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Capítulo 2. Enquadramento teórico: da narrativa e suas competências ao desenvolvimento

2.5 O modelo teórico e a metodologia de Propp

A investigação da estrutura abstrata da narrativa surgiu ligada ao estudo da literatura oral (Pavel, 1985). Particularmente na Rússia, em finais do séc. XIX e princípios do séc. XX, existiu um esforço considerável de levantamento e inventariação de contos populares tradicionais: destacam-se o levantamento feito por Afanássiev (lançado em oito volumes, de 1855 a 1863), no qual V. Propp (1992) virá a basear-se para delimitar o corpus do seu estudo, e o catálogo conhecido como Aarne-Thompson-Index (publicado na sua primeira versão em 1910), utilizado internacionalmente até à atualidade (Meister, 2011, parágrafo 31).

Estes índices e catálogos, todavia, baseavam-se em classificações cujos critérios eram de natureza extrínseca à narrativa. Pavel (1985) afirma:

Attempts to categorize folktales according to thematic, genetic or motifemic criteria proved to be unsatisfactory; thematic taxonomies tend to multiply indefinitely the categorical input, since themes can vary limitlessly; genetic research posits pure primitive types whose existence often cannot be independently established; classifications according to motifs miss a crucial set of regularities found in folktales. (Pavel, 1985, p.87)

Propp (1992) veio sugerir que só o estudo da morfologia interna dos contos pode clarificar estas similitudes e regularidades, de modo a que possa comparar-se o que deve ser comparado e que possa distinguir-se o que deve ser distinto, em função de critérios intrínsecos suficientemente fundamentados (Rodrigues, 1992). O autor inverte a ordem das prioridades vigente entre os folcloristas: «(…)falar da génese sem consagrar uma atenção particular ao problema da descrição, como se fez habitualmente, é absolutamente vão. Antes de elucidar a questão da origem do conto, é evidente que é preciso saber o que é o conto.» (Propp, 1992, p.40). A perspetiva genética aparece, em Propp, subordinada à perspetiva morfológica, sem que tal

7 Carlsson (1999) analisa histórias contadas por crianças de cinco países nórdicos - Dinamarca, Noruega, Finlândia,

Suécia e Islândia -, tendo por base o modelo de Propp e no sentido de estabelecer o que designa de uma “morfologia do conto infantil”. De uma forma geral, a autora conclui da possibilidade de se identificarem, nas histórias contadas pelas crianças, algumas das funções consignadas no modelo de Propp, em especial o Afastamento e, enquanto conclusão das histórias, o Regresso do herói a casa. Por outro lado, a autora verificou que o Casamento, função que encerra a história no modelo de Propp, é muitas vezes substituída por situações do quotidiano da criança, como “ir dormir”. O desenrolar das histórias analisadas por Carlsson apoiava-se, sobretudo, em funções que envolviam o encontro de amigos e inimigos e a troca/partilha de objetos ou refeições (que a autora conclui possuírem um valor morfológico idêntico). A autora verificou, ainda, que as Malfeitorias (muitas vezes violentas) e os Combates coexistem com situações próprias do universo infantil, como brincar. Do ponto de vista da análise das dramatis personae, e muito embora a autora afirme que a abordagem se baseou nas esferas de ação propostas por Propp, apenas refere a identificação de três tipologias, nomeadamente, animais, miniaturas e pessoas estranhas. A abordagem de Rodari (1996) e Charles (2006) tentou a compreensão da forma como as crianças recontam histórias maravilhosas, utilizando um conjunto de artefactos representativos das funções do modelo de Propp: cartas contendo o nome e uma ilustração da função, no caso de Rodari; símbolos pictográficos representativos das funções de Propp, passíveis de serem manipulados num quadro magnético, no caso de Charles. Ambos os autores concluíram que as crianças são capazes de compreender e fazer uso dos conceitos abstratos subjacentes às funções de Propp, muito embora, no caso do estudo de Charles, as histórias tivessem resultado de um processo de criação colaborativa, que envolveu várias crianças e um adulto e a estrutura das histórias resultantes não tenha sido sujeita a análise (estranhamente, a autora analisa o conteúdo das histórias criadas e não a sua estrutura).

equivalha a negar a pertinência das questões relacionadas com a primeira (Rodrigues, 1992). Retomando aqui a proposta de Saussure (1978) e Hjelmslev (1971), a que já nos referimos anteriormente (cf. esquema 1), a narrativa enquanto forma do conteúdo é, para Propp, autónoma em relação à expressão, e pode ser estudada nessa qualidade. O autor afirma:

