2. A SEXUALIDADE SOB O OLHAR PEDAGÓGICO
2.1 O nascimento da escola pública no Brasil imperial
Abordar a origem da escola pública brasileira se faz necessário pela proposta da pesquisa. Não pretendemos fazer uma análise abrangente do percurso histórico, por considerá-lo demasiadamente extenso para a nossa real intenção. Todavia, serão apresentadas algumas concepções de educação que perpassaram o século XIX e que ainda repercutem na escola da contemporaneidade, em se tratando de algumas temáticas, como a sexualidade.
Considera-se o século XIX como o período de transição do modo de trabalho escravagista para o modo livre e assalariado. Para o Brasil, teve uma significância considerável, pois era uma época vista como renovadora, uma vez que houve progresso da estrutura produtiva, de transformação do trabalho, do sistema político e a década de 20 demonstrando seu marco de ruptura dos laços coloniais referentes ao quesito educacional.
A estrutura da educação formal do século XIX contribuiu para o desenvolvimento da modernidade educacional, visto que não se pode perder de vista que a base dessa sociedade, Brasil – colônia é de total submissão, submissão essa que parte da colônia para com a sua metrópole, da escrava ao seu senhor e da mulher ao seu esposo.
Uma de suas relevantes contribuições foi a promoção da concepção de educação popular, da qual a principal proposta vista que atendesse a esse modelo de educação a qual buscava ser implantada que priorizasse ao ser humano coube ao formato criado por Henrich Pestalozzi. Associado a essa ideia, houve a laicização o rompimento dos ideais confessionais sob a administração estatal da educação, educação essa que se portou elitizada. Portanto, conforme esse processo, a educação alterou a questão social, vista como dever do Estado e direito do cidadão.
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Contudo, a necessidade de instalação rápida da Família Real em território colonial (Brasil) impôs uma reestruturação administrativa em 1808, devido ao crescimento exponencial de habitantes advindos da Europa, pois a colônia apresentou um considerável desenvolvimento urbano de Vila Rica, Salvador e Recife. Com isso, paralelamente no Rio de Janeiro, houve um aumento relevante na população, pois contava na época com 45 mil habitantes e acolheu mais 15 mil pessoas. Com base nessa nova realidade, foi preciso apoderar-se de certas medidas no campo intelectual. Observemos o que Ribeiro (2010) diz:
A criação da Imprensa Régia (13 de maio de 1808), Biblioteca Pública (1810 – franqueada ao público em 1814), Jardim Botânico do Rio (1810), Museu Nacional (1818). Em 1808 circula o primeiro jornal (A Gazeta do Rio), em 1812, a primeira revista (As Variações ou Ensaios de Literatura), em 1813, a primeira revista carioca – O Patriota. (RIBEIRO, 2010, p. 26).
É perceptível que o campo intelectual nesse primeiro momento, deu uma certa alargada e com a abertura dos portos (1808), houve a preocupação em preencher as necessidades culturais dos nobres, pois o contato principalmente com os franceses era algo que se intensificava cada vez mais. Dessa forma, o conhecimento ilustrado passava a compor uma parcela da cultura brasileira, que nascia dos interesses econômicos que a Coroa intencionava ampliar e que permanecessem seus negócios nas relações de exportação e importação. Segundo Ribeiro (2010), as dificuldades, abrandadas logo após a “abertura dos portos”, cedo voltam a agravar-se, diante do desequilíbrio da balança comercial. Assim, é possível mencionar também que, após a abertura dos portos (1816), houve uma abertura maior de contato com novas pessoas de diferentes ideais, como artistas franceses, escultores, pintores, arquitetos, gravadores, maquinistas etc. Dessa forma, vem surgir certa urgência de criação de cursos para a preparação de um grupo mais diversificado que se fez integrante dessa sociedade. Com isso, o contato com diferentes ideias trazidas por esse diferente povo, principalmente os franceses, sem sombra de dúvida, influenciaria a maneira de pensar em todas as esferas da sociedade.
