Muitos educadores musicais concordam que o Piano Funcional é indispensável para todos os músicos, não somente para pianistas, e que as aulas de piano deveriam constituir uma componente básica curricular em qualquer programa de música, independentemente do campo de estudo (Bastien, 1973, p. 315). As competências desenvolvidas no piano são consideradas uma parte importante da formação de um aluno de graduação em Educação Musical (Christensen, 2000, p. 1). O Piano Funcional é uma disciplina prática que permite ao futuro educador musical utilizar o teclado/piano como uma ferramenta funcional de ensino e, comumente, é trabalhada em grupo para alunos que o têm como um segundo instrumento. A abordagem de piano em grupo, quando adotada na disciplina de Piano Funcional, oferece ao professor a oportunidade de economizar tempo por atender a um grupo de alunos na explanação de conceitos, além de trabalhar um curriculum musical abrangente (Fischer, 2010, p. 8). As aulas em grupo, que têm por objetivo desenvolver competências funcionais ao piano, fazem parte do curriculum de diversas universidades pelo mundo (Orlandi, 2009; Young, 2010). Segundo Fischer (2010, p.9), este é um ambiente ideal para se trabalharem competências funcionais como harmonização, transposição, improvisação, leitura à primeira vista, teoria musical e treinamento auditivo. Diferentemente de uma aula individual, na situação de grupo o professor pode preparar jogos e atividades criativas que estimulem a interação dos alunos e, ao mesmo tempo, trabalhem as competências funcionais.
A primeira função de um programa de piano para alunos que o têm como um segundo instrumento no curso de Música deve ser o desenvolvimento das competências funcionais, pois habilidades como ler à primeira vista, harmonizar, transpor e improvisar são comumente requeridas por regentes de corais e professores de música, em geral. Considero o tocar de ouvido uma prática essencial para o futuro educador musical que irá atuar nas escolas de ensino
fundamental e médio, não somente para que esteja apto a trabalhar com crianças e adolescentes um repertório55 que seja familiar e de interesse deles, mas
principalmente como forma de aguçar a audição, desenvolver diversos aspectos da musicalidade e ampliar o nível de compreensão musical.
O programa de piano funcional também pode unificar outras áreas do curso superior de música como, por exemplo, relacionar a harmonia ao teclado às aulas de teoria musical e a literatura do piano às aulas de história da música (Bastien, 1973, p. 315). Estas aulas têm, portanto, o objetivo de aprofundar os conhecimentos musicais e fazer com que o aluno tenha uma experiência prática daquilo que aprende em termos teóricos e conceptuais. Assim, é preciso que esteja claro para o professor que o objetivo da disciplina não é formar pianistas, e sim, músicos mais completos e preparados em relação às exigências do mercado de trabalho. O Piano Funcional passa a servir como uma espécie de laboratório onde várias componentes são trabalhadas conjuntamente com base em um curriculum musical abrangente, no intuito de agregar e solidificar diversas experiências musicais que são vivenciadas pelos alunos em outras disciplinas e fora do contexto da Universidade.
As competências a serem trabalhadas no Piano Funcional podem variar de acordo com os objetivos do professor e do curso. O material didático neste campo também varia em relação à seleção de competências a serem trabalhadas. Alguns métodos não apresentam, por exemplo, o exercício de redução de partituras porque entendem que esta função não é requerida por todos os músicos. Outros já apresentam, por exemplo, exercícios rítmicos que normalmente são trabalhados nas aulas de percepção para serem executados fora do piano. Alguns autores argumentam que diferentes áreas requerem diferentes competências (Bastien, 1973; Kasap, 1999; Orlandi, 2009) e que, portanto, cada programa deveria ser elaborado de acordo com o grupo de alunos específico. Orlandi (2009, p. 63) apresenta uma lista ampla de aspectos e competências a serem trabalhadas no
55 O uso de cifras também pode ser um recurso utilizado pelo professor, mas é muito comum haver
erros nas cifras que são disponibilizadas na internet. Assim, penso que praticar o tocar de ouvido também pode ser uma forma de garantir a qualidade do trabalho que será desenvolvido nesse aspecto.
Piano Funcional:
Técnica
Leitura à primeira vista
Acompanhamento
Harmonização
Transposição
Estudo de repertório
Leitura e redução de partitura coral
Redução de partitura instrumental
Improvisação
Tocar de ouvido
Tocar canções folclóricas
Musicalidade
Audição crítica
Competências de performance
Execução de acordes
Execução em conjunto
Realização de baixo cifrado
Modulação
Memorização
Análise musical
Execução de duas ou mais partes de sistemas
Execução de exercícios de aquecimento
Cantar uma parte vocal enquanto toca outras partes
Execução de jazz ao piano
Diversos estudos têm mostrado efetivamente quais competências são mais utilizadas por cada profissional de música em suas áreas (Bastien, 1973, p. 316; Orlandi, 2009, p. 47). Por isso é importante que o professor leve sempre em consideração o contexto no qual trabalha e o perfil dos alunos para elaborar o programa da disciplina. De acordo com Orlandi (2009, p. 48), a questão da
aplicação de técnica e repertório é controversa, uma vez que estes elementos nem sempre são considerados importantes pelos educadores musicais no contexto da disciplina. Por outro lado, alguns professores acreditam que a aprendizagem de outras competências musicais é dependente do desenvolvimento da técnica e da execução de repertório. Leitura à primeira vista, acompanhamento, harmonização de melodias, transposição e improvisação são comumente vistas como as competências funcionais mais importantes para todos os músicos.
Há muitos desafios a serem enfrentados na disciplina de Piano Funcional, dentre eles, a leitura em duas claves, a audição vertical da partitura (além da horizontal), o domínio técnico do instrumento, a motivação dos alunos para aprenderem um novo instrumento, a questão da disponibilidade do instrumento para estudo e a conscientização dos alunos sobre a importância desta disciplina para sua formação musical. Mediante os desafios e benefícios apresentados na presente discussão, argumenta-se que na determinação de prioridades e exigências para esta disciplina, também sejam considerados a história e a realidade de cada contexto.