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O modo narrativo de organização do discurso

3. Os Modos Enuncivos

3.2. O modo narrativo de organização do discurso

Conforme os postulados de Charaudeau (2016), a narrativa envolve o contar. Para contarmos uma história, por exemplo, precisamos descrever tanto ações quanto qualificações. Assim, para construir uma narrativa, é necessário utilizar dois Modos de Organização do Discurso que são o Narrativo e o Descritivo. É preciso, portanto, evitar confundir narrativa e Modo Narrativo (ou Descritivo), uma vez que a primeira abarca os outros dois.

No que tange, mais precisamente, à diferença entre o Descritivo e o Narrativo, o primeiro organiza o mundo de forma taxionômica (classificação dos seres), descontínua (não há ligação entre os seres) e aberta (sem necessidade de começo e fim), o segundo representa o mundo de maneira sucessiva e contínua. Em outras palavras, o mundo passa a ser organizado por meio de uma sucessão de acontecimentos que, encadeados, se influenciam de forma progressiva numa lógica que é marcada pelo princípio e pelo fim.

Charaudeau (2016) esclarece que o Modo de Organização Narrativo apresenta uma dupla articulação, a qual é concebida pelo autor como um essencial instrumento de análise dos textos19 narrativos.

• A organização da lógica narrativa, que abrange a construção de uma série de ações as quais seguem uma lógica que irá desenvolver a trama de uma história; • A organização da encenação da narrativa, que abrange a construção do universo narrado a partir do desempenho de um sujeito narrador que está

19 A visão de texto, para Charaudeau (2016, p.159) consiste em “uma combinação de múltiplos fatores de naturezas diversas que se situam além dos sistemas de língua”.

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conectado ao destinatário da narrativa por meio de um contrato de comunicação.

Iremos nos debruçar agora sobre o primeiro componente da dupla articulação apresentada, a organização da lógica narrativa.

3.1.1. A organização da lógica narrativa

A lógica narrativa possui três tipos de componentes: os actantes, os processos e as sequências.

a) Os actantes:

No nível da língua, o actante pode ser agente, paciente ou destinatário. Já no nível do discurso ele desempenha um papel narrativo que pode ser, por exemplo, de um retribuidor, como o papel do agente “o homem” no trecho: “O homem oferece um presente ao dono para agradecer-lhe por um serviço prestado anteriormente” (CHARAUDEAU, 2016, p. 160). Para Charaudeau (2016) o que interessa é o papel narrativo particular que o actante pode exercer. A partir disso, ele pode ser hierarquizado e qualificado.

Os actantes narrativos podem ser hierarquizados sob dois aspectos: segundo a sua natureza ou segundo a sua importância na narrativa. No tocante ao primeiro aspecto, os actantes narrativos de base são humanos (ou considerados desta forma) e podem ser classificados como: o agente que age e o paciente que sofre a ação. Já no que tange ao segundo aspecto, os actantes podem ser distinguidos entre principais e secundários.

Charaudeau (2016) propõe o questionário actancial, disposto na próxima página, para ajudar-nos a identificar quem são os actantes presentes em determinada narrativa. Vale enfatizar que tal questionário será totalmente acionado na análise.

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QUESTIONÁRIO SOBRE OS ACTANTES NARRATIVOS Verificar se o actante:

a) Age: é o iniciador, o responsável e o executante da ação.

b) Sofre a ação: A ação recai sobre ele. Ele a recebe de maneira mais ou menos passiva, é mais ou menos afetado por ela, é mais ou menos a ela submisso.

1. Se o actante age, ele o faz como: a) Agressor: comete um malefício b) Benfeitor: transmite um benefício.

c) Aliado: associa-se a um outro actante para auxiliá-lo ou defendê-lo, seja agindo diretamente sobre o adversário de outro actante, seja agindo ao mesmo tempo que este.

d) Oponente: contraria os projetos e as ações de um outro actante.

e) Retribuidor: dá a um outro actante ou uma recompensa ou uma punição (castigo). 1.1. Ele o faz de maneira:

a) Voluntária: ele é consciente, ele decidiu (ato intencional). b) Involuntária: não é consciente, não decidiu (não intencional). c) Direta: afrontamento direto.

d) Indireta: por meio de fingimento ou intermediário. 2. Se o actante sofre a ação ele o faz como:

a) Vítima: é afetado negativamente pela ação de um outro actante. b) Beneficiário: é afetado positivamente pela ação de um outro actante. 2.2. Se o actante-vítima reage, ele o faz por:

a) Fuga: ele evita o afrontamento. b) Resposta: age contra o seu agressor. c) Negociação: tenta neutralizar a agressão. 2.3. Se o actante beneficiário reage, ele o faz por:

a) Retribuição: ele age retribuindo de maneira benéfica o outro actante. b) Recusa: ele recusa o benefício.

