Foto 5.6: Foto aérea dos Setores Bueno e Bela Vista, 2006
2 OS PLANOS URBANOS ELABORADOS ATÉ A DÉCADA DE 1980
2.3 O P LANO D IRETOR DE L UÍS S AIA (1959-1963)
Os planos preservam as características de melhoramentos, embelezamento e remodelação até a década de 1930, sendo executados até a década de 1940, no Rio de Janeiro, Plano Agache, e São Paulo, Plano de Avenidas de Prestes Maia. Estes planos servem de referência para os planos urbanos da década de 1950, quando há uma crise e um novo tipo de plano passa ser defendido e cujos objetivos dificilmente serão alcançados, pelo plano ser mais caracterizado por discursos, se comparados com ações efetivas.
O modernismo do período entre guerras assume uma forte tendência positivista, que se desenvolve e cristaliza depois da 2a Guerra Mundial. O
positivismo lógico era tão compatível com as práticas da arquitetura modernista quanto com o avanço de todas as formas de ciência. Foi esse o período em que as casas e as cidades puderam ser concebidas como “máquinas de morar”. Nesses anos também o Congresso Internacional de Arquitetura Moderna – CIAM se reuniu para adotar a celebrada Carta de Atenas de 1933, documento que nos trinta anos seguintes iria marcar significativamente não só o objeto da prática arquitetônica modernista, como o do urbanismo, através do zoneamento funcional (SOMEKH, 1997, p. 38). Villaça (1999, p.238) explica que o conceito de plano diretor (físico-territorial ou não) desenvolveu-se no Brasil mais ou menos a partir dos anos 50, mas a expressão “plano diretor” já havia aparecido anteriormente em 1930, no Plano Agache, elaborado para a cidade do Rio de Janeiro.
Arantes (2001, p. 25-27) explica como se deu a origem da incorporação dos princípios modernos nos campos da arquitetura e urbanismo:
A Arquitetura Moderna é um caso exemplar [...] desde o início ela foi pensada como a principal aliada na solução dos grandes antagonismos na sociedade capitalista, a que seria capaz de reorganizar por uma reordenação do espaço – o que, segundo Le Corbusier, haveria de prevenir contra a revolução. Mas a racionalização de um tal espaço (abstrato) estava diretamente vinculada à racionalização capitalista da produção, à serialização, à moradia mínima, ao zoneamento urbano etc. Como se pode ver, a aposta no poder emancipatório da modernização capitalista, quer dizer, no caráter liberador inerente à evolução das forças produtivas, é marca congênita da cultura modernista e seus desdobramentos iluministas e utópicos que, na busca do sempre novo, fazia tábula rasa do passado.
Em Goiânia, na década de 1950, vai ser colocado em prática o urbanismo moderno que vinha se consolidando após a 2ª Guerra Mundial e que buscava solucionar os problemas das cidades brasileiras, como, por exemplo, seu rápido crescimento populacional e a compatibilidade com a infraestrutura.
Devido ao acelerado crescimento da capital goiana, ultrapassando as dimensões estabelecidas no plano original, no final de 1959, o prefeito de Goiânia, Jaime Câmara, e o governador do Estado de Goiás, José Feliciano, convidaram o arquiteto Luís Saia, para elaborar um novo plano urbanístico para a cidade, por meio de contrato firmado com a Secretaria de Viação e Obras Públicas do Estado de Goiás. Luís Saia elaborou o plano
66
coordenando uma equipe, a “Equipe Central de Trabalho do Plano Diretor de Goiânia”, composta por profissionais de diversas áreas (demografia e estatística, geologia, climatologia, saneamento, hidrologia, legislação de edificações), que elaboraram, cada um, um relatório final. Na fase de pesquisa e coleta de dados, a equipe ficou sediada em Goiânia, e posteriormente em São Paulo, até meados de 1963 (MOTA, 2002, p. 4).
Luis Saia (1911-19[?]) foi um arquiteto e urbanista paulista, formado engenheiro- arquiteto pela Escola Politécnica em 1948, onde iniciou os estudos em 1932. Com curso de etnografia da prefeitura de São Paulo, em 1936, iniciou seu trabalho no SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico Nacional como auxiliar de Mário de Andrade, passando a chefiar o 4º Distrito até seu falecimento e participando de pesquisas folclóricas no Nordeste brasileiro. Ajudou a fundar o Museu de Arte Moderna, em 1948, e a montar a 1a Bienal de Arte de São Paulo. A partir de 1950 dedicou-se ao planejamento urbano realizando planos para as cidades de São José do Rio Preto, Lins, Águas de Lindóia e de Goiânia. Preparou o Código de uso lícito da terra (1954), apresentado à Assembleia Legislativa de São Paulo, contribuindo também para o planejamento do estado de São Paulo num relatório preliminar. Foi professor de arquitetura brasileira na USP, livre-docente na Escola de Arquitetura de Minas Gerais e nas cidades de Porto Alegre, Salvador e Recife. Organizou o curso especial de planejamento da Faculdade de Arquitetura Mackenzie, de planejamento do IAB/SP e de especialização em Restauro e Conservação de Monumentos Arquitetônicos. Participou ainda de congressos nacionais e internacionais de arquitetura nas décadas de 1950 e 1960 (LEME, 1999, p. 519).
