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3. Terceiro Capítulo

3.4. O não-lugar de Budapeste

Budapeste, terceiro romance de Chico Buarque, foi lançado em 2003 e logo vence o Prêmio Jabuti como melhor romance do ano, acontecimento que foi alvo de muitas críticas, inclusive com uma petição on-line intitulada "Chico, devolva o Jabuti", já que as pessoas envolvidas criticavam a suposta imparcialidade de alguns membros júri e a notoriedade do autor, como fatores determinantes para que ele ganhasse o prêmio. A adaptação cinematográfica do romance, em 2009, com direção de Walter Carvalho, surpreendeu pela ousadia, ao realçar, ainda mais, o caráter múltiplo da obra literária.

O romance narra a história de José Costa ou Zsoze Kósta, um ghost-writer,

profissional responsável por escrever textos, discursos, artigos e livros para outras pessoas na condição de permanecer no anonimato. Essa personagem central vive no Rio de Janeiro e é sócio de uma empresa denominada Cunha & Costa Agência Cultural, cuja função era produzir textos para terceiros. Costa vive numa constante insatisfação com sua vida, que se transforma, radicalmente, ao voltar de um congresso internacional e ter de fazer uma escala imprevista em Budapeste, cidade que, segundo o narrador, "era toda amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela" (BUARQUE, 2003, p. 13). A partir de sua chegada, uma série de eventos passam a compor o centro da trama do livro: as idas e vindas da personagem entre Hungria e Brasil, mais precisamente Budapeste e Rio de Janeiro; o casamento conturbado com a vaidosa Vanda

(apresentadora de telejornais) e o envolvimento com a doce e sedutora Kriska (com quem aprende o idioma local); e suas constantes inquietações com a língua húngara, língua que, segundo o narrador, "é a única do mundo, segundo as más línguas, que o diabo respeita" (BUARQUE, 2003, p. 6).

Budapeste é, sobretudo, uma narrativa sobre deslocamentos citadinos, coletivos e individuais, apresentando um indivíduo que se sente estranho dentro de si e dos lugares por onde transita. A profissão de ghost-writer parece se refletir em sua existência: José Costa é um duplo de si mesmo, vive invadido por um mundo de aparências e tenta revertê-lo - é o que parece acontecer ao final do romance, quando tem uma obra de sua própria autoria, escrita por outro, finalmente reconhecida. Para Barreto (2011, p. 188), este romance

desafia o leitor a imergir em um universo enigmático, no qual os personagens, vítimas da imagem predominante no mundo contemporâneo, geradora de simulacros e falsificações, vivem a favor da simulação. Esse fato delata o caráter identitário confuso das mesmas, levando a narrativa ao questionamento da face oculta de quem é quem no mundo dos simulacros.

José Costa é a legitimação do duplo, de um homem duplamente dividido entre duas cidades, duas línguas, duas mulheres, duas culturas, dois "eus". É também, principalmente, uma narrativa sobre o indivíduo pós-moderno: sujeito nômade, vivendo, o tempo todo, em trânsito pelos lugares que percorre e - por que não? - dentro de si mesmo: trata-se de um ser fronteiriço, sem território,

demarcando o que Marc Augé (1994a) chama de não-lugar. Todas essas

questões estão ligadas à sociedade do século XXI: Vanda, a esposa de Costa no Brasil, por exemplo, também parece nunca estar num lugar fixo, surgindo ora na TV, ora em casa, ora em viagem com amigas. Assim, parece, muitas vezes, não ser ela mesma, mas uma personagem sem identidade fixa. O próprio Costa, por sua vez, vive sua dubiedade num mundo globalizado - ele cruza oceanos, vivendo entre um país e outro, tenta aprender outra língua, chega em outro país por mero acaso, o que também define sua (des)identidade:

em Budapeste, o ghost whiter José Costa tem a identidade fluida, fragmentada, que desfacela sua realidade em duplo. Ora José Costa é brasileiro, morador da zona sul do Rio de Janeiro, escritor anônimo, casado com a morena Vanda. Ora ele é Zsoze Kósta, mero funcionário de uma academia, imigrante na distante Budapeste, casado com Kriska (RIBEIRO, 2015, p. 173).

Ainda para Farias (2004, p. 407),

na sociedade globalizada do romance (as marcas dessa globalização disseminam-se por toda a narrativa) o narrador-protagonista é um cidadão geográfico e culturalmente fraturado em constante mobilidade. O seu espaço é um espaço fronteiriço entre dois mundos, duas línguas, duas mulheres, duas cidades. O seu lugar é, portanto, um entre-lugar marcado pelo signo da viagem e da desterritorialização.

A partir dessa correlação de duplos, José Costa, em Budapeste, sente falta de sua vida, no Rio de Janeiro; e, nesta cidade, Zsoze Kósta sente falta da vida na cidade húngara. O jogo de relações absurdamente opostas também é muito expressivo: Vanda tem a pele morena, Kriska é uma mulher "branca, branca, branca" (BUARQUE, 2003, p. 45); Pisti, filho da amada húngara, tem mais empatia com ele do que o filho legítimo no Brasil, Joaquinzinho. Costa, em uma de suas vindas ao Rio de Janeiro, por exemplo, encontra o filho na rua e os dois se parecem estranhos:

veio andando com o cigarro na boca e me fez um sinal com os dedos, pedindo fogo. Apalpei o bolso onde costumava levar cigarros, estava vazio, mas ele continuava a avançar, praticamente se colou em mim. Era um palmo mais alto que eu, meus olhos batiam no seu peito, e por instantes imaginei que poderia decifrar os hieróglifos ali tatuados. Depois olhei os olhos com que me fitava, e eram olhos femininos, muito negros, eu conhecia aqueles olhos, Joaquinzinho. Sim, era meu filho, e por pouco não pronunciei seu nome, se eu lhe sorrisse e abrisse os braços, se lhe desse um abraço paternal, talvez ele não entendesse. Ou talvez soubesse desde o início que eu era seu pai, e por isso me olhava daquele jeito, por isso me encurralava no muro (BUARQUE, 2003, p. 156).