CAPÍTULO 02: Contextualizando a flexibilidade
2.2 O modernismo e a arquitetura funcionalista
A flexibilidade na arquitetura e seu conceito apresentam uma enorme diversidade de definições. A investigação de sua aplicação torna-se necessária devido aos muitos experimentos concretos que procuraram aplicar estes conceitos que foram sendo desenvolvidos por diversas correntes teóricas.
Se procurarmos o vocábulo “flexível” em um dicionário da língua portuguesa encontramos a seguinte definição: “1. Que se pode dobrar. 2. Elástico. 3. Fácil de manejar. 4.
Que se adapta com facilidade aos acontecimentos. 5. Tendência para realizar diversas atividades”.2
Conceitos importantes para a arquitetura flexível começaram a ser melhor desenvolvidos, discutidos e aprofundados na década de 1920, com os estudos encabeçados
2 Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. O minidicionário da língua portuguesa. 4ª Ed. rev. Ampliada. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2001
por Le Corbusier. O arquiteto procurava enxergar as plantas de apartamentos como se fossem chassis de carros: uma base estrutural desvinculada dos “ornamentos” que poderiam ou não ser acoplados a ela e, mediante esse tipo de pensamento, criou um de seus projetos mais famosos, a Villa Savoye - apresentada na Figura 03 e em planta baixa na Figura 04 -, e os cinco preceitos que norteariam as construções modernistas. É pertinente citar esses preceitos, pois eles se misturam às definições dadas às moradias flexíveis e à definição de elementos facilitadores da flexibilidade nas construções – como apresentado:
1 – Planta Livre: se dá, comumente, através da máxima desvinculação possível entre estrutura e fechamentos. O que possibilita o “movimento” das paredes internas de acordo com a necessidade do usuário.
2 – Fachada livre: uma consequência da planta livre. A estrutura não interfere nos fechamentos, incluindo o fechamento externo, portanto as janelas podem ser dispostas do modo que arquiteto e cliente prefiram.
3 – Janelas em fita: esse modelo de janela vem exatamente para marcar a independência existente na fachada. As aberturas não mais precisam ser interrompidas pela presença de uma coluna.
4 – Terraço jardim: este conceito nasce da ideia de se aproveitar ao máximo os espaços. Na visão de Le Corbusier não seria adequado perder uma área tão grande através da instalação de um telhado inclinado, portanto ele idealiza um jardim e espaço de contemplação na cobertura da edificação.
5 – Pilotis: este preceito foi norteado por diversos ideais. Os pilotis tornam a paisagem mais leve e permeável, tanto física quanto visualmente. Em centros urbanos trazem aos moradores maior segurança, já que os habitantes poderiam ver através dos edifícios. No caso da Villa Savoye os pilotis ainda definem um espaço de garagem e protegem a entrada da residência.
Figura 03: Villa Savoye: projeto de Le Corbusier
Fonte: Arquieditorial (2020). Disponível em https://arquieditorial.com/5-puntos-para-una-nueva-arquitectura/
Acesso em: 09 de Mar. De 2020.
Figura 04:Villa Savoye: planta baixa
Fonte: Blog da Arquitetura (2020). Disponível em https://www.blogdaarquitetura.com/casas-mais-famosas-e-iconicas/ Acesso em 09 de Mar. De 2020.
Le Corbusier defendia uma arquitetura progressista e que estivesse à frente do seu tempo, porém, ainda mantinha uma noção de flexibilidade controlada, um grau de flexibilidade que não extravasava o projeto em si e as determinações do arquiteto. Segundo
Esteves (2013) ele “acreditava que podia produzir “povos felizes”, ou seja, que era do arquiteto o poder de mudar a sociedade através do habitat humano” (ESTEVES, 2013, p.53).
Uma de suas maiores contribuições para o estudo da flexibilidade na arquitetura é o projeto da Dom-ino House mostrado na Figura 05, o protótipo de um sistema construtivo que poderia ser aplicado em diversas situações funcionais. Esse sistema é composto de lajes horizontais, pilares recuados das fachadas e os pavimentos são comunicados por escadas externas à construção. Ou seja, a Dom-ino House emprega os preceitos das construções modernistas e pode servir de base para a construção de diversos projetos pautados na ideia de arquitetura flexível.
