CAPITULO II : OS TEMAS
4. Liberdade
4.2 O momento que vai de 1936 à 1975
A literatura deste momento começa sob o signo da liberdade e a afirmação da terra cabo-verdiana, num espaço caraterizado pelos mesmos problemas sociais vindos do passado. Ao assumir uma atitude de pensar sobre a terra, mais nacionalista, demarcam- se da posição anterior, pois querem ter o destino da terra nas próprias mãos. Como refere Eugénio Tavares, a liberdade é deliciosa, por isso a sua privação merece reivindicação. Nem mesmo o Criador priva-nos da liberdade de O escolher ou não, antes pelo contrário, deu-nos a liberdade de seguir o caminho por Ele traçado ou o escolhido por nós.
Deve-se sempre ter em conta que os intelectuais deste momento histórico encontraram já as bases que foram lançadas, como diz Daniel Medina (2007), nos anos «oitocentos [por] homens autodidactas, ou com um elevado nível de instrução e profunda e sólida cultura humanística, promotora de um legado de bens culturais acumulados às gerações seguintes.» (p. 81). Diz este autor ainda que
a imprensa dessa altura […] alarga de forma substanciosa a extenção do nosso entendimento a ponto de percebermos a sua importância analítica nos seus vários quadrantes de estudo/investigação, a qual serviu para que os caboverdianos dessem maior amplitude ao combate na defesa dos seus interesses sociais, culturais e políticos e, contribuiu poderosamente para a consciência de pertença (ibidem).
Sendo assim, a consciência nacional, consequentemente, a cabo-verdianidade, desde os seus mais amplos parâmetros, nasceu anteriormente a este momento histórico, ganhando, paulatinamente, os contornos que culminaram com os ideais dos escritores a partir dos claridosos. Tal identidade forjada sob adoção do «ponto de vista dos outros e do grupo a que pertence» (idem: p.82), num misto de fatores sociais e psicológicos, conduziu a que a defesa da mesma continuasse, mesmo sendo barrada às vezes, impedindo essa construção, por forma a ter uma afirmação no mundo. Um dos movimentos que deu um grande apoio no surgimento do ideal de independência foi a Casa dos Estudantes do Império que Jorge Querido (conforme citado por Castelo, s.d) diz que foi
um dos poucos oásis de democracia e de liberdade que ainda sobreviviam no vasto deserto colonial-fascista; […], incutindo-lhes [aos estudantes] valores como os de liberdade, de democracia, de tolerância e, sobretudo, a nós africanos, despertava-nos para a nossa própria identidade e ensinava-nos como combater a alienação mental e cultural provocada por séculos de dominação colonial (p.15).
Ainda há a relevar a atuação do Grupo do 3º ciclo, que teve a presença de Abílio Duarte, no liceu do Mindelo, servindo-se, segundo Pereira (2003), do desenvolvimento de ações culturais e académicas como um pretexto para «criar as condições de mobilização e consciencialização de largas franjas de jovens para o fenómeno iniciado por Amílcar Cabral em Bissau.» (p. 94).
O tema agora é textualizado pelos escritores sob o signo de sonho, esperança e luta. Para marcar este sonho de um dia ter as terras nas próprias mãos, António Nunes (1997) e o poema “Poema de amanhã” (p.137) é o ponto de partida, pois é nele que encontramos um discurso mais próximo de uma denúncia real, fazendo o contraponto entre um presente e um passado caóticos e um futuro promissor. É no ambiente presente que nasce o sonho/esperança, «Mamãi! Sonho que, um dia/ Em vez dos campos sem nada/ Do êxodo das gentes nos anos de estiagem». Para o conforto, recorda a figura maternal que alimenta tudo, através do sonho pitituoso, húmido, «Das lágrimas vertidas por aqueles que partem/ E dos sonhos, aflorando, quando um barco passa,», num misto entre o partir e o ficar. Há também sonhos sanguínios, «Dos gritos e maldições, dos ódios e vinganças,» e sonhos melancólicos «Sonho que, um dia,/ Estas leiras de terra [...]». Estes sonhos todos eles associados à esperança do porvir «Dos que olham sem esperanças o dia que há-de vir,». Assim, quando as terras pertencerem, no futuro, aos cabo-verdianos haverá a mudança, da inércia a que foi destinada a terra no passado, «E, então,/ [...] / Novas seivas brotando da terra dura e seca,/Vivificando os sonhos, vivificando as ânsias, vivificando a Vida!», mas tudo acontecerá com lutas, esse é sonho bilioso. Assim, numa mistura dos quatro elementos materiais, água, terra, fogo e ar, elementos provocadores do homem, mas suavizado com a figura materna, mãe carnal ou
terra-mater, a independência acontecerá, como a única alternativa possível.
