3 O “QUEM” DA COTIDIANIDADE DO DASEIN E SEUS DESDIBRAMENTOS
3.5 O “NINGUÉM”: A IMPESSOALIDADE COMO O QUEM DA COTIDIANIDADE DO
COTIDIANIDADE DO DASEIN
O ser do Dasein na cotidianidade é o próprio-impessoal, ou seja, ninguém propriamente. A cotidianidade é regida pelas ocupações do Dasein e, em função delas, a co-pre-sença se faz presente. As pessoas não são tomadas pelo Dasein como sujeitos simplesmente soltos no ar, mas sempre a partir de uma totalidade conjuntural própria do mundo das ocupações. Dessa forma, vêm ao encontro o porteiro, o juiz, o eletricista, o encanador, a secretária do médico, o próprio médico, dentre outros. Isto quer dizer que a co-pre-sença sempre é aberta em uma conjuntura das ocupações.
Nesse sentido, nos assevera Heidegger que o Dasein, absorto nas ocupações sempre busca estabelecer parâmetros de diferenciação com os outros. Já podemos notar, com isso, que, se o Dasein busca na cotidianidade parâmetros de
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Heidegger dedica um breve trecho do capítulo quarto do primeiro volume de Ser e tempo para mencionar um modo de convivência em sentido próprio, no qual o outro é liberado para si mesmo em sentido próprio. Não trataremos desse ponto aqui, pois, além de não ser devidamente desenvolvido por Heidegger, nos desviaria de nossa proposta.
diferenciação, sua condição inicial só pode ser a indistinção. Para isso, o Dasein está sempre nivelando a si e aos outros, seja para se tornar do mesmo status que eles, seja para subjugá-los.
Em um ambiente de trabalho isso é bem fácil de ser visualizado: ao pleitear uma promoção, determinada pessoa, antes mesmo de iniciar os atos de execução, por assim dizer, já estabelece uma teia compreensiva na qual busca entender quais suas reais chances, o lugar de quem ela quer ocupar, as pessoas que se encontram no mesmo nível ao qual ela pretende se alçar, assim como entende aqueles que são seus iguais, possíveis competidores, ou seja, pessoas com a mesma pretensão que ela, aqueles que podem ajudá-la e quem pode atrapalhá-la em sua empreitada e assim por diante39.
Para Heidegger, esse estabelecer comparativo por parte do Dasein tem o caráter de
espaçamento40, em termos existenciais. (HEIDEGGER, 2005, p.178) Nessa lida, o
Dasein está sob a tutela dos outros, isto é, ele age como qualquer um, pensa como
qualquer um, cria estratégias como qualquer outro criaria, em suma, “[...]os outros lhe tomam o ser.”(HEIDEGGER, 2005, p.179) No espaçamento cotidiano, o Dasein é como os outros. E quem são os outros? Ninguém propriamente.
Se faticamente, substituirmos, em nosso exemplo de ambiente de trabalho, o diretor da empresa, o secretário, o subsecretário, o vice-presidente e até mesmo o presidente da empresa e, no lugar deles, colocássemos outros para desempenharem as mesmas funções, nada seria alterado: o novo diretor teria postura de diretor, assim como o anterior, faria discursos de diretor, teria opiniões de diretor, julgaria como diretor. O mesmo pode se afirmar dos demais que ocuparão os outros cargos do exemplo (secretário, sub-secretário etc)
Os outros, então, não são algo de determinado. Muito pelo contrário, seu traço distintivo é a indistinção, o que os determina é a falta de determinação própria. “Mas
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Este exemplo do ambiente de trabalho é nosso, muito embora apoiado explicitamente no pensamento de Heidegger.
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Trazemos o fato de Heidegger considerar o espaçamento em vista de sermos fidedignos ao texto heideggeriano e justificar o termo constante na citação seguinte. Não trataremos, contudo, do espaçamento na presente dissertação.
os outros não são determinados.” (HEIDEGGER, 2005, p.179) Assim, o quem da cotidianidade é o impessoal, marcado pela ausência de identidade própria, indeterminado. “O ‘quem’ é neutro, o impessoal” (HEIDEGGER, 2005, p.179)
O impessoal é um modo de ser do Dasein no qual se é como os outros, como qualquer um. Esse modo de ser possui suas próprias características e Heidegger as reuniu sob o termo public-idade41. Esta é composta pelo nivelamento e pela
medianidade, além do espaçamento no qual já nos detivemos. Não se trata aqui de
três elementos apartados (espaçamento, medianidade e nivelamento), mas de três traços constitutivos do modo de ser cotidiano do Dasein. Daremos destaque, em observância ao nosso recorte metodológico, apenas à medianidade, na medida em que tomá-la em conta já satisfaz o escopo aqui proposto.
A medianidade é oriunda da conveniência social de determinados comportamentos, determinadas reações. Desse modo afirmamos que um diretor deve se portar como diretor, pensar como diretor, julgar como tal. Qualquer outro diretor se portaria, pensaria e julgaria da mesma forma. Toda experiência originária, toda a descoberta, toda autenticidade passa ao largo da medianidade tacitamente imposta pelos ditames do impessoal, o que acaba por nivelar o Dasein ao modo de ser dos outros.
Toda a primazia é silenciosamente esmagada. Tudo que é originário se vê, da noite para o dia, nivelado como algo de há muito conhecido. O que se conquista com muita luta torna-se banal. Todo segredo perde sua força. O cuidado da medianidade desentranha também uma tendência essencial da pre-sença, que chamaremos de nivelamento de todas as possibilidades de ser. (HEIDEGGER, 2005, p.180)
O modo de ser do impessoal, definido pela public-idade, limita as possibilidades de ser do Dasein àquilo que ele mesmo dita de maneira silenciosa. Nesse ditame, tudo o que é originário e o que não é passa a ser interpretado à luz da familiaridade cotidiana do impessoal. É nesse sentido que a perspectiva da morte enquanto morte
dos outros acaba por reduzir aquilo que é absolutamente desconhecido para o Dasein (a morte) a algo corriqueiro, de há muito conhecido: os eventos diários de
falecimento das pessoas.