(…)O estudo estrutural de todos os aspetos do conto é a condição necessária para o seu estudo histórico. (…) O único estudo que pode responder a estas condições é o que descobre as leis da sua estrutura, e não o que apresenta um catálogo superficial dos processos formais da arte do conto. (Propp, 1992, pp.53-54)

Aos critérios extrínsecos de análise da narrativa e ao inventário dos seus elementos constantes, Propp opõe o critério das unidades mínimas narrativas, a que chama funções (que correspondem às ações das personagens, muito embora independentes em relação a estas personagens e às modalidades específicas de operacionalização dessas ações), e o método da modelização das relações estruturais entre estas funções, noções centrais da sua teoria e metodologia.

A proposta teórica e metodológica de Propp (1992) assenta na premissa fundamental de que é possível identificar, delimitar e modelizar relações entre os elementos constantes de um conto - as suas unidades mínimas, que correspondem às ações das personagens, quaisquer que sejam essas personagens e qualquer que seja o modo de concretização dessas ações - e entre estes elementos constantes e o todo da narrativa. Propp designa, como dissemos, estas unidades mínimas narrativas de funções: «Por função, entendemos a ação de uma personagem, definida do ponto de vista do seu significado no desenrolar da intriga.» (Propp, 1992, p.60). As funções realizam-se num plano abstrato, sendo independentes das personagens que, em concreto, as operacionalizam, e caracterizam-se pela constância, invariância, delimitação e comparatividade, que o autor define como sendo as qualidades fundamentais das unidades narrativas.

Para ilustrar o conceito, Propp (1992) utiliza o exemplo seguinte, baseado numa pequena lista de sintagmas8 narrativos transcritos de alguns contos que analisou.

1. O rei dá uma águia a um valente. A águia leva o valente para outro reino. (171) 2. O avô dá um cavalo a Sutchenko. O cavalo leva Sutchenko para outro reino. (132) 3. Um mago dá uma barca a Ivan. A barca leva Ivan para outro reino. (138)

4. A rainha dá um anel a Ivan. Homens bravos e valentes saídos do anel levam Ivan para outro reino. (156) (Propp, 1992, p.58)

Nos casos citados podemos distinguir valores constantes, as ações ou funções das personagens (uma personagem entrega um objeto a outra personagem, que possibilita uma deslocação para outro reino) e valores variáveis, a nomenclatura e atributos das personagens (temos um rei, um avô, um mago e uma rainha como personagens que personificam a ação e temos ainda objetos diferentes: a águia, o cavalo, a barca ou o anel servem todos o mesmo propósito).

É assim possível concluir que, muito embora personagens diferentes possam personificar as mesmas ações e que o próprio modo de realizar uma ação possa mudar, sendo, por isso, valores variáveis, a função em si mesma é um valor constante: «No estudo do conto, a questão de saber o que fazem as personagens é a única que importa; quem faz qualquer coisa e como o faz são questões acessórias.» (Propp, 1992, p.58).

8 De acordo com Mélétinski (1978), e utilizando a terminologia narrativa contemporânea, podemos qualificar de sintagma

narrativo um determinado fragmento de texto que contenha uma ação (e, consequentemente, a sua função correspondente no modelo Proppiano).

O corpus e o método do estudo de Propp

O autor analisou cem contos sobre assuntos diversos (o conjunto de contos compreendido entre os números 50 e 151 no catálogo de Afanássiev, classificados como contos maravilhosos), considerando que estes constituíam um corpus de dimensão suficiente9, começando por isolar as partes constitutivas desses contos seguindo estratégias particulares, no sentido do desenvolvimento de uma morfologia – uma descrição dos contos segundo as suas partes constitutivas e as relações dessas partes entre si e com o conjunto - e terminando com a comparação dos contos mediante as partes que os constituem.