Todavia, o que é pensado para o campo educacional naquele primeiro momento é algo restrito. O ensino básico não foi foco de preocupação, enquanto o ensino superior foi alvo de preocupação pelo seu caráter classista. Assim, é possível dizer que os pobres eram marginalizados no quesito de educação, pois ela era uma benesse para os privilegiados da sociedade. Notadamente, o objetivo da educação no período Imperial era apenas para os detentores do poder, aqueles que iriam dirigir a sociedade, não havia
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intenção em sistematizar um programa de ensino nacional que englobasse todos os graus de instruções a toda a população.
Em relação ao campo educacional propriamente dito, são criados cursos, por ser preciso o preparo de pessoal mais diversificado. É em razão da defesa militar que são criadas, em 1808, a Academia Real de Marinha e, em 1810, a Academia Real Militar (que, em 1858, passou a chamar-se Escola Central; em 1874, Escola Politécnica; depois Escola Nacional de Engenharia e atualmente Escola de Engenharia da UFRJ), a fim de que atendesse à formação de oficiais engenheiros civis e militares. Em 1808 é criado curso de cirurgia (Bahia), que se instalou no Hospital Militar, e os cursos de cirurgia e anatomia, no Rio. No ano seguinte, nessa mesma cidade, organiza-se o de medicina. Todos esses visam atender à formação de médicos e cirurgiões para o Exército e Marinha.
Em virtude da revogação do Alvará de 1785, que fechara todas as fábricas, em 1812 é criada a escola de serralheiros, oficiais de lima e espingardeiros (MG);
são criados na Bahia os cursos de economia (1808); agricultura (1812), com estudos de botânica e jardim botânico anexos; o de química (1817), abrangendo química industrial, geologia e mineralogia; em 1818, o de desenho técnico. No Rio, o laboratório de química (1812) e o curso de agricultura (1814). Esses cursos deveriam formar técnicos em economia, agricultura e indústria (RIBEIRO, 2010, p. 26-27).
Se analisarmos o termo escolas (curso) para o povo, chegaremos ao chamado
“dualismo educacional”, que regulamentava uma escola para a elite e outra para os pobres. É certo que existiam as dificuldades e preconceitos enfrentados pelos trabalhadores em uma sociedade alicerçada no trabalho escravo, pois as tarefas que exigiam esforço físico eram executadas por escravos. Em contrapartida, os mestres artesãos que prestavam atividades como as de ferreiros, mecânicos, pedreiros, carpinteiros, marceneiros, alfaiates ou funileiros normalmente eram europeus. Logo, nos cursos, o número de frequentadores oriundos das camadas pobres, sendo eles na maioria mestiços, era muito pequeno.
Embora saibamos que todas essas criações de aparatos de instrumentalização foram devidas ao Brasil ter sido sede do reino português, não podemos ignorar que os cursos foram positivos para o país. Como diz Ribeiro (2010, p. 26) “Quanto à educação, estava presente a ideia de um sistema nacional de educação”. A corrida do primeiro Império, seria para estancar essa lacuna educacional. No princípio dos trabalhos, foi preparado um ordenamento jurídico da educação no país. A urgência da situação educacional influiu nas primeiras providências vistas em relação à educação.
Quanto ao primário, continua sendo um nível de instrumentalização técnica (escola de ler e escrever), pois apenas tem-se notícia da criação de “mais de 60 cadeiras de primeiras letras”. Tem sua importância elevada à medida que cresce o número de pessoas que veem nele não só um preparo para o secundário, mas também uma formação para pequenos cargos burocráticos.
(RIBEIRO, 2010, p. 27).
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Após a autonomia política em 1822, seria preciso elaborar uma Constituição para o país. O grupo colonialista dominante adquiriu, por meio da burguesia europeia, o
“aparato liberal” que contribuiu desde a origem do projeto até a outorga dessa Constituição, que teve suas inspirações na Constituição Francesa de 1791. Vejamos algumas das garantias que evidenciam essa tendência liberal na Constituição de 1824.
