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2.3 Conhecimento e representação

2.3.1 O nominalismo

Como foi visto em nota explicativa (nota de rodapé nº. 41), o nominalismo que precedeu a Hobbes teve como personagem de destaque Guilherme de Ockham, também conhecido como o “príncipe dos nominalistas”. Parafraseando a referida nota é importante destacar que Ockham defende, como Hobbes, um saber racional, baseado na evidência lógica e clareza dos termos. Provavelmente tenha sido o escolástico tardio que mais teve clareza da fragilidade da relação entre fé e razão, entre fé e ciência. Não obstante ao fato de ainda viver sob os ares do medievo, defende a não subserviência da filosofia em relação à teologia, o caráter a-científico desta e a separação dos princípios da fé em relação àqueles que regulam a razão natural, por não serem evidentes por si mesmos.

Ao exemplo de Hobbes, Ockham sustenta a tese do primado do indivíduo e concebe um mundo constituído por elementos individuais sem ligação com o verdadeiro em si ou com a essência última das coisas. Rompe com o cosmo platônico e aristotélico, contrapondo-se à idéia da existência de causas últimas, necessárias e ordenadas, de bases metafísica ou teleológica. Ao assumir um universo fragmentado e uma realidade essencialmente individual, acaba concebendo que o universal não é real, no sentido de que a realidade é singular e os universais são apenas formas verbais por meio das quais os indivíduos estabelecem relações de dimensão lógica com as coisas. Dentro destes parâmetros, elabora um nominalismo pelo qual sustenta apenas a existência das qualidades ou acidentes das coisas, revelados pela experiência e pela linguagem.

Com esse tipo de caracterização singular da realidade, a ciência, então, distancia-se da metafísica e torna-se um saber baseado em experiências que permitem prever o que pode acontecer no futuro de acordo com conhecimentos passados, isto é, em conformidade com a probabilidade derivada da pesquisa. O famoso corte operado pela “navalha de Ockham” pretende dar à razão e ao conhecimento um lugar diferente daquele oferecido pela tradição filosófica até a escolástica e quer excluir os conceitos supérfluos que colocam entraves à ciência. A intenção de Okcham era a de libertar o pensamento das confusões lingüísticas e colocar os elementos do discurso e da realidade em um lugar mais adequado a ele, qual seja: numa interpretação nominal do mundo. Nesse sentido, a linguagem tem a função de representação e deve constituir-se dos termos lógicos de uma proposição. A diferença entre as posturas de Ockham e Hobbes parece estar na ênfase e na radicalidade com que Hobbes assume o nominalismo ajudado pelas descobertas da era moderna e, sobretudo, pelo pensamento de Galileu, um assumido nominalista. Hobbes parece ter vivido historicamente numa época mais propícia para compreensão e defesa do nominalismo do que Guilherme de Ockham.

Na linha de Ockham, Hobbes encontra na linguagem o ponto chave para resolver o problema da falta de acesso humano ao mundo em sua essência. Por isso, evoca um nominalismo capaz de explanar a realidade dos corpos por meio dos nomes. Em suas designações, os nomes aparecem como uma espécie de consciência geométrica do mundo, uma saída à explicitação do mecanismo dos corpos em movimento, assinalando o que nada há de universal no corpo ou matéria

de conhecimento. O que faz desses corpos universais são os nomes, que por convenção podem retirá-los de uma instância singular e particularizada.

Nesse contexto, Hobbes explica que os corpos possuem qualidades primárias (objetivas) e secundárias (subjetivas). As qualidades primárias são formadas por realidades quantitativas e universais como figuras, números, movimentos, etc., e não podem ser eliminadas dos corpos, visto que participam do conceito de corpo físico e de uma estrutura matemática que possibilitam a identificação dos caracteres universais de um corpo. Entende-se que apenas das qualidades primárias podem advir as verdades assertivas do pensamento e que as secundárias são asseguradas pela subjetividade perceptiva dos indivíduos e, por isso, não passam de nomes. Cores, odores, sabores e sons, por exemplo, pertencem às qualidades secundárias porque possuem existência apenas na subjetividade do sujeito.

