CAPÍTULO III – AS IMPLICAÇÕES DO P1MC PARA AS ORGANIZAÇÕES
3.1 As Contribuições do P1MC para a ASA e suas Organizações:
3.1.1 O P1MC e a construção de espaços públicos
O P1MC traz em sua formatação toda uma estrutura de mobilização que foi significativa para a construção da ASA e que é um de seus diferenciais em relação à simples construção de cisternas. Os principais espaços públicos utilizados ou construídos pelo programa são as comissões municipais do programa, os Fóruns Microrregionais, os Encontros Estaduais e os Encontros Nacionais da ASA.
Um dos principais papéis atribuídos à sociedade civil é o de canalizar as demandas do mundo da vida para a esfera pública, conformando uma vontade coletiva que vai acessar o sistema político (Costa, 2002). Nessa linha, esses espaços públicos construídos/estimulados pelo programa servem para tomada de decisões em relação à sua execução, mas, também para fomentar discussões em relação ao desenvolvimento no Semi-Árido, às políticas públicas, e temas como a agroecologia, entre outros, contribuindo para esse processo de publicização.
Cabe lembrar que nem todos esses espaços utilizados pelo P1MC foram criados pela ASA. Em Minas Gerais, por exemplo, os Fóruns Microrregionais já existiam em ambas as regiões trabalhadas pelo P1MC – o Fórum do Vale, no vale do Jequitinhonha e o Fórum do Norte, no Norte de Minas -, e foram aproveitados pelo programa para empreender suas discussões. Mas, a partir daí, o P1MC e as discussões empreendidas pela ASA passaram a exercer influência sobre esses espaços.
Entre os entrevistados ligados ao programa em Minas todos foram unânimes em afirmar que o P1MC contribuiu para que os Fóruns Microrregionais fossem estimulados. Em relação a esse tema, torna-se necessário, entretanto, uma reflexão mais detida. Isso porque, conforme declarações, a inserção das discussões sobre as cisternas e de outras ações discutidas pela ASA, contribuiu para atrair um número maior de participantes aos fóruns. Entretanto, um efeito causado pelo programa, citado pelos entrevistados, foi o de que inicialmente ele estimulou um “inchaço” em reuniões consideradas estratégicas, como as de definição quanto à distribuição de cisternas entre os municípios.
Segundo depoimentos, nessas reuniões algumas organizações levavam um número maior de membros e de representantes de suas bases, visando a exercer uma maior pressão pela consecução de cisternas. Isso fez com que, em muitos momentos, os espaços acabassem ficando tumultuados, perdendo em termos de qualidade da participação. Esse problema teria sido resolvido ao longo do tempo, quando as organizações foram percebendo que executar as cisternas exigia, além da reivindicação nos fóruns, um grande esforço para as etapas posteriores, de escolha e mobilização das famílias, realização de capacitações e construção das cisternas. Dessa forma, aos poucos e frente ao conhecimento das dificuldades, foram vendo que suas reivindicações deveriam ser do tamanho de sua capacidade de execução.
No vale do Jequitinhonha, foi expressa entre os entrevistados a opinião de que o Fórum do Vale fortaleceu-se enquanto um espaço de discussão das políticas públicas regionais, sendo reanimado pelo P1MC num momento em que estava em desarticulação. Entretanto, além das discussões sobre o programa, outras também contribuíram para essa retomada, como aquelas em torno de temas como o Plano Nacional de Combate à Desertificação, Segurança Alimentar, Atingidos por Barragens, Feiras Livres de agricultores familiares, Impactos das Mineradoras, Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural, e outros programas governamentais.
Para comportar a riqueza de discussões dentro do Fórum do Vale, foram formadas 5 comissões temáticas, com os seguintes temas: Educação; Políticas Públicas; Desertificação; Reforma Agrária e; Economia Popular Solidária (EPS). Além dessas, também foram discutidos temas relacionados à educação contextualizada, e à comunicação. Uma posterior avaliação do andamento dessas comissões levou a sua reformulação, para que passassem a existir apenas duas comissões, uma com o título de “Formação com Ação e para a Vida”, que demonstrava a preocupação com a necessidade de formação dos atores nos municípios para que as discussões pudessem resultar numa maior mobilização e em ações concretas, e outra de Comunicação, que consolida a preocupação inserida não só, mas também pela ASA, em relação à comunicação dentro do Fórum, visando a uma maior articulação, e uma maior divulgação e valorização de experiências.