Fica estabelecida uma série de garantias individuais excepcionais para o período no artigo 179: liberdade de imprensa, vedação a perseguições religiosas contra fés que não atentassem contra a do Estado, fim de privilégios em matéria penal, princípio do juiz natural, abolição das penas físicas e infamantes, garantia de cadeias “seguras, limpas e arejadas”, instrução primária e gratuita a todos os cidadãos, dentre outros.
No Rio de Janeiro, em 1º de março de 1823, foi fundada uma “escola de primeiras letras” alicerçada no método de ensino mútuo, o método lancasteriano. O método lancasteriano foi visto pelas as autoridades imperiais com certo fascínio, pois este trazia a fama de proporcionar os que dele carecia (massa) do ensino primário em menor tempo. Todavia, no início da década de 1830, as autoridades do Império admitiram o insucesso do método, em consequência da inexistência de pessoal capacitado e de instituições apropriadas que acolhessem e dessem a formalização devida ao ensino.
Ribeiro (2010, p. 29) afirma que: “a organização escolar brasileira, na primeira metade do século XIX, apresentava graves deficiências qualitativas e quantitativas”. Explicarei um pouco mais sobre este método logo adiante.
Entre as principais iniciativas legais propriamente ditas, segundo Ribeiro (2010, p. 30), podemos citar o artigo 250 da Constituição, discutido na Assembleia Constituinte, que fugia à realidade brasileira ao determinar: “Haverá no Império escolas primárias em cada termo, ginásio em cada comarca e universidade nos mais apropriados lugares”. Visto que, a carta outorgada por Pedro I, em 11 de março de 1824, “estabelecia no item 32 do art. 179: “A instrução primária é gratuita a todos cidadãos”. Ribeiro (2010, p. 30).
Contudo, a normatização da lei só veio em 15 de outubro de 1827 com esta nova Lei.
No período imperial brasileiro, procurou-se conhecer e fixar o método pedagógico formulado no começo do século XIX pelos ingleses Andrew Bell (1753-1832) e Joseph Lancaster (1778-1838), cujo propósito era instruir um aluno (decurião) para ficar responsável por ensinar um grupo de dez alunos (decúria). Dessa forma, não haveria necessidade de um número maior de professores. Acredita-se que o método
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lancasteriano que foi implantado aqui no Brasil colônia, ocorreu devido ao fato do país sofrer influência da Inglaterra, tanto financeira quanto cultural.
É notável ainda que a legislação tenha definido o ensino mútuo como a forma de organização das aulas de primeiras letras das localidades mais populosas, em perfeita consonância com o que se fazia nos países de governos liberais e mentalidade filantrópica: à época, esse “método” era divulgado como alternativa mais viável à tradicional forma de ensino individual, pois, baseando-se no princípio do ensino entre crianças – as quais, agrupadas em decúrias, realizavam uma série progressiva e controlada de atividades de leitura, escrita e cálculo sob a supervisão de alunos monitores -, parecia dar conta das intenções de disseminar mais rapidamente a cultura letrada sem ampliar os custos com professores e matérias de ensino. Os procedimentos metodológicos do ensino mútuo utilizavam a oralização, a escrita em caixas de areia e os silabários impressos em quadros murais (cartazes) para as atividades de ensino-aprendizagem em grupo, diminuindo as despesas com livros, papel e tinta, materiais reservados aos alunos mais adiantados. (HILSDORF, 2015, p. 44).
O ensino mútuo foi positivo em caráter pecuniário, pois foi um processo de baixo custo, indicando que seria capaz de lidar com grande número de crianças no mesmo estabelecimento escolar, repassando “conhecimento” uns para os outros sem onerar gastos com profissionais capacitados pedagogicamente. Conforme indicava o objetivo da proposta metodológica de ensino-aprendizagem, naquele período, o desempenho do aluno (discípulo), ainda mesmo que esse fosse perspicaz para explicar o que acabara de aprender, não provou ser muito produtivo.