A vertente nominalista da filosofia hobbesiana leva o sentido da representação pela linguagem ao seu extremo. Na ciência natural, Galileu já professara que o conhecimento humano não passava de nomes dados aos corpos em movimento. Juntamente com o matemático italiano, Hobbes considera o mundo real como uma simples sucessão de movimentos atômicos em continuidade matemática. Galileu já havia saído em defesa dessa nova relação entre sujeito e objeto, dizendo que

todos esses gostos, odores, etc., vinculados ao objeto em que parecem existir, não são nada mais que simples nomes, mas residem exclusivamente no corpo que os sente; de modo que se o animal fosse removido, todas essas qualidades seriam abolidas e aniquiladas.” (GALILEU apud BURTT, 1983, p. 68).

Seguindo os passos de Galileu, o pensador inglês sustenta a tese de que as qualidades não são inerentes aos objetos, mas efeitos dos objetos sobre nós provocados pelo movimento. O resultado é que as coisas que acreditamos estar no mundo representam apenas o nosso modo de sentir e de dar qualidades aos movimentos. As qualidades estão nos sujeitos e se configuram tão somente como ilusões ou aparições do movimento. É nesse sentido que o matemático italiano faz a seguinte observação:

não acredito que os corpos externos, para provocar em nós esses gostos, esses cheiros e esses sons, requeiram mais que o tamanho, a figura, o número e o movimento vagaroso ou rápido; e julgo que se os ouvidos, a língua e as narinas fossem suprimidas, a figura, os números e os movimentos certamente permaneceriam, mas não os odores, nem os gostos, nem os sons, os quais, sem o animal vivo,

não creio que constituam nada mais que nomes. (GALILEU apud BURTT, p. 70).

Assumindo a mesma tese na primeira parte dos Elementos do Direito Natural e Político, Hobbes descreve de onde vem o som de um badalo, justificando que

o badalo não contém o som mas movimento, e produz movimento nas partes inferiores da campânula; [...]. Ela transmite o movimento ao ar [...]. O ar, pelo ouvido e os nervos, transmite o movimento ao cérebro e este possui movimento mas não som. Do cérebro o movimento volta aos nervos até o exterior e transforma-se numa aparição exterior a que nós chamamos som. E se passamos aos outros sentidos é bastante evidente que o odor e o gosto duma mesma coisa não são os mesmos para toda a gente, portanto, eles

não estão na coisa sentida ou provada mas nos homens.69 (1, II, p.

21).

Como sugere a citação, as concepções ou imagens que temos das coisas procedem da pressão que elas exercem sobre o sujeito. A imagem que temos na visão é, para Hobbes, o conhecimento que possuímos das qualidades do objeto dessa sensação e não o conhecimento do próprio objeto. Por exemplo, “pela vista, temos uma concepção ou imagem composta de cor e forma; nela residem a noção e todo o conhecimento que o objeto nos dá da sua natureza pelo olho.”70 (EL, 1, II, p.18). Não há, portanto, nada de real externo a nós que se denomine imagem. O que é captado pela vista é apenas a visão do movimento que o objeto opera no cérebro. Os outros sentidos seguem o mesmo processo, possibilitando um modo especificamente humano de conhecer esses objetos e designá-los externamente. É da sensação causada pela pressão dos órgãos de cada sentido que surge a aparência, a ilusão ou as qualidades dos objetos. Analisando a sensação como a base fundadora de todo e qualquer conhecimento Hobbes afirma que

não há uma imaginação da qual não tenhamos tido antes uma sensação, na sua totalidade ou em parte, também não temos passagem de uma imaginação para outra se não tivermos tido previamente o mesmo nas nossas sensações. A razão disto é a seguinte: todas as ilusões são movimentos dentro de nós, vestígios dos movimentos produzidos nos sentidos; e os movimentos que

69 “[…] the clapper hath not sound in it, but motion, and maketh motion in the internal parts of the bell; so the bell hath motion, and not sound. That imparteth motion to the air; and the air hath motion, but not sound. The air imparteth motion by the ear and nerves to the brain; and the brain hath motion but not sound. From the brain it reboundeth back into the nerves outward, and thence it becometh an apparition without, which we call. And to proceed to the rest of the senses, it is apparent enough that the smell and taste of the same thing, are not the same to every man, and therefore are not in the think smelt or tasted, but in the men.” (EL, 1, II, p. 7).

