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5. A CURA E A DE-CISÃO

5.2 A CURA

5.2.1 O preceder-a-si-mesmo

Heidegger, ao elaborar o que entende pelo o que denomina preceder a si mesmo nos remete a conceitos já abordados no presente trabalho. São palavras do autor:

Na constituição ontológica da compreensão, o “estar em jogo” evidenciou-se como o ser que se projeta para o poder-ser mais próprio. Esse poder-ser é

a destinação onde a pre-sença é sempre como ela é. (HEIDEGGER, 2005, p.256).

Nessa frase de Heidegger além de podermos ver grande parte do que já foi elaborado no presente trabalho, já nos é prenunciado o nexo de articulação constante na cura de seus momentos constitutivos. Somos, pela citação, remetidos de maneira expressa à estrutura ontológico-existencial da compreensão. Destino é um traço do projeto compreensivo: “A compreensão projeta a pre-sença para a sua destinação.” (HEIDEGGER, 2005, p.200)

O poder-ser ao qual a citação se refere é justamente aquele anterior a toda a possibilidade aberta conjunturalmente pelo mundo. No primeiro tópico do presente capítulo, identificamos esse poder-ser com a morte na medida em que somente pode ser experimentado como possibilidade e, enquanto tal, é irremissível e insuperável. Não oferece nada a realizar, nada para se tornar real.

Ao contrário disso, esse poder-ser é propriamente nada. Ora, mas é justamente com o nada que a disposição angústia se angustia. Por outro lado, o ser desse poder-ser, que propriamente é nada, ou seja, é tão somente um poder-ser capaz de propiciar aberturas, é identificado por Heidegger com a estrutura da compreensão:

Compreender é o ser desse poder-ser, que nunca está ausente no sentido de algo que simplesmente ainda não foi dado mas que, na qualidade essencial de nunca ser simplesmente dado, “é” junto com o ser da pre- sença, no sentido de existência. (HEIDEGGER, 2005, p.198)

Dessa forma, alcançamos que: o poder-ser ao qual Heidegger nos remete, anterior a toda e qualquer possibilidade de fato aberta pelo mundo circundante, identifica-se com a morte (possibilidade irrealizável, insuperável, intransferível e irremissível) e com a compreensão (“Compreender é o ser desse poder-ser”).

Na medida em que a compreensão se caracteriza pelo seu caráter de projetar o

Dasein para sua destinação, encontramos o sentido originário da expressão ser- para-a-morte. Dizer que o Dasein, ao ser projetado para as possibilidades abertas

pelo mundo, se projeta antes para seu poder-ser propiciador de aberturas, é afirmar que o Dasein é sempre para a sua morte, mesmo que disso não se dê conta.

Heidegger denomina o ser para este poder-ser, anterior a toda possibilidade aberta pelo mundo circundante, de preceder-a-si-mesmo. “Do ponto de vista ontológico, porém, ser para o poder-ser mais próprio significa: em seu ser, a pre-sença já sempre precedeu a si mesma.” (HEIDEGGER, 2005, p.256). Essa citação está no §41 de Ser e tempo, no qual Heidegger trata do ser do Dasein enquanto cura. No entanto, não é outra a consideração de Heidegger quando trata da morte:

Enquanto poder-ser, a pre-sença não pode superar a possibilidade da morte [...] Desse modo, a morte desentranha-se como a possibilidade mais própria, irremissível e insuperável. Como tal, é um impendente privilegiado. Essa possibilidade existencial funda-se no fato de s pre-sença estar, essencialmente, aberta para si mesma e isso no modo de preceder-a-si- mesma. Este momento estrutural da cura possui a sua concreção mais originária no ser-para-a-morte. (HEIDEGGER, 2005, p.33)79

Dessa maneira, preceder-a-si-mesmo quer dizer ser (projetar-se) para o poder-ser propiciador de aberturas anterior a toda e qualquer possibilidade aberta pelo mundo circundante, o que em outras palavras diz: ser-para-a-morte. Sendo destinada para seu poder-ser propiciador de aberturas, anterior a toda possibilidade aberta factualmente no mundo, o Dasein existe: esse é o modo próprio de ser da existência, ou seja, ex-istir. Isso quer dizer que o Dasein nunca é exclusivamente remetido às possibilidades abertas pelo mundo circundante.