Para que o sonho da liberdade tornasse realidade, haveria lutas e manifestações, porque era necessário que os «braços musculados que se quedam inertes» (ibidem), do passado tornassem ativos. No poema “Capitão Ambrósio”, Gabriel Mariano (1997) mostra esta força na revolta do povo, marchando, correndo para alcançar o Ambrósio, o símbolo da luta pela liberdade/independência, «há promessas de luz/[…]/Novos caminhos de amor» (p.170), porque Ambrósio está na frente. Mesmo com a morte prematura do Ambrósio-esperança, a esperança continua sólida, porque o sofrimento ficou na reminiscência dessa caminhada para a liberdade – a bandeira, «A bandeira negra da fome/Clara bandeira da fome» (ibidem). O poeta personifica o sofrimento, apelando este ao povo, «Ressuscita e luta povo» (idem, p.171), no simbolismo da
bandeira que está desfraldada ao vento, «Bandeira erguida no vento» (Mariano, 1997: p.170), pois havia a certeza em Ovídio Martins que o cabo-verdiano morre e ressuscita todos os anos para o desespero de quem não está interessado nesta ressurreição.
A esperança é a força motivadora para a luta, pois materializa o sonho, por isso o povo clama, Capitão! Por várias vezes esta invocação aparece. Fica o compromisso social, caso a esperança volte, «Chegou Ambrósio, chegou!» (idem: p.172). Então inicia outra marcha e «na frente marcha o Ambrósio!» (ibidem).
Este compromisso social faz com que o povo tenha a certeza que o dia há-de chegar na figura do Ambrósio qual gladiador de «espada […]/ de novo nas mãos cintila» (idem: p.166), mas prevê-se esforço, « e os povos marcham em fila/ na estrada da própria dor» (idem: p.167). A consequência desta luta não se faz esperar e surge «um braço que se alevanta/E alevantado comove;/Um sol encouraçando/Os elmos que se avermelham/ Uma bandeira, um clarim,/Um corpo que se avizinha» (ibidem), eliminando a inércia.
De igual modo, Ovídio Martins (1998), da mesma geração de Gabriel Mariano, mostra a esperança, no poema “Cantame” (p.93), onde a cantiga alenta a confiança do povo, «Cantáme/Quel cantiga de sperança/Que ta falá na confiança/Note dstine de nôs terra.», interpelando o seu interlocutor mais duas vezes com “Cantáme quel cantiga” de
ligria ou de cretcheu, sempre referindo-se a mudanças, «note dstine de nôs terra».
Como se trata de uma esperança ainda não concreta, a demora da independência desespera, contrariamente, ao dito popular “quem espera alcança”. O poema “Condição” (idem: p.95) retrata este desespero, «Dia tita passá/ One tita passá», provocando algum desalento «Liberdade ca t’ta tchgá.» Por isso não tem dúvidas que o alcance da independência exige sofrimento físico e psicológico, «Ma qond corpe sangrá/ Qond alma gemê e gritá/Independência anton ta tchgá.», assim como é demonstrado no poema “Ora djá tchiga” (Dambará, 1980: pp.256-257) onde o poeta apela à luta, « ergue-te negro escuta o clamor do povo:». O clamor é apresentado ao negro, «Escuta o gritar do povo clamando na Assistência Pública, no funco/ nos cemitérios, nos campos sem chuva,/ nos ventres torcidos de fome», assim, deve abandonar tudo, seguir o ideal da independência, «abandona funco, mãe, irmão/ tudo», para lutar pela independência, «toma consciência sobe para as montanhas/ finca os pés na terra pega em armas […] luta p’la liberdade da tua terra». Pode-se ver que o poeta usa a expressão finká pé na
terra, o propósito dos claridosos, demonstrando que o ideal é lutar pela independência.
