1. SOCIALIDADE IMPESSOAL DA EXISTÊNCIA
1.3 Quem do ser-no-mundo: a dimensão social da existência cotidiana
1.3.2 O modo de ser-com outros do ser-aí cotidiano
A analítica da cotidianidade examina a existência humana individual e explicita estruturas fundamentais de uma existência individual. Assim como a mundaneidade, ser-com é uma dessas estruturas. Enquanto tal, ela indica que o mundo é compartilhado (Mit-welt) com outros, de tal modo que o ser-aí é essencialmente social e público. Para expor esses caracteres, Heidegger retoma os aspectos pragmáticos descrito no fenômeno do mundo. Pois, para ele, na explicação do mundo é possível visualizar todos os momentos constitutivos do ser-no-mundo, de tal forma, que a pergunta pelo quem já está de alguma forma preparada (HEDEIGGER, 2012, p. 341). Como foi apresentado, na cotidianidade o ser-aí é caracterizado pelo seu envolvimento pragmático com os entes disponíveis, por estar lançado em um plexo remissivo e significativo, em vista de um projetar-se nas possibilidades de sua existência. O horizonte no qual a existência foi caracterizada por ser mundana deve tornar evidente também a estrutura do ser-com.
Essa estrutura se faz visível a partir da descrição dos modos como ocorre a relação do ser-aí com outros na cotidianidade. Nesse sentido, segundo a interpretação de Shatzki (2005, p. 234), há quatro modos básicos de relação da existência com outros: 1) como um encontrar- se fora do mundo; 2) nos modos da existência agir em direção a outros; 3) ao compartilhar o mesmo mundo e 4) quando a mundaneidade é essencialmente a mesma para todos os
envolvidos. Essas indicações explicitam a estrutura do ser-com como a estrutura do encontrar- se do ser-aí com seu semelhante. Vejamos cada um desses momentos.
No que se refere ao primeiro, no modo de encontro com outros fora do mundo, a indicação é de que a relação com outros ocorre mesmo em mundos separados. Isso se evidencia logo nas primeiras descrições do encontrar-se do ser-aí com outros:
No modo-de-ser desse utilizável, isto é, em sua conjuntação, reside uma remissão essencial a possíveis usuários para cujos corpos o utilizável deve ser “feito sob medida”. De igual maneira, no material empregado vem-de-encontro seu produtor ou “fornecedor” como alguém que “atende” bem ou mal. Por exemplo, o campo, “ao longo do qual” caminhamos, se mostra como pertencente a esse ou àquele, como mantido ordinariamente por ele, o livro que se usa foi comprado em... presenteado por...etc.. (HEIDEGGER, 2012, p. 341)
Nessa passagem, vemos que o mundo circundante, no lugar de ocupação povoado por entes disponíveis, é o contexto no qual o outro me vem ao encontro, mesmo que não seja espacialmente presentes. Por exemplo, quando faço contato pelas redes sociais ou uso a internet em meu computador, acessando um site para compartilhar um conteúdo digital, interajo com várias outras pessoas e elas não precisam fazer parte do meu mundo ôntico para interagir comigo. Assim, há encontros com outros que ocorrem através de entes do interior do mundo, mas não necessita da presença física entre existentes.
O segundo ponto indica que a existência age em direção à outros. Nessa perspectiva, Heidegger diferencia os comportamentos para com utensílios de ocupação (Besorge) dos comportamentos para com outros, no qual há uma relação de preocupação-com (Fürsorge). Trataremos a seguir os aspectos dos comportamentos da preocupação-com. Por ora, devemos levar em consideração que essa é uma estrutura do ser-aí que expressa os comportamentos direcionados aos outros. Nesses comportamentos, inclui-se todos os modos de relação com os outros, desde os mais triviais e corriqueiros de, por exemplo, desviar do caminho do outro na rua, até os mais complexos, como o de assumir as atitudes do outro como modelo a ser seguido. Sobretudo, é evidente que na convivência cotidiana o ser-aí tem comportamentos direcionados para outros.
Já o terceiro modo de encontro com outros indica que o ser-aí divide o mesmo mundo com outros existentes. Desse modo, o outro que possui os mesmos modos de ser que o meu, também é ser em um mundo, no qual ocorre o encontro. Isso indica que o mundo é sempre compartilhado, comum a vários existentes, portanto, um horizonte público. Assim, a significatividade do mundo que habito é a mesma para os outros, ou seja, como indica o quarto modo, a mundaneidade do mundo é a mesma para todos os entes que dele pertencem.
Pois, se o que determina o aparecimento do ente como tal e para tal é a totalidade do plexo remissional do mundo, como um horizonte compartilhado, então, o caráter de utilizável de um determinado ente que chega até o ser-aí é a mesma para vários existentes.
Em suma, o outro é onde nós mesmos estamos, visto que ele tem o mesmo modo de ser que tenho. Isso não é resultado de uma dedução empírica nem de uma reflexão a partir da qual eu me reconheço como idêntico a outros. Isso justifica porque a noção de subjetividade ou consciência é inadequada para conceber o ser-aí humano, pois, não se trata de um ser autocontido independente de qualquer que lhe seja externa (DREYFUS, 1991, p. 141-151). Pelo contrário, o ser-com mostra uma estrutura fundamental que caracteriza uma abertura originária do ser-aí para com seu semelhante, de modo que não se pode descrever o ser humano desconsiderando seu caráter social.
Na medida em que é essencialmente ser-com outros, o ser-aí co-existe. Portanto, a existência do ser-aí é também uma co-existência (Mitdasein). No co-existir, o ser-aí possui comportamentos direcionados para o ser-aí de outros, denominados preocupação-com (Fürsorge). Assim, juntamente com o ser-com, a co-existência e preocupação-com são caracterizados como enunciados fenomenológicos da socialidade da existência.