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(2) ROGER ALVES DE ALMEIDA. REPENSAR A MISSÃO DA IGREJA COM OS OLHOS NO REINO DE DEUS: UMA ANÁLISE DO CONCEITO DE REINO DE DEUS NAS TEOLOGIAS LATINO-AMERICANAS DA LIBERTAÇÃO E DA MISSÃO INTEGRAL. Dissertação apresentada à Universidade Metodista de São Paulo, como requisito parcial às exigências do Programa de PósGraduação em Ciências da Religião, para obtenção do grau de Mestre, sob a orientação do Professor Doutor Nicanor Lopes.. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2017.
(3) FICHA CATALOGRÁFICA. L64r. Almeida, Roger Alves de A Repensar a missão da Igreja com os olhos no Reino de Deus: uma análise do conceito de Reino de Deus nas teologias latino americanas da libertação e da missão integral de Gustavo Gutierrez e René Padilla. / Roger Alves de Almeida. São Bernardo do Campo, 2017. ----150 fls. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Escola de Humanidades e Direito, Programa de Pós Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo. Bibliografia Orientação de: Nicanor Lopes 1. Igreja - Missão 2. Reino de Deus 3. Teologia da libertação 4. Missão integral I. Título CDD 262.7.
(4) A dissertação de mestrado intitulada: “REPENSAR A MISSÃO DA IGREJA COM OS OLHOS NO REINO DE DEUS: UMA ANÁLISE DO CONCEITO DE REINO DE DEUS NAS TEOLOGIAS LATINO-AMERICANAS DA LIBERTAÇÃO E DA MISSÃO INTEGRAL”, elaborada por Roger Alves de Almeida, foi apresentada e aprovada em 21 de setembro de 2017, perante banca examinadora composta pelo Prof. Dr. Nicanor Lopes (Presidente/UMESP), Prof. Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro (Examinador/UMESP) e Prof. Dr. Ricardo Bitun (Examinador/Mackenzie-SP).. ____________________________________________________ Prof. Dr. Nicanor Lopes Orientador e Presidente da Banca Examinadora. ____________________________________________________ Prof. Dr. Helmut Renders Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Ciências da Religião Área de Concentração: Religião, Sociedade e Cultura Linha de Pesquisa: Religião e Dinâmicas Socioculturais.
(5) A dissertação de mestrado intitulada: “REPENSAR A MISSÃO DA IGREJA COM OS OLHOS NO REINO DE DEUS: UMA ANÁLISE DO CONCEITO DE REINO DE DEUS NAS TEOLOGIAS LATINO-AMERICANAS DA LIBERTAÇÃO E DA MISSÃO INTEGRAL”, elaborada por Roger Alves de Almeida, foi apresentada e aprovada em 21 de setembro de 2017, perante banca examinadora composta pelo Prof. Dr. Nicanor Lopes (Presidente/UMESP), Prof. Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro (Examinador/UMESP) e Prof. Dr. Ricardo Bitun (Examinador/Mackenzie-SP).. ____________________________________________________ Prof. Dr. Nicanor Lopes Orientador e Presidente da Banca Examinadora. ____________________________________________________ Prof. Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro Banca Examinadora. ____________________________________________________ Prof. Dr. Ricardo Bitun Banca Examinadora.
(6) Dedico este trabalho a Deus, a minha esposa Aldrey Nascimento Souza de Almeida, a minha filha Melissa que em breve chegará, a minha família e àqueles que entendem que, para um mundo mais solidário e justo, o diálogo e o respeito são as únicas formas para a busca contínua da paz para uma realidade que pretendemos: o Reino de Deus, já..
(7) AGRADECIMENTOS. A minha preciosa esposa Aldrey que, em meio tantas lutas neste curso, ainda assim esteve comigo e me abençoou com sua presença milagrosa e coloriu as partes brancas dos meus desenhos, agasalhou-me com seu abraço nos dias frios, refrescou-me nos dias de calor, deu-me o prazer de se tornar seu Marido e me deu o maior presente que um homem pode querer: Ser Pai. Pra mim, melhor ainda: ser Pai da Melissa. Amo vocês! Ao meu Pai por me ensinar sempre, a cada dia, a redescoberta da dádiva preciosa da vida e da existência esquecida, por vezes consideradas corriqueiras e dar lugar ao espírito de gratidão; A minha Mãe que, mesmo em meio à distância que nos envolve, sempre esteve presente em oração, apelo e desejo por mais este curso; aos meus irmãos: Joyce, Carol e César o meu carinho e gratidão são para vocês, também. A Universidade Metodista e aos professores num todo, mas em especial ao meu orientador, o professor doutor Nicanor Lopes, sem o qual este trabalho não seria possível e pelo apoio, amizade, compreensão. Aos professores Claudio e Magali, meu especial agradecimento e aos professores Lauri, Jung e Sandra que me ajudaram na caminhada. Aos meus Amigos que me apoiaram e me ensinaram muito nesta caminhada. Ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista pela excelência e a CAPES que, por meio da bolsa de estudos tornou viável a conclusão do mesmo..
(8) Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? Então, (...) a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda (Is 58.6, 7, 8b).. Venha o Teu Reino (Mt. 6.10)..
(9) ALMEIDA, Roger Alves de. A dissertação de mestrado intitulada: “Repensar a Missão da Igreja com os olhos no Reino de Deus: Uma análise do conceito de Reino de Deus nas teologias latinoamericanas da Libertação e da Missão Integral”. São Bernardo do Campo, 2017. 152 fls. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Escola de Comunicação, Educação e Humanidades, Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, SP.. RESUMO. Este trabalho tem por objetivo realizar uma análise dos conceitos de Reino de Deus nas teologias latino-americanas da libertação de Gustavo Gutiérrez e da missão integral de René Padilla por meio de uma pesquisa bibliográfica dos autores, como também possíveis questões divergentes e convergentes, identificando as causas de seus escritos acerca da temática, estabelecendo qual a importância do conceito em relação às questões da teologia da missão da igreja e demonstrando em que medida suas proposições se mostram como uma continuidade da teologia predominante ou rompimento. A análise bibliográfica terá como foco principal os textos produzidos por Gustavo Gutiérrez e René Padilla, principalmente aqueles que abordam discussões acerca do Reino da Deus e da igreja na missão da igreja, apontando as definições de Reino de Deus e as repercussões que a relação entre eles desempenha na formulação da teologia latino-americana para identificar as questões que colocaremos em diálogo para identificar algumas divergências e convergências. Mas por certo outros autores surgirão em diálogo com a pesquisa.. Palavras-chave: René Padilla; Missão Integral; Gustavo Gutiérrez; Libertação; Reino de Deus..
(10) ALMEIDA, Roger Alves de. The Master's dissertation entitled "Rethinking the Mission of the Church with its Eyes on the Kingdom of God: An Analysis of the Concept of the Kingdom of God in Latin American Theologies of Liberation and Integral Mission". São Bernardo do Campo, 2017.152 fls. Dissertation (Master of Science in Religion) - School of Communication, Education and Humanities, Methodist University of São Paulo, São Bernardo do Campo, SP.. ABSTRACT. This work aims to analyze the concepts of the Kingdom of God in the Latin American theologies of the liberation of Gustavo Gutiérrez and the integral mission of René Padilla through a bibliographical research of the authors, as well as possible divergent and convergent questions, identifying the causes Of his writings on the subject, establishing the importance of the concept in relation to the questions of the theology of the mission of the church and demonstrating to what extent his propositions are shown as a continuation of the prevailing theology or rupture. The bibliographical analysis will focus mainly on the texts produced by Gustavo Gutiérrez and René Padilla, especially those that discuss discussions about the kingdom of God and the church in the mission of the church, pointing out the definitions of the Kingdom of God and the repercussions that the relationship between them Plays in the formulation of Latin American theology to identify the issues we will put into dialogue to identify some divergences and convergences. But certainly other authors will appear in dialogue with the research.. Keywords: René Padilla; Integral Mission; Gustavo Gutiérrez; Liberation; God's kingdom.
