CAPÍTULO 3 SUI GENERIS: OUTING , “CULTURA” E “IDENTIDADE” GAYS, O
3.1 O “ outing como questão” na política editorial de Sui Generis
Ao cruzarmos a análise dos discursos veiculados em Sui Generis e as entrevistas realizadas com os jornalistas e colaboradores que atuaram na revista, chama a atenção a importância atribuída ao outing na definição de sua política editorial. Marcos Mazzaro, repórter e colunista, ressalta:
Tinha uma coisa na Sui Generis que hoje acho que deva ser complicado de fazer, mas que na época se fazia, que era a coisa do outing mesmo como uma questão. Hoje, acho que talvez não seja nem mais uma questão, será que é? Uma boa pergunta... Que é meio promover esse outing ou lançar suspeitas sobre essa história. E isso tem vários episódios na revista, que recebeu alguns processos por causa disso. Às vezes, até injusto.117
Tomamos esta fala como ponto de partida por entendermos que ela abre importantes frentes de análise, sobretudo no que se refere a estratégias discursivas que, no âmbito da produção jornalística aqui analisada, ora atualizam, ora redesenham o que se convenciona chamar de outing como política de visibilidade.
Antes de explorá-las, entende-se que, mais do que demonstrar com “exemplos” o
outing como um dos eixos da política editorial de Sui Generis, esta é uma questão privilegiada para discutir uma dimensão crucial na construção deste periódico como uma “revista gay” e “para gays” (e “lésbicas”). O “assumir-se” desponta, assim, como um dos elementos principais para a construção do referente gay como identidade e como cultura valorizados nas páginas da publicação.
Ao destacar o outing em correlação aos processos performativos de elaboração dos discursos veiculados na revista, da linha editorial e da atuação dos seus jornalistas e colaboradores, adota-se uma perspectiva teórica/epistemológica que opera na “importação” de um influente referencial analítico, elaborado em torno daquilo que a crítica literária Eve K. Sedgwick situa como “regime de conhecimento do armário” (1990). A ideia de “importação” aqui não é gratuita, pois entendemos que o conceito de “armário”, nos moldes em que circula nos estudos gays, lésbicos e queer nas últimas décadas, deve ser situado a partir de um movimento que tanto reconhece sua relevância nos debates acadêmicos, ativistas, da imprensa gay etc como exige uma interrogação crítica dos limites de sua incorporação a outros contextos espaço-temporais situados além de sua origem supostamente “central”118.
Desse modo, cabe interrogar: ao tratarmos do “armário”, ou da política correlata do outing, lidamos com um “conceito” ou estratégia chaves numa realidade supostamente
118 A análise de Sedgwick é tomada como referência, mas cabe ressaltar que os debates sobre as políticas em
torno do coming out são anteriores à década de 1980. Altman [1998 (1971), p. 306] o associava à necessidade de construção de uma “comunidade de irmandade”: “A essência do [movimento de] liberação gay é que ele nos capacita a nos assumirmos [to come out, no original]. 'Sair do armário e ir pras ruas torna-se um processo de libertação que, se não é suficiente para superar a opressão – de modo mais imediato, deve ao contrário fazer a opressão ser mais difícil de ser carregada – é certamente um primeiro passo necessário. Aqueles tocados pela nova afirmação descobrem uma nova percepção de como tem sido oprimidos pela sociedade e pelas normas sociais (…) Para o homossexual, a nova afirmação envolve romper com o mundo gay como ele tradicionalmente existiu e transformar a pseudo-comunidade do segredo e da objetificação sexual numa comunidade genuína de irmandade”. O artigo de Altman interroga ainda: “Se finalmente transcendermos a divisão entre hétero e homossexual, perdemos também nossa identidade?” (Ibid), concluindo que “se a humanidade [man/womankind, no original] alcançar o ponto em que esteja capaz de dispensar as categorias de homo e heterossexualidade, a perda valerá o ganho” (ALTMAN, 1998 (1971), p. 311). Outras referências do final dos anos 1960 e início dos anos 1970 são a leitura de Simon e Gagnon (1967, p. 62), que situa o coming out como “uma fase marcada pelo ponto no tempo quando há o autorreconhecimento pelo indivíduo de sua identidade como um homossexual e sua primeira grande exploração da comunidade homossexual [1998], e a de Dank [1998 (1971), p. 231], que identifica o uso da expressão aos informantes relacionarem “a suas próprias experiências concernentes a como encontram outras pessoas gays e quando decidem que são homossexuais”.