É significativo o fato de que um dos temas que teve maior destaque nas reuniões desse fórum foi estimulado pela ASA: o combate à desertificação. Infelizmente, as discussões em torno do Plano Nacional de Combate à Desertificação não tiveram um bom desfecho em Minas Gerais, pois, ao que parece, não houve consenso entre organizações da sociedade civil e representantes do Instituto Estadual de Florestas na elaboração do Plano. Mas, as reflexões sobre o tema, presentes em um grande número de reuniões do Fórum, foram importantes para um nivelamento entre as diversas realidades existentes dentro do vale do Jequitinhonha, muitas vezes diferenciadas entre o alto, baixo e médio vale.
Já, na região Norte de Minas, apesar da importância para o Fórum do Norte de temas como o combate à desertificação, transposição do Rio São Francisco, programas governamentais, entre outros, também foram apresentadas opiniões diferentes sobre o efeito do P1MC sobre esse espaço. Um dos entrevistados na pesquisa, membro de uma organização que não faz parte da ASA, afirmou que, apesar do papel de atrativo para a inserção de organizações, as questões relacionadas às cisternas teriam passado a ocupar grande parte das discussões ocorridas em algumas reuniões do Fórum do Norte. Isso teria feito com que organizações que não participavam da construção de cisternas se desinteressassem desse espaço, deixando de participar.
Por outro lado, um aspecto a analisar é que a inserção das discussões sobre o P1MC nesses espaços trouxe maior regularidade às reuniões, tendo em vista que no âmbito do programa passaram a contar com recursos financeiros para a organização dos encontros, que ocorreram com uma frequência bimestral. Mas, se isso contribuiu para fomentar esse espaço público, por outro lado trouxe um risco ao processo social desenvolvido, pois segundo depoimentos, acabou por criar uma certa dependência e acomodação das organizações participantes em relação aos recursos. Por isso, no período de suspensão do programa em 2007, que chegou a 7 meses em alguns casos, não foi realizada nenhuma reunião do Fórum do Norte, e apenas uma reunião do Fórum do Vale.
Mas, se em relação aos Fóruns Microrregionais existe uma dupla interpretação sobre as contribuições do P1MC, em outros casos o programa foi o responsável direto pela construção de novos espaços públicos, antes inexistentes. Aqui, podem ser citados os encontros estaduais da ASA (em Minas Gerais “Encontro da ASA Minas”) e os Encontros Nacionais da ASA (EnconASA).
No primeiro caso, do Encontro da Asa Minas, esse espaço representou um grande avanço, tendo o mérito de criar uma institucionalidade, onde pudessem se reunir organizações das duas regiões mineiras envolvidas no programa (Norte e Jequitinhonha). Esse mérito deve ser destacado, porque essas regiões, apesar de possuírem diversas diferenças, também possuem muito em comum. Entretanto, até o processo de discussão do P1MC e a criação dos encontros estaduais suas organizações não possuíam uma tradição de diálogo e nem espaço específico onde pudessem exercitar uma aproximação. Em muitos casos, acabavam por se encontrar em outras instâncias, como a Articulação Nacional de Agroecologia, ou nos Grupos de Trabalho da Rede Pacari.
O Encontro Estadual proporcionou esse espaço dentro do estado, onde são trocadas experiências, debatidas alternativas, com participação das organizações que executam o programa, agricultores e agricultoras familiares, participantes do P1MC ou não. Contribuem assim para a troca de experiências e nivelamento sobre as realidades dessas regiões, e para consolidar um consenso mínimo em torno de uma visão sobre o desenvolvimento no Semi- Árido, sobre tecnologias a serem empregadas, processos organizativos a serem estimulados, entre outros. Neles vão sendo construídas novas propostas, como a do P1+2 (Programa Uma Terra e Duas Águas).