(11) SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................... 12 CAPÍTULO I .............................................................................................................................................. 16 UM BREVE LEVANTAMENTO SOBRE MISSÕES E SUA TRAJETÓRIA NO SÉCULO 20 ATÉ 1974. ................... 16 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................... 16 1. CONTEXTO HISTÓRICO DA MISSÃO CRISTÃ NO SÉCULO 20 ............................................................ 18 1.1 MISSÃO E SEU SIGNIFICADO HISTÓRICO ................................................................................. 20 1.2 EXPANSÃO DO CRISTIANISMO NO SÉCULO 19 ........................................................................ 22 1.3 ANTECEDENTES HISTÓRICOS .................................................................................................. 26 1.3.1 Edimburgo, 1910 ............................................................................................................................... 26 1.3.2 De Nova York - 1913, até Panamá - 1916............................................................................................ 27 1.3.3 Montevidéu - 1925, até Havana - 1929 .............................................................................................. 28 1.3.4 CELA I - 1949 ..................................................................................................................................... 31 1.3.5 Willingen, 1952 ................................................................................................................................. 31 1.3.5.1 MISSIO DEI ........................................................................................................................................... 32 1.3.6 CELA II - 1961 .................................................................................................................................... 36 1.3.7 Concílio Vaticano II - 1962 - 1965 ....................................................................................................... 38 1.3.8 Medellín, 1968 .................................................................................................................................. 40 1.3.9 CELA III e CLADE I - 1969 .................................................................................................................... 42. 2. O ESPÍRITO DE LAUSANNE - 1974 ...................................................................................................... 46 3. A IMPORTÂNCIA DE TEÓLOGOS LATINO-AMERICANOS EM LAUSANNE ................................................................. 49 4. O PACTO DE LAUSANNE ......................................................................................................................... 51 CONSIDERAÇÕES FINAIS AO CAPÍTULO.................................................................................................... 52 CAPÍTULO II ............................................................................................................................................. 55 A CONCEPÇÃO DE REINO DE DEUS NAS TEOLOGIAS DA LIBERTAÇÃO E DA MISSÃO INTEGRAL ................ 55 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................... 55 1. A CONCEPÇÃO DE REINO DE DEUS .............................................................................................. 56 1.1 A PERSPECTIVA DA TDL EM RELAÇÃO AO REINO DE DEUS ...................................................... 58 1.1.1 1.1.2. PRESSUPOSTOS HISTÓRICOS DA TDL .............................................................................................. 58 REINO DE DEUS PARA A TDL........................................................................................................... 66. 1.2 REINO DE DEUS SOB A PERSPECTIVA DA TMI ............................................................................. 74 1.2.1 PRESSUPOSTOS HISTÓRICOS DA TMI.................................................................................................. 74 1.2.2 REINO DE DEUS PARA A TMI .............................................................................................................. 82. CONSIDERAÇÕES FINAIS AO CAPÍTULO.................................................................................................... 91 CAPÍTULO III ............................................................................................................................................ 93 REINO DE DEUS COMO PROPOSIÇÕES DE UMA MISSIOLOGIA CONTEXTUAL ........................................... 93 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................... 93 1. DIVERGÊNCIAS E CONVERGÊNCIAS ENTRE A TDL E A TMI .............................................................. 94 1.1 DA MOTIVAÇÃO DO NASCIMENTO ......................................................................................... 94 1.2 DA INFLUÊNCIA MARXISTA ........................................................................................................ 95 1.2.1 TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO ................................................................................................................ 95 1.2.2 TEOLOGIA DA MISSÃO INTEGRAL ....................................................................................................... 98. 1.3 LIBERTAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO SER ............................................................................. 101 1.3.1 1.3.2. DA LIBERTAÇÃO DO SER............................................................................................................... 102 DO DESENVOLVIMENTO DO SER .................................................................................................. 104. 1.4 DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA ................................................................................................... 106 1.4.1 TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO .............................................................................................................. 106 1.4.2 TEOLOGIA DA MISSÃO INTEGRAL .................................................................................................... 107. 1.5 DA SALVAÇÃO ......................................................................................................................... 108 1.5.1 DA SALVAÇÃO PARA A TdL ............................................................................................................... 108 1.5.2 DA SALVAÇÃO PARA A TMI .............................................................................................................. 109. 1.6 DO PECADO E DA GRAÇA ......................................................................................................... 110 1.6.1 A VISÃO DA TdL ............................................................................................................................... 110 1.6.2 A PERSPECTIVA DA TMI ................................................................................................................... 112.
(12) 1.7 A PRÁXIS ................................................................................................................................. 114 1.7.1 A PRÁXIS PARA A TdL ....................................................................................................................... 115 1.7.2 A PRÁXIS PARA A TMI ...................................................................................................................... 116. 2.. PROPOSIÇÕES PARA UMA MISSIOLOGIA CONTEXTUAL RELEVANTE ........................................... 117 2.1 A POBREZA E A GLOBALIZAÇÃO ............................................................................................... 118 2.2 TdL E A GLOBALIZAÇÃO ........................................................................................................... 121 2.3 TMI E A GLOBALIZAÇÃO........................................................................................................... 124 2.4 A RELAÇÃO DA TdL E DA TMI COM A GLOBALIZAÇÃO............................................................... 125 2.5 RESPOSTA CRISTÃ MISSIOLÓGICA PARA UM MUNDO GLOBALIZADO ......................................... 127 CONSIDERAÇÕES FINAIS AO CAPÍTULO.................................................................................................. 132 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................................................ 135 REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................... 139.
(13) INTRODUÇÃO O comparecimento cristão na sociedade é capaz de deliberar seu testemunho no seu lugar vivencial. Sendo assim, em se tratando de teologia de Missão, o ponto significativo para interpretar a realidade local é a hermenêutica do contexto para, então, agir, interpretar e propor mudanças. É imprescindível a compreensão do contexto histórico para a percepção da realidade da comunidade ao qual pertence e, assim, propor o entendimento do texto lido. Após esta hermenêutica contextual e textual dinâmica surge a aplicação da verdade contextualizada do tema estudado e lido, como também a proposta de uma possível nova realidade. Conforme a literatura analisada, o continente latino-americano é um lugar muito atingido pela influência global de continentes tidos como de cultura ocidental. Por isso, sofre as imposições com que a globalização se apresenta e que atinge a vida humana em toda a sua integralidade: social, política, econômica (com maior destaque), bem como cultural na mesma intensidade. As Teologias Latino-americanas (TLAs) trazem em si um mundo de possibilidades, especialmente a articulação entre teoria e prática e uma sensibilidade pela realidade desumana e opressiva – que geraram entusiasmo e novas perspectivas eclesiais e sociopolíticas nas décadas de 1960 e 1970 – apresentando-se como principal característica e condição de possibilidade para a construção de algo novo, nascido do trauma da dominação, possuindo grandes chances de ser porta-voz da liberdade (SANCHES, 2009, p. 154). As TLAs são uma das testemunhas mais contundentes do egoísmo humano, por isso, carregam em si o potencial de serem profetizas do amor e da vivência solidária e harmônica no mundo (SANCHES, 2009, p. 125). No campo protestante, a proposta da Missão Integral veio para estimular um conjunto de igrejas evangélicas que, por muito tempo, tiveram dificuldades para integrar em sua ação cristã a dimensão social da fé. No campo católico-romano, a teologia da ação católica deu ascendência ao que, mais tarde, denominou-se de teologia do desenvolvimento, que, por sua vez, originou a Teologia da Libertação. Esta, desde o seu início, tinha por objetivo desencadear nas comunidades cristãs um 12.