Outro ponto acerca do modo de ser do impessoal nos é caro para pensarmos a morte. Segundo Heidegger, o impessoal acaba por retirar a responsabilidade de cada Dasein em assumir a cada vez o seu ser como seu. Uma vez que as possibilidades de ser nos são dadas previamente pelo impessoal, não cabe a cada um de nós se responsabilizar por absolutamente nada. “O impessoal pode, por assim dizer, permitir-se que se apoie impessoalmente nele.” (HEIDEGGER, 2005, p.180)
Se nos valermos dessa mesma dinâmica de não assunção, da não responsabilização do que lhe é próprio, para pensarmos a morte, podemos afirmar que a morte enquanto morte dos outros é sempre experienciada de maneira que ninguém a experiencia de maneira própria. Simplesmente morre-se. Morre-se de maneira considerada impessoalmente digna, bela, heroica, trágica, horrenda, lastimável. Todos esses julgamentos ocorrem no âmbito da impessoalidade e nele, podemos afirmar agora com mais precisão, ninguém morre propriamente.
Ninguém pode se responsabilizar pela morte alheia. Esta frase nada tem a ver com a questão da responsabilidade civil ou penal, no sentido de que alguém que mata outrem deve ser preso e pagar indenização à família. Ninguém se responsabiliza pela morte de outrem, pois ninguém pode morrer a morte de alguém. Ninguém pode assumi-la pelo outro. Nesse sentido, são sábias as palavras de Françoise Dastur acerca do assunto:
Como Heidegger ressalta, se a morte do ente querido é vivida como uma perda irreparável, não é todavia a perda sofrida pelo outro que é desse modo tornada acessível. Tão longe quanto possa ir o acompanhamento do outro em sua morte, esta nos escapa irremediavelmente. (DASTUR, 2002, p.68)
Se, por um lado, a constatação de que não se pode assumir a morte do outro tem a possibilidade de revelar a morte como uma experiência originária do Dasein, na medida em que rompe com a possibilidade da substituição, característica do impessoal, por outro lado, quando liberada no horizonte da cotidianidade impessoal, a morte se apresenta como um fenômeno não passível de ser assumido por ninguém propriamente, o que impede a abertura do Dasein para uma experiência originária em sentido próprio.
Na medida em que o fenômeno da morte, de maneira generalizada, é aberto desde a perspectiva da impessoalidade, o Dasein tende a não assumi-la enquanto sua, ou seja, não se responsabiliza por ela, e em consequência não assume o seu próprio ser enquanto tal.
Considerando que o Dasein é o ente em que está em jogo seu próprio ser e que este ente deve assumi-lo a cada vez, se, por outro lado, está entregue aos ditames do impessoal, ele passa a não assumir o seu próprio ser, não se responsabilizando. Em outros termos, na impessoalidade o Dasein é impropriamente ou é de modo a não ser o que ele é.
A morte, liberada em sua perspectiva imprópria, é entendida como portadora de uma qualidade que absolutamente não se coaduna com a sua própria natureza: a substituição. No primeiro capítulo nos detivemos um pouco no fato de que a substituição é algo característico da lida cotidiana do Dasein.
Referimo-nos ao exemplo de que um professor pode ser substituído por outro no desempenho de sua função docente. Essa afirmação e este exemplo ficam devidamente fundamentados agora, pois o modo de ser do Dasein na cotidianidade, enquanto o próprio-impessoal, guarda consigo a característica da indistinção do modo de ser como os outros, o que, por sua vez, possibilita o fenômeno da substituição.
A própria morte, por sua vez, é insubstituível. Mas, na perspectiva da impessoalidade cotidiana, a morte se apresenta como algo que ocorre no mundo, independentemente das vítimas que ela abraça. Nesse sentido, o morrer pode ser de qualquer um, ou seja, a morte na cotidianidade não pertence propriamente a ninguém, podendo acometer João, José ou Felipe, indistintamente, por exemplo. Mesmo que os falecimentos ocorram em situações diversas, a reação da sociedade em relação a elas é impessoal.
Se João morre heroicamente, a sociedade já tem pronta uma reação para isso. Da mesma forma, se José morrer de acidente de carro por dirigir embriagado, a
sociedade também já tem uma reação pronta. Se invertermos os atores do exemplo, agora João morrendo por estar embriagado ao volante e José heroicamente, a sociedade reagirá em relação a João como reagiria em relação a José no exemplo anterior e vice-versa42.
Assim, fica devidamente demonstrado como o fenômeno da cotidianidade compreende de maneira imprópria o ser do Dasein e, com isso, inviabiliza uma compreensão própria da morte em seu sentido genuíno. O quem do Dasein na cotidianidade é “ninguém” propriamente, o próprio-impessoal. Neste modo de ser, o
Dasein é no modo de ser como os outros, ou seja, é como qualquer outro, o que
possibilita a substituição. Assim, liberou-se a morte cotidiana enquanto morte dos outros, ou seja, morte de ninguém.
O fenômeno da morte dos outros, enquanto morte de ninguém propriamente, é muito bem exposto na novela A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói. O próximo tópico será dedicado a uma interpretação desta obra à luz do pensamento de Heidegger, a fim de visualizarmos melhor o que já tratamos até o presente momento.