demarcada (“anglo-saxã”/“central”/“ocidental”), transpostos para outra (“brasileira”/ “periférica”/ “do Resto”)? É possível reconhecer no “armário” um regime discursivo com certa “universalidade”, atravessadora das experiências de sujeitos e constitutiva mesmo do binômio homo/hétero no século XX? Podemos pensá-lo sem considerá-lo apenas como um modelo “externo” que se replica em outras realidades? Reafirmar ou relativar a “epistemologia do armário” como dispositivo de análise? Em que medida reafirmá-lo como referencial analítico incorre no risco de sua “essencialização” e de torná-lo, em si, um determinismo? Por sua vez, em que medida sua relativização traz o risco de negação dos efeitos que historicamente se buscou denunciar?119
Sedgwick entende o “armário” como uma dimensão crucial na vida dos sujeitos “gays”, atravessando-os nas suas experiências mais cotidianas:
Mesmo num nível individual, há notadamente poucas pessoas, mesmo entre as mais abertamente gays, que não estejam no armário com alguém pessoal, econômica ou institucionalmente importante para elas. Ademais, a elasticidade mortífera da presunção heterossexista significa que, como Wendy em Peter Pan, as pessoas encontram novas barreiras que emergem em seu entorno até quando cochilam: cada encontro com uma nova turma de estudantes, para não dizer de um encontro com um novo chefe, assistente social, analista de crédito, senhorio, médico, levanta novos armários cujas leis características e plenas da ótica e da física exigem, pelo menos das pessoas gays, novos levantamentos, novos cálculos, novos rascunhos e demandas de sigilo ou revelação. Mesmo uma pessoa gay assumida120 lida diariamente com interlocutores que ela não sabe se eles sabem ou não; é igualmente difícil adivinhar, para cada interlocutor, se, no caso de saber, se tal conhecimento seria realmente importante (SEDGWICK, 1990, p. 67 e 68)
Nas palavras da autora, há um jogo que enfatiza a existência de um regime de conhecimento calcado nas negociações entre os sujeitos “gays” e seus “interlocutores” em torno do “saber” e do “não saber”, do “conhecimento”. Na sequência, ela enfatiza:
O armário gay não é uma dimensão apenas das vidas das pessoas gays. Mas para muitas delas, ainda é a dimensão fundamental de sua vida social. E há poucas pessoas gays, por mais habitualmente corajosas e francas, por mais afortunadas no apoio que recebam de suas comunidades mais imediatas, em cujas vidas o armário não seja ainda uma presença modeladora (SEDGWICK, 1990, p. 68)
Mesmo ciente dos “riscos” que uma “epistemologia do armário” possa assumir, a saber, de colocar o “armário” numa “centralidade” e “continuidade” de uma “narrativa
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Essas perguntas não minimizam, evidentemente, o peso da “questão do armário” nos discursos construídos na politica editorial de Sui Generis, de sua recorrência nos artigos editoriais, reportagens, cartas endereçadas à redação ou nos depoimentos colhidos de seus jornalistas. Antes, quer problematizar as dimensões e os limites de seu lugar como política editorial estratégica, obrigando-nos a buscar identificar e tensionar o que na revista se constrói como “armário”, “saída do armário”, outing ou coming out.
histórica” que caia na armadilha de sua essencialização, Sedgwick opera uma transposição analítica de um plano, digamos, individual121, para outro, geral: “A epistemologia do armário também tem sido, contudo, numa escala mais vasta e com uma inflexão menos honorífica, incansavelmente produtora da cultura e história modernas do Ocidente como um todo” (Ibid). Em outra passagem, afirma: “uma compreensão de virtualmente cada aspecto da cultura moderna ocidental será não meramente incompleta, mas prejudicada em sua substância central se não incorporar uma análise crítica da definição moderna de homo/heterossexual” (1990, p. I).