A importância desse espaço pode ser apreendida, por exemplo, pela leitura dos relatórios do Fórum do Vale, onde constam as discussões empreendidas pelas organizações do vale do Jequitinhonha sobre a importância de participar das reuniões do Encontro Estadual. Em uma das reuniões, ocorrida no ano de 2003, a participação no Encontro Estadual da ASA Minas era apontada como uma ação importante, sendo ressaltado seu potencial de contribuição para o monitoramento e avaliação de programas governamentais por parte das organizações da sociedade civil, para a construção de uma proposta de desenvolvimento sustentável a partir de alternativas de convivência para o Semi-Árido, e também para a influência nas políticas públicas.
Essa importância também pode ser percebida pela participação. No Encontro Estadual da ASA, ocorrido em junho de 2008, no Norte de Minas, participaram 80 representantes do vale do Jequitinhonha. Um dos critérios para essa participação era o de que 50% desse público deveria ser composto por agricultores e agriculturas familiares. Esses atores levam suas experiências para os espaços de discussão, e também produtos para as feiras e exposições que ocorrem no encontro, contribuindo para um processo de formação e construção de propostas.
Outro espaço público construído pela ASA são os Encontros Nacionais da ASA (EnconASA). Neles, esse papel de articulação, troca de experiências e construção de propostas quanto ao desenvolvimento do Semi-Árido é exercido em escala nacional, envolvendo organizações e agricultores de todo o Semi-Árido brasileiro. O encontro foi programado para ser realizado a cada 2 anos.
A título de ilustração, em um dos encontros realizado em 2004, foram apresentadas 14 experiências desenvolvidas pela agricultura familiar de Minas Gerais. A escolha dos representantes dessas experiências levou em conta critérios de gênero, sendo que 10 delas foram apresentadas por mulheres agricultoras. Os temas foram variados e trataram de iniciativas voltadas às rádios comunitárias, grupos de mulheres, experiências de produção e comercialização de produtos da agricultura familiar, segurança alimentar, agrossilvicultura, conservação e recuperação ambiental, artesanato, extrativismo, entre outros.
Mas, aqui cabe também o alerta quanto à dependência criada em relação aos recursos governamentais para a execução desses eventos. No período de suspensão de recursos para o P1MC, eles deixaram de ocorrer, demonstrando que apesar dos avanços conseguidos pela Articulação no Semi-Árido, ainda existe uma fragilidade a ser trabalhada. No caso do Encontro Estadual da ASA em Minas Gerais, mesmo com a retomada do P1MC em 2008 ele acabou por ser adiado de abril para junho, em razão dos processos de execução do P1MC, com a necessidade de grande envolvimento das entidades. Denota, assim, a predominância dos processos de execução sobre os processos de discussão, decorrentes em grande parte à cobrança governamental pela agilidade de execução.
O último EnconASA foi realizado em 2006 e contou com cerca de 600 participantes dos 11 estados do Semi-Árido brasileiro e convidados. Lá, foram discutidos temas dentro dos seguintes eixos temáticos: Acesso à Água; Acesso à Terra; Acesso ao Mercado; Combate à Desertificação, Educação para a Convivência com o Semi-Árido; Crédito, Financiamento e Assistência Técnica; Gênero, Raça e Etnia; Comunicação e Agrobiodiversidade. Em conseqüência do período de suspensão do programa em 2007, mesmo com a retomada do P1MC, em 2008, o evento acabou por não ser realizado, tendo sido programado para ocorrer em 2009.
Além dos espaços públicos criados pelo P1MC, a partir de seu processo de fortalecimento, a ASA acabou por ser convidada a integrar outros espaços públicos de importância nacional. Segundo depoimento, participam de 8 deles, como o Conselho Nacional de Economia Solidária, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA), Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável (CONDRAF) entre outros. Participam também de espaços estaduais. Dessa forma, a articulação traz a possibilidade de influenciar as políticas públicas por meio de arenas políticas mais expressivas.
Um último espaço estimulado pelo programa apresenta uma maior dificuldade para a avaliação de seu potencial para promoção de um debate público. São as comissões municipais do P1MC.
Essas comissões foram pensadas para funcionarem como um espaço de reflexão da sociedade civil local, garantindo uma boa execução do P1MC e o atendimento às famílias mais necessitadas, mas também para fomentar as discussões sobre o desenvolvimento do Semi-Árido e outras ações ligadas às políticas públicas e cidadania nos municípios.