Mota (2002, p. 2-3) descreve que no trabalho de Luís Saia, as concepções de planejamento se basearam no conhecimento da realidade sobre a qual se atuava, e levaram em conta a inserção regional e urbana da cidade, além dos problemas de organização, funcionamento, características paisagísticas, culturais e as tendências de desenvolvimento. Esses elementos condicionariam um “partido” determinante das soluções propostas, pensadas integralmente, segundo “projetos de finalidades múltiplas”, para otimizar os investimentos públicos.
Fatores locais também estiveram presentes em diversos planos urbanos que Luis Saia desenvolveu para outras cidades, como a de Águas de Lindóia, como explica Franco (2003, p. 6, grifo nosso):
As linhas gerais do Plano Diretor de Saia para Águas de Lindóia foram calcadas em pesquisas de valores capazes de influir no desenvolvimento urbanístico, tais como: a sistemática das ocorrências de águas medicinais e
os valores paisagísticos; a sistemática de desenvolvimento urbano, incluindo as pesquisas sociodemográficas regionais com repercussão na expansão da cidade e a definição do âmbito urbano [...]
Para assegurar o desenvolvimento harmônico da estância Saia estruturou o Plano Diretor em três partes: zoneamento, circulação e sistema de parques. A característica de estância turística, segundo ele, pedia atenção especial aos espaços públicos, que deveriam ser a principal característica do traçado da estância, com proporções generosas, permeando todo o tecido da cidade.
O plano proposto tinha horizonte temporal de uma década (1960-1970) e abrangia a área urbana e a de expansão urbana, devendo ser analisado e revisto após esse período, a partir dos resultados práticos observados e identificados. Estes deveriam confirmar ou não a reestruturação urbana proposta, que deveria suportar uma população de 160.000 habitantes, que já ultrapassara a previsão inicial de 50.000, e a prevista de 300.000 habitantes para 1970.
De acordo com Mota (2002, p. 3), o plano estruturou-se em escalas sucessivas de aproximação, partindo da análise da construção da cidade em relação aos contextos regional e nacional, analisando sua evolução e situação urbanística. Indicava os principais problemas a serem resolvidos, considerando o déficit existente e a demanda potencial prevista em função do crescimento demográfico.
A modernidade do século XX foi marcada pela referência e busca de uma racionalidade voltada para a solução de situações problemáticas cujas soluções poderiam ser previstas em projeções baseadas em mediante mecanismos lógicos, como descreve Sechi (2006, p. 126):
A figura da máquina acompanha toda a modernidade e foi muito utilizada pelas ciências do século XX [...] O input é, nesse caso, representado por uma série de enunciados teóricos com aparência de lei com o complemento de algumas condições iniciais, que especificam a situação à qual vem aplicada, a teoria é manipulada por um dispositivo lógico-matemático, cujo output é constituído por previsões expressas em forma numérica ou outra forma. O plano é um mecanismo desse tipo, a meio caminho entre a falta de clareza do sistema político e a transparência do mecanismo lógico-matemático. Seus
inputs são representados pelas demandas expressas pela sociedade e os outputs pela mudança concreta da cidade. Porém, as coisas tornam-se
68
Esses problemas seriam posteriormente detalhados em diferentes graus: propondo-se diretrizes e anteprojetos, resultando na criação do Fundo Operativo de Investimentos, órgão colegiado responsável pelos serviços gerais de planejamento urbano e agenciamento dos diferentes agentes necessários diante das soluções específicas, articulando os governos municipal, estadual e nacional, além dos recursos a serem investidos (MOTA, 2002, p. 3).
Essa tentativa de o plano urbano buscar soluções racionais para diversos problemas para a cidade que tinha como objeto é uma característica marcante do urbanismo moderno, como descreve Secchi (2006, p. 129-130):
Grande parte do urbanismo moderno cresceu procurando dar resposta ou até antecipar movimentos reivindicatórios desse tipo: a questão da habitação, da higiene e da saúde, dos equipamentos coletivos, do tráfego urbano e, por último, a questão ambiental têm marcado profundamente o plano urbanístico, ao longo de sua história. A carência de muitas políticas econômicas e sociais fez também que viessem dirigidas, ao plano, demandas às quais, por sua natureza, dificilmente se poderia dar resposta; essa insuficiência fez que ele fosse sobrecarregado de expectativas inevitavelmente destinadas a permanecerem não atendidas..
