• Nenhum resultado encontrado

5 A REPRODUÇÃO GLOBAL CAPITALISTA

5.8 O novo enunciado do princípio da demanda efetiva

No princípio era o verbo, o verbo se transmutou em consciência da ação. No princípio era a ação: ―o resto nasce a partir daqui‖ (NIETZSCHE, 2002, p.74). O econômico surge na história como consciência determinada, como consciência de uma época, já que com a constituição do modo capitalista de produção se constitui a transformação do intelecto como possibilidade real e na prática se constitui a especialização do conhecimento, é dizer, a história deixa de ser na consciência, a história humana. Desenvolvendo-se, a forma preço, permitiu a constituição do princípio da demanda efetiva por Keynes e das transformações da acumulação pelo trabalho concreto se constituiu a demanda efetiva em Kalecki; a dificuldade reside em perceber as objetivações da história humana e não sua generalização na práxis.

Essa consciência em desenvolvimento ao se apropriar do nexo agregado dos capitais e da consciência prática do capitalista desenvolve o princípio da demanda efetiva como determinação ex-ante do investimento e, embora o investimento expresse a individualidade burguesa, a separação da taxa de lucro da taxa de mais-

valia permite fazer a leitura materialista desse processo. As formas fragmentadas que se apresentam no pensamento não podem ser diluídas em formas burguesas, pois expressam elementos reais, trata-se de decompor a consciência para elucidar seu caráter. A reserva de valor da moeda expressava antes da inconversibilidade do dólar em ouro, a instabilidade intrínseca a essa função independente da conversibilidade, ao se realizar a inconversibilidade, a reserva de valor e a manutenção da função de crédito da moeda permitem esclarecer a conexão dos preços com a produtividade do trabalho na economia norteamericana.

A oferta agregada relaciona produção de determinada mercadoria com o custo unitário da força de trabalho como expressão da produtividade do trabalho na mercadoria-capital. Para realizar a produção a mercadoria-capital se transmuta em capital-dinheiro pelo capital fictício separando a mais-valia presente da mais-valia futura de forma que os valores superam os preços de produção.

A expansão determinada pelo departamento I da economia norteamericana e das economias imperialistas indexadas ao dólar, expande o departamento II e o departamento III dessas economias produzindo desproporcionalidade nas economias dominadas em função da estrutura financeira, fiscal e cambial. O volume de emprego se expande a partir da expansão do departamento I sendo que o desenvolvimento das forças produtivas expresso pela expansão da produtividade do trabalho é a causa necessária do nível de emprego. O volume de emprego é determinado pelo nível de expansão da produtividade do trabalho, dado o nível de composição orgânica do capital expresso pela aplicação tecnológica da ciência.

A lei da queda progressiva da taxa de lucro ou da diminuição relativa do mais-trabalho apropriado em comparação com a massa de trabalho objetivado posta em movimento pelo trabalho vivo não exclui, de maneira alguma, que a massa absoluta de trabalho posto em movimento e explorado pelo capital social cresça, que, portanto, a massa absoluta de mais-trabalho por ele apropriado também cresça, tampouco que os capitais que se encontram sob o comando dos capitalistas individuais comandem uma massa crescente de trabalho, e portanto de mais-trabalho, este último mesmo se o número de trabalhadores comandados por eles não crescer. (MARX, 1988, p.157)

A demanda agregada determinada pelo nível de emprego se expande com a expansão dos departamentos de produção e, em função da realização ser feita pelo ciclo do capital fictício a demanda agregada é determinada pela oferta.

Enquanto princípio de demanda, a demanda efetiva relacionava diferentes expectativas de produção com expectativas de realização tendo na intersecção das funções de oferta e de demanda agregada a determinação do volume de emprego e do lucro máximo, se isso fosse verdade no atual ciclo periódico a taxa de desemprego na economia norteamericana que comanda a renovação do capital fixo global não estaria estabilizada durante 20 meses de expansão da produtividade do trabalho, não sendo esta a verdadeira lei que relaciona a oferta agregada com a realização falta ainda escrever um capítulo sobre a moeda.

A expansão da oferta determinada pelo departamento I e pela composição orgânica do capital é superior à expansão da demanda e a realização é determinada pela taxa de acumulação (renovação do capital fixo), a taxa de lucro realizada é determinada pelos preços de produção e o nível de emprego agregado depende da aplicação tecnológica da ciência.

O preço de produção inclui o lucro médio. Nós o denominamos preço de produção; na realidade, é o mesmo que Adam Smith chama de natural price, Ricardo de price of production, cost of production e os fisiocratas prix nécessaire – mas nenhum deles desenvolveu a diferença entre preço de produção e valor – porque a longo prazo ele é condição de oferta, da reprodução da mercadoria de cada esfera particular de produção. (MARX, 1988, p. 144).

Marshall expressa como preço de oferta individual, Keynes como preço de oferta agregado. Como podemos ver não só os preços de mercado gravitam em torno dos preços de produção, mas os teóricos da economia gravitam em torno deles justamente porque a existência do capital está colocada na sua reprodução.

Keynes apresentou o princípio da demanda efetiva, como determinação ex-

ante sob condições de incerteza e, a demanda efetiva seria o ponto de intersecção

da função de oferta agregada com a função de demanda agregada, o ponto de máximo lucro. A intervenção deveria ser realizada nas variáveis independentes, principalmente as três propensões, para manutenção dos níveis de investimento, o que caracteriza esse princípio como de demanda. Como o [ponto] de máximo lucro é um ponto de intersecção entre função de oferta agregada com a função de demanda agregada e, como realização depende do capital fictício, por separar a realização da compra efetiva, o princípio da demanda efetiva caracteriza-se como princípio de oferta.

Enquanto princípio de oferta, a demanda efetiva relaciona níveis de expansão do departamento I, com a expansão em meses do ciclo periódico diminuindo as taxas de expansão do emprego industrial em relação ao aumento da acumulação93. A expansão do departamento I tem um vínculo com o departamento IV na medida em que regula o desenvolvimento tecnológico e mantem a estrutura geopolítica de acumulação do império. ―Contra o padre não há razões‖ (NIETZSCHE, 2002, p.74).

93