É importante ressaltar que Sedgwick, cujas investigações concentram-se no terreno da crítica literária, busca traçar tal análise a partir de um amplo conjunto de binarismos: “segredo/revelação, conhecimento/desconhecimento, privado/público, masculino/feminino, maioria/minoria, inocência/iniciação, natural/artificial, novo/velho, disciplina/terrorismo, canônico/não-canônico, inteireza/decadência, urbano/local, doméstico/estrangeiro, saúde/doença, igual/diferente, ativo/passivo, dentro/fora, cognição/paranóia, arte/kistch, utopia/apocalipse, sinceridade/sentimentalismo e voluntarismo/vício”122
(1990, p. 11), explorados a partir de referenciais canônicos específicos123 que se tornam representativos do que ela situa como “cultura moderna ocidental”. Entendemos que esta passagem com tendência “universalizante” (“cultura e história modernas do ocidente”), ao mesmo tempo que representa um salto para uma abordagem “epistemológica” original, de grande valia nos estudos gays e lésbicos em contextos diversos, também consiste numa operação com efeitos que, mais do que simplesmente descartar o “armário” como regime de conhecimento, precisa ser continuamente problematizada124.
No primeiro exemplar de Sui Generis, destaca-se na composição da capa a personagem selecionada para ilustrá-la: o vocalista de um dos principais expoentes da música
121 Como destaca Edwards (2009, p. 4), uma das ideias “mais importantes e enganosamente simples” de
Sedgwick é “que as pessoas são diferentes uma das outras, e sua noção que a primeira pessoa é uma heurística potencialmente poderosa”.
122 No original: secrecy/disclosure, knowledge/ignorance, private/public, masculine/feminine,
majority/minority, innocence/initiation, natural/artificial, new/old, discipline/terrorism, canonic/noncanonic, wholeness/decadence, urbane/provincial, domestic/foreign, health/illness, same/different, active/passive, in/out, cognition/paranoia, art/kistch, utopia/apocalypse, sincerity/sentimentality, and voluntarity/addiction. Observo que a tradução implica sempre em perder mais de um sentido para cada um dos termos e pares. 123
A literatura norte-americana, inglesa e francesa, a partir de obras de Herman Melville, Oscar Wilde, Henry Miller e Marcel Proust.
124 Ressaltamos que exploramos esta questão a partir de um lugar sempre específico, constituído pelos discursos
pop internacional da época, a dupla inglesa Pet Shop Boys125. Enquadrado num plano americano126, o artista encara o leitor, numa pose em que sugere estar desabotoando uma blusa branca, “despindo-se”. A manchete disposta no topo da página: “O Pet Shop Boy Neil Tennant abre o jogo: “I am gay””.
Compõem ainda a capa os seguintes títulos: “Cássia Eller – Renato Russo revela a estrela do blues”; “Stephan Elliott se apaixona no Brasil”; “Caio Fernando Abreu desafia as hipocrisias do Brasil-Barbie”. Somam-se a estas “Points – Roteiro Fervido no eixo RJ-SP” e “Verão – 19 páginas de moda e consumo”.
(Imagem 6– Capa Sui Generis, ano 1, n.1, jan 1995)
É interessante perceber que estas manchetes secundárias, ainda que não tenham o mesmo peso do enunciado atribuído à personagem principal da página, ajudam a circunscrever o escopo editorial da revista como de “variedades”, em que são enfatizadas as
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Duo musical que fez sucesso em diversos países, inclusive no Brasil, nas décadas de 1980 e 1990, ainda em atividade.
matérias com nomes relativamente consagrados na música pop, no cinema e na literatura (nacionais e internacionais). Há nessas chamadas uma dinâmica dupla. Primeiro, elas pressupõem um conhecimento implícito de parte do leitor, como se este e a revista compartilhassem com desenvoltura as mesmas referências culturais (a legitimidade do cantor Renato Russo em apresentar uma nova cantora; Stephan Elliott ser um diretor de cinema que, na época, dirigira um filme bem sucedido comercialmente e estrelado por drag queens,
Priscilla, A Rainha do Deserto; Caio Fernando Abreu ser um escritor relativamente conhecido para esta audiência, de modo que suas opiniões pudessem ser tomadas como “desafiadoras”). Também implícitas nas chamadas de capa estariam informações sobre estas personalidades, que se revelariam apenas nas páginas internas, nas respectivas reportagens127.
