.ºVECTOR INTER-SUBJECTIVIDADE DO “EU”, cabe a pro-

posta das noções de “EU” público/“EU” privado, apresentação de si, e Identidade. E tomam-se, co- mo dimensões do “EU”, «l'importance de l'Autre, des relations interpersonnelles, des coordinations

sociales ainsi que l'importance du monde des significations intersubjectives» (Krewer 1994,169). A organização destes 4 vectores evidencia dimensões fundamentais para o olhar sociológico; como revela que tais orientações analíticas espartilham a multiplicidade de componentes do “EU”. A

par disto, verifica-se ainda que tal reflexão tem sido comum a grandes paradigmas teóricos coexisten- tes, mas nem sempre comunicantes. Procurando evidenciar melhor a dicotomia dos critérios e estilos reflexivos sobre o “EU” chega-se, pelos enunciados de Krewer, às 3 seguintes linhas de recorrência:

! consciência: alma humana; “EU” condição de conhecimento; razão; “EU” conhecedor-subjec-

tividade-reflexividade interna/ “EU” cultural (“EU” cognoscível-objectividade-reflexividade externa); ! acção: “EU” humano, “EU” sujeito de conhecimento; “EU” construído na História e na relação

com o OUTRO: “EU” conflitual/cooperante; “EU” conhecedor da natureza; “EU” produtor/transforma-

dor da natureza; “EU” cultural;

! relação: “EU”-humano/“OUTRO”-divindade, “OUTRO”-natureza; “EU”-sujeito/“OUTRO” – NA- TUREZA-objecto; “EU”/“OUTRO”-NATUREZA: determinação, organismo, estrutura, função-adaptação;

equilíbrio-cooperação; corpo, trabalho, conflito-superação; “EU”/“OUTRO”-CULTURA-HISTÓRIA:

“EU” construído na História, na relação com o “OUTRO”, em espaços-tempos de criação de regras

colectivas; “EU” cultural;25 “EU”-consciente-razão/“OUTRO”- “Não-EU”-inconsciente-emoção.

Consciência, Acção e Relação perpassam as diversas reflexões sobre as identidades, vindo a Sociologia a herdar estilos reflexivos dicotómicos aqui enunciados, e a trabalhar a partir deles com o impulso e no contexto da modernidade. Na análise das noções de identidade contidas nas propostas sociológicas deve ter-se presente que começam a ser sinalizadas no seu período formativo. Insti- tuindo-se a Sociologia como o novo saber que propõe um outro olhar sobre a relação indivíduo- sociedade – sem conseguir imediatamente a superação de tal dicotomia – ao pensar a problemática identitária os sociólogos vão relacionar-se (consciente ou inconscientemente, voluntariamente ou não) com a noção moderna de pessoa humana.

1.2. A Identidade – pela relação Indivíduo / Sociedade – já no período formativo da Sociologia

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