Quadro 9 – Questionário sobre os actantes narrativos (CHARAUDEAU, 2016, p. 162-163)

70 b) O Processo narrativo:

O processo narrativo consiste em uma unidade de ação, que correlacionado com outras ações, transforma-se em função narrativa. O seguinte exemplo dado por Charaudeau (2016, p. 163) ilustra a definição acima: “Um homem X manda um embrulho a um homem Y.”. Nesse trecho, a ação do actante X de enviar um embrulho ao Y terá uma função narrativa de recompensa se for relacionada a uma ação anterior na qual “Y auxiliou X”.

Assim como há uma relação direta entre actantes e personagens, há um jogo de correspondências entre os processos narrativos e as ações. Um só processo narrativo pode equivaler a muitas ações. O processo de opressão, por exemplo, pode ser realizado por um ato físico (soco), um insulto, um constrangimento etc. Uma dada ação pode corresponder a diversos processos narrativos. Por exemplo, a ação de entregar um embrulho pode corresponder a um processo de recompensa (presente) ou até mesmo de agressão (armadilha). O que determinará a função narrativa da ação será o contexto em que esta última está inserida.

Quanto à hierarquização, os processos podem ter dois tipos de função narrativa essenciais: uma função narrativa principal e uma função narrativa secundária.

A função narrativa principal trata das grandes articulações ocorridas no decorrer da história, numa lógica de ação de causa e consequência. Já a função narrativa secundária completa de diversas formas os espaços entre as articulações principais da história. Charaudeau (2016) enfatiza que para concluirmos que determinada ação faz parte da função principal ou secundária, devemos conhecer a história completa.

As ações ocorridas ao longo de uma trama podem ter um grau de semantização. Por isso, os processos, bem como os actantes, podem ser qualificados. A retribuição, por exemplo, pode ser qualificada como uma recompensa. Charaudeau (2016) estabeleceu um questionário, adaptado da obra “Logique Du récit” de Brémond (1973), sobre os processos narrativos, que auxilia no entendimento das ações traçadas no decorrer de uma história. É importante considerar que o questionário disposto a seguir será totalmente utilizado na análise.

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Quadro 10 – Questionário sobre os processos narrativos (CHARAUDEAU, 2016, p.165-166).

QUESTIONÁRIO SOBRE OS PROCESSOS NARRATIVOS

• Verificar se a realização de um ato recai principalmente:

1. sobre si (o agente é seu próprio beneficiário ou sua própria vítima);

2. sobre o outro (o outro é beneficiário ou vítima). • Verificar se o ato tem por função:

1. melhorar um estado inicial; 2. conservar um estado inicial; 3. degradar um estado inicial.

• Se a realização do ato recai sobre si, ele tem por função:

1.1. O Melhoramento do estado inicial, por: a) eliminação (de um adversário ou de uma ameaça);

b) resolução de um problema;

c) transgressão (de uma regra, de uma proibição); d) negociação (com adversário ou oponente); e) embuste (esperteza, cilada para sair de uma situação perigosa);

f) resposta (a um ato de agressão por um outro ato de agressão);

g) vingança (como autorreparação)

1.2. A Conservação de seu estado inicial, por: a) eliminação (de um adversário ou e uma ameaça); b) prevenção (de um conflito, de um encontro), fuga; c) neutralização (de uma ameaça);

d) negociação; e) embuste.

1.3. A Degradação do estado inicial, por: a) submissão (à dominação do outro); b) sacrifício (autodegradação voluntária); c) transgressão (que desrespeita a lei). • Se a realização do ato recai sobre o outro,

ele tem por função:

2.1. O Melhoramento do estado inicial do outro, por:

a) eliminação (do adversário do outro); b) intervenção (em favor do outro, auxílio); c) negociação (em favor do outro);

d) retribuição (positiva – presente).

2.2. A Conservação do estado inicial do outro, por:

a) eliminação (da ameaça sobre o outro); b) intervenção (em favor do outro – proteção); c) neutralização (de uma ameaça).