O isolamento das partes fundamentais do conto deve pautar-se, afirma Propp (1992), por duas preocupações fundamentais. Por um lado, a personagem-executante da ação nunca deve ser tomada em consideração, já que, como vimos, as funções caraterizam-se pela sua autonomia formal relativamente às personagens que as executam. Por outro lado, a ação não pode definir-se à margem do seu contexto narrativo, isto é, o significado que a ação possui no desenrolar da intriga deve ser considerado, porque, tal como ações diferentes podem ter o mesmo significado, ações idênticas podem ter significados diferentes10. Atente-se num dos exemplos que Propp fornece:

(…)Num primeiro caso o herói recebe 100 rublos do seu pai e vai comprar um gato adivinho com esse dinheiro; noutro caso, o herói recebe dinheiro como recompensa pela grande façanha que acabou de realizar, e o conto acaba com isso. Encontramo-nos, apesar da identidade da ação (o dar o dinheiro), diante de elementos morfologicamente diferentes. (Propp, 1992, p.60)

O método utilizado por Propp (1992) foi rigorosamente dedutivo, partindo do corpus para as conclusões. Da análise, o autor concluiu que as funções existem no conto em número limitado, tendo identificado um total de 31 funções invariantes. Concluiu igualmente que, muito embora nem todos os contos contenham todas as funções, a sua ordem de sucessão ou sequência é idêntica, isto é, a ausência de funções num dado conto não altera o ordenamento das restantes, muito embora o autor identifique algumas exceções a esta regra. Ainda que a questão das personagens seja secundária no estudo, o autor propõe uma distribuição das funções mediante o que designa por esferas de ação, sugere as modalidades de repartição destas esferas de ação pelas personagens do conto e opera um levantamento dos seus atributos (nomeadamente, aspeto e nomenclatura, particularidades da entrada em cena e habitat).

Para além disto, Propp (1992) verificou que alguns contos integram mais do que uma sequência de funções, que se articulam mediante esquemas diversos. Abordamos, em seguida e em detalhe, cada um destes aspetos.

Funções das personagens

A cada uma das 31 funções invariantes que deduziu do seu corpus, Propp (1992) atribuiu um

9 Relativamente à questão da suficiência dimensional do corpus, Propp (1992) indica que, uma vez que o estudo se faz com base nas funções das personagens, será possível cessar a análise assim que cada novo conto analisado não traga nenhuma nova função (ressalvando, todavia, a importância da existência de um corpus de controlo).

10 Propp identifica e descreve este fenómeno, classificando-o como «a assimilação dos modos de realizar as funções» (Propp, 1992, p.111). Iremos abordar esta questão, de forma mais ampla, no decorrer desta secção.

sinal convencional (com o propósito de possibilitar comparações esquemáticas), uma descrição abreviada da ação que representa (ou nomenclatura da função) e uma definição resumida, que sistematizamos no quadro 1. As modalidades específicas de concretização de uma determinada função invariante, designadas por funções variantes, são representadas acrescentando um índice numérico ao sinal convencional que identifica a função invariante, e Propp fornece, para grande parte delas, alguns exemplos. O anexo 1 apresenta, de forma completa, quer as funções invariantes quer as respetivas funções variantes consignadas no modelo de Propp (1992, p.66- 109), tal como são descritas pelo autor.

Propp (1992) começa por referir que a abertura dos contos é feita, habitualmente, pela exposição daquilo a que chama uma Situação inicial (α) e que, muito embora este elemento não se constitua como uma função, possui relevância morfológica. Na Situação inicial (α) enumeram-se os membros da família, ou o futuro herói, e o conto fornece uma imagem de felicidade, caracterizada pela existência de harmonia, abundância, prosperidade e amor, que possibilita o realce da desgraça que o seguimento do conto faz aproximar, de forma mais ou menos rápida.

Funções da parte preparatória do conto

Sinal Nomenclatura Breve descrição/exemplo

β Afastamento Um dos membros da família afasta-se de casa. γ Interdição Ao herói impõe-se uma interdição.

δ Transgressão da interdição A interdição é transgredida. Função emparelhada com γ. ε Interrogação O agressor tenta obter informações.

ζ Informação O agressor recebe informações sobre a sua vítima. Função emparelhada com ε. η Engano O agressor tenta enganar a sua vítima para se apoderar dela ou dos seus bens. θ Cumplicidade A vítima deixa-se enganar e ajuda assim o seu inimigo sem o saber. Função emparelhada com η.

Funções da parte principal do conto

Sinal Nomenclatura Breve descrição/exemplo

A Malfeitoria O agressor faz mal ou prejudica um dos elementos da família. α Falta Falta qualquer coisa a um dos membros da família; um dos membros da família deseja possuir qualquer coisa. B Mediação, momento de transição A notícia da malfeitoria ou da falta é divulgada, dirige-se ao herói um pedido ou uma ordem; este é enviado em expedição ou deixa-se que

parta de sua livre vontade

C Início da ação contrária O herói-que-demanda aceita ou decide agir.