Uma vez que o empenhar-se nos afazeres cotidianos, na lida com os outros e com os entes intramundanos, é, fundamentalmente, a elaboração desse poder-ser propiciador de aberturas e este poder-ser nunca se encerra neste ou naquele afazer (o poder-ser, antes, é justamente a possibilidade de se empenhar neste ou naquele afazer intramundano), o Dasein, ao se empenhar nos afazeres cotidianos, é sempre

projetado anteriormente para si mesmo, isto é, para este poder-ser propiciador de

aberturas.

Dessa maneira, o Dasein está sempre “com um pé dentro e outro fora realidade”: nunca está remetido exclusivamente para os afazeres. Antes, se projeta primordialmente para si mesmo. O fato de estar sempre com “um pé fora” na realidade fica expresso no prefixo “ex” da existência. Nesse sentido, o Dasein é

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Essa citação se encontra no §50 de Ser e tempo, no capítulo em que Heidegger trata expressamente sobre a morte.

sempre transcendente: ao se empenhar nas possibilidades abertas pelo mundo, o

Dasein elabora seu próprio poder-ser.

De certa forma, preceder a si mesma é transcender. Mas não no sentido de buscar um mundo além do sensível, um supra-sensível. ‘Pré’ e ‘trans’ apontam para uma estrutura ou comportamento essencial que perpassa, atravessa, é o ‘entre’ ou ‘o modo de ser relação’ em toda efetivação” (PISETTA, 2005, p.75)

Transcender não quer dizer “ir para outro lugar”, para o além, para um outro mundo. A transcendência do Dasein, ao contrário, é o modo deste ente se empenhar no mundo. Seu modo de ser é a ex-istência: empenhando, o Dasein está sempre de “fora” e para “fora” (“ex”). Transcender é destinar-se primordialmente para este poder-ser anterior e possibilitador das aberturas intramundanas. Este poder-ser, ao contrário de ser uma qüididade, é primordialmente nada, pura possibilidade.

Segundo Rüdiger Safrannski, “Também o momento de Heidegger conduz a uma transcendência, mas uma transcendência do vazio. A transcendência do nada.” (SAFRANSKI, 2005, p.222).

A ameaça da morte remete a este poder-ser, anterior, cujo ser é compreensão. Diante dessa afirmação não estaríamos dizendo que a morte e o poder-ser são duas “coisas” distintas, isto é, o ameaçador e o ameaçado não seriam dois entes distintos? A morte é este poder-ser ou a ameaça a este poder-ser?

A resposta à primeira indagação só pode ser negativa, tendo por base as considerações acerca da disposição fundamental da angústia elaboradas no capítulo anterior. Lá apresentamos o fenômeno da coincidência entre o ameaçador e o ameaçado: o próprio ser-no-mundo enquanto tal é o ameaçador e o ameaçado, ou seja, esse ente cujo ser é fundamentalmente um poder-ser ameaça e é ameaçado.

Com isso, respondemos à segunda pergunta: a ameaça provindo do e destinada ao próprio Dasein diz, em outras palavras, que o poder-ser é a origem e o destino desse ameaça. A ameaça, não provindo de nenhum ente que não o Dasein, provém deste poder-ser e para ele se destina. Dessa maneira, o poder-ser é o ameaçador e o ameaçado.

Com base nessa afirmação, dizer que a morte ameaça o poder-ser anterior a toda e qualquer possibilidade aberta conjunturalmente não significa que a morte seja um e o ameaçado outro. Pelo contrário: tendo por base o fenômeno da coincidência entre o ameaçador e o ameaçado, a morte enquanto ameaça continua podendo ser identificada com o poder-ser.

Na ameaça, aberta pela disposição da angústia, o Dasein é remetido, portanto,

destinado para este poder-ser. Sendo a morte esse poder-ser, ganhamos aqui a

compreensão originária da coincidência entre ameaçador e ameaçado: na morte, a partir angústia, o Dasein é aberto para si mesmo como origem e destino.

A disposição fundamental da angústia já remete, de maneira articulada, o preceder- a-si-mesmo e, por conseguinte, a existência, calcada primordialmente na estrutura compreensão, ao momento do “já ser-em” e, por conseguinte, à facticidade, igualmente constitutivo da cura. Com isso demonstraremos o nexo entre existência e facticidade, compreensão e disposição, preceder-a-si-memo e já ser-em.