Nesta pesquisa, não objetivou-se verificar a efetividade do funcionamento dessas comissões, e as informações sobre elas foram coletadas no âmbito de outras informações sobre o funcionamento do programa. Dos 6 municípios onde foi realizada a pesquisa em Minas Gerais, todos possuíam a comissão formada. Entretanto, o número de entidades participantes e seu envolvimento efetivo, na maioria dos casos era muito pequeno.
Dois aspectos podem ser ressaltados sobre essas comissões. Um deles é que em muitos municípios não existe um número expressivo de organizações da sociedade civil com um perfil de atuação ampliado. Em alguns deles, o rol de organizações está circunscrito ao Sindicato de Trabalhadores Rurais e às organizações ligadas às igrejas (Católicas e Evangélicas), que tradicionalmente fomentam uma ação comunitária. Entre essas últimas têm destaque a Comissão Pastoral da Criança e as Associações ligadas ao Fundo Cristão (presentes, principalmente, no vale do Jequitinhonha). Além dessas, figuram associações de comunidades, geralmente com uma atuação mais restrita. Um segundo aspecto, que contribui para restringir a participação nas comissões é que, via de regra, as organizações que participam da Comissão Municipal são aquelas que possuem uma identificação com a Unidade Executora Local.
As composições das comissões dos municípios visitados eram formadas por representantes das seguintes organizações:
- Município 1: STR, Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável (CMDRS), Comissão Pastoral da Criança, Igreja Católica, Conferência São Vicente Paulo, Associação representando as Associações de Comunidades Rurais;
- Município 2: STR, Igreja Católica e 4 associações de comunidades rurais;
- Município 3: Comissão Pastoral da Criança, Comissão Pastoral Familiar, duas Associações de Comunidades Rurais;
- Município 4: STR, Associação ligada ao Fundo Cristão, Pastoral da Criança; - Município 5: Associação ligada ao Fundo Cristão, STR;
- Município 6: STR, Associação ligada ao Fundo Cristão, Comissão Pastoral da Terra, Comissão Pastoral da Criança, Igreja Católica.
Quando de sua formação as comissões municipais passam por um processo de capacitação onde refletem sobre o que é a Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA), o P1MC e seu funcionamento, formas de atuação junto às comunidades, convivência com o semi-árido, entre outros temas.
Entre os entrevistados ligados às Unidades Gestoras Microrregionais e à Coordenação Executiva da ASA em Minas Gerais, a opinião quanto ás Comissões Municipais foi de que em alguns casos essas comissões funcionam bem, cumprindo seu papel ao menos no que diz respeito ao P1MC, e em outros existe maior dificuldade em sua articulação.
Nos municípios pesquisados, foi relatada a dificuldade de reunir as organizações da comissão, e problemas, como a mudança de membros, principalmente, no caso da representação da Igreja Católica. Outro aspecto citado foi o de que em alguns casos só conseguiam realizar reuniões nos fins de semana, o que foi considerado prejudicial ao andamento do programa.
A impressão nesse caso, é que a cobrança por um ritmo acelerado de execução acabou por afetar também esse aspecto. Isso porque prejudicou o processo de articulação e reflexão que poderia ser realizado com as organizações da comissão municipal para chamá-las à participação, para discutir temas além do P1MC, etc. A atuação das comissões foi maior em seu início, e depois teria passado em diversos casos a ser pontual, para a escolha das comunidades, e com um número reduzido de organizações.
Mas, acredita-se que mesmo com essas restrições as comissões representam um avanço ao propor que organizações da sociedade civil tenham um espaço de interação e passem a se aproximar, ainda que de maneira limitada.
Portanto, o P1MC fomenta um número significativo de espaços públicos onde existe a possibilidade de debates e construção de consensos visando a uma articulação tanto em relação ao programa quanto em relação a outras ações e demandas que podem vir a tomar corpo, acessando a esfera política e originando outros desdobramentos.
Pretende-se aqui relativizar as deficiências desses espaços, lembrando que no Brasil, em geral, espaços públicos têm tido uma trajetória complicada em relação à participação e aos seus resultados, com dificuldades tanto entre seus participantes, como deles em relação aos poderes públicos. Um exemplo disso são os diversos conselhos, desde o âmbito municipal até o nacional.40
Tomando o caso de Minas Gerais, o programa parece avançar, principalmente, quando se trata dos ganhos obtidos com a construção dos espaços de reunião estadual e nacional.