70 “[…] for by sight we have a conception or image composed of colour or figure, which is all the notice and knowledge the object imparteth to us of its nature by the eye.” (EL, 1, II, p. 3).

imediatamente se sucedem uns aos outros na sensação continuam

também juntos depois da sensação.”71 (L, 1, III, p. 24).

Desse modo, tendo por base a sensação, o conhecimento se desdobra em representação. Nele não conhecemos as conseqüências de uma coisa para outra coisa, mas uma cadeia de nomes na qual não é possível saber se

isto ou aquilo é, foi ou será, porque isso é conhecer absolutamente. É possível apenas saber que, se isto é, aquilo também é, que, se isto foi, aquilo também foi: e que, se isto será, aquilo também será, e isso é conhecer condicionalmente. E não se trata de conhecer as conseqüências de uma coisa para outra, e sim as do nome de uma

coisa para outro nome da mesma coisa.72 (Ibid., 1, VII, p. 58-9).

Isso não significa, no entanto, que a filosofia seja mera opinião. Não o é porque suas verdades encontram-se no discurso corretamente encadeado em definições, proposições e silogismos, formando uma seqüência de pensamentos por meio dos signos dados às coisas. O que ocorre é que o conhecimento científico limita-se àquilo que é possível sentir, marcar e nomear. Encontra-se irremediavelmente ligado a uma condição empírica, ao conceito de matéria e à idéia de causalidade, por meio dos quais ocorrem as denominações, associações e representações. Esse é o pré-requisito da ciência demonstrativa, que separa definitivamente o discurso do ser, as palavras das coisas e alavanca a bandeira nominalista. A causalidade exigida propõe um novo estatuto para o saber filosófico que doravante é científico.

O nome representação não é, portanto, ocasional para Hobbes e justifica-se pelo fato de que não se conhece um objeto nele mesmo, mas apenas a sua representação, dada na multiplicidade do movimento e na sucessão do tempo. A tese proposta por esse pensador prima por uma idéia de representação que segrega o sujeito do objeto, dando ao primeiro a prerrogativa de representar o segundo. É no ser das denominações, devidamente associadas, que se encontra a verdade. Dessa maneira, o mundo representado é o do agregado de corpos. E esses copos são sempre autônomos em relação à representação que se tem deles e permanecerão

71 “[…] as wee have no imagination, whereof we have not formely had sense, in whole, or in parts; so we have no transition from one imagination to another, whereof we never had the like before in our senses. The reason whereof is this. All fanciers are motions within us, reliques of those made in the sense: and those motions that immediately succeeded one another in the sense, continue also together afther sense.” (L, 1, III, p. 20).

72 “No man can know by discourse, that this, or that, is, has been, or will be; which is to know absolutely; but onely, that if this be, that is; if this has been, that has been; if this shall be, that shall be: which is to know conditionally; and that not the consequence of one thing to anothet; but of one name of a thing to another of the same thing.” (Ibid., 1, VII, p. 47).

separados do sujeito. O resultado a que se pode chegar por essa via é o de que um conhecimento objetivo do mundo externo, como verdade última, torna-se inválido. Dessa forma, são eliminadas do mundo físico as causas finais e essenciais, prevalecendo as causas mecânicas, móveis e objetivas.

Com isso, a proposta hobbesiana supera, como o fizera a nova física, o cosmo hierarquizado em função do homem. As qualidades objetivas e subjetivas representam um corte com perspectivas metafísicas, pois as estruturas ontológicas do universo físico e do universo humano são, em muitos sentidos, cegas ao homem e ao seu modo de conhecer. Em última instância, Hobbes não nega a existência dessas estruturas, mas reconhece que a filosofia, como ciência, deve se apegar às qualidades objetivas que permitem o acesso à universalidade das coisas e às suas representações por meio da linguagem.

Nesse percurso, a linguagem é considerada um meio pelo qual se descreve ou se interpreta a realidade. Entretanto, ela não se caracteriza como algo meramente instrumental em sua extensão, dado que levanta a diferença entre a significação das coisas e a sua referência, abrindo espaço para uma nova forma de conhecimento, em que a natureza das coisas não sugere seus nomes.