Agora o desejo de conhecer perfis desse artista gigante que não tinha noção da exuberância de seus trabalhos, suas falas, faltas e o que resultou de seus próprios sonhos. O devaneio estava na mistura dos valores que não se revelaram mesmo que existiam os reflexos dessas sombras. Confrontava o olhar que percebia com a visão que o perseguia, a angústia que movia seus instintos, o homem que desafiou seu histórico lançou perspectivas ao futuro zombador sem se dar conta disso ao vir para a cidade de Goiás no ano de 1950, a convite de Dom Cândido Penso, Bispo da Prelazia, para pintar os afrescos na Igreja do Rosário e exercer suas atividades de missionário. Aceito o convite, Frei Confaloni não imaginaria que
a mudança para o Brasil marcaria efetivamente não somente a sua vida como o destino das artes em Goiás, seu nascimento e sua história.
Da observação, do movimento lhe adveio todas as sensações vitais de forma intensificada nas quais brotava a sua arte, independente, pura. Via surgir sua pintura do jeito e da forma como ele a sentia, cheia de vida, energia, como se naqueles corpos ali que aos poucos se faziam presente na tela branca pulsasse sangue que corria pelas veias, até chegar ao coração órgão vital que não somente representa nossa humanidade como também expressão e representação dos sentimentos humanos.
A pintura e o sacerdócio foram o seu mundo e a sua maneira de existir, vocação demonstrada desde a sua infância em Grotti di Castro, sua cidade natal, localizada na região central da Itália, conhecida por ser o local onde hoje se encontram as tumbas etruscas.
Todos os trabalhos durante sua trajetória de vida estão impregnados de dramaticidade cotidiana, sem esquecer o lado afetivo que o cercava. Confaloni foi fruto do momento histórico marcado por grandes transformações e incertezas da humanidade no aspecto social, político, econômico e cultural. Afinal nascera em 1917. A presença de duas grandes guerras, as dificuldades enfrentadas pós- segunda guerra mundial quando já tinha alcançado a maturidade, a fome, a doença, a morte e o cheiro dela, deixaram marcas profundas e fez com que Confaloni, com a visão do passado, atravessasse por sua imaginação o que se encontra além dele.
Vê-se a continuidade com a trama do passado que não foi rompida, a percepção do que foi vivido e experienciado em seu íntimo foi transplantado para a sua arte. A influência do passado, a informação visual, conceitual são assimiladas pela alma do artista, portanto compondo parte da representação de sua pintura.
[...] O pós-guerra – Se é somente aquele que a viveu que pode saber o que foi a Segunda grande guerra. E Confaloni lembrava-se bem de sua primeira ida à Florença. Depois do cessar fogo, o que havia era a falta de tudo, principalmente de sal, os poucos gêneros alimentícios que podiam ser encontrados eram vendidos a preços inimagináveis. Pelas estradas o insistente cheiro de pólvora e queimadas. E também de carne putrefata, envolta em sacos plásticos: corpos de ex-combatentes (SILVEIRA, 1991, p. 24-25).
Dedicação foi à palavra de ordem em tudo que Confaloni se prestou a fazer, viveu intensamente as atividades do sacerdócio desde os 10 anos de idade ao sair de casa encaminhado para um convento com a finalidade de seguir a vida religiosa. Nesse período ficou sem ver a família por doze longos anos. Via somente o pai nas ocasiões em que este levava carregamento de vinha para os padres, uma vez ao ano, acerto feito na época como forma de pagamento dos estudos do filho.
Foi durante este período que ficou sabendo da morte de seus irmãos Névia e no ano seguinte Felippo, foram notícias tristes que o futuro padre recebeu longe de casa. Não se conhece o motivo que levou Confaloni à carreira artística, o que se sabe é que várias vezes foi flagrado desenhando em sala de aula, o que levou seus professores a reconhecerem o seu dom para a pintura e a custearem por um período, aulas semanais fora do convento para que aperfeiçoasse sua técnica, pois viam no menino um futuro promissor.
Viveu sua juventude em um convento dominicano em Florença, berço das artes, ao qual se formou em Filosofia e Teologia, e ainda teve a oportunidade de freqüentar a Academia de Belas Artes de Florença onde conheceu Primo Contti – titular de pintura da academia, na época considerado pela crítica um dos principais artistas italianos, também escritor, poeta e um dos líderes do movimento futurista do começo do século na Europa.
Eleito seu mestre, com ele conviveu e aprendeu a tal ponto de acentuar as características do que foi considerado, pela crítica de artes, traços marcantes nas suas obras, pois até então Confaloni dedicava-se à pinturas religiosas. Foi Primo Conti que fez Confaloni conceber a pintura não como dotada de sentimentos religiosos, sua pretensão até então na época. Mas, seu mestre o fez ver que:
A pintura de um céu tempestuoso, das mãos fartas de um lavrador, ou de uma mulher carregando seu filho poderia ser, num certo sentido, mais sacra, mais dotada de sentimento religioso que a pintura de uma Nossa Senhora, de uma Natividade ou de uma Deposição (SILVEIRA, 1991, p. 25).
Logo, Confaloni abandonou a pintura com temas religiosos tradicionais, resultando desse procedimento, suas composições não mais separadas da ação dos homens e da sua forma de relacionar com a natureza e consigo mesmo. Sua pintura tornava-se humanizada, num plano existencial, e mais, Confaloni passou a lidar no trato com os pincéis de forma mais solta, com contornos precisos. Via-se
que o objeto não estava mais dotado de uma linguagem condensada e afirmada em dogma, com sentido teleológico, e metafísico.
Figura 02: A Partida dos Apóstolos. capela de Grotti di Castro, Itália.
Confaloni manteve contato com outros centros irradiadores de arte como Milão (Instituto Beato Angêlico de Pintura), Universidade de Brera em Roma onde freqüentou a Escola de Pintura Al Michelangelo