Contrastando com o que não é dito explicitamente nessas chamadas secundárias, a manchete principal é marcada, por sua vez, pelo dizer: “I am gay”128. Não apenas se pressupõe a familiaridade do leitor com o idioma estrangeiro (que, no caso, também funciona como um marcador de distinção do leitorado): a declaração pública sobre a orientação sexual e/ou identidade de gênero do artista, mais do que uma informação que despertasse eventual surpresa, sobressaía-se pela ênfase menos no que revelava do que na importância do ato em si de declarar, do “abrir o jogo”.
O “I am gay” escolhido para ilustrar a capa de estreia de Sui Generis antecipa, assim, uma das principais dimensões que atravessa esta revista e a elaboração de sua linha editorial: a questão do outing como política de afirmação pessoal e coletiva gay (seja este como referente identitário, seja como universo ou “cultura”129
). Não é apenas o vocalista dos
Pet Shop Boys a externar sua orientação sexual: a manchete também pode ser lida como uma afirmação da nascente revista ao público e ao mercado editorial, anunciando-se igualmente “gay”.
Essas justaposições entre o dizer e o não dizer, presentes já na primeira página da edição de lançamento, mais do que opostos num “regime do armário”, revelam dinâmicas que vão atravessar tanto as práticas jornalísticas desta revista como os modos de representação do
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No perfil de Cássia Eller, por exemplo, fala-se do “amor por Francisco, seu filho, e Eugênia, com quem está junto há oito anos quase”, a cantora declara “Eu sou livre, não é fácil, mas eu sei em que acredito” (“Saint Cassia's Blues”, Sui Generis, ano 1, n. 1, jan 1995, p. 68); Elliott confidencia em entrevista estar “apaixonado por um brasileiro” e confirma que “os anos 90 são marcados pela afirmação positiva do mundo gay” (“Baby Face”, Sui Generis, ano 1, n. 1, jan 1995, p. 16-17); o escritor gaúcho defende o argumento de que “todo mundo é potencialmente bissexual” e afirma “eu não sou exclusivamente homossexual” (“Conhecendo o paraíso”, Sui Generis, ano 1, n.1, p.20-23).
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“Eu sou gay”.
129 Na seção 3.2, analisamos mais detidamente os discursos que reiteram essa defesa de uma “identidade” e
gay, através de espectros que ora deslocam, ora reinventam essa binaridade. Quando lançamos um olhar sobre a reportagem escolhida para ilustrar a capa, publicada originalmente na revista gay inglesa Attitude e intitulada “Mudança de comportamento”, podemos identificar mais
claramente esse jogo entre o saber e o não-saber.
O primeiro parágrafo do texto, cujo relato é feito em primeira pessoa, traz uma dimensão de cumplicidade entre o jornalista e o artista, sobre algo implícito a ser abordado no encontro entre os dois. Tal cumplicidade, por sua vez, também é transferida ao leitor, pois o repórter revela os bastidores da realização da entrevista:
Neil Tennant sabe que hoje tem algo a me dizer e, graças a uma dica de um desses conspiradores de quem sempre ouvimos falar, eu também sei. Na verdade, esta entrevista foi toda combinada nessa base. Só que ninguém falou sobre isso, nem mesmo seu assessor de imprensa, que sugeriu que nos encontrássemos 20 minutos antes para esclarecer alguns detalhes. Tivemos um papo amigável sobre a vida e a mídia em geral, mas absolutamente nenhuma restrição de como deveria abordar o assunto.
Dessa forma, aqui estamos nós, Neil Tennant e eu, 45 minutos na nossa combinada sessão de duas horas e ainda assim aquela questão problemática da sua vida pessoal ainda não aconteceu. Ao invés, conversamos sobre outras coisas mais mundanas (“Mudança de Comportamento”, Sui Generis, ano 1, n. 1, jan 1995, p. 38)
A sequência do relato reproduz textualmente estratégias de aproximação à “questão problemática”, de modo que cada parágrafo subsequente revela os modos como o repórter interage com o entrevistado, sem mencionar explicitamente, contudo, o que se “sabe”:
Graças ao fato da Kyle130 ser uma garota tão moderna, Neil e eu chegamos a arriscar muito algumas vezes. Conversamos a respeito da audiência gay e da dificuldade de ampliar o público sem perder essa audiência núcleo. “Penso que é muito difícil ser Kyle”, ele me comentou em certo momento, me dando a chance de perguntar: é difícil ser Neil Tennant?
“Em que sentido, respondeu com precaução?” No sentido de ser mal entendido.