(14) movimento de evangelização com base na leitura crítica da realidade, a fim de superar os problemas sociais que mantinham a maioria do povo submetida a uma vida desumana e desumanizadora. Nas origens, essas reflexões teológicas latino-americanas tornaram relevante o evangelho de Cristo no contexto latino-americano, assumindo com ousadia o desafio de encontrar respostas condizentes tanto com a tradição, quanto com os clamores que advinham da vida concreta, com destaque de como o contexto e a maneira de responder modificam o rumo da reflexão teológica, suas prioridades e métodos (ZWETSCH, 2008). A Teologia da Libertação (TdL) e a Teologia da Missão Integral (TMI) são duas das TLAs de proporções diferentes, mas os seus berços religiosos partem da América Latina e revelam sua novidade no fato de serem teologias contextualizadas no ambiente sócio-históricocultural específico, além de repensar a fé como missão da igreja com os olhos no Reino de Deus. Ou a teologia pensa criticamente a realidade e é libertadora, que reconhece seu lugar no mundo, dilacerado por conflitos, toma partido e não se enclausura numa instância pretensamente neutra ou transcendente, ou ela deixa de ser teologia para se enfileirar as forças ideológicas (ASSMANN, 1973, p. 33). Sendo assim, contexto e cultura se entrelaçam e fazem parte dos padrões de pensamento de determinado local. O fundamental não é compartilhar da experiência do evangelho de Jesus Cristo com base em sua referência, mas, sim, dentro da situação histórica concreta sob a direção em conjunto com o Espírito Santo (PADILLA, 2012, p. 126-127). A contextualização a partir de onde se revela é condição inevitável para que a Palavra de Deus motive libertação, renovação, conversão e proposta da nova realidade – como meios de Graça para a América Latina – que manterá os olhos no Reino de Deus enquanto realidade presente e esperança futura (SANCHES, 2009, p. 119). O presente trabalho analisará o conceito de Reino de Deus para a TdL e para a TMI nos pensamentos de Gustavo Gutiérrez e de René Padilla, além de observar se há diálogo de interpretações entre elas para repensar a Missão da Igreja enquanto agentes que antecipam e proporcionam a realidade presente do Reino de Deus Assim, no primeiro capítulo, pretende-se fazer um breve levantamento histórico, para contextualizar a trajetória percorrida pela “Missão” no século 20, momento em que se averiguaram mudanças e variações dos paradigmas missiológicos para tratar dos caminhos que 13.
(15) seriam trilhados no meio católico e no meio protestante relacionado à “Missão na época contemporânea”. O método histórico bibliográfico será utilizado para respaldar o capítulo, considerando que tal levantamento será feito até a década de 1970 do século 20 (1974). A reflexão sobre a Missão na perspectiva bíblica é designada como uma tarefa específica para realizar algo, isto é, pregar, anunciar, testemunhar e proclamar o Evangelho. Missão está direcionada em praticar estas ações (ESCOBAR, 2015, p. 12). Estas palavras elucidam a chamada “Grande Comissão” (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 20), assunto que será abordado nesta pesquisa. Também veremos sobre o significado histórico da Missão Cristã e os aspectos históricos de expansão do cristianismo e do protestantismo, além de diversos congressos e reuniões que trataram sobre a “Missão”, em especial para a América Latina. O segundo capítulo analisará sobre as questões que tangem o Reino de Deus nas Teologias Latino-americanas da Libertação e da Missão Integral, restringindo adiante nas Teologias de Gustavo Gutiérrez e René Padilla na década de 1970. Com momentos conturbados na América Latina – mudanças eclesiais, econômicas e sociopolíticas –, os movimentos que se reuniam para terem um olhar teológico sobre a situação em termos de “Missão” no século 20, averiguaram para a necessidade de algo que articulasse esperança de Cristo para a América Latina. Também será apresentado um aporte hermenêutico, bíblico (contudo, não exegético), social e histórico, ou, palavra, igreja e mundo, com destaque para a teologia latino-americana enquanto pensar e fazer teológico que nasce neste contexto em todo o continente, olhando com a perspectiva da TdL e da TMI. Em primeiro momento, a concepção em si terá uma abordagem hermenêutica de cunho mais popular. Na sequência, um breve apontamento histórico e, por fim, a definição para estas duas maneiras de fazer teológico. O terceiro capítulo terá como foco o Reino de Deus nas Teologias Latino-americanas estudadas, o que inclui algumas divergências entre estas teologias nos pensamentos dos teólogos já citados e, por certo, algumas convergências, com apresentação de algumas proposições missiológicas contextuais e atuais, partindo dos berços destas teologias latino-americanas (TdL e TMI). O Concílio Vaticano II representou um ponto de partida para mudanças expressivas na Igreja Católica forçando-a a se adaptar aos contextos nacionais (KÜNG, 2002, p. 226). O 14.
(16) resultado das discussões de Lausanne elaborou – ainda que de forma tímida – a questão do compromisso sociopolítico e cultural da Igreja registrado no documento denominado Pacto de Lausanne (PADILLA, 2003, p. 13). Pretende-se, assim, que a presente pesquisa possibilite percorrer caminhos na busca de algumas convergências e divergências entre a TdL e a TMI, no intuito de promover proposições para uma missiologia contextual relevante, já que ambas as propostas partem do mesmo contexto.. 15.
(17) CAPÍTULO I. UM BREVE LEVANTAMENTO SOBRE MISSÕES E SUA TRAJETÓRIA NO SÉCULO 20 ATÉ 1974. INTRODUÇÃO O presente capítulo tem por objetivo fazer um levantamento histórico, mesmo que breve, para contextualizar a trajetória percorrida pela “Missão” no século 20. Este foi o momento em que se averiguaram mudanças e variações dos paradigmas missiológicos, bem como se evidenciaram maiores escritos sobre missões, dando respaldo para congressos, reuniões, convenções, etc, para tratar dos caminhos que seriam trilhados, tanto no meio católico, quanto no meio protestante relacionado à “Missão na época contemporânea”. Para tanto, o método histórico bibliográfico será utilizado para respaldar o capítulo. Tal levantamento será feito até a década de 1970 do século 20 (1974). A reflexão sobre a Missão, na perspectiva bíblica, permite que o seu significado seja distinto do que se averigua enquanto natureza missional da igreja, ou seja, a palavra Missão é designada como uma tarefa específica para realizar algo. Estas palavras são ações que elucidam a chamada “Grande Comissão”, o “ide”. González e Orlandi fazem uma análise sintática anterior ao “Ide”: A conjunção "portanto” implica sempre um antecedente, uma razão para o que segue. Nesse caso, esse antecedente são as palavras do próprio Jesus: ”Todo poder me foi dado no céu e na terra. Portanto ide...". Em última instância, a razão pela qual os crentes devem ir a todas as nações não é por termos pena dos que se perdem, ou porque nossa cultura seja superior, ou por termos algo a lhes ensinar. A principal razão é o senhorio universal de Jesus Cristo. Jesus disse que já é o Senhor de toda a terra. Não há lugar onde ele não esteja. Não há lugar para o qual seja necessário que os crentes o leve. O Senhor que era no princípio com Deus, por quem todas as coisas foram feitas, e que é a luz que ilumina todo ser, já está lá. Está atuando nos indivíduos e nas culturas, ainda que não o conheçam, ainda que sua presença seja anônima (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 20). 16.