Ainda durante o império a educação secundária, de maneira generalizada, se encontrava nas mãos de particulares. A partir de 1837, com a criação do Colégio Pedro II, o governo central empenhou-se em manter o padrão criado para esta instituição. Dessa forma, o Colégio seria modelo em todo o país. A pessoa que concluísse o curso neste recinto recebia o título de “Bacharel em Letras” e o mesmo estava livre dos exames para a aceitação no ensino superior em alguma Faculdade do Império.
O Colégio Pedro II (1837), na Corte, impediu que os liceus e ginásios secundários criados pelas províncias e pela iniciativa privada dessem acesso direto às Academias – como era o caso do Pedro II – obrigando os alunos deles a fazerem exames de ingresso aos cursos superiores. (HILSDORF, 2015, p.
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O Colégio Pedro II se configurou através de sua similitude com os famosos Liceus da França. Sua programação de matérias (currículo) trazia um forte destaque humanista, instituiu o estudo de línguas modernas como o francês e o inglês, o curso seriado teria a duração de sete anos. Nessa instituição educacional, procurou-se empreender a modernidade educacional introduzindo o padrão de funcionamento e
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proposta de estudos da Europa e dos Estados Unidos. Fazer parte dessa instituição enquanto aluno era o mesmo que garantir uma cadeira na universidade nos cursos mais renomados da elite dos profissionais liberais. Em 1854, existiam dezesseis liceus nas Províncias e, em 1872, esse número subiu para vinte. Todos esses se concentravam e buscavam, no currículo e funcionamento do Colégio D. Pedro II, um método a ser seguido. Os livros didáticos escolhidos nos liceus provinciais pendiam a ser semelhantes aos que eram empregados no Pedro II, considerando que os conhecidos “exames preparatórios”, que permitiam a entrada ao ensino superior, dessa forma toda a realização seguia o planejamento e os livros didáticos do Colégio Pedro II.
Este estava destinado a servir de padrão de ensino: adotaria e manteria bons métodos, resistiria a inovações que não tivessem demonstrado bons resultados e combateria os espertos e charlatães. Se esse objetivo foi ou não alcançado, verificar-se-á quando do estudo da organização escolar brasileira durante a segunda metade do século XIX. (RIBEIRO, 2010, p. 33).
Visto que, o ensino secundário foi uma prerrogativa da elite ao longo do período imperial. Uma observação que merece destaque é pelo fato do ensino secundário se dá num alastramento das aulas avulsas e particulares especificas para meninos, não havendo nenhuma preocupação na integridade do pensamento. Afirma Ribeiro (2010, p.32) :
“deviam chegar a uma centena e consistiam no ensino do latim, da retórica, da filosofia, da geometria, do francês e do comércio”. Os “notáveis” da sociedade provinciana eram atraídos para os liceus e ateneus. O prestígio dado ao ensino secundário nos liceus se deu pelo seu número reduzido de estrutura física e uma concentração de professores qualificados. Em contrapartida, essa procura pela instrução secundária, sendo ela a preparação básica para o acesso à educação superior, contribuiu com a iniciativa de instituições educacionais privadas nesse nível educacional.
Diante da iniciativa privada, a educação protestante alcança destaque no Brasil durante as últimas décadas do século XIX, advinda do pós-guerra civil, com presbiterianos e metodistas fundando colônias no interior de São Paulo. Logo após a fundação dessas colônias, foram criadas as primeiras escolas secundárias ligadas aos grupos protestantes religiosos. Em 1870, foi criado o Mackenzie College (presbiteriano).
Em 1872, em Campinas, o Colégio Internacional. Em 1881, o Colégio Piracicabano para meninas. Em 1885, o Colégio Americano (metodistas).
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O protestantismo contribuiu para a modernização educacional no Brasil. Tanto os presbiterianos quanto os metodistas representaram no Brasil Imperial seus segmentos religiosos dominantes nos Estados Unidos, e puderam implantar seus sistemas educacionais, que vieram para atender a clientela da elite imperial e desfrutar do projeto liberal do governo brasileiro, que dava liberdade religiosa.