2.3. A Degradação do estado inicial do outro, por:

a) agressão (realização de um malfeito sobre outro);

b) eliminação (do outro como adversário, ameaça);

c) embuste (o outro é traído);

d) vingança (como punição do outro); e) retribuição (como justiça – castigo) f) intervenção (contra o outro)

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c) As sequências e seus princípios de organização:

Conforme o postulado de Charaudeau (2016), a lógica narrativa é organizada por quatro princípios: O princípio de coerência, o princípio de intencionalidade, o princípio de encadeamento e o princípio de localização.

a) Princípio de coerência: as ações são organizadas por meio de uma sucessão de acontecimentos estruturados de forma intemporal. Para que haja coerência, é fundamental que, nessa sequência de ações, algumas desempenhem um papel narrativo de abertura (início), que auxilia na abertura de novos processos na narrativa; e outras, um papel narrativo de fechamento (fim), que consiste na conclusão do processo, podendo atingir um resultado positivo ou negativo.

b) Princípio de intencionalidade: A sequência de ações com abertura e fechamento deve apresentar uma razão de ser. É a motivação do sujeito falante que cria um sentido narrativo às ações. Esse princípio ordena toda a sequência narrativa que passa por um estado inicial no qual nasce uma Falta, depois pelo estado de atualização, que consiste na Busca em tentar obter o que preencherá a Falta, e, por fim, pelo estado final da realização do processo, o qual é fechado pelo êxito ou fracasso diante da Busca.

c) Princípio de encadeamento: A combinação dos princípios apresentados anteriormente forma sequências cujos modos de encadeamento culminam em estruturas complexas. Há quatro tipos de encadeamentos:

• Sucessão: as sequências mostram-se de maneira linear e consecutiva, como acontece nos contos, onde há uma série de sequências que se sucede até o desfecho;

• Paralelismo: as sequências mostram-se de maneira autônoma, desenvolvem- se de forma paralela e, ao final, encontram-se, como acontece em relatos que contam a história sobre destinos humanos que ocorrem ao mesmo tempo; • Simetria: duas sequências são desenvolvidas, cada uma realizada por um

actante-agente distinto de modo que uma obtém realização positiva, o que acarreta a realização negativa da outra;

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• Encaixe: as sequências podem estar organizadas em microssequências com o objetivo de detalhar certos aspectos.

d) Princípio de localização: esse princípio fornece pontos de referência à organização da trama narrativa. Há três pontos de referência: localização (a sequência é estabelecida em um dado espaço), situação (a sequência é situada no Tempo), caracterização (a sequência deve apresentar seus actantes caracterizados de modo que possamos entender como determinado actante escapou de uma situação, por exemplo).

Dentre os princípios detalhados, durante a análise, trabalharemos, em certa medida, com o princípio da coerência, o princípio da intencionalidade e o princípio do encadeamento. Após toda a lógica narrativa ser explicitada em seus diversos aspectos, a partir daqui iremos nos dedicar ao segundo componente da dupla articulação apresentada na parte introdutória deste capítulo, a organização da encenação da narrativa.

3.1.2. A organização da encenação narrativa

Ao se aprofundar nos estudos sobre o processo narrativo, Charaudeau (2016) reconhece a presença da encenação narrativa, a qual, bem como o dispositivo geral da comunicação, elucidado no primeiro capítulo, pressupõe quatro sujeitos dispostos em dois espaços de significação, um externo ao texto (extratextual) e outro interno ao texto (intratextual). No espaço extratextual, ocorre a troca linguageira entre os seres de identidade social: o autor e o leitor “reais”. No espaço intratextual, encontram-se os protagonistas da narrativa, denominados seres (de papel) de identidade discursiva: narrador e leitor-destinatário.

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Quadro 11 – Dispositivo de encenação narrativa (CHARAUDEAU, 2016, p. 184)

Os parceiros da encenação narrativa (seres reais) podem ter dois tipos de identidade: autor-indivíduo e autor-escritor.

Charaudeau (2016, p.185) descreve o autor-indivíduo como o parceiro que tem um nome próprio e uma biografia pessoal a qual não precisa ser pública, mas pode tornar-se conhecida. Esse sujeito pode não estar presente na narrativa, porém há a possibilidade de que ele apareça de modo explícito. Assim, o autor-indivíduo passa a ser personagem da narrativa e “testemunha de uma história vivida que lhe é pessoal, ancorada num contexto sócio-histórico, e cujo ordenador só pode ser a vida, o destino, o acaso, Deus, ou ele mesmo”. Em vista disso, esse autor convida o leitor real – também considerado como indivíduo – a receber e averiguar a veracidade dos fatos conforme sua própria experiência de vida.

