2 O CORPO IMANENTE: poéticas contemporâneas de dança como perspectivas
2.1 AVESSO E OS PRESSUPOSTOS ESTÉTICOS DA PÓS-MODENIDADE
2.1.3 O movimento autônomo como elemento norteador da dança
Em função da variedade de linguagens, é importante elucidar que a dança contemporânea33, devido a sua própria estrutura plural, não possui uma técnica ou técnicas específicas, como acontece com o balé e a dança moderna, expressões de dança em que foram desenvolvidas técnicas formais englobando determinados códigos de movimento.
Sanches traz à tona a questão da multiplicidade de técnicas na formação corporal do intérprete de dança contemporânea. O autor argumenta: “é impossível desenvolver uma técnica de dança que abrace a multiplicidade da cena contemporânea. Acredito ser mais coerente falar em técnicas contemporâneas de dança” (SANCHES, 2005, p. 59-60).
Isto se deve ao fato de, na dança contemporânea, não existir uma formulação peculiar e codificada de vocabulário corporal, conforme aconteceu com as correntes anteriores. Muito pelo contrário, a peculiaridade dessa maneira de dançar reside exatamente na ausência de unicidade. Em minha opinião, é exatamente isso que explica o fato de a dança contemporânea caracterizar-se, principalmente, pela liberdade criativa, isto é, pela possibilidade de
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Integrante da Companhia Moderno de Dança em depoimento concedido no dia 14/11/2007.
33 Entendendo dança contemporânea como estética em que se inserem diversas poéticas, semelhante à idéia do
investigação e invenção de uma maneira particular de dançar, seguindo, como direcionadoras, uma série de metodologias criativas propiciadoras da descoberta do movimento que se quer dançar e não aspectos técnico-formais pré-estabelecidos.
A multiplicidade existente na estética contemporânea de dança faz com que haja uma certa tendência à pessoalidade/individualidade de cada criador, o que é propiciado justamente pela liberdade de experimentação e criação. Essa particularidade e esse modo pessoal de lidar com a criação podem ser entendidos como a poética do artista, já mencionada anteriormente.
Pareyson (1997, p. 17) explica que “uma poética é um determinado gosto convertido em programa de arte, onde por gosto se entende toda a espiritualidade de uma época ou de uma pessoa tornada expectativa de arte”. Em síntese, a poética é uma espécie de carimbo pessoal do artistaemqueeleregistraa proposição de um programa de arte, de um modo de operacionalização. A poética está diretamente relacionada com a pessoalidade e, por conseguinte, com a subjetividade do seu criador. Pareyson argumenta que a pessoalidade é inerente a todas as atividades humanas e, conseqüentemente, às atividades artísticas.
Entre a pessoa do autor e a sua obra existe uma identidade verdadeira e propriamente dita. Neste sentido, a arte é qualquer coisa de muito mais intenso que a expressão, já que a obra, mais do que exprimir a pessoa do autor, pode dizer-se que o é: ela é a pessoa mesma do autor, não fotografada num dos seus instantes – o que seria imagem muito parcial e falseadora – mas colhida na sua integridade viva, e solidificada, por assim dizer, num objeto físico e autônomo. [...]. A obra é o próprio autor, solidificado numa presença evidente e eloqüente, que se encomenda para a eternidade (PAREYSON, 1997, p. 107-108).
Na chamada dança contemporânea, pode-se dizer que o aspecto da pessoalidade do artista, evidenciado em muitas obras, é decorrente dos próprios preceitos estéticos inerentes à pós-modernidade coreográfica. O criador de dança adepto dos princípios da pós-modernidade, ao promover sua arte não por meio de uma formulação pré-fabricada, mas por uma via que prima por fazer diferença pela pesquisa do movimento, demanda uma outra organização do seu processo. Ele aproxima-se de questões pessoais e recorre a maneiras diversificadas de operar, as quais, por não possuírem unicidade técnica e estilística, fazem o artista lançar mão de recursos mais subjetivos na criação de sua poética.
Além dessa particularidade que é a própria poética de cada artista, é interessante perceber como cada processo criativo possui também a propriedade de valer-se de uma estratégia específica no que tange aos procedimentos técnico-corporais, de modo que esses, além de serem adequados às necessidades de cada intérprete, são também ajustados às imanências do projeto coreográfico em processo. “Seria como se cada coreógrafo, a cada
montagem, estabelecesse a feitura do corpo de seu elenco de acordo com a sua proposta e principalmente com as singularidades de cada intérprete” (SILVA, 2005, p. 138).
No caso de Avesso, essas características verificadas nas poéticas contemporâneas de dança são assertivas e demonstram a existência de uma concomitância entre a forma que obra possui e as soluções a partir das quais ela é criada. Isto, no processo deste espetáculo, pode ser evidenciado e compreendido a partir das opiniões dos próprios integrantes da Companhia Moderno de Dança, como demonstrado na seguinte reflexão:
Parece que a idéia do Avesso é um tema e uma técnica e não só um ou o outro. Por exemplo, quando nós fizemos o Não-dito, a gente pesquisou a história do Brasil, que a gente já tinha estudado. Já o Avesso não foi bem assim. Como pesquisar um corpo sem ter uma teoria? Então, me parece que vem uma técnica de pesquisar sobre o próprio corpo junto com a idéia do
espetáculo, com o assunto (Ercy Souza)34.
Verifica-se, assim, a presença de algo diferencial, pois não é dada aos dançarinos uma forma pronta, à qual ele deva moldar seu corpo e seus movimentos. Aos intérpretes-criadores do espetáculo, procuro dar uma fórmula que tenha motivação na vida deles mesmos.
É nesta perspectiva que se insere, não apenas meu projeto de pesquisa acadêmica, mas meu projeto de vida enquanto artista da cena, isto é, investigar uma forma autêntica de dançar, que torne a dança acessível a qualquer indivíduo, implementando o que denomino de movimento autônomo. Assumindo o papel de diretora fomentadora do processo criativo de Avesso, desenvolvo estratégias de despertar o intérprete de dança para a descoberta do movimento expressivo pessoal e subjetivo, pesquisado e proposto por ele mesmo, que é, portanto, criador e executor de sua própria dança.
Neste sentido, o movimento autônomo, desvelado no ato da dissecação artística do corpo, torna-se elemento norteador da poética imanente de dança, refletindo as descobertas do intérprete acerca de si mesmo. O conceito aqui proposto surge a partir das experiências da Companhia Moderno de Dança, inspiradas na proposta de Rodrigues (1997), denominada de bailarino-pesquisador-intérprete. Segundo a autora, no ato da investigação do movimento para a dança, “ao bailarino é solicitado o inventário de suas origens, de seus registros culturais, de sua relação com a terra” (RODRIGUES, 1997, p. 147).
Em minha opinião, esses elementos, em direção aos quais o bailarino caminha para desenvolver sua dança, são constituintes do corpo imanente que, por sua vez, é o que norteia a descoberta e expressão do movimento autônomo.
Acredito ser possível avançar mais uma etapa de meu projeto de vida artística por meio desta pesquisa acadêmica, desenvolvendo os conceitos aqui apresentados e os assumindo enquanto estratégias de construção poética.
Para tanto, penso que os princípios estéticos da pós-modernidade coreográfica, inseridos na estética contemporânea de dança, sejam os mais adequados e até mesmo mais eficientes, tendo em vista a multiplicidade que permite uma abordagem diferenciada do movimento. Por meio da utilização de diferentes artifícios, essa maneira de pensar e fazer dança propicia a construção de uma poética distinta e, por conseguinte, imanente, como entendo ser o corpo no espetáculo Avesso.