A terminologia utilizada como “educação moderna” é recorrente de uma concepção filosófica e científica de aquisição pedagógica conhecida como “método de coisas” ou método intuitivo, esse método trazia como característica básica a intuição e a observação como algo indispensável para a aprendizagem humana, essas novas abstrações trazidas pelas ideias de Pestalozzi, influenciou, nos procedimentos de ensino aprendizagem, o qual chama a atenção para a relevância da investigação das coisas, dos objetos e da natureza. O método praticado nas escolas do Império carecia de uma mudança, pois o ensino verbalista, repetitivo, implantado na memória, deveria ser abolido, e esse novo método, o “método intuitivo”, deveria abranger todo o programa educacional, pois ele trazia consigo o princípio fundamental da ciência moderna.
Contudo, precisamos retomar uma significativa característica da época, que era a dominação da elite latifundiária, conservadora e gradualista, cuja riqueza tinha origem na monocultura exportadora que sustentava uma mentalidade retrógrada. Conservadora em relação à estrutura socioeconômica por partir de um regime escravagista e gradualista, resistente a reformas condizentes às ações e políticas públicas. Assim, os grandes proprietários rurais se tornaram beneficiários do Estado, enquanto os outros setores foram esquecidos.
Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios, os mesmos privilégios que tinham sido, no Velho Mundo, o alvo da luta da burguesia contra os aristocratas. E assim puderam incorporar à situação tradicional, ao menos como fachada ou decoração externa, alguns lemas que pareciam os mais acertados para a época e eram exaltados nos livros e discursos. (HOLANDA, 1995, p. 160).
Ainda assim, não podemos deixar de falar sobre o catolicismo, religião que se tornou oficial do Império brasileiro a partir da Constituição de 1824, que determinava em seu Art. 5:
A Religião Catholica Apostolica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior do Templo. (BRASIL, 1824, on-line, s/p).
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A religião foi, uma parte constituinte dessa cultura nacional, o fator educacional tinha suas bases arraigadas pelos princípios religioso, visto o poder desta de intervir no sistema educacional provocando resistência a nova mentalidade nascente inspiradas no Iluminismo.
Assim, Hilsdorf (2015) resume:
Outro ponto que recebeu adesão de liberais e conservadores foi a defesa da liberdade irrestrita dos particulares no ensino secundário, combatida apenas pelos católicos ultramontanos, que temiam o crescimento das correntes anticlericais. (HILSDORF, 2015, p. 51).
É perceptível ver que a educação trazida pelos jesuítas irá prevalecer no Brasil por um grande período, influenciando com seus dogmas, essa ação só será desarticulada com a chegada do movimento dos pioneiros da educação.
Porém, é visto que vários fatores foram corroborativos para o surgimento das escolas que visassem atender as massas populares, o primordial dessa incipiência foi o desenvolvimento do capitalismo e a imposição consequente da Revolução Industrial vivenciada na Europa, o surgimento da industrialização do Brasil e o desenvolvimento urbano.
Em conformidade com as carências nas últimas décadas do século XIX, vários projetos de reforma educacional, nos quais aumentava a incumbência do Estado em proporcionar instrução pública para o povo, foram apresentados. Dentre eles, destacou-se a reforma implementada pelo Ministro do Império Carlos Leôncio da Silva Carvalho, por meio do Decreto nº 7.247, de 19 de abril de 1879.
Visto que, as alterações propostas na reforma Leôncio de Carvalho forçavam o governo a abrir, nas principais cidades das províncias, escolas que atendesse as necessidades da população. Também não poderíamos deixar de falar sobre a falta de ação na formação de professores. Nos anos de (1831 a 1840), houve as primeiras iniciativas das escolas normais com objetivos de formação de professores, essas escolas eram abertas, fechadas e reabertas com muita facilidade, no entanto, podemos ver que, chegada a década de 1860, tem-se apenas seis escolas em todo o Império. Observemos a fala de Holanda (1987):
Os professores primários, escolhidos sem nenhum critério, leigos completamente sem preparo, eram pessimamente pagos, desconsiderados pelas autoridades e pela população e se afastavam do magistério, tão logo conseguiam um trabalho melhor... (HOLANDA, 1987, p. 370).
