3 REGULAMENTAÇÃO DOS SUBSÍDIOS NO ÂMBITO MULTILATERAL E NO
3.5 Principais subsídios e medidas compensatórias aplicados
3.5.1 O pacote de subsídios após a crise de 2008
No início da era GATT, as exportações mundiais de bens chegaram a US$ 59 bilhões de dólares ao ano. Em 2011, passados os efeitos da crise de 2008, as exportações mundiais chegaram a quase US$ 18 trilhões. A crise de 2008 ocasionou a queda de 12% nas exportações mundiais, a maior desde a Segunda Guerra Mundial451.
Enquanto que o volume de 2008 se encontrava ao redor de US$ 16 trilhões, em 2009, caiu para US$ 12 trilhões, voltando a aumentar para US$ 15,3 trilhões em 2010. A partir desse ano, os aumentos não foram tão significativos: em 2011, o aumento foi de 5%, com o valor de US$ 18,4 trilhões e passou para US$ 18,8 em 2013452.
A crise de 2008 se iniciou nos Estados Unidos no setor imobiliário, em face do excesso na concessão de empréstimos sem garantias suficientes. Além disso, devido aos gastos americanos com guerras ao longo dos anos 2000, o Banco Central elevou as taxas de juros, causando o aumento das dívidas, dificultando a sua quitação e causando, por conseguinte, a desvalorização dos imóveis e a falência de bancos.
Tendo em vista a globalização da economia e a importância econômica dos Estados Unidos, detentor de uma das economias mais influentes do mundo, a paralisia de seu mercado financeiro impactou todos os seus parceiros comerciais453, acarretando a diminuição significativa do comércio internacional.
451 ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO. International Trade and Market Access Data.
Disponível em:
<http://www.wto.org/english/res_e/statis_e/statis_bis_e.htm?solution=WTO&path=/Dashboards/MAPS& file=Map.wcdf&bookmarkState={%22impl%22:%22client%22,%22params%22:{%22langParam%22:% 22en%22}}>. Acesso em: 06 jan. 2015.
452 Idem; ibidem.
453 Segundo dados de 2013, obtidos pelo Ministério das Relações Exteriores Brasileiro, os Estados Unidos
possuem um PIB de US$16,8 trilhões e seus principais parceiros para onde são direcionadas suas exportações são: Canadá, México, China, Japão, Reino Unido, Alemanha, Brasil, Países Baixos, Hong Kong e Coréia do Sul. As importações americanas têm como origem os seguintes países, em ordem de relevância: China, Canadá, México, Japão, Alemanha, Coréia do Sul, Reino Unidos, Arábia Saudita, França e Índia. In: MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. Estados Unidos: Comércio Exterior.
A redução do comércio é um assunto que preocupa a OMC, principalmente no que tange às medidas protecionistas que podem ser adotadas pelos membros com o intuito de combater os efeitos nefastos desencadeados por crises econômicas.
Dentre as possíveis providências que podem ser adotadas nesses momentos, destacam-se medidas antidumping, salvaguardas, barreiras às importações, além de subsídios e medidas compensatórias. Todavia, essas medidas não deixam de ter seu lado prejudicial ao comércio, podendo prolongar ou até mesmo intensificar os efeitos das crises. Nesse sentido, pronunciou-se o Banco Mundial, em seu trabalho intitulado Lessons
from World Bank Research on Financial Crises:
[…] quando um país impõe barreiras à exportação ou reduz o comércio e tributos sobre o consumo, optando pelo isolamento de seu mercado interno do aumento dos preços internacionais, ao mesmo tempo em que ele beneficia seu mercado interno, ele coopera para o aumento exacerbado dos preços mundiais454.
Assim, o Relatório Anual de 2009 da OMC, cujo objetivo principal foi se pronunciar a respeito das medidas de contingências da crise, reconheceu a necessidade de adoção dessas medidas, não obstante, havendo alerta para as suas consequências: “o fato das medidas de contingências serem necessárias para assegurar futura liberalização do comércio, não significa que não há consequências negativas”455. Pascal Lamy, na época
Diretor-Geral da OMC, ressaltou que o “protecionismo não é a resposta”456.
Como consequências da aplicação de tais medidas, mais especificamente, a prática de subsídios e a imposição de medidas compensatórias, é preciso alertar para o perigo de
<http://www.brasilglobalnet.gov.br/ARQUIVOS/IndicadoresEconomicos/INDEstadosUnidos.pdf>. Acesso em: 06 jan. 2015.
454 Tradução livre de: “A similar collective-action problem emerged during the recent sharp rise in food
prices whereby a number of countries decided to insulate their domestic markets from food price increases by imposing export barriers or reducing trade and consumption taxes. While these policy responses made sense from the point of view of each individual country, the collective effect was to exacerbate the increases in world prices”. In: WORLD BANK. Lessons from the World Bank Research on Financial crisis. Policy
Research Working Paper, n° 4779, Washington D.C: The World Bank, 2008, p. 16.
455 Tradução livre de: “[…] the fact that trade contingency measures are necessary to ensure further trade
opening does not mean that there are no negative consequences”. In: ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO
COMÉRCIO. World Trade Report 2009: trade policy commitments and contingency measures. Disponível
em: <Geneva: WTO, 2009. Disponível em:
<http://www.wto.org/english/res_e/publications_e/wtr09_e.htm>. Acesso em: 06 jan. 2015.
456 Tradução livre de: Proteccionism is not the answer. In: ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO.
Global Crisis Requires Global Solutions. Disponível em: <http://www.wto.org/english/news_e/news09_e/tpr_13jul09_e.htm>. Acesso em: 06 jan. 2015.
essas práticas se tornarem permanentes. Além disso, é difícil de se distinguir medidas de contingências lícitas das ilícitas, o que leva a discussão para o OSC.