O linguista acrescenta que os fatos narrados não precisam corresponder precisamente ao que aconteceu de fato, visto que eles podem ser apresentados “como se tivessem acontecido”.

A outra identidade de autor é a de escritor. Ele possui um nome próprio que pode ser real ou fictício bem como uma biografia pública. Esse autor-escritor tem um projeto de escritura embasado em suas experiências sociais encontradas no mundo das práticas de escritura, seja literária ou não. Charaudeau (2016) explana que é somente por meio da organização geral da narrativa e de seu processo de narração

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que é possível perceber o projeto de escritura e o saber escrever do escritor. Em decorrência disso, tal autor-escritor se volta ao leitor possível, munido de competência de leitura, o qual é convocado a receber e reconhecer o projeto de escritura.

Os protagonistas da encenação narrativa são os seres de papel. Eles são conhecidos como narrador (portador da identidade anônima de narrador textual) e leitor-destinatário. Na letra de funk “Não se brinca com mulher” (presente em nosso corpus), a narradora é uma mulher que conta a história em primeira pessoa e o narratário são mulheres que estão em relacionamentos abusivos. Segundo Charaudeau (2016), esses sujeitos narradores podem ter dois tipos de identidade:

narrador-historiador e narrador-contador.

O narrador-historiador organiza a representação da história que está sendo contada de maneira objetiva, pois ele lança mão dos fatos da realidade ao fazer uso de arquivos, testemunhos e documentos. Tal narrador quer que o seu leitor- destinatário perceba a história como uma representação autêntica de uma história real.

O narrador-contador, por sua vez, é o organizador de uma história a qual faz parte de um mundo fictício. Dessa forma, o leitor-destinatário implicado nesse contexto deve receber e compartilhar a história contada como inventada. Charaudeau (2016) lembra, ainda, que o termo “contador” é colocado em sentido amplo, uma vez que não diz respeito ao conto oral.

Os componentes que fazem parte do dispositivo da Encenação Narrativa manifestam procedimentos que dizem respeito à identidade, ao estatuto e aos pontos de vista do narrador textual. Nesse momento iremos tratar desses três procedimentos respectivamente.

O dispositivo do “processo de narração”, conforme postula Charaudeau (2016, p. 188), abrange vários tipos de sujeitos, cada um com uma identidade própria que os leva a representar um papel peculiar na encenação de uma narrativa. Assim, o teórico estabelece quatro tipos de intervenções e identidades para o narrador:

a) Presença e intervenção do narrador-autor-indivíduo: Nesse procedimento de presença e intervenção, o narrador-autor-indivíduo produz um “efeito de verismo e/ou apelo a compartilhar de um pensamento ou de uma experiência vivida” (CHARAUDEAU, 2016, p. 189). Manifestando-se de tal maneira, esse autor indivíduo

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transforma-se em um personagem que se volta ao leitor de um modo explícito, podendo apresentar-se como: um cronista, observador e testemunha de sua época; um contador-testemunha de sua própria vida (como nas autobiografias reais e fictícias); e um narrador em primeira pessoa de uma narrativa não autobiográfica.

b) Presença e intervenção do narrador-autor-escritor: Nesse procedimento de presença e intervenção, o narrador-autor-escritor produz, além de um efeito de verismo (uma vez que ele possui um papel social particular), um efeito de cumplicidade com o leitor ao qual ele propõe um contrato de leitura. A fim de justificar seu ato de escritura, tal autor-escritor pode anunciar em um prefácio ou preâmbulo qual foi o seu projeto de escrita; pode demonstrar-se como um autor-indivíduo-cronista ao revelar suas fontes de inspiração; e também pode assumir o papel de autor- indivíduo-relator de uma narrativa que ele transcreve de forma fiel, oriunda de documentos originais, cartas ou um testemunho oral.

c) Presença e intervenção do narrador-historiador: Nesse procedimento de presença e intervenção, o narrador apresenta marcas discursivas que demonstram que ele se assemelha a um historiador que conta acontecimentos com base em documentos e testemunhos que o auxilie a impor sua credibilidade histórica. O narrador-historiador, assim, tenta construir uma imparcialidade em sua narrativa.

d) Presença e intervenção do narrador-contador: Nesse procedimento de presença e intervenção, o narrador tenta causar seu próprio apagamento para contar a história de outro. O fato do narrador-contador ficar apagado, no entanto, não significa que esteja ausente, visto que ele pode revelar-se explicitamente na leitura ao usar os pronomes pessoais “nós” e “eu”; ao implicar o leitor diretamente empregando a palavra “leitor” ou até mesmo utilizando pronomes como “você”, “tu” e “te”; ao chamar discretamente o leitor-destinatário a compartilhar de seus pensamentos e opiniões com o auxílio de enunciados que geram uma reflexão geral; e ao mostrar, por meio da escolha de certas palavras, um afastamento com relação às personagens da narrativa ou aos acontecimentos.

