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Capítulo 2: Algumas reflexões sobre a Tradução

2.5. O Texto Técnico (em sentido lato)

2.5.1. O público-alvo e o papel do tradutor técnico

De acordo com Lima (2010: 29), a Tradução deve ser usada como um

«instrumento para analisar o processo que conduz ao entendimento do que se passa no mundo». O público-alvo deste tipo de texto pode ser bastante vasto, tal como são os textos que se integram nesta área. Como vimos em secções anteriores, é necessário considerar a cultura do público-alvo quando se produz uma tradução, assim como, no caso do texto técnico, a terminologia de especialidade. Agora, analisaremos em que medida isto se relaciona com o papel do tradutor.

Ao longo do tempo, foram-se desenvolvendo várias teorias sobre a Tradução e o papel do tradutor, sendo que alguns teóricos defendem que há textos que não podem ser traduzidos com precisão, devido à especificidade das suas características culturais e da sua terminologia, e outros afirmam que todos os textos podem ser traduzidos se o tradutor tiver formação suficiente para aplicar as estratégias de tradução corretas. Considero que, qualquer que seja o ponto de vista do tradutor, este deve considerar os aspetos referidos quando produz uma tradução, pois as questões socioculturais e terminológicas podem

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influenciar a forma como a tradução é realizada, nomeadamente quando se traduz um texto técnico.

Nord (1997: 41), assumindo um ponto de vista funcionalista (cf. Reiss/Vermeer, 1984; Nord, 1991), afirma que as decisões do tradutor durante o processo de tradução devem ser orientadas pela função ou pelo fim comunicativo do TC numa situação específica da cultura-alvo. A autora apresenta este processo como um objetivo que os tradutores profissionais devem ter em mente durante a sua formação, ou seja, argumenta que os tradutores devem procurar desenvolver as suas aptidões tendo em conta a função de cada texto e a cultura para a qual estão a traduzi-lo.

Pérez (2001) define quatro competências que um tradutor de texto técnico deve ter:

Conhecimentos sobre o campo temático;

Utilização correta da terminologia técnica;

Competência nos géneros técnicos distintos;

Domínio da consulta de documentos enquanto ferramenta de trabalho.

A autora considera que o tradutor deve conhecer minimamente o campo temático que o TP aborda, pois é necessário compreender o que irá traduzir. Isto vai ao encontro do que foi mencionado na secção anterior, onde se discutiu se estes textos poderiam ser traduzidos por tradutores ou se era necessário contratar especialistas no assunto. Pérez (2001) considera que os tradutores têm a capacidade de realizar estas traduções através da pesquisa da terminologia adequada. Afirma, também, que a quarta competência referida, relativa à consulta de materiais que sirvam de recurso para a tradução, é a mais importante, precisamente devido à procura da tradução ideal da terminologia de especialidade. Lee-Jahnke (apud Byrne, 2006) também menciona alguns destes aspetos, referindo as competências mais importantes para uma tradução do texto técnico e científico: conhecer a estrutura do texto nas diferentes línguas, o léxico de especialidade da área e a área em si.

De acordo com Byrne (2006), o papel do tradutor quando realiza uma tradução técnica é garantir não apenas que todas as informações necessárias são transmitidas, mas também que o são de maneira que os leitores consigam usar as informações facilmente e de forma apropriada e eficaz, o que se relaciona com o ponto de vista de Nord (1997),

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que favorece a função e a comunicação. O autor menciona, também, as fases por que os tradutores passam durante uma tradução, segundo Mossop (1998: 40):

(1) Interpretação do texto de partida;

(2) Composição da tradução;

(3) Pesquisa necessária para a realização das primeiras duas tarefas;

(4) Revisão e, se necessário, correção de erros na tradução inicial e decisão das implicações da tradução, de acordo com o público-alvo.

Fishbach (apud Byrne, 2006) considera que a forma como os textos técnicos são escritos é mais importante do que a sua terminologia. Assim, os tradutores necessitam de produzir textos com uma estrutura idêntica à dos que são produzidos por autores de textos técnicos que trabalham na língua de chegada. Ou seja, segundo o autor, a falha em obedecer às regras da área em questão nesta língua pode diminuir a credibilidade do texto, do autor e da informação que transmite. Apesar de estes aspetos serem bastante importantes para a credibilidade e a compreensão do TC, considero que a terminologia é um aspeto igualmente importante, pois esta é uma das características principais dos textos técnicos e é de enorme relevância para o público-alvo deste tipo de texto. O tradutor deve, então, considerar tanto a terminologia como o estilo em que o texto é escrito, de forma a produzir uma tradução técnica apropriada.

