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O objeto transdisciplinar e o sujeito transdisciplinar

No documento Transdisciplinaridade2 (páginas 123-127)

O ponto de vista transdisciplinar nos permite considerar uma Realidade multidimencional, estruturada em muitos níveis, substitu- indo a realidade do pensamento clássico de um único nível, unidimensional. As considerações que se seguem não dependem de esse número ser finito ou infinito. Em nome da clareza, suponhamos que esse número seja infinito.

Dois níveis adjacentes estão vinculados pela lógica do terceiro

* 1º Encontro Catalisador do CETRANS - Escola do Futuro - USP. Itatiba, São Paulo - Brasil: abril de 1999.

** Físico teórico do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (C.N.R.S.). Fundador e Presidente do

incluído, no sentido de que o estado-T presente em um determinado nível está vinculado a um par de contraditórios (A e não-A) em um nível imediatamente adjacente. O estado-T permite a unificação dos contraditórios A e não-A, mas essa unificação tem lugar em um nível diferente daquele em que A e não-A estão situados. Com isso, o axi- oma da não contradição é respeitado. Isso significa que podemos ob- ter uma teoria completa, capaz de dar conta de todos os resultados conhecidos e futuros?

Há sem dúvida uma coerência entre os diferentes níveis de Realidade, ao menos no mundo natural. De fato, uma imensa autoconsistência  um bootstrap cósmico  parece reger a evolução do universo, do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, do infinitamente breve ao infinitamente longo. Por exemplo, uma leve variação da constante de junção das interações fortes entre as partícu- las quânticas poderiam levar, no nível macrofísico  o do nosso uni- verso  seja à conversão de todo hidrogênio em hélio, seja à não exis- tência de átomos complexos como o carbono. Ou ainda, uma variação extremamente pequena da constante de junção gravitacional poderia levar a planetas efêmeros ou à impossibilidade de suas formações. Um fluxo de informação é transmitido de maneira coerente de um nível de Realidade a outro no nosso universo físico.

A lógica do terceiro incluído é capaz de descrever a coerência entre esses níveis de Realidade por um processo interativo compreen- dendo as seguintes etapas: 1) Um par de contraditórios (A, não-A) situado num certo nível de realidade é unificado por um estado-T situado num nível de Realidade contíguo; 2) por sua vez, esse estado- T está ligado a um par de contraditórios (A1, não-A1), situado em seu próprio nível; 3) o par de contraditório (A1, não-A1) é, por sua vez, unificado por um estado-T’ situado em um terceiro Nível de Realida- de, imediatamente contíguo àquele onde o ternário (A1, não-A1, T) se encontra. O processo interativo continua indefinidamente até que todos os níveis de Realidade conhecidos ou concebíveis sejam esgo- tados.

Em outras palavras, a ação da lógica do terceiro incluído nos diferentes Níveis de Realidade induz a uma estrutura aberta do con- junto dos Níveis de Realidade. Essa estrutura tem conseqüências con- sideráveis para a teoria do conhecimento porque implica na impossi-

bilidade de uma teoria completa, fechada em si mesma.

Com efeito, de acordo com o axioma da não contradição, o estado-T realiza a unificação do par de contraditórios (A, não-A) mas está associada, ao mesmo tempo, a outro par de contraditórios (A1, não-A1). Isso significa que começando com certo número de pares mutuamente exclusivos, pode-se construir uma nova teoria que elimi- na contradições em um certo Nível de Realidade, mas essa teoria é apenas temporária porque ela inevitavelmente leva, sob a pressão con- junta da teoria e da experiência, à descoberta de novos pares de con- traditórios, situados em um novo Nível de Realidade. Assim, essa teoria será substituída por teorias ainda mais unificadoras à medida que novos Níveis de Realidade forem descobertos. Esse processo con- tinuará indefinidamente, sem jamais resultar em uma teoria unificada completa.