(18) Levando-se em conta séculos das palavras e ações da “Grande Comissão”, o Evangelho de Jesus ultrapassou limites continentais e chegou a muitos lugares, com costumes variados, introduzindo-se e reintroduzindo-se (por vezes em mesma região geográfica), produzindo relações diversas, conceitos diversificados e paradigmas distintos sobre o entendimento do que é Missão. A “Grande Comissão” sempre teve o papel de motivar a Missão da Igreja. A implantação de igrejas mostrou isso, mas, ainda ressalta sobre a responsabilidade no que tange Missões pelo mundo. De forma mais contundente cita que a tarefa do envio não está tão atrelada com ela em si; antes está atrelada com a plenitude do conhecimento do Espírito Santo, haja vista que só depois de receber o Espírito Santo alguém se torna testemunha de quem envia (REIMER, 2011, s/p apud BOER, 1961, p. 109). No século 19 já havia interesse na implementação de um programa missionário de alcance mundial. Conferências e congressos refletiam sobre a expansão cristã e sua razão, além de ajudarem na definição de conceitos teológicos e missiológicos que seriam, mais tarde, a forma de trabalho das sociedades missionárias (PIEDRA, 2006, p. 26). As conferências e os congressos aconteceram em: 1854, Nova York – gerou o interesse das igrejas dos Estados Unidos pela ação missionária; 1860, Liverpool – discutiu-se sobre um breve relatório da situação religiosa da América Latina, apresentado pela Sociedade Missionária Sul Americana, cuja sigla em Inglês doravante será somente SAMS; 1888, Londres – demonstrou interesse pela região, buscou-se encaixar a América Latina e, de igual forma, a Ásia e África. Discutiram que a Igreja Católica não poderia ser argumento para que países sob sua tutela não recebessem o protestantismo; 1900, em Nova York – postou-se como um congresso diferente de todos os anteriores, com o interesse de reunir setores importantes do movimento missionário, catalogada como ecumênica ainda antes de 1910, em Edimburgo (PIEDRA, 2006, p. 26-29). O pensamento missionário anterior a época será destacado neste capítulo. Com o contexto histórico, o conceito e a sua expansão na primeira metade do século 20, observa-se que designava: a) o envio de missionários a um território especificado; b) as atividades empreendidas 17.
(19) por tais missionários; c) a área geográfica em que os missionários atuavam; d) a agência que expedia os missionários; e) o mundo não cristão ou “campo de missão”; ou f) o centro a partir do qual os missionários operavam no “campo de missão”. Num contexto ligeiramente diferente esse termo também poderia designar: g) uma congregação local sem um pastor residente e que ainda dependia do apoio de uma igreja mais antiga, estabelecida; ou h) uma série de serviços especiais destinados a aprofundar ou difundir a fé cristã, em geral num ambiente nominalmente cristão e, se tentarmos elaborar uma sinopse mais especificamente teológica de “Missão” assim como o termo é usado tradicionalmente, é possível perceber que ela foi parafraseada como: a) propagação da fé; b) expansão do reinado de Deus; c) conversão dos pagãos; e d) fundação de novas igrejas (BOSCH, 2002, p. 17). O foco agora serão algumas décadas depois (1970), época essa com diversas variações a respeito do entendimento do que é “Missão” em sua compreensão mais profunda e em seu modelo prático. Nota-se o significado e os aspectos históricos da expansão do cristianismo e do protestantismo. Para isso, será necessário reportar-se a diversos congressos e reuniões que, de alguma forma, abordaram o tema da “Missão”, especificamente para a América Latina, percebendo as alterações nos conceitos e paradigmas missiológicos até chegarmos aos anos das décadas de 1960 e 1970, momento inicial de novos pensamentos e novas teologias.. 1. CONTEXTO HISTÓRICO DA MISSÃO CRISTÃ NO SÉCULO 20 O século 19 trouxe para as missões cristãs o maior desafio (BOSCH, 2002, p. 17), além de uma ampla oportunidade. O mundo apresentava novas condições. Estas eram tais que se poderia supor que o impulso missionário do cristianismo – que estava atrelado às antigas condições – não sobreviveria. No final do século 18 e início do século 19, surgiram no Ocidente movimentos que tendiam a fragilizar o apoio do Estado à Igreja, que vinha desde Constantino. Com a Revolução Francesa – e seu anticlericalismo–, tudo indicava que a Igreja europeia perderia a sua vitalidade, especialmente a católica-romana. As guerras napoleônicas afundaram a Europa e debilitaram a Espanha e Portugal, que, até então, foram as nações principais geradoras do impulso missionário.. 18.
(20) Na América do Norte, os que forjaram a nova nação advogavam pela separação entre a Igreja e o Estado (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 227). A pesquisa de González e Orlandi destaca que, no campo do intelecto, os sinais tampouco pareciam ser favoráveis à Igreja Cristã, pois os novos descobrimentos históricos, biológicos e astronômicos geravam dúvidas sobre a veracidade da Bíblia. A criação narrada no Gênesis parecia desmentida pela teoria da evolução. A cosmologia bíblica ficava em constante suspeita ante este quadro e logo se duvidaria da existência de Jesus, ou pelo menos se tentaria reconstruir a realidade histórica que se encontrava por trás do Novo Testamento. Nas principais universidades da Europa, e ainda nas cátedras teológicas, dava-se a impressão de que o cristianismo estava a ponto de chegar a ser somente uma recordação histórica, deixado para trás pelos novos descobrimentos. Por outro lado, teólogos reinterpretavam os princípios da fé a luz das grandes mudanças nas ciências naturais e sociais, fazendo com que a igreja dialogasse com a época, mas sem criar distúrbios e contendas sobre o significado da fé em um contexto de tanta mudança (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 228). Neste sentido, tal afirmação torna fundamental o entendimento de Missão. González e Orlandi afirmam que em parte do mundo, as igrejas – especialmente a católica-romana – aliaram-se ao poder dominante, no qual se opunham aos movimentos revolucionários que buscavam uma forma mais coerente de se viver em sociedade. Com o triunfo das revoluções na França, na América do Norte e do Sul, era esperado que o cristianismo perdesse parte de sua força. Porém, dentro da mesma igreja cristã, havia roturas que enfraqueciam seu testemunho; contendas que existiam não somente entre as denominações, mas, dentro delas e, com frequência, giravam em torno da maneira na qual os cristãos encaravam os novos descobrimentos e as novas teorias científicas (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 228229). De igual forma, Dreher comenta, em outras palavras, que os novos descobrimentos e as revoluções fizeram com que as igrejas se separassem. Ao mesmo tempo, os esforços pela integridade e estabilidade religiosa caminhavam em direção da reunificação do cristianismo, uma vez que tais descobrimentos motivavam sua expansão (DREHER, 1999, p. 92).. 19.