Considerando que os subsídios realocam, artificialmente, os recursos econômicos, a OMC considera que seu uso continua sendo prejudicial para o país importador devido ao seu impacto nos preços mundiais, reduzindo-os457. Outra preocupação da OMC em relação ao tema concerne aos lobbies formados internamente nos Estados para manter os subsídios, o que pode prolongar a sua concessão mesmo passada a crise.
As medidas compensatórias, por sua vez, são vistas como prejudiciais para os consumidores do Estado importador em condições de mercado perfeito, embora possam também ser úteis na neutralização e desencorajamento de subsídios.
Desse relatório, infere-se que a OMC se mostrou mais flexível para com as medidas de combate à crise econômica de 2008, embora houvesse o receio de seu prolongamento, acarretando protecionismo infindável. Ocorre que o último relatório da OMC, publicado em 2014, referente ao ano de 2013, demonstrou que o cenário de 2008 se mostrava diferente daquele em que se passaram as crises anteriores e, por esse motivo, seus efeitos foram diversos do esperado no Relatório de 2009.
O relatório de 2014 teve por escopo analisar as transformações ocorridas na relação entre o comércio e o desenvolvimento desde o início do milênio. Nele, foram identificadas quatro tendências que alteraram o modo pelo qual o comércio afeta o desenvolvimento.
A primeira refere-se à vinculação entre o aumento do fluxo de comércio e o rápido crescimento econômico dos países em desenvolvimento. A segunda trata das cadeias globais de valores e de sua contribuição para o desenvolvimento, enquanto que a terceira envolve o aumento dos preços dos bens agrícolas e a importância da agricultura458. Por fim, a quarta tendência diz respeito à natureza cada vez mais global das crises econômicas, a exemplo do que ocorreu em 2008-2009. Nesse sentido, o atual Diretor Geral da organização, Roberto Azevedo, salientou no relatório de 2014 que:
457 Nesse sentido, ver: ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO. World Trade Report 2009: trade
policy commitments and contingency measures. Disponível em: <Geneva: WTO, 2009. Disponível em: <http://www.wto.org/english/res_e/publications_e/wtr09_e.htm>. Acesso em: 06 jan. 2015, p. 101.
458 Nesse sentido, ver: ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO. World Trade Report 2014: Trade
ande development: recente trends and the role of the WTO. Disponível em: <http://www.wto.org/english/res_e/booksp_e/world_trade_report14_e.pdf>. Acesso em: 06 jan. 2015, p. 4.
A forte redução dos fluxos de comércio e de investimento, exacerbada pela queda na demanda agregada e o esgotamento do comércio de finanças, ajudou a transmitir os choques econômicos para produtores e comerciantes de economias em desenvolvimento. No entanto, o fato de que não foi visto um surto protecionista em escala ocorrido em crises anteriores significa que uma queda substancialmente pior no comércio internacional foi evitada459.
Há que se considerar que, quanto maior a volatilidade econômica do país, maior será a incidência dos efeitos da crise, o que significa dizer que os efeitos podem ser amenizados pela diminuição da volatilidade. Nesse sentido, o relatório de 2014 salienta que, quanto mais aberto e diversificado for o mercado e seus parceiros comerciais, menor a volatilidade econômica460.
Todavia, diferentemente das crises anteriores, por exemplo, a Grande Depressão de 1929, a crise de 2008 ocorreu num cenário de mercado mais aberto que se encontrava sob os auspícios das regras multilaterais de comércio, que restringiram as práticas anticíclicas de cunho protecionista, fazendo com que seus efeitos fossem menos devastadores.
Outro fator que contribuiu para a diminuição dos impactos causados pela crise de 2008/2009 e do uso de práticas protecionistas foi a expansão das cadeias globais de valores, que cooperaram para uma maior disseminação do comércio e de interesses comuns461.
Um estudo realizado por Andrew Rose462 colaborou para essa conclusão, quebrando o paradigma, segundo o qual medidas protecionistas são, essencialmente, anticíclicas. O autor comprovou que o protecionismo, atualmente, é acíclico, ou seja, não serve mais como instrumento anticíclico e isso se deve aos esforços dos governos em reduzir o protecionismo diante de crises.
Obviamente existem variáveis nesse estudo, as quais o próprio Rose reconhece, como o nível de desenvolvimento do país, o grau de abertura comercial, as barreiras não
459 Tradução livre de: “A sharp reduction in trade and investment flows, exacerbated bya fall in aggregate
demand and the drying up of trade finance, helped transmit the economic shocks to producers and traders in developing economies. However, the fact that we did not see an outbreak of protectionism on the scale experienced in previous crisesmeant that a significantly worse fall in international trade was averted”. In:
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO. World Trade Report 2014, p. 4.
460 Idem; ibidem, p. 12. 461 Idem; ibidem, p. 171.
462 Nesse sentido, ver: ROSE, Andrew. Protectionism isn´t countercyclical (anymore). Disponível em:
tarifárias, entre outras, que podem gerar resultados diferentes. Nesse caso específico, Rose teve como foco principal o comércio dos Estados Unidos e da União Europeia.
Todavia, estudos comprovaram que, quando se trata de países em desenvolvimento, como Argentina, Brasil, Índia e outros, existe um padrão anticíclico no uso de medidas protecionistas, como as medidas compensatórias463.
A situação é ainda mais peculiar quando se trata dos subsídios agrícolas, setor em que os subsídios são mais frequentes, principalmente nos países desenvolvidos, que por sua vez, continuam afetando, de forma significativa, os países em desenvolvimento464.