Figura 05:Dom-ino House de Le Corbusier
Fonte:Giacomo Hanamn (2017). Disponível em https://giacomohanman.wordpress.com/2017/03/04/the-domino-house/ Acesso em: 10 de Mar. De 2020.
Apesar de o desenho modernista possuir limitações na exploração da flexibilidade e na compreensão de seu significado para a arquitetura, os estudos e projetos desenvolvidos sob sua perspectiva ajudaram a criar um grande repertório e iniciar uma discussão que permanece atual. O movimento moderno na Arquitetura também se relaciona diretamente com a necessidade de ligar um novo sistema de produção às ciências e à arte. Segundo Finkelstein (2009):
A arquitetura moderna é sem dúvida o movimento arquitetônico que mais possibilidades criou para a questão da flexibilidade. Ao romper com a tradição clássica da mimese, deixando pra trás a atitude de conceber projetos através de modelos, tipos pré-concebidos, a arquitetura moderna inaugura um modo de gerar a forma no qual não há um sistema pré-estabelecido. (FINKELSTEIN, 2009, p. 31)
Ao discutir o movimento moderno é pertinente relacioná-lo às ideias da Arquitetura população o mais rápido possível. Assim, tornou-se o motivo principal pelo qual as pessoas começaram a receber moradias com plantas cada vez mais rígidas feitas de modo sequencial sem se preocupar com as necessidades específicas de cada família.
Nesta época foram empregados em larga escala componentes pré-fabricados que possuíam duas qualidades fundamentais, segundo Santos (2012), “agilidade no processo de produção, quando comparado a outras tecnologias, e a eliminação de desperdícios, outro fator indispensável à crise instalada” (SANTOS, 2012, p.12).
Em diversos momentos históricos, como no Pós Guerra, o conceito de funcionalismo esteve atrelado ao da flexibilidade. Porém, a relação entre forma e função criada pelo funcionalismo é demasiadamente inerte, pois o arquiteto deve levar em conta a mudança na função de um espaço, de um cômodo, dentro de uma residência ao longo do tempo. O pensamento funcionalista acaba criando uma arquitetura “engessada” e estática, o que leva a um conflito com algumas das premissas da flexibilidade – a da polivalência, por exemplo - que defende o fato de um mesmo espaço ter a capacidade de abrigar atividades diversas dependendo da necessidade de quem o habita.
Assim, torna-se pertinente falarmos um pouco sobre o conceito de “inflexibilidade”.
Segundo Esteves (2013) “inflexibilidade, a nível habitacional, significa que os ocupantes não têm nenhuma opção a não ser mudar de moradia se essa não corresponder à alteração das suas necessidades” (ESTEVES, 2013, p.47). E esse pensamento torna as construções obsoletas e inúteis levando à demolição/reforma das mesmas.
Ainda que a racionalização tenha contribuído muito para a história da arquitetura, acredita-se que o emprego de suas premissas deveria ser revisto nas construções contemporâneas. A repetição dos apartamentos tipo, os preceitos funcionalistas, normas dimensionais e a padronização excessiva, se tornam, segundo Jorge (2012):
[...] álibis perfeitos para uma arquitetura direcionada a usuários desconhecidos, disseminam, ainda hoje, modelos de caráter universal, reforçados por estratégias mercadológicas que homogeneízam o comportamento e pouco favorecem o uso diversificado do espaço da habitação, condição indispensável ao sujeito contemporâneo, ao estado de vida plural das novas estruturas familiares, às rápidas transformações sociais, tecnológicas e culturais do mundo contemporâneo. (JORGE, 2012, p.16)
É possível, portanto entender como ao longo da história da arquitetura, juntamente com as mudanças econômicas, políticas e sociais, alguns dos termos pertinentes ao desenvolvimento desta pesquisa começaram a ser definidos: flexibilidade, arquitetura funcionalista, inflexibilidade arquitetônica.