(21) 1.1 MISSÃO E SEU SIGNIFICADO HISTÓRICO González e Orlandi explanam que, ao longo dos séculos e até os dias atuais, cristãos fizeram – e ainda fazem – uso das palavras de Jesus com objetivos imperialistas ou lucrativos. Cristãos que, tomando o mandato missionário como suposta priori, acabam no final demonstrando sua própria “superioridade”. “Superioridade” que destrói culturas e civilizações, estabelece e defende regimes despóticos, recorre às armas para forçar os mais fracos a adotar determinada crença, justificando assim, o injustificável (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 19). Estes desmandos nem sempre foram cometidos por hipócritas que desejavam aproveitarse da fé cristã, mas, também foram cometidos por cristãos sinceros, convencidos de que a expansão de sua fé justificaria suas ações, crendo que isso era índice da superioridade de sua cultura. Ocorre que, neste convencimento de que assim serviriam a Deus, nações foram destruídas, identidades violadas e pessoas indefesas oprimidas, o que mostra que a história da expansão do cristianismo é inspiradora e aterradora, servindo de chamado e advertência. A “Grande Comissão” tem no seu início uma palavra do próprio Jesus: “Todo poder me foi dado no céu e na terra. Portanto ide...”. Em última instância, a razão pela qual se deve ir a todas as nações não se resume a pena pelos que se perdem, ou a superioridade cultural, ou, ainda, porque tenha algum ensinamento. A principal razão é o senhorio universal de Jesus Cristo. Não há lugar onde ele não esteja. Não há lugar para o qual seja necessário levá-lo. O empreendimento missionário vai ao encontro de quem não crê, mas, também vai ao encontro de Jesus. Bosch ressalta que ao longo do século vários teólogos teceram importantes estudos sobre “A Grande Comissão” e cada um contribuiu teologicamente. O autor explica que a chamada “Grande Comissão” tem a ver com a transmissão de autoconfiança para uma comunidade com crise de identidade para que vejam oportunidades de serviço e missão à sua volta (BOSCH, 2002, p. 8184). Para onde forem enviados, apesar de desconhecido, conhece-se um pouco mais dEle e de seus propósitos (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 20), desde que esteja de acordo com a instrução do Espírito Santo (REIMER, 2011, s/p apud BOER, 1961, p. 109). O grande acontecimento do século 19 foi que, pela primeira vez, o cristianismo tornou-se verdadeiramente universal, pois estava presente em todas as regiões do mundo. A fé cristã não só. 20.
(22) está presente nos cantos mais distantes da Terra: mostra mais vitalidade e crescimento numérico nestes locais. Kenneth Scott Latourette afirma que o cristianismo – mesmo que presente por toda a parte – era a religião do Ocidente, representada, em boa parte do restante do mundo por pequenos grupos, muitos deles resultado do empreendimento missionário ocidental, e, todavia, dependentes desse empreendimento. Atualmente, ao mesmo tempo em que a fé cristã demonstra a perda do terreno em seus antigos centros na Europa e na América do Norte, cresce rapidamente na Europa e na Ásia. Já na América Latina, – nos tempos de Latourette – havia principalmente um catolicismo romano estancado e um protestantismo minoritário. Hoje, existe um catolicismo em vias de renovação e um protestantismo vigoroso que, em vários países, alcança mais da quarta parte da população (LATOURETTE, 2007, p. v. I, 3). Essas mudanças demográficas são uma mostra do movimento da fé cristã, do caráter contextual das comunidades da fé, da vitalidade que a fé descobre na margem ou na fronteira entre os povos, da diversidade de práticas e teologias missionárias e das diversas respostas ao Evangelho. Por isso, espera-se que as reflexões proporcionem a eliminação da visão do cristianismo como religião ocidental, assim como o redescobrimento do seu caráter mundial, fronteiriço e transcultural. A vitalidade da fé cristã nos continentes do sul e do leste – no começo deste século – converte-se em um prisma para reler as teologias e práticas de antigamente. O fato de observar e participar do caráter missionário cristão transcultural proporciona uma lente particular para o descobrimento de novos agentes, novas teologias e novas práticas missionárias que quebram a concepção do movimento cristão como algo unidirecional, patriarcal, imperialista, capitalista, exclusivo, burocrático e rígido. “Missão" é a atividade de Deus no mundo. Ele age no mundo pela sua graça, para reconciliá-lo consigo mesmo (2Co 5.19). A igreja é resultado ecoprotagonista desta Missão de Deus. A igreja nasce, mantém-se e transforma-se pela Missão de Deus. Ao mesmo tempo, ela também é sujeito ativo na Missão, discerne e descobre onde Deus está agindo e participa dessa ação (GONZÁLEZ, 2008, p. 23). O termo “Missões" carrega em si uma imagem de movimento unidirecional: do mundo cristão ao mundo não-cristão. Por essa razão – por muito tempo – as missões associavam-se a 21.
(23) uma prática missionária eclesiocêntrica, na qual a igreja era protagonista da missão. Contudo, ela também envolve o estudo da história das estratégias adotadas na comunicação do Evangelho em sua natureza essencialmente pessoal da propagação do cristianismo e as possibilidades ilimitadas de uma igreja que evidencia a propagação da fé (LONGUINI NETO, 2002, p. 26). Até o momento, a pesquisa abordou sobre o conceito histórico do movimento do cristianismo dentro de uma área geográfica com a presença cristã, mas, entende-se que são as atividades dirigidas a estender a fé cristã a lugares onde a fé já existe (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 23-24).. 1.2 EXPANSÃO DO CRISTIANISMO NO SÉCULO 19. A expansão do cristianismo no século 19 é complexa. Se a expansão do cristianismo dependesse unicamente da unidade interna da igreja, o século 19 teria visto o fim do avanço missionário. O século 19, com seu impulso imperialista a começar na Europa Ocidental e, posteriormente, nos Estados Unidos, incide de maneira complexa na tarefa missionária. O imperialismo europeu, em certas ocasiões, serviu de aliado para a ação missionária; em outras, os missionários transformaram-se em fortes inimigos da política imperialista, e ainda, os missionários tiveram um papel ambíguo e confuso entre os interesses nacionais e a política imperialista (MENDONÇA; VELASQUES FILHO, 1990, p. 55). Não era esperado que o século 19 fosse um dos pontos culminantes na história das missões cristãs euro-atlântico. Dada a ambiguidade das missões na relação com as autoridades civis, a igreja descobriu a falta de apoio por parte dos governos, um desafio que resultou na divulgação do interesse missionário em meio a uma parcela maior do povo cristão. As perguntas que o século 19 propôs sobre a veracidade da Bíblia e do cristianismo serviram para que os próprios cristãos propusessem novamente perguntas fundamentais sobre o caráter de sua fé e, assim, lançaram-se por novos caminhos de obediência a Deus (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 228-229). Em termos gerais, o século 19 foi a época da expansão protestante denominada de euroatlântica. O cristianismo foi introduzido com amplitude sem precedentes devido a uma nova 22.
