O Pacto de Lausanne é considerado como o marco da Missão Integral. É o elo que articulou os latino-americanos como segmento evangélico que dialogaria com as ciências sociais e a Teologia da Libertação, o que se tornou uma das principais marcas para diferenciar evangelicais de evangélicos (GONDIM, 2010, p. 83). Muito embora o Pacto tentou explicitar não somente o consenso entre os participantes e apontar novos rumos para projetos e ações missionárias que seriam deflagrados após o Congresso em Lausanne, foram as propostas norte- americanas que prevaleceram, o que configurou muito mais a agenda fundamentalista do que propriamente dos conceitos missiológicos (GONDIM, 2010, p. 84-87).
52
Surgia a Missão Integral na América Latina: uma proposta de apresentar o indicado no título e cumprir a missão da igreja de forma holística, com uma ação missionária que promova a transformação espiritual na comunidade (PADILLA, 2003, p. 13); que promova integralidade da igreja em cumprir a vontade de Deus e sua Missão de forma engajada (GRELLERT, 1987, p. 57- 61); promovendo comunhão, ecumenismo no sentido de pregar o bem-estar e o evangelho para todas as pessoas e a conversão moral e espiritual das nações e governos (QUIROZ, 2003: 153).
A Missão Integral nasceu na década de 1960 quando teólogos evangélicos e pastores latino-americanos perceberam a necessidade de uma interpretação dentro do quadro latino percorrido até a chegada em Lausanne, no ano de 1974, especialmente em meio às tensões e conflitos internos entre os evangelicais e os fundamentalistas norte-americanos que – ligados à Escola de Crescimento da Igreja de McGravan e Wagner – consideraram o Pacto progressista. De fato, os evangelicais criticaram o movimento fundamentalista em termos teológicos, ideológicos e estratégicos (GONDIM, 2010, p. 78-82).
Os movimentos de missão do evangelicalismo histórico, com elementos da Reforma Protestante em sua vertente Calvinista sob a nova vitalidade do conjunto dos novos avivamentos, além dos que foram realizados em solo latino-americano, articuladores da estratégia e da prática missionária – principalmente nos séculos 19 e 20 – ocuparam-se da organização de eventos para a discussão da responsabilidade evangelizadora da igreja, em uma perspectiva protestante- ecumênica e internacional. Foram às representações destes movimentos internacionais, realizados na América Latina, que desencadearam uma revisão crítica da prática missionária até então realizada em solo latino-americano (SANCHEZ, 2008, p. 42-46).
CONSIDERAÇÕES FINAIS AO CAPÍTULO
O presente capítulo abordou que a Missão ao longo do século 20 passou por uma crise de paradigma, estabelecida no século 19. A ruptura com este paradigma trouxe uma nova situação para a Missão. As igrejas não são mais o centro da vida e precisam de alternativas missionárias. O fato proporcionou uma abertura para a realização de diversos encontros missionários do século 20.
53
A Missão está em constante transformação, principalmente quando se olha para seu objetivo, seu resultado, sua compreensão e prática. Tudo nasceu com a vontade de cumprir o “envio” ou “chamado” da Grande Comissão. Com muitos perigos e com tantas oportunidades, teólogos e missionários colocaram no foco outras partes do mundo que antes não olhavam.
Assim, surgiram as oportunidades de seguirem para outros continentes, levar aquilo que tinham como crença, para fazer Missão como ação do povo de Deus em levar o evangelho, a fé cristã.
Missão não tem uma assinatura única de um povo, mas, advém da atividade de vários povos para tantos outros povos, sem um determinado centro de expansão.
Quando sociedades estão em crise, é possível constatar perigos e oportunidades de mudanças, em que a Missão chega para oferecer uma nova maneira de refletir e pensar a vida, uma vez que não é primeiramente uma atividade da Igreja, mas um atributo de Deus.
Assim, o conceito de “Missões”, no momento histórico tratado aqui, referiu-se ao movimento do cristianismo católico, protestante e ecumênico, ainda que aos poucos destacado dentro de uma área geográfica e com a presença cristã com suas atividades dirigidas a estender a fé cristã, mesmo em lugares em que a fé já existia.
Missões é a transmissão do evangelho de uma cultura para outra na manifestação de Jesus Cristo. É o esforço de se viver e conviver sob termos e demandas de outras culturas. É nutrir-se de motivações sociais, políticas, econômicas etc., para se perguntar o porquê se fazer Missão onde se encontra. É entender que existe um ponto de convergência entre tudo e todos e que devido este ponto sentimentos religiosos alcançaram muitas pessoas de diversas religiões. Missão foi e ainda é uma grande contribuição de evolução humana (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 523-531).