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Vejamos como se deram as questões do ensino superior no Brasil, idealizado pela elite nacional, pós estabelecimento na colônia da Família Real portuguesa. Elite esta que almejava a criação de uma universidade no território nacional. Todavia, com o processo de independência e a solidificação incipiente do governo imperial, a proposta só readquiriu ânimo em 1834. Em 1835, manifestou-se a ideia de agregar no Rio de Janeiro as Faculdades de Direito e Medicina, acrescentadas por um curso de Matemática, e assim começar uma universidade.
Nascia em 1843, um projeto de lei que pretendia a criação da “Universidade Pedro II”, formada de cinco faculdades: Teologia, Direito, Matemática, Filosofia e Medicina, sendo aprovado na comissão do Senado. Diante da aprovação esperava-se que desce continuidade ao projeto e que esse saísse do papel, porém, não foi isto que aconteceu, o projeto “repousou-se no esquecimento” no decorrer, de todo o século XIX, ficando apenas na esperança daqueles que pretendiam uma vaga no curso superior por meio de uma universidade que se fizesse presente no país.
Observemos as elementares faculdades do país: Faculdade de Direito de São Paulo, Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Faculdade de Direito do Recife, Escola de Farmácia do Rio de Janeiro, Faculdade de Medicina da Bahia e a Escola de Farmácia da Bahia. Reparemos que, no ano de 1869, há seis instituições de ensino superior, as quais somavam 1.479 alunos.
É notório que, a sociedade brasileira da segunda metade do século XIX, demonstra três mentalidades pedagógicas com razoável nitidez, as mentalidades tradicionalista, liberal e cientificista. As duas últimas representavam o espírito moderno, que se exteriorizava no laicismo do Estado, da cultura e da educação. Enquanto que, a primeira estava presa aos dogmas religiosos implantados pela “educação” jesuítica. Nesse sentido de modificação da idealização liberais e positivistas vimos seus ideais serem contemplados nas décadas finais do século XIX.
Liberais e cientificistas (positivistas) estabelecem pontos comuns em seus programas de ação: abolição dos privilégios aristocráticos, separação entre Igreja e o Estado, instituição do casamento e registro civil, secularização dos cemitérios, abolição da escravidão, libertação da mulher para, por meio da instrução, desempenhar seu papel de esposa e mãe, e a crença na educação, chave dos problemas fundamentais do país. (RIBEIRO, 2010, p. 47).
Ribeiro, (2010, p.48) descreve também que o sistema capitalista foi responsável por essa modernização que se deve ao processo de mudança da sociedade “exportadora
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brasileira, que de rural - agrícola passa urbano comercial” devido ao crescimento da economia, ao desenvolvimento urbano da sociedade ao final do século XIX, houve a necessidade de se desvincular o papel exercido pelo Estado e Igreja.
A sistematização escolar se torna alvo de críticas por suas deformidades no aparato social a demanda por letrados aumentou. Existia agora a camada média da sociedade que angariava estar presente nos elementos da vida pública. Observemos a fala de Trevisan, (1987, p. 51) “Coube à educação este papel de enquadrar essa massa desforme em uma ordem social determinada e, principalmente, formar os “cidadãos enobrecidos”, preparados intelectualmente, material humano que tanto precisa o país”.
Não podemos deixar de mencionar que a grande parcela da sociedade principalmente os negros sofrem exclusão social e política.
Vimos também que, a grande demora pela implantação da escola pública se dá devido ao longo tempo de espera sobre as discussões das ordenações do ensino elementar que tinham como objetivo primordial acolher esse exorbitante número de crianças que precisaria de uma escola adequada para tal finalidade. Pensar a solidificação dessa nova ordem social denotou responsabilidade escolar pelo ensino público de encargo estatal e a secularização do mesmo.