(24) explosão de vida religiosa que emanou do impulso cristão, resultando no empreendimento missionário que aumentou a força numérica e a influência do cristianismo (LATOURETTE, 2007, p. 4). Tanto a Igreja Católica Romana quanto a Ortodoxa Russa continuaram seu trabalho missionário (apesar de não trabalharmos a questão da igreja ortodoxa, mais a título de contextualização). Mas o protestantismo – por sua relação direta com os países europeus que se levantavam como novas potências mundiais e pelas mudanças políticas e econômicas dentro desses países (industrialização, mudanças nas estruturas políticas e um despertar antropocêntrico) – mostrou uma capacidade maior para se adaptar as novas circunstâncias e também mais vitalidade para penetrar terras até então virgens da pregação missionária (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 229). As missões católicas romanas do século 19 viram Espanha e Portugal com poder colonial e político enfraquecido por conta das guerras napoleônicas, de independência da América Latina e a Revolução Francesa; viram, também, que a França não seria capaz de servir de centro a movimentos missionários, já que não deu atenção à obra missionária em tempos de seu apogeu. Ainda assim, o catolicismo se fortalecia na obra missionária e presenciou a unificação da Igreja sob o poder papal consolidado. Os diversos Estados europeus e americanos – ao insistirem na separação entre a Igreja e o Estado – tinham a pretensão de evitar a ingerência da Igreja pelo Estado, mas, também renunciavam a autoridade que alguns Estados exerceram sobre a igreja em seus domínios. Ainda no caso dos países em que continuou existindo uma união estreita entre a Igreja e o Estado, o Estado estava tão debilitado, que não podia opor-se ao domínio direto da Igreja por parte da sede romana. Esse movimento foi aparelhado a outro de caráter muito oposto dentro da Igreja Romana, mas cuja consequência prática era a mesma: o ultramontanismo 1 que defendia o acréscimo da. 1. O ultramontanismo defende o pleno poder papal. Com a Revolução Francesa, as tendências separatistas do galicanismo aumentaram. As ideias ultramontanas também. Nas primeiras décadas do século 19, devido a frequentes conflitos entre a Igreja e o Estado em toda a Europa e América Latina, foram chamados de ultramontanos os partidários da liberdade da Igreja e de sua independência do Estado. O ultramontanismo passou a ser referência para os católicos dos diversos países, mesmo que significasse um distanciamento dos interesses políticos e culturais. Apareceu como uma reação ao mundo moderno e como uma orientação política desenvolvida pela Igreja, marcada pelo centralismo romano, um fechamento sobre si mesma, uma recusa do contato com o mundo moderno. Os principais documentos que expressam o pensamento centralizador do papa são as encíclicas de Gregório XVI (183123.
(25) autoridade pontifícia que culminou no Concilio Vaticano I (1869-1870), promulgando oficialmente a doutrina da infalibilidade papal. Outro aspecto importante sobre a Igreja Católica Romana no século 19, que afetaria seu trabalho missionário, foi a revitalização de alguns dos antigos instrumentos das missões católicas, muito especialmente a Companhia de Jesus – que era uma ordem religiosa fundada em 1534 por um grupo de estudantes da Universidade de Paris, liderados por Inácio de Loyola. A Congregação foi reconhecida por bula papal em 1540, no contexto da Reforma Católica, também chamada de “Contrarreforma”. Os jesuítas fazem votos de obediência total à doutrina da Igreja Católica dissolvida pelo papa no ano 1773 e, a partir de 1801, começou a autorizar sua existência até que em 1814 seus antigos direitos2 foram novamente concedidos – e a Sacra Congregatio de Propaganda Fide – Congregatio Propaganda Fide, ou Congregação para a Evangelização dos Povos, fundada em 1622, tinha por objetivo coordenar toda a atividade missionária da Igreja e propagar a fé católica em todo o mundo. Entre as suas atividades, estava a responsabilidade pela aprovação das congregações e pela promoção da formação do clero e foi usada por Napoleão como um instrumento de sua política, mas, depois recomeçou a obra com novos brios. A igreja romana desenvolveu novos meios para subvencionar os gastos missionários que antes corriam por conta dos Estados coloniais, por meio de fontes que apareceram em toda a Europa, muito especialmente na França, reunindo dinheiro, roupas e outros meios necessários (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 230-231). No mesmo século, para as Igrejas Ortodoxas, ainda que existissem no Oriente e no centro da Europa, foi a russa a que fez mais pela expansão do cristianismo, e ainda faz, mesmo que pouco fora das fronteiras do Império Russo. Para as missões protestantes, o século 19 caracterizou-se pela expansão colonial e missionária do protestantismo. Vários países protestantes estenderam seu poder econômico e político a regiões distintas do globo. Os Estados Unidos continuaram com o seu trabalho de expansão em direção a oeste, algumas vezes pela colonização, outras mediante compras de territórios e também mediante a conquista armada. Os descobrimentos marítimos em viagens pelo sul do Pacífico abriram para o. 1845), Pio IX (1846-1878), Leão XIII (1878-1903) e Pio XI (1922-1939). Disponível em: < http://www.histedbr.fe.unicamp.br/navegando/glossario/verb_c_ultramontanismo.htm >. Acesso em: 10 maio 2017. 2 Disponível em: < https://www.infopedia.pt/$companhia-de-jesus >. Acesso em: 23 abr. 2017. 24.
(26) mundo novos horizontes, que despertou um novo interesse missionário na Inglaterra e nos demais países protestantes (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 233). Cavalcanti afirma que a expansão capitalista do século 19 não coincide com o período moderno de missões protestantes por fatalidade. As igrejas protestantes aproveitaram a expansão do comércio e da colonização promovidos pelo hemisfério norte para lançar o seu período mais abrangente de missões (CAVALCANTI, 2001, p. 61). As missões europeias tendem a seguir o modelo religioso de "igreja oficial" em que a religião é exportada como parte da ordem social gerida pelo Estado. Nos países africanos e asiáticos sob a tutela colonial europeia, por exemplo, as igrejas protestantes tornam-se a expressão religiosa da presença colonizadora. Os missionários utilizam a infraestrutura colonial (principalmente dos sistemas de transporte e comunicações exportados para as colônias) para expandir o seu trabalho, espalhando não só templos em nações do hemisfério sul, mas, também redes educacionais e hospitalares que influenciariam o desenvolvimento dessas colônias. Isto não significa necessariamente que as missões e os governos coloniais fossem aliados (ou cúmplices) na causa da colonização (CAVALCANTI, 2001, p. 62-63). A expansão protestante do século 19, especialmente a que partiu dos Estados Unidos, foi muito mais independente da colonização política e econômica que a expansão católica-romana dos séculos anteriores. Suas missões adotaram um modelo em que várias igrejas diferentes competiriam pela adesão voluntária dos fiéis, ou voluntarismo, um aspecto importante da ideologia do individualismo que marcou os Estados Unidos durante o final do século 19 e o princípio do século 20. Nesse modelo missionário, cada igreja teria suas características e seria chamada de "denominação" (CAVALCANTI, 2001, p. 63). O movimento missionário europeu do século 19 caracterizou-se por grupos de cristãos em comum, mas com grande fervor missionário que trabalhou às margens de denominações protestantes (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2008, p. 233), mas também ficou marcada pelo voluntarismo (CAVALCANTI, 2001, p. 63).. 25.