Ξ Partida O herói deixa a casa.

D Primeira função do doador. O herói passa por uma prova, um questionário, um ataque, etc., que o preparam para o recebimento de um objeto ou de um auxiliar mágico. E Reação do herói O herói reage às ações do futuro doador.

F Receção do objeto mágico. O objeto mágico é posto à disposição do herói.

H Combate O herói e o seu agressor defrontam-se em combate.

I Marca O herói recebe uma marca.

J Vitória O agressor é vencido.

K Reparação A malfeitoria inicial ou a falta são reparadas.

Ψ Volta O herói volta.

Pr Perseguição O herói é perseguido. Rs Socorro O herói é socorrido.

O Chegada incógnito O herói chega incógnito a sua casa ou a outro país.

L Pretensões falsas Um falso herói faz valer pretensões falsas. Por exemplo, os irmãos fazem-se passar pelos conquistadores do objeto que trazem, o general pelo vencedor do dragão.

M Tarefa difícil Propõe-se ao herói uma tarefa difícil.

N Tarefa cumprida A tarefa é cumprida. As formas em que as tarefas são levadas a efeito correspondem às formas da prova. Q Reconhecimento O herói é reconhecido. Tipicamente, graças à marca (I) ou por ter cumprido uma tarefa difícil (M). Ex Descoberta O falso herói ou o agressor, o mau, é desmascarado. Constitui algumas vezes o resultado do insucesso numa tarefa a cumprir ou apresenta-se

sob a forma de uma narração. T Transfiguração O herói recebe uma nova aparência.

U Punição O falso herói ou o agressor é punido (matam-no, expulsam-no, suicida-se, etc…). W Casamento O herói casa-se e sobre ao trono.

Quadro 1. As 31 funções invariantes identificadas por Propp.

À Situação inicial (α) seguem-se sete funções, que constituem a parte preparatória do conto, no sentido em que fazem a ponte entre a felicidade estabelecida inicialmente e a ação que irá interromper esse quadro de harmonia e dar início à intriga (a Malfeitoria ou Falta (A/α), de que falaremos adiante), preparando a possibilidade da sua ocorrência.

Estas funções preparatórias permitem fazer pairar o espectro da desgraça sobre a família feliz: os afastamentos (temporários ou definitivos, consoante temos uma ausência limitada temporalmente ou, por exemplo, a morte dos pais) e as interdições (não sair, não se afastar…) e a sua transgressão ou, em alternativa, as ordens e sua execução (se as crianças são enviadas ao campo ou à floresta, a execução desta ordem terá as mesmas consequências, do ponto de vista formal, que a transgressão da interdição de ir ao campo ou à floresta) são o ponto de partida na preparação da infelicidade, criando o momento que lhe é favorável.

A maioria destas funções constitui emparelhamentos, elementos duplos em que o segundo decorre logicamente do primeiro, muito embora, em alguns casos, a segunda parte do emparelhamento possa existir sem a primeira. A função Interdição (γ), por exemplo, emparelha com a função Transgressão da interdição (δ), ainda que existam situações em que esta segunda componente acontece sem que tenha existido uma efetiva Interdição (γ): «As princesas vão ao jardim (β3), estão atrasadas para entrar em casa. Falta a interdição de não se atrasarem.» (Propp,

1992, p.68).

A função Interrogação (ε) marca, de acordo com o autor, a entrada em cena de uma nova personagem – o agressor (ou o mau): «O seu papel é perturbar a paz da família feliz, provocar uma desgraça, fazer mal, causar prejuízo.» (Propp, 1992, p.68). Este intento vem a materializar-se, plenamente, no momento em que se dá a Malfeitoria (A), função que sucede a parte preparatória, originando a intriga do conto, e cujas formas de concretização são muito variadas (cf. anexo 1). Propp observa, no entanto, que muitas intrigas não começam pela realização da Malfeitoria (A), mas antes por uma situação de Falta (α) ou penúria, que resulta em desenvolvimentos análogos. Estes elementos - A ou α - são indispensáveis no conto, não existindo outra maneira de estabelecer a intriga.