A estrutura aberta do conjunto dos níveis de Realidade está de acordo com um dos resultados científicos mais importantes do século vinte no que concerne à matemática, o teorema de Kurt Gödel, que afirma que um sistema suficientemente rico de axiomas leva inevita- velmente a resultados indecidíveis ou contraditórios. As implicações do teorema de Gödel têm importância considerável para todas as teo- rias modernas do conhecimento, primeiramente porque ele diz res- peito não apenas ao campo da aritmética, mas de toda a matemática baseada na aritmética. Obviamente, a matemática que subjaz à física teórica inclui a aritmética. Isso significa que toda a procura por uma teoria física completa é ilusória. Se essa informação for verdadeira para os campos mais rigorosos do estudo dos sistemas naturais, como seria possível sonhar com uma teoria completa num campo mais com- plexo: o das ciências humanas?

A estrutura gödeliana do conjunto dos Níveis de Realidade, associada à lógica do terceiro incluído, implica na impossibilidade de construir uma teoria completa para descrever a passagem de um nível de realidade a outro e, a fortiori, para descrever o conjunto dos Níveis de Realidade. Se tal unidade subjacente a todos os Níveis de Realida- de realmente existir, tem necessariamente de ser uma unidade aberta. Portanto, há uma coerência no conjunto dos níveis de Realidade, mas essa coerência é orientada numa certa direção: uma flecha está asso- ciada a toda transmissão de informação de um nível ao outro. Como

conseqüência disso, se a coerência estiver limitada apenas aos níveis de Realidade, ela pára no nível “mais alto” e no nível “mais baixo”. Para que a coerência continue para além desses dois níveis limites, de modo a haver uma unidade aberta, precisamos considerar que o conjunto dos níveis de Realidade prolongue-se para uma zona de não- resistência, de absoluta transparência às nossas experiências, repre- sentações, descrições, imagens e formulações matemáticas.

A não-resistência dessa zona de absoluta transparência deve-se apenas às limitações do nosso corpo e dos nossos órgãos dos sentidos  limitações que persistem quaisquer que sejam os instrumentos de medição usados para prolongar os nossos órgãos dos sentidos. A zona

de não-resistência corresponde ao sagrado  àquilo que não se sub- mete a nenhuma racionalização. Proclamar a existência de um único

nível de Realidade elimina o sagrado e esse nível inevitavelmente se autodestrói.

O conjunto dos níveis de Realidade e sua zona complementar de não-resistência constituem o que chamamos de Objeto

Transdisciplinar.

Os diferentes níveis de Realidade são acessíveis ao conheci- mento humano graças a existência dos diferentes níveis de percep- ção, que se fundamentam na sua correspondência biunívoca com os níveis de Realidade. Esses níveis de percepção permitem uma visão cada vez mais geral, unificadora, englobante da Realidade, sem ja- mais esgotá-la completamente. Como no caso dos níveis de Realida- de, a coerência dos níveis de percepção pressupõe uma zona de não- resistência à percepção.

O conjunto dos níveis de percepção e essa zona de não-resis- tência constituem o que chamamos de Sujeito Transdisciplinar.

As duas zonas de não-resistência do Objeto e do Sujeito transdisciplinares devem ser idênticas para que o Sujeito transdisciplinar possa se comunicar com o Objeto transdisciplinar.

Ao fluxo de informação que atravessa de maneira coerente os dife- rentes níveis corresponde um fluxo de consciência atravessando co- erentemente os diferentes níveis de percepção. Os dois fluxos são

inter-relacionados porque eles compartilham a mesma zona de não- resistência. Conhecimento não é nem exterior nem interior: ele é si-

humano sustentam um ao outro. A zona de não-resistência desempe-

nha o papel do terceiro secretamente incluído que permite a unifica-

ção do Sujeito trandisciplinar e do Objeto transdisciplinar, sem que

haja a supressão de suas diferenças.

3. A feminilização da sociedade e a dimensão poética da exis-

No documento Transdisciplinaridade2 (páginas 123-127)