(27) 1.3 ANTECEDENTES HISTÓRICOS A modernidade promoveu, com o desenvolvimento industrial, um otimismo que iniciou uma “cultura mundial” com base na civilização europeia. Nesse contexto o evangelho era visto como um instrumento, uma ferramenta útil e importante para civilizar os pagãos. Teólogos, missionários, demais cientistas, leigos, dentre outros começaram a estruturar os pensamentos voltados para a Missão, pela observação do que acontecia em relação ao desenvolvimento e ao movimento social.. 1.3.1 Edimburgo, 1910 Longuini Neto explica que a Conferência Mundial de Missões de Edimburgo, em 1910, – liderada por John R. Mott – acontece nesse contexto, sendo elemento catalisador e fundante para o movimento ecumênico contemporâneo (LONGUINI NETO, 2002, p. 85-87). Ela surge como resultado do esforço ecumênico protestante, com o objetivo de organizar esforços missionários para completar a tarefa inspirada principalmente no texto bíblico de Mateus 28.16-20, com o propósito de “delinear a estratégia para uma campanha final por parte das forças concertadas do Reino de Deus” e na concordância sobre a “Grande Comissão” e o seu cumprimento. Edimburgo concentrou-se nos continentes não cristãos (Ásia e África) que receberiam a mensagem de países cristãos (Europa, EUA). Mesmo sem a inclusão direta da América Latina, ela demonstrou uma unidade de espírito, propósito e compromisso (SCHERER, 1991, p. 14-16). Essa Conferência estimulou a reflexão sistemática e abrangente sobre o trabalho missionário protestante na América Latina – por conta da falta de atenção merecida – e representou um grande obstáculo para as organizações que, à margem da ajuda das grandes igrejas protestantes da Europa e dos Estados Unidos, trabalhavam em áreas sob o controle religioso da Igreja Católica. Por isso é que, no futuro, os diretores e missionários das “missões de fé” culparam a conferência pelas repercussões negativas em suas atividades na época determinada (PIEDRA, 2006, p. 28). Os líderes da Conferência de Edimburgo foram questionados por ter inspirado e fortalecido o trabalho missionário principalmente na Ásia e na África, em detrimento da obra 26.
(28) missionária protestante na América Latina. Não vamos considerar aqui os pormenores que levaram à exclusão da América Latina das ações evangelizadoras dos missionários. O esforço na cooperação das várias agências missionárias representadas por distintas denominações protestantes, incluindo o catolicismo romano, para a expansão do Cristianismo às nações não-cristãs, gerou o chamado de espírito missionário (COPPE, 2010, p. 71), ou seja, o espírito de união para alcançar um mesmo objetivo. Portanto, o Movimento Ecumênico nasceu desta tentativa de cooperação (SILVA, 1996, p. 24).. 1.3.2 De Nova York - 1913, até Panamá - 1916 Mesmo a exclusão da América Latina nos pensamentos missionários, ainda assim o congresso provocou condições para, em março de 1913, em Nova York, realizar a Conferência sobre Missões na América Latina. Este evento criou a Comissão de Cooperação na América Latina (CCLA), com a participação de representantes de juntas missionárias da América Latina (PIEDRA, 2006, p. 160-161). O objetivo foi a discussão sobre os trabalhos missionários na América Latina, além de informar as juntas sobre o trabalho realizado e o próximos passos. Evidentemente, nesta reunião, os líderes missionários norte-americanos não estavam em condições de aceitar que as instituições missionárias europeias influenciassem o pensamento protestante de forma agressiva na América Latina, nem aceitariam as dúvidas sobre o papel da Igreja Católica na região. Mesmo assim, tiveram o cuidado para não haver confrontos (PIEDRA, 2006, p. 188-206). Esta reunião foi uma grande expressão de determinação dos Estados Unidos em considerar a América Latina como sua responsabilidade missionária (PIEDRA, 2006, p. 161). A CCLA patrocinou o Congresso de Ação Cristã na América Latina, reunido no Panamá, em fevereiro de 1916. Foi o maior encontro das forças protestantes desse continente realizado até aquela data. O Congresso mostrou a necessidade de maior cooperação em áreas como educação religiosa, missões, literatura e formação teológica. Suas metas principais foram a evangelização das classes cultas, a unificação da educação teológica por meio de seminários unidos, o desejo de dar uma dimensão social ao trabalho missionário na América Latina e o esforço em promover a unidade protestante.. 27.
(29) A CCLA nutria grandes esperanças, entre elas a „impotência de igreja estabelecida‟ como meio de repartir espiritualidade, em que as forças protestantes eram incapazes de preencher o vazio religioso. Dessa maneira, o Congresso do Panamá foi uma crítica ao cristianismo latino-americano, sem importar a tradição. A partir desse enfoque, entendeu-se que não havia força cristã capaz de provocar o avivamento religioso que a CCLA desejava para a América Latina. A fragilidade da força refletia-se na pequena quantidade de missionários protestantes que havia na região. O Congresso do Panamá foi o ponto de partida para corrigir o fracasso do cristianismo na região. Começou um processo que proporcionasse ao continente a mudança religiosa negada no passado, “um tipo de vida e um legado de verdadeira reforma” que viria a confrontar o fracasso de cinquenta anos de missão protestante local (PIEDRA, 2006, p. 167-168). O impacto positivo do congresso pode ser medido em termos quantitativos e também por sua contribuição qualitativa por conta do efeito psicológico que teve sobre os missionários protestantes perseguidos pelo fantasma que lhes lembrava a ilegitimidade de seu trabalho. Além disso, definiu as questões da legitimidade do trabalho das missões evangélicas na América Latina, consolidando o abandono passado como parte da história (PIEDRA, 2006, p. 169). O Congresso do Panamá refletiu a vontade oficial das autoridades das sociedades missionárias mais importantes dos Estados Unidos. Seus organizadores sonharam na transformação da América Latina em um campo missionário experimental, a fim de evitar os erros e conflitos das forças protestantes em outros continentes.. 1.3.3 Montevidéu - 1925, até Havana - 1929 Como resultado do encontro do Panamá, nos anos seguintes realizou-se dois congressos missionários ecumênicos regionais. O primeiro, denominado Congresso de Ação Cristã na América do Sul, reunido em Montevidéu, Uruguai, em 1925, que na verdade foi o segundo congresso de ação cristã na América Latina (o primeiro foi no Panamá – base para o que seria discutido em 1925 no Uruguai). Embora a participação de latino-americanos fosse maior (o pastor presbiteriano brasileiro Erasmo Braga foi eleito presidente do congresso), os norte-. 28.
(30) americanos ficaram a cargo da organização e presidiram todas as comissões. Ainda assim, registrou-se maior participação por parte dos protestantes regionais. A discussão ficou concentrada nas estratégias de missões e também sobre as regiões em que o cristianismo não chegara. Entre os temas abordados destacam-se: qual seria a situação da igreja evangélica na América Latina (crescimento); se os protestantes eram uma força numérica representativa no continente; se a opção de evangelizar as elites propiciou ao protestantismo um rosto diferente; se a educação teológica estava mais sólida; qual o significado e o papel dos vários concílios nacionais de igrejas já organizadas; como a Igreja Católica Romana reagiria ao avanço do protestantismo; qual a influência da Primeira Guerra Mundial, que deixara marcas profundas e uma nova configuração de forças sociais e políticas em todo o mundo, sobre a América Latina e sobre o cristianismo (LONGUINI NETO, 2002, p. 97-98). A riqueza de recursos naturais foi importante para alguns missionários que pensavam na expansão protestante da América Latina, a fim de regular as relações entre o Norte e o Sul. A palavra “interdependência” foi muito utilizada no Congresso para caracterizar na identidade latino-americana o fator de mundo moderno (PIEDRA, 2006, p. 97). Mesmo com a liderança sendo mesclada entre americanos e latinos, os relatórios tiveram redação em língua inglesa, ainda que o idioma espanhol fosse utilizado durante todo o evento. Com todas as discussões, os líderes latinos mostraram-se preparados para abordar também outros assuntos locais, o que demonstrou tensão ideológica de missão enquanto ciência e reflexão missiológica (LONGUINI NETO, 2002, p. 100). Esta reunião provocou uma reação violenta na Igreja Católica Romana que se sentia mais ameaçada do que nunca não só pela presença protestante em solo católico (PIEDRA, 2006, p. 84), mas, sobretudo pelo trabalho, pela atração que o protestantismo exercia nas elites latinoamericanas como: a educação das elites, a postura liberal e o fato de que ser protestante era ser moderno e estar vinculado às grandes nações da Europa e Estado Unidos, e também porque o protestantismo tomava cada vez mais contornos definidos, projetando-se para a construção de um projeto de unidade que o fortaleceria cada vez mais. De acordo com Longuini Neto, este Congresso contribuiu para a construção da identidade protestante latino-americana e serviu de ponte entre Panamá de 1916 e Havana de 1929 (LONGUINI NETO, 2002, p. 101-102). O Congresso Evangélico Hispano-Americano, em Havana, 1929, representou um momento importante para a construção de uma identidade protestante, principalmente porque 29.