Esta luta terá como consequência perdas humanas que serão imortalizadas como o demonstra Abílio Duarte (1980), em “Venceremos” (p.31) ), «Viverão nos corações/Das
gerações do porvir.» e os que sobreviverem têm o direito de governar a terra, referido no poema “As nossas bandeiras” (Duarte, 1980:, p.32), assumindo a fidelidade a aqueles que morreram.
O papel do mar é extrapolado para este desejo/sonho da liberdade. Também faz o poeta sonhar com ela, pois, livremente, pode conduzir o cabo-verdiano a qualquer lugar, seguindo a sua vontade, ainda que de forma onírica, como no poema “Unidos Venceremos” (Martins, 1998: p.107) onde o poeta mostra o mar encarnando a figura materna que embala o sonho do filho, «estendemos as mãos/ por sobre o mar/as ondas não são muros/são laços/de sargaços», com a grande madrugada que caminha para um novo dia, « que servirão de leito/ à grande madrugada», atribuindo ao mar o simbolismo de embalo do sonho de liberdade.
Será que deve haver paciência? Sim, o poeta di-lo no poema “Hora” (idem: p.63). O novo dia está prestes a chegar, porque os anos passam e cada vez a luta pela libertação mostra no horizonte o esperado dia. O poeta abre o poema e fecha-o com o mesmo apelo, «Hora ti ta tchgá nhás gente.», por isso, no poema “Cantá nhá pove” (idem: p.65), mostra que resta cantar a mudança, « Cantá/Dia que ta matá note/Ligria que ta matá tristeza/Midje que ta matá fome/ Tchuva que ta matá sede.», numa alusão ao desaparecimento dos males sociais que atacaram o povo nos anos anteriores.
Já tinha havido o compromisso de recordar os que lutaram pela independência ao longo dos tempos, por isso Sukre d’Sal, autor da nova geração de poetas, em “Na Grande Hora” (1980: p.170), recorda o Ambrósio, símbolo de esperança que, apesar de morto, a sua chegada foi anunciada num futuro «quando Ambrósio chegar». Não esquece que foi Ambrósio a transportar a bandeira negra da fome, transformada em «clara bandeira». Agora trará nas mãos a bandeira de Cabo Verde, símbolo do partido que lutou pela independência e ganhou estatuto de governador do país,
Na hora de render a guarda independente,/Com a solenidade/Reservada aos grandes actos/Veremos Ambrósio surgir da multidão/Trazendo ao vento o estandarte/Verde-Vermelho-Amarelo/Com a estrela da manhã raiando.
O sonho de António Nunes, anunciado algumas décadas antes, tornou-se realidade, por isso merece também ser recordado. Corsino Fortes (citado por Semedo, 1995: p.14), no poema “Bom dia! António Nunes”, cria um sujeito poético anunciador da boa nova. Um dia bom, um dia de novos desafios, como quando o cabo-verdiano que ao levantar- se da cama para a atividade laboral cumprimenta a vizinhança com “Bom dia!” ou
parte na alegria do primeiro comício. Outra vez chama o António, «Vem e abraça/ O rosto do sol que nasce do poema da vertigem,», porque a independência, «o rosto do sol que nasce», é já uma realidade e já foi proclamada. Uma nova vida no símbolo do ovo que representa um novo ciclo ou a renovação do universo Cabo Verde, agora independente e iluminado pelo rosto do sol que lança os seus novos raios num novo dia a despontar.