Como vimos até então, a narrativa se desenvolve segundo o controle de um narrador que pode afastar-se da história ou manifestar-se por diversos mecanismos

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de intervenção. Na análise, serão exploradas a identidade dos parceiros (seres reais) e dos protagonistas (seres de papel) presentes na encenação da narrativa. Além disso, iremos nos ater também aos quatro tipos de intervenções e identidades do narrador.

Agora, iremos precisar qual é o estatuto do narrador, em outras palavras, apontaremos a relação que há entre o narrador e a história contada. Charaudeau (2016) admite a complexidade dessa relação, uma vez que ela depende não só do estatuto do narrador (quem conta a história de quem?), mas também de seu ponto de vista e de sua identidade (quem fala?). Aqui, portanto, o narrador é visto como a instância que conta. O teórico, assim, lança mão de três formas de atuação do narrador:

a) O narrador conta a história de um outro: Nessa categoria, o narrador e personagem principal são diferentes. A história é narrada em terceira pessoa, o que faz com que o narrador fique externo à história. Distinguem-se, aqui, dois estatutos do narrador: o narrador é totalmente exterior ao contar uma história na qual ele não está presente como personagem; e o narrador mostra-se como uma testemunha dos acontecimentos contados ao assumir a posição de um simples figurante ao observar as ações das personagens.

b) O narrador conta sua própria história: Nessa categoria, narrador e personagem principal são idênticos. A história é narrada em primeira pessoa e há três casos no interior desse grupo: o narrador pode ser o porta-voz do autor-indivíduo-escritor e, assim, confunde-se com este, como é o exemplo da autobiografia real; o narrador também pode não ser o porta-voz do autor-indivíduo-escritor, como é o caso da autobiografia fictícia; e o narrador-personagem pode ser ao mesmo tempo o autor- indivíduo e um indivíduo fictício, podendo isso ser verificado por meio da mesclagem de certos índices próprios da vida do autor-indivíduo com a imaginação do autor- escritor. Assim, quando o leitor entrar em contato com um narrador que possui tal estatuto, não irá saber ao certo se o que foi contado na história aconteceu realmente ou não. Charaudeau (2016, p.196) chama tal ocorrência de “efeito de real e efeito de ficção”.

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c) Existem muitos narradores: Nessa categoria, a narrativa é capaz de entrelaçar várias histórias, cada uma tendo seu próprio narrador. Assim, há um narrador primário que domina o texto como um todo e corresponde ao autor-escritor e um narrador secundário20 (ou mais de um) cuja história contada se atrela à narrativa do narrador

primário.

É válido ressaltar que os três estatutos do narrador delineados anteriormente comparecerão em nossa análise. Resta, no momento, dedicarmo-nos aos pontos de vista do narrador, aspectos que também serão explorados no exame das letras de funk. Esse procedimento depende dos saberes que o narrador possui sobre sua personagem. Tais saberes são transcritos ao longo de sua narrativa e são comunicados ao leitor. Para Charaudeau (2016), há uma distinção entre dois pontos de vista, um externo e outro interno.

• O ponto de vista externo, objetivo: esse é o saber que o narrador tem sobre a exterioridade da personagem, ou seja, a sua aparência física, seus fatos e gestos visíveis. Esses aspectos são de fácil percepção por qualquer sujeito que se encontra no lugar do narrador.

• O ponto de vista interno, subjetivo: esse é o saber que o narrador tem sobre o interior da personagem, isto é, seus sentimentos, pensamentos e impulsos interiores. Tais aspectos não podem ser verificados por outro sujeito que não seja o narrador.

Charaudeau (2016, p.199) adiciona que, em muitas narrativas, a alternância entre o ponto de vista interno e externo se faz presente. Ele ainda explana que o narrador pode propor “ao leitor compartilhar suas interpretações, em nome de uma certa verossimilhança que faz o ponto de vista interno converter-se em ponto de vista externo”, ao partir de uma observação externa de dadas características e fatos.