PARTE I – A CONSTRUÇÃO DO ALICERCE TEÓRICO
Capítulo 3: A utilidade da Criminologia crítica e da Sociologia da conflitualidade para a
3.1. O objeto controle social: algumas conceituações
Tratar do conceito – ou categoria controle social – traz em si alguns percalços. Espera-se, aqui, problematizá-lo em função do estudo de caso que conduz toda a investigação, qual seja, as estratégias de controle empreendidas pelo MST nos acampamentos e assentamentos de Reforma Agrária. Por isso a opção foi trazer para o presente trabalho abordagens diversas, de diferentes campos do saber, acerca desse objeto, a fim de que esses diferentes olhares tragam maior clareza acerca do fenômeno vivenciado no cotidiano de um acampamento e de um assentamento de reforma agrária, afinal, foi esta a empiria condutora desta tese.
Assim, está constantemente presente a compreensão de que “não é o conceito um espelho que reflete o real, nem uma metáfora que o ilustra, é uma operação que configura materialidades e constitui subjetividades”86. É esta percepção que permeia toda a análise que se fará a seguir.
A aproximação da categoria controle social demanda alguns esclarecimentos. Em termos histórico-filosóficos, Ramón De La Cruz Ochoa afirma que
as raízes do conceito de controle social podem encontrar-se nas ideias de Platão e Aristóteles. Todas as escolas sociológicas estão de acordo em que para a existência da sociedade é necessário um grau mínimo de solidariedade e que nela impere certa ordem social, premissa de uma sociedade moderna87.
ou per se (qualidade negativa intrínseca das condutas assim definidas). Antes, é o resultado de um complexo processo de reação social a certas modalidades de comportamento. Noutros termos, é a sociedade que, por meio do controle social, cria o delito.
86 ANTILLANO, Andrés. Cambios en el concepto y uso del control social. In Capítulo criminológico –
Revista de las disciplinas del Control Social, Vol. 38, Nº 1, Enero – Marzo 2010, p. 8. (Traduzido livremente
do original: No es el concepto un espejo que refleja lo real, ni uma metáfora que lo ilustra, es una operación
que configura materialidades y constituye subjetividad.)
87 DE LA CRUZ OCHOA, Ramón. Control social y derecho penal. In: El otro derecho: Sociologia jurídica y
ciencias politicas – Visiones sobre el crimen y el castigo en América Latina. Ano: 2003, nº 29, p. 43.
(Traduzido livremente do original: Las raices del concepto de control social pueden encontrarse en las ideas
de Platón y Aristóteles. Todas las escuelas sociológicas están de acuerdo em que para la existência de la sociedad es necesario um grado mínimo de solidariedad, y que en ella impere cierto orden social, premisa de una sociedad moderna.)
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Trata-se, portanto, de uma preocupação bastante antiga por parte dos estudiosos, sendo certo que a tentativa de compreender as engrenagens das estratégias de controle em cada sociedade não é exclusiva de um campo de saber determinado, mas tarefa empreendida por pesquisadores de diversas áreas.
Até por conta da diversidade de campos que se debruçam sobre este mesmo tema, é importante ressaltar que o conceito de controle social apresenta variações e disparidades a depender da área do conhecimento que o toma por objeto. É um termo polissêmico por excelência e pode significar, mais genericamente, toda e qualquer forma de regramento da vida social ou, num sentido mais específico, a participação da sociedade civil na gestão de determinadas políticas públicas, como as efetivadas na área da saúde, assistência social, juventude, dentre outras nas quais, mais recentemente, a legislação aplicável passou a determinar a criação dos chamados Conselhos ou Conferências e que, em última instância, significam a participação social na condução das políticas públicas.
Para a perspectiva acima mencionada, ou seja, a da participação social na condução de determinadas políticas públicas, a abordagem sobre controle social se situa prioritariamente nas acepções que se tem de sociedade civil e de Estado, uma vez que, em princípio, caberia a este o papel de propor e executar políticas públicas e àquela, num primeiro momento, a submissão a tais ações estatais e, mais recentemente, a partir dos avanços democráticos, a efetiva participação na definição dos rumos, na gestão dos recursos e até na própria execução dessas políticas, através do que se nominou controle social88.
Ainda que suscite reflexões e debates de grande relevância, não é esse panorama que orienta os trabalhos criminológicos acerca do controle social. É certo que ele não é indiferente aos criminólogos, até porque, ao fazer a descrição e a crítica do controle, o que se faz é avaliar os papeis e a forma de atuação de quem detém a possibilidade de coagir o destinatário a um dado comportamento, por conta de uma autoridade cuja
88 Apesar de não ser o objetivo principal desta pesquisa, é útil esclarecer que a ideia de sociedade civil e Estado, que adotamos, não se baseia numa simplificação dicotômica entre aquela como representativa do povo, ou, mais precisamente, daqueles que não ocupam posições de poder nem na burocracia pública, nem dentre os detentores do capital e este como o “poder institucionalizado”. Entendemos que não há homogeneidade nem na sociedade civil, nem no Estado, estando ambos sendo disputados constantemente pelos grupos e classes que atuam no cotidiano da vida social. Assim, a concepção gramsciana sobre a relação entre Estado e sociedade civil apresentada por Maria Valéria Costa Correa em seu artigo intitulado “Controle social na saúde”, p. 2-7, ainda que tratando do viés da política nacional de saúde, revelou-se bastante condizente com a abordagem criminológica da categoria ‘controle social’ aqui realizada.
legitimidade tanto pode advir de uma determinada posição na burocracia pública quanto numa outra organização qualquer, que pode ser uma empresa, um movimento social ou qualquer outro grupo estruturado. Assim, a interação política, jurídica ou social que permeia a própria dinâmica do controle é inegável, só que a análise mais acurada deste aspecto não será o foco deste trabalho.