“Às vezes, embora esteja aprendendo a não ligar para isso. Obviamente, é uma falha nossa que tenhamos dado às pessoas a impressão de que o que fazemos seja um tipo de piada sofisticada”.
Então, tendo estabelecido que é uma falha minha não ter dado a Neil Tennant a oportunidade de esclarecer quaisquer dúvidas que alguém possa ter se ele é gay ou não, saio para uma pergunta mais longa sobre como os Pets são vistos pela imprensa gay […]
Neil Tennant dá um profundo suspiro […]
“Eu realmente penso que contribuímos, através da nossa música, dos nossos vídeos e da forma geral como apresentamos as coisas, ao que você poderia chamar de cultura gay. E a razão simples pra isso é que escrevi canções do meu próprio ponto de vista...” Ele dá uma pausa e se inclina um pouco mais perto do gravador. “O que eu estou tentando dizer é que, eu sou gay, e escrevi canções deste ponto de vista. Ou
130 Kyle Minogue, cantora pop australiana. A reportagem mencionava a participação dos Pet Shop Boys no disco
seja, estou sendo surpreendentemente honesto com você aqui, e esses são os fatos. Visivelmente aliviado, Neil Tennant se serve de água mineral e tira sua camiseta. Seu rosto ficou bem vermelho. “Bem, qual a sua próxima pergunta?” (“Mudança de Comportamento”, Sui Generis, ano 1, n. 1, jan 1995, p. 38-40)
A narrativa faz com que a questão de se obter, da parte do entrevistado, a afirmação de “ser gay” represente o clímax de uma série de estratégias de aproximações e
recuos: “arrisca-se” falar em “audiência gay”, “imprensa gay”, “cultura gay”, o repórter
lamenta ter perdido a oportunidade de oferecer ao cantor “esclarecer” se “ele é gay ou não”. O relato é revelador ainda de como se interseccionam dinâmicas da prática jornalística e da política da “saída do armário” numa publicação que busca se situar como “gay”: de tornar o que se “é” (“gay”) público, de como se negocia a obtenção de uma declaração desta natureza, de como ela é valorada positivamente (neste caso, mediante os discursos do entrevistado e do jornalista de associá-la à honestidade, ao “alívio” que isso resultaria), de se reconstituir dimensões gestuais presentes tanto no encontro do jornalista com o entrevistado como no ato de alguém que acaba de fazer um outing (a aproximação ao gravador para enfatizar o registro, o ato de despir a camiseta, o rosto “vermelho”).
Não obstante, o encerramento da reportagem retoma a estratégia do repórter em investir no confessional, da transformação de algo “particular” em algo “público” e de que este processo remete a um modo de conciliação do sujeito que se afirma gay consigo mesmo, num gesto situado novamente no domínio do que se poderia classificar como “honesto”:
“Para mim, fazer parte dos Pet Shop Boys sempre foi um esforço entre o constrangimento total e a sem-vegonhice total”.
Escutando a fita de nossa conversa mais tarde, começo a pensar qual foi o motivo desta estranha confissão. Talvez tenha sido uma referência ao fato de que Neil Tennant não sente mais nenhum constrangimento sobre quem ele é nem com sua decisão de expor seus assuntos particulares. Talvez tenha sido sua maneira de me lembrar que normalmente ele não faria esse tipo de coisa. Honestamente (“Mudança de Comportamento”, Sui Generis, ano 1, n. 1, p. 72).
O fato de a principal reportagem da capa número um de Sui Generis girar em torno do coming out de um artista pop internacional e ser, ao mesmo tempo, uma tradução de reportagem veiculada numa revista (gay) estrangeira, indicia uma questão correlata a esta valorização do outing como política de conduta a balizar seus leitores “gays e lésbicas”: a
relevância das revistas gays norte-americanas e europeias como referências para a linha editorial da revista. Isto fica evidente na entrevista concedida pela editora Roni Filgueiras, quando ela descreve como os periódicos estrangeiros representavam um parâmetro editorial para a feitura de Sui Generis:
Como o público da revista era muito exigente, existia uma preocupação muito grande com o projeto gráfico, com a estética, com as fotos. O Nelson também tinha uma preocupação muito grande de refletir o que é que tinha fora do país. Então, comprava todas as revistas gays europeias, americanas e a gente sempre tava repercutindo o que saía nelas. Era uma coisa do olhar, mesmo. E como não tinha