À Malfeitoria ou Falta (A/α), segue-se a Mediação ou momento de transição (B), função que

introduz em cena o herói (caso este não tenha sido introduzido na Situação inicial). Neste ponto do conto, acontece a divulgação da notícia da Malfeitoria ou da Falta (A/α) e é dirigido ao herói um pedido ou uma ordem de socorro da vítima. As modalidades desta função invariante diferem consoante a tipologia de herói que a história integra – Propp (1992) distingue o herói-que- demanda-alguém e o herói-vítima. No primeiro caso temos, por exemplo, o cavaleiro que parte em busca da jovem raptada (a história conta as aventuras do cavaleiro na sua demanda e, nessa medida, é ele o herói, e não a jovem raptada). Se, por outro lado, a história segue as peripécias da jovem raptada, sem se interessar pelos que ficam, então a jovem é o herói-vítima.

A Decisão de agir (C) estabelece o início da ação contrária à do agressor e caracteriza-se por

declarações (o herói declara a sua decisão de agir). Segundo Propp (1992), nem sempre esta decisão é mencionada no conto e, no caso das histórias cujo herói é a vítima, a função está naturalmente ausente.

A Partida do herói (Ξ) sucede a Decisão de agir (C) e, uma vez mais, a partida do herói-que-

demanda é diferente da do herói-vítima, já que as finalidades diferem igualmente: o primeiro parte numa busca e o segundo ausenta-se sem qualquer intenção de procura. Em alguns dos contos

do corpus analisado por Propp (1992), a Partida (Ξ) não existia porque toda a ação se

desenrolava no mesmo local. Em alguns outros, e em antítese, a partida era reforçada, tomando a forma de uma fuga. Propp (1992, p.81) atribui a designação de «nó da intriga» ao agrupamento das funções Malfeitoria (A) ou Falta (

α

), Mediação ou momento de transição (B), Decisão de agir (C) e Partida do herói (Ξ).

Após o nó da intriga, entra na história uma nova personagem - o doador ou provedor – que o herói encontra, tipicamente por acaso, na floresta, na estrada, etc., e que o submete a provas ou ações diversas e de quem o herói, em resultado de uma reação favorável a essas provas ou ações, recebe um meio (geralmente mágico), que lhe é útil. Dá-se assim o agrupamento de funções Primeira função do doador (D), Reação do herói (E) e Receção do objeto mágico (F). Se observarmos o anexo 1, concluímos que as modalidades específicas de concretização de cada uma das funções do agrupamento DEF são bastante variadas; as combinações possíveis

destas modalidades também o são (Propp, 1992, p.88). Propp verificou, todavia, que algumas combinações estão ausentes, justificando esse facto, por um lado, pelo fraco volume do corpus e, por outro lado, pela falta de lógica que subjazeria à combinação de algumas das modalidades. Partindo da análise à forma de transmissão dos objetos, o autor acaba por concluir que, tipicamente, as restrições combinatórias só se verificam nas situações em que o objeto é roubado, que aparecem unicamente ligadas às tentativas de aniquilar o herói, aos pedidos para desempatar adversários e às propostas de troca, e envolvem doadores que equipam os heróis sem dar por isso ou que são enganados pelo herói (doadores hostis). As restantes formas de transmissão do objeto ligam-se a todas as outras formas preparatórias, sem quaisquer restrições, e envolvem doadores que oferecem o objeto de forma voluntária e amigável (os doadores amigáveis).

Segundo o autor, dentro destas duas tipologias combinatórias, todas as combinações são possíveis e lógicas, mesmo se não existem; mas entre as tipologias, as combinações são ilógicas. Será ilógico, por exemplo, que durante uma situação em que o herói se bate contra outra personagem, esta lhe dê a beber, inadvertidamente, a “água da força”, permitindo-lhe vencer essa batalha. Sendo ilógicas, não significa que estejam ausentes: elas existem, muito embora sempre associadas a um esforço suplementar, por parte do narrador, para fornecer motivações adicionais para as ações do herói (mais ou menos transparentes).

Será ainda preciso fazer notar que, em alguns casos, o objeto mágico pode encontrar-se na posse do herói sem que exista um doador como, por exemplo, nas situações em que o objeto pode ser comprado, quando é roubado pelo herói ou quando pode ser bebido ou comido. Assim, a última função do agrupamento – Receção do objeto mágico (F) - pode estar presente no conto sem que as funções Primeira função do doador (D) e Reação do herói (E) a precedam.

A este agrupamento segue-se a Deslocação no espaço (G), em que o herói é transportado ou conduzido até ao local onde se encontra o objeto da sua demanda, muito embora Propp (1992)