Costeleanu (2009) afirma que é utópico considerar que um tradutor pode ser especialista em todas as áreas possíveis, ou seja, que este consegue, por exemplo, traduzir textos do campo jurídico com a mesma qualidade que traduz textos de medicina. Desta forma, alega que é necessário encontrar um tradutor com formação numa certa área, que se consiga expressar livremente e que se disponibilize para desenvolver os seus conhecimentos sobre outras áreas. Considero que esta constante atualização dos próprios conhecimentos terminológicos sobre áreas distintas e especialização numa ou mais áreas também pode ser considerada parte do papel do tradutor.

Munday (2001: 31) discute os critérios de avaliação de traduções da UNESCO.

Estes reconhecem o equilíbrio entre a domesticação e a estrangeirização, defendendo que os textos não devem ser «demasiado literais», mas admitindo alguma literalidade, apenas quando esta não coloca em causa a naturalidade do texto produzido. Esta questão será debatida a partir do parágrafo seguinte. A UNESCO reconhece, também, que deve haver uma diferenciação entre tipos de texto, de forma a considerar qual será a estratégia a

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utilizar: o estilo dos artigos traduzidos para periódicos deve ser compreensível e estar mais próximo da língua de chegada, ao passo que os discursos políticos requerem uma tradução muito rígida e fiel ao TP para evitar equívocos de interpretação.

Segundo Pinho (2006: 102), «[o] estilo [do autor original] é naturalmente, e por norma, indissociável da mensagem a transmitir, e a transposição de ambos para a língua de chegada parece ser, aferindo pelas palavras dos tradutores, uma tarefa indispensável na concretização do objetivo final de uma tradução». O autor também critica a

«invisibilidade do tradutor», que provém da transparência, inteligibilidade e naturalidade do TC e da fluência na língua de chegada, afirmando que esta invisibilidade «reduz o conhecimento da importância da atividade que [o tradutor] desempenha». No entanto, apesar de concordar com o primeiro ponto de vista do autor, considero que a

«invisibilidade do tradutor» é um objetivo para muitos profissionais que queiram produzir um texto com fluidez e que não apresente dúvidas para os leitores da língua de chegada.

Se o tradutor for «visível», poderá ser devido a escolhas que não se adequam ao contexto, ou a frases que não são facilmente compreendidas pelo público-alvo.

Pectu (2007: 133), que também valoriza a invisibilidade do tradutor, apresenta a ideia de Venuti de que um texto traduzido é considerado aceitável, seja este de poesia, ficção ou não-ficção, quando tem características de um falante nativo, não tendo peculiaridades linguísticas ou estilísticas, o que permite ao texto ser transparente. Um texto traduzido de tal forma consegue refletir a personalidade do autor original ou a essência (e o significado) do texto, dando a aparência de que a tradução não é uma tradução, mas sim o texto original. É este o tipo de traduções que, na atualidade, muitos tradutores desejam produzir, adquirindo conhecimentos durante a sua formação que os preparam para fazê-lo de forma eficaz. Como Xian (2008) afirma, defende-se que o público-alvo da cultura de chegada deve reagir ao texto da mesma forma que o público da cultura de partida reagiria, ou seja, o TP e o TC devem ter o mesmo impacto nos seus leitores.

Apesar de, nos estudos de Tradução (e no presente relatório), haver preferência pela domesticação, Abbasi et al. (2012) defendem que o tradutor tem como responsabilidade a escolha das normas que têm prioridade face a outras. De acordo com os autores, é o tradutor que decide se é essencial considerar as normas culturais da língua de partida, da língua de chegada ou uma combinação de ambas. Existindo ainda autores e teóricos que defendem a preferência por estratégias de estrangeirização, como exposto

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através das perspetivas apresentadas, há um consenso quando se fala sobre a preservação do sentido e da intenção do autor do TP, qualquer que seja a estratégia utilizada, seja esta de domesticação ou estrangeirização.

Como refere Johnson (2004), recordando a perspetiva de Dryden, «a exatidão poderia melhor preservar o sentido do autor, e (…) a liberdade exibiria melhor o seu espírito. Assim, merece o mais alto elogio aquele que conseguir transmitir uma representação a um tempo fiel e agradável, o que consegue comunicar os mesmos pensamentos com as mesmas graças e que, quando traduz, não muda mais nada senão a língua».

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