A cidade é o objeto central do urbanismo moderno que tem o plano como instrumento principal e cujo discurso se baseia na questão social. A transformação efetiva da sociedade e das desigualdades sociais são propostas características do urbanista modernista. Em contrapartida, a compreensão do espaço urbano como máquina do urbanismo modernizador se enquadra no projeto de acumulação de capital e nas leis coercitivas de competição que prevê inovações constantes para produzir valor (SOMEKH, 1997, p. 38-39).
Luís Saia considerou o zoneamento como instrumento fundamental do planejamento, devido às vantagens para a organização funcional da cidade, pois ordenaria a ocupação do solo e facilitaria a aplicação do Plano Diretor. O instrumento deveria possibilitar a economia e a racionalidade na aplicação dos recursos públicos, economizando o uso da terra e promovendo o valor da propriedade (MOTA, 2002, p. 3).
O arquiteto elaborou um plano constituído por um conjunto de diretrizes gerais, formuladas a partir das características locais identificadas, vislumbrando um largo espaço de tempo. Essas diretrizes deveriam ser seguidas e aplicadas diante das soluções particulares e conduzidas pela administração municipal (MOTA, 2002, p.3).
As principais questões enfrentadas e as determinantes da reestruturação urbana proposta seriam o fator regional, a paisagem urbana e a distribuição da população e das atividades na cidade (MOTA, 2002, p. 5).
No Brasil, o planejamento urbano vinha sendo feito por uma concepção de cidade e de estratégia de intervenção na política urbana fundamentados no urbanismo higienista, em sua versão funcionalista pós-Carta de Atenas, vinculada à uma Economia Política Desenvolvimentista com forte protagonismo do Estado. Seus pressupostos urbanísticos eram: o desadensamento com a casa unifamiliar isolada no lote; uma única forma de apropriação do solo considerado ‘saudável’ e legítimo; um sistema legal baseado no regime jurídico da propriedade privada do solo urbano, com o zoneamento garantindo a valorização do solo; e a morte dos espaços coletivos não-programados (ruas, calçadas e praças) capturados pelos sistemas de circulação representados espaços privados e semipúblicos. A Economia Política baseava-se: na gestão urbana fundamentada num processo estatal de tomada racional de decisõe; num modelo ideal de cidade como parte de um projeto ‘modernizador’ e ‘integrador’, para eliminar as contradições da urbanização rápida; e nos investimentos federais em infraestrutura básica, visando à reprodução de capital (ROLNIK, 1997, p. 352).
No âmbito regional, Luís Saia pensou na articulação do norte de Goiás e de todo o norte do país com a dinâmica da economia nacional, que poderia ser obtida com o processo de “auto-colonização”, implantando-se vias no sentido norte-sul até a Amazônia e priorizando-se os sistemas ferroviário e fluvial. Dessa forma, a função de Goiânia como pólo regional estaria assegurada, como pólo articulador de um sistema viário formado por troncos coletores dispostos transversalmente, garantindo um maior equilíbrio na distribuição da população, incentivando a exploração das diferentes potencialidades regionais, diversificando a produção e garantindo o avanço do processo de desenvolvimento (MOTA, 2002, p. 7).
A nova estrutura proposta por Saia para Goiânia era formada por Compartimentos, áreas delineadas pelos fundos de vale e organizadas segundo o sistema viário hierarquizado proposto diante da ausência de hierarquia viária das vias urbanas. O sistema viário constituía- se de vias expressas nos fundos de vale (canalizados), vias principais, interligando os Compartimentos; vias auxiliares interligando vias principais, e vias locais e foi pensado sobre o viário existente ao qual deveria se adaptar, exigindo obras para as vias expressas e casos localizados (MOTA, 2002, p. 6).
A partir dos Compartimentos e do sistema viário foram definidos os demais elementos para a organização urbana (redes de infra-estrutura, usos, pontos focais - áreas que
70
pelo seu uso e atividade se destacavam na dinâmica urbana -, equipamentos especiais e áreas verdes), além do zoneamento, que completaria a reestruturação proposta definindo a organização “intra-Compartimentos” (MOTA, 2002, p.7).
Luís Saia propôs um zoneamento específico para cada um dos Compartimentos distribuídos pela cidade, excetuando-se somente a atividade industrial, que se localizaria na Cidade Industrial proposta, no município de Senador Canêdo, próximo à Goiânia.
Mota (2002, p. 7) destaca que o partido do plano foi caracterizado pela não definição minuciosa das atividades, considerada artificial, não efetiva e desnecessária, sendo propostos centros hierarquizados (Centro Principal da Cidade – Core – e centros comerciais principais e locais nos Compartimentos), unidades locais de habitação e zonas mistas entre estes usos. Fora as áreas centrais e mistas, todo o restante foi previsto como zona residencial.