Verifica-se que o termo Missões significava levar o evangelho para os não-alcançados, o que seria possível com este ecumenismo que se averiguou nas reuniões realizadas para tanto. Mas, os envolvidos em tal causa necessitavam da noção de que isso só seria possível em conjunto se não se considerassem absolutos na propagação de suas verdades e intentos de reunir esforços para levar o evangelho, o que aconteceu em Edimburgo, mesmo que de forma embrionária (BOSCH, 2002, p. 548).
A ideia foi trabalhada passo a passo. O ecumenismo apareceu como força para o movimento missionário que compreendeu que a Missão de levar o evangelho para o mundo – e
54
unificar o povo em Cristo – tratava-se da mesma obrigação. Este pensamento mostrou-se importante no sentido de que, caso alguém, ou grupo, se sentisse dono de uma obrigação divisível, incorreria no erro de se dividir em denominações o mesmo povo que lutava pelo contrário, na unificação da igreja de Cristo.
Com este entendimento a tarefa missionária tornava-se central para a vida da igreja, bem como na contínua busca de renovação e da unidade. A unidade foi algo recorrente para a reflexão sobre a Missão. Contudo, outros grupos pensavam a unidade de modo diferente, como espiritual e invisível, pois quando se pensa em algo visível pode ser que recaia em evangelismo, mas, não como premissa inegociável.
Manter a „Missão‟ e a „Unidade‟ é identificar que nas diferenças há um centro chamado Cristo, além de descobrir que não há fim e sempre se molda, sem distinções denominacionais – que necessitam de abertura para novos pensamentos e novas culturas como algo dinâmico para o crescimento cristão –, reconhecer o senhorio de Cristo em que a igreja é o povo de Deus que se mostra como sinal profético de renovação que representa o futuro da humanidade e do mundo (BOSCH, 2002, p. 554-557).
Por certo que é preciso avançar e escrever sobre o significado da Missão para todas as épocas, além de lembrar que a era presente difere-se fundamentalmente do período bíblico dos evangelhos e suas cartas para as duas primeiras gerações de cristãos. As disparidades entre as épocas implicam que não basta apelar diretamente para as palavras dos autores bíblicos – ou aplicar o que disseram a nossa própria situação como se houvesse uma correspondência exata e completa. Ao contrário, deve-se, de forma criativa e responsável, prolongar a lógica do ministério de Jesus e da igreja primitiva para o tempo atual e para o contexto.
Sabe-se que a fé cristã é uma fé histórica. Deus comunica sua revelação às pessoas por intermédio de seres humanos e eventos, não por proposições soltas no tempo. Isso constitui outra maneira de explicar que a fé bíblica é “encarnacional”, com a realidade de Deus adentrando nos assuntos humanos.
O próximo capítulo destacará o conceito de Reino de Deus, sobretudo na TdL e na TMI, com aprofundamento do tema conforme os pensamentos de Gustavo Gutiérrez e de René Padilla, a fim de analisar o conceito de Reino de Deus em suas teologias.
55
CAPÍTULO II
A CONCEPÇÃO DE REINO DE DEUS NAS TEOLOGIAS
DA LIBERTAÇÃO E DA MISSÃO INTEGRAL
INTRODUÇÃO
O presente capítulo abordará sobre o Reino de Deus nas Teologias Latino-americanas da Libertação e da Missão Integral (década de 1970), com ênfase nas teologias de Gustavo Gutiérrez e René Padilla.
A América Latina passava por momentos conturbados de mudanças entre as décadas de 1960 e 1970. Vários movimentos reuniram-se a fim de olhar teologicamente sobre a situação em termos de “Missão” no século 20, além de constatarem a necessidade da participação no contexto social, econômico, político, ideológico, teológico e eclesiástico, conclamando esperança de Cristo para a América Latina em meio às mudanças evidentes.
Para a pesquisa, o método histórico bibliográfico será utilizado. Também será apresentado um aporte hermenêutico, bíblico (contudo, não exegético), social e histórico, ou, palavra, igreja e mundo, com destaque para a teologia latino-americana enquanto pensar e fazer teológico que nasce neste contexto em todo o continente, olhando com a perspectiva da Teologia da Libertação e a Teologia da Missão Integral, teologias que nascem no solo latino-americano.
Em primeiro momento, a concepção em si terá uma abordagem mais hermenêutica de cunho mais popular. Na sequência, um breve apontamento histórico e, por fim, a definição para estas duas maneiras de fazer teológico.
Como aspecto bibliográfico para a metodologia adotada, os referenciais teóricos serão, conforme já indicado, Gustavo Gutiérrez para a temática sobre a Teologia da Libertação e Carlos René Padilla para a abordagem sobre a Teologia da Missão.
56
Por certo que, ao dissertar sobre cada referencial, outros autores aparecerão, a fim de auxiliar na sustentação do objetivo do presente trabalho: a conceituação de Reino de Deus para estas Teologias na concepção dos autores base.