Nos estudos criminológicos realizados a partir da virada paradigmática89 empreendida pelas teorias do conflito90 normalmente sobressai a preocupação em circunscrever a investigação à relação entre as formas de controle numa dada sociedade e a maior ou menor incidência da prática dos comportamentos desviados, os quais, no mais das vezes, também são definidos como crimes pela legislação penal aplicável, ainda que essa característica não seja imprescindível. Desta feita, os conceitos de controle social formulados ou adotados pelos criminólogos tendem a abarcar essa dupla condição: a tarefa da “normalização” da convivência social pressupõe a adoção de estratégias informais e formais de contenção dos desvios individuais ou mesmo de uma dada coletividade.
Esta natureza dúplice resta evidente no pensamento de Sérgio Salomão Shecaira, que define controle social como
o conjunto de mecanismos e sanções sociais que pretendem submeter o indivíduo aos modelos e normas comunitários. Para alcançar tais metas as organizações sociais lançam mão de dois sistemas articulados entre si. De um lado tem-se o controle social informal, que passa pela instância da sociedade civil: família, escola, profissão, opinião pública, grupos de pressão, clubes de serviço, etc. Outra instância é a do controle social formal, identificada com a atuação do aparelho político do Estado. São controles realizados por intermédio da Polícia, da Justiça, do Exército, do Ministério Público, da Administração Penitenciária e de todos os consectários de tais agências, como controle legal, penal, etc91. Já o antropólogo John Beattie, ainda que sem definir precisamente “o que é”, trata da questão do controle social apontando suas características e qual sua utilidade na manutenção de qualquer grupamento social e o faz nos seguintes termos:
Não poderia haver vida social corrente a menos que as relações sociais que mantêm as pessoas unidas fossem, pelo menos em certo grau, ordenadas, institucionalizadas, e previsíveis. A única alternativa à ordem é o caos. Para manter um sistema ordenado de relações sociais as pessoas devem sujeitar-se a certo grau de coação; não podem fazer sempre exatamente o que desejam. Pois,
89 Vide a descrição pormenorizada dessa mudança paradigmática e as críticas sobre ela em ANITUA, Gabriel Ignácio. História do pensamento criminológico, p. 599-601.
90 A divisão das teorias criminológicas entre “consensuais” e “conflitivas ou conflituais” já está consagrada em autores como FIGUEIREDO DIAS, PABLOS DE MOLINA, ANITUA, SHECAIRA, dentre outros. 91 SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia, p.60.
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freqüentemente, o interesse pessoal pode incitar comportamento incompatível com o bem comum, e assim é que em todas as sociedades algumas regras, alguns tipos de coação sobre o comportamento das pessoas, são reconhecidas e, em conjunto, aceitas. Estas regras e os meios através dos quais elas são impostas diferem muito de uma sociedade a outra, mas sempre asseguram mais ou menos eficazmente algum grau de ordem social92.
E, mais adiante, propõe uma distinção para diferentes tipos de controle social, aos quais ele denominou de “externo”, que se restringiriam às relações sociais externas de qualquer grupo, que se vinculariam dentro da esfera do que para esse autor é útil chamar de “política” e, de outro lado – o que seria interno ao grupo social estudado – quando se fala de “leis” e “sanções sociais” estar-se-ia “pensando, primariamente no comportamento de pessoas individuais e das relações entre elas e dos fatores sociais que, de um modo geral, asseguram sua conformidade às regras aceitas da sociedade”93.
Há, ainda, o entendimento de controle social enquanto processo. Assim concebido, “o controle social será definido como o conjunto dos processos através dos quais os membros de um grupo se estimulam uns aos outros no sentido de levarem em conta as expectativas mútuas e respeitarem as normas que se impõem”94.
Verifica-se, pois três abordagens sobre controle social que se complementam e que foram fundamentais para a investigação proposta na pesquisa de campo. Trata-se de tentar compreender três conceitos de controle social, formulados por teóricos de três diferentes campos do conhecimento (criminologia, antropologia e sociologia) a fim de demonstrar a utilidade da abordagem interdisciplinar, tão cara à ciência criminológica, indubitavelmente uma tarefa importante a ser realizada em qualquer estudo criminológico.
De qualquer forma, falar em controle numa dada sociedade, pressupõe um mínimo de coesão entre os membros dessa coletividade, o que só é possível a partir de um anterior processo de socialização dos seus membros, o que é definido por Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo como
o processo através do qual os indivíduos passam a adotar os valores e os padrões de comportamento do seu entorno social. Esses processos se iniciam na infância e prosseguem ao longo da vida, por meio de mecanismos formais e informais de
92 BEATTIE, John. Introdução à Antropologia Social: objetivos, métodos e realizações da Antropologia Social, p. 167.
93 BEATTIE, John. Introdução à Antropologia Social: objetivos, métodos e realizações da Antropologia Social, p.168.
aprendizagem social, e a sua maior ou menor eficácia varia de acordo com uma série de fatores individuais e sociais95.
Na perspectiva criminológica a compreensão sobre essas formas de socialização ganha destaque. Para a criminologia do conflito é fundamental a análise sobre os “mecanismos formais e informais de aprendizagem social”, como menciona Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, para fundamentar o potencial desviante desses mesmos mecanismos. É com esse intuito que se consagrou a dicotomia entre controle social formal e informal, a qual será tratada a seguir.