(31) encerra um processo que começou no Panamá, em 1916, além de abrir as discussões para a realização de uma nova sequência de Conferências Evangélicas Latino-Americanas (CELA‟s). O evento foi inteiramente organizado e conduzido por latino-americanos (118 natos de 200 participantes). As ênfases recaíram sobre a nacionalização e o autossustento das igrejas evangélicas, que rompeu com a hegemonia norte-americana e aceitou a proposta de uma Federação Internacional Evangélica. O presidente do congresso foi o metodista mexicano Gonzalo Báez Camargo que dividiu o trabalho em quatro áreas: solidariedade evangélica, educação, ação social e literatura (LONGUINI NETO, 2002, p. 102-104). A discussão, em princípio, latente por não estar presente em nenhuma comissão, voltou à baila como o grande tema “de corredor” que tomou circunstância: o relacionamento entre as igrejas-mãe e as igrejas-filhas (nacionais). De forma menor, traduzia a dificuldade de relacionamento entre os pastores locais, ávidos por implantar seus projetos e os missionários internacionais que – como eram os subsidiadores das igrejas locais, com dinheiro de fora – achavam os pastores nacionais imaturos, despreparados para assumir o protagonismo das igrejas e com espírito revoltado e revolucionário. Apesar desse desentendimento, ficou evidente que tanto a independência de governo quanto financeira seriam fundamentais para o amadurecimento e o crescimento das igrejas locais, sem comprometer o espírito de gratidão e unidade da igreja universal (LONGUINI NETO, 2002, p. 104 e CUNHA, 2010, s/p). No final do congresso pairava um clima ecumênico e foi retomada a proposta de Alonso, preletor cubano, que em sua primeira palestra lançou a ideia de uma ”Federação Internacional Evangélica” composta pelos concílios evangélicos nacionais, que foi aceita unanimemente. Para levar adiante tal desiderato nomeou-se uma comissão especial. É possível afirmar que o Congresso de Havana rompeu com certa hegemonia norteamericana sobre os latino-americanos. Foi o término e o início de um novo processo. A proposta aprovada no final do congresso parecia um sonho de unidade, que só se concretizou vinte anos mais tarde, quando então se reuniram na Primeira Conferência Evangélica Latino-Americana em Buenos Aires (1949) (LONGUINI NETO, 2002, p. 105).. 30.
(32) 1.3.4 CELA I - 1949 A Conferência Evangélica Latino-Americana foi realizada em Buenos Aires, Argentina, em julho de 1949, pela CCLA. O tema principal do evento foi “O Cristianismo Evangélico na América Latina” e, apesar do seu caráter ecumênico, não reuniu muitas pessoas (LONGUINI NETO, 2002, p. 110). Nesta conferência evidenciou-se a preocupação em relação ao evangelicalismo latinoamericano. Como resultado das discussões da conferência recomendou-se que as igrejas protestantes envolvidas utilizassem o nome “evangélico” junto ao nome denominacional. Conforme Padilla o evento ocorreu em clima de guerra fria e de enfrentamento entre capitalistas e socialistas (PADILLA, 1995, p. 43). A Conferência realizou-se no ano seguinte à criação do CMI, mas não em conjunto a este. A comissão de trabalho afirmou que mensagem para a América Latina e para o mundo é Jesus Cristo e seu evangelho. A dimensão evangelizadora e a tarefa de evangelizar o continente estiveram presentes como tema e como conflito. A evangelização foi tratada na conferência como uma questão de vida ou morte para a igreja, falando-se de evangelizar para sobreviver, relacionando o conflito com o fato de que a busca de coordenação e unidade na América Latina estava sob a igreja dos Estados Unidos. Diante disso, as igrejas latino-americanas não tiveram oportunidade para o amadurecimento de uma reflexão que considerasse a situação do continente, além de não desenvolver uma proposta missiológico-pastoral relevante até aquele momento. Mesmo assim, tanto Padilla como Longuini Neto concordam que a CELA I foi um marco no esforço pela identidade do protestantismo evangélico latino-americano.. 1.3.5 Willingen, 1952 Durante a segunda metade do século 20 ocorreu de forma dramática – na vida da igreja em especial – a Conferência Mundial de Missão, em Willingen, na Alemanha, realizada pelo Conselho Missionário Internacional (CoMIn), em 1952. Momento em que a Segunda Guerra Mundial foi substituída pela Guerra Fria (a designação atribuída ao período histórico de disputas 31.
(33) estratégicas e conflitos indiretos entre os Estados Unidos e a União Soviética, disputando a hegemonia política, econômica e militar no mundo). Contra esse fundo pessimista, Willingen enalteceu a teologia de Barth, ou seja, a teologia que propõe uma retomada da teologia prática na dimensão, à serviço da palavra, com ênfase de servir e amar ao próximo (LONGUINI NETO, 2002, p. 56). Por conta disso, os delegados redescobriram que a missão depende, em primeiro lugar, da própria atividade de Deus. A Missão é o propósito e a ação do Deus trino. Willingen é considerado a mais duradoura influência sobre a teologia da missão ecumênica. Na verdade, a ideia de Missio Dei – que foi retomada – provou ser mais criativa. A forte ênfase na centralidade da Igreja na Missão foi substituída por uma perspectiva ampliada que permitiu, assim, uma interpretação dos eventos mundiais como fatores determinantes para a Missão. Antes, na Conferência Missionária de Brandemburgo, na Alemanha, em 1932, Karl Barth tornou-se um dos primeiros teólogos a articular a Missão como atividade de Deus, influência crucial sobre o pensamento missionário da Conferência de Willingen em 1952, em que a ideia da Missio Dei emergiu, pela primeira vez, de maneira evidente. Barth comunica a teologia missionária com riqueza de ideias que produzem rica reflexão teológica para os próximos anos (DRURY, s/d, s/p, tradução nossa). Compreendeu-se a Missão como fruto da natureza de Deus. Ela foi colocada no contexto da doutrina da Trindade, não mais da eclesiologia ou da soteriologia (BITUN, 2014, p. 42-43).. 1.3.5.1 MISSIO DEI Na década de 1950 quando a Guerra Fria influenciava o Ocidente, a Conferência Mundial de Missão de Willingen reforçou a teologia de Barth, pois pressupunha uma retomada da teologia prática a serviço da palavra, com ênfase no serviço e amor ao próximo, conforme já mencionado. Diversos missiólogos refletiram sobre as mudanças que ocorriam na teologia bíblica e sistemática pós-Primeira Guerra Mundial. Barth desenvolveu a ideia de missão como uma atividade produzida pelo próprio Deus, rompendo com a abordagem iluminista da teologia (ROCHA, 2014, s/p).. 32.
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