Retratos e auto-retratos tornaram-se um gênero artístico com maior relevância no Renascimento, período que o antropocentrismo ocupa o lugar do teocentrismo. Na época, os pintores eram contratados para registrar as pessoas na sua aparência física. Um dos maiores gênios do retrato que pintou o maior número de auto-retratos foi o pintor holandês Rembrandt47.
O melhor da obra do Frei é a retratística, considerado pelo artista plástico Siron Franco como um dos grandes retratistas brasileiro. Seus auto-retratos apresentavam traços fortes, da sua personalidade enquanto artista. Os retratos de Confaloni merecem um estudo a parte por ser um gênero que o padre artista se revelou, pelo fato de inovar. São dotados de algumas características, que na maioria das vezes não havia semelhança com a pessoa retratada, parecia pintar a alma das pessoas como a via e sentia. Desenvolveu suas expressões dentro de um
46A expressão “política” é aqui utilizada em sentido restritivo, significando aquela arte que se engaja diretamente na ação política, tornando-se veículo direto de uma mensagem – a exaltação do povo e da revolução, no caso dos mexicanos. Os muralistas ligam diretamente o movimento artístico ao movimento revolucionário, vendo no primeiro a expressão cultural do segundo, tanto que para suas realizações utilizam o termo arte moderna ideológica . Cf. D. A. SIQUEIROS, L´art et la révolution, Paris, 1973.
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estilo próprio, criativo, onde se percebe o tom psicológico do artista na obra como bem nos diz Siron Franco:
[...] ele tinha uma consciência, uma intenção no retrato, inclusive psicológica. Sua técnica era muito rápida, muito pessoal, ele nem desenhava, já ia com o pincel direto, manchando... era uma pessoa incrível! A retratística, do Frei é sua obra de maior valor, ele tinha um elemento. Fazia retrato totalmente em branco, belíssimo como pintura e artisticamente genial, trabalhava com espátula usando apenas o branco. Ele conseguiu realizar-se numa obra que é a mais difícil, o retrato, na qual geralmente se cai num lugar comum, fica-se preso. Ele gostava de fazer retratos. [...] Os retratos dele são incomuns não tem nada haver com ninguém, é o Confaloni mesmo. Seu retrato é bem construído, bem sólido (FRANCO, 1982, p. 84).
Diferente de pintores que se punham no caminho da promoção social por meio da pintura, o Frei escolheu a obra pela obra. É na expressão, no olhar do retratado que é possível perceber a capacidade psicológica do artista em alcançar a expressividade com uma linguagem própria e uma deformação intencional. Ao contrário dos retratos e auto-retratos clássicos que o espectador é chamado a contemplar a obra, nos retratos de Confaloni o espectador é chamado a atuar junto com a obra, uma espécie de diálogo, de interação na busca interrogar a imagem e sobre a imagem. Confaloni busca mostrar mais do que a representação do corpo físico, parece querer captar a essência do retratado.
No seu auto-retrato o espectador é chamado a definir algo que ficou inacabado, e decifrar o enigma daquele que se coloca a sua frente, que confunde e se confunde. Há um rosto de frente para mim, para você, para os outros, com expressão aparentemente engessada, olhos fixos, sem brilho, com o pescoço levemente inclinado para trás, os ombros eretos, firmes e postando uma indumentária dominicana.
Com habilidade excepcional para o desenho, Confaloni traça com rigor e decididas pinceladas sua própria imagem. Aos poucos sua imagem vê surgida na tela, traços fortes, “jogos volumétricos e luminosos” (FABRIS, 1990) que denota a sua forte personalidade. Com expressão austera e madura, nos leva a imaginar o homem que está a nossa frente. Que homem será esse? Onde ele está? Qual o seu lugar de fala? Será o padre artista numa análise de si mesmo, da forma com o vê? Sabemos que é no auto-retrato que o pintor inventa e se reinventa. Contudo,
Confaloni parece falar do seu interior, ressalta sua postura, mas, principalmente a sua expressão facial.
Notamos certa inquietação e velocidade no pincel, no exagero das tintas, usadas com camadas grossas. Os tons permanecem sóbrios, mesmo nos retratos. Mas há algo que gostaríamos de assinalar sobre essa imagem, que, posta a nossa frente, ela está ali, morta, inerte, mas ela quer falar com seus espectadores, ela entra em conflito e exige para si mesmo algo, o poder expressar-se com franqueza sobre si mesmo, sobre sua vida, sobre o que viveu e o que não pôde viver, e porque não pôde viver de outro modo, experimentar suas relações de outra forma, ver sua experiência com outros instrumentos diversos.
É preciso entender que nessa relação o pintor se apresenta e representa, indo para além da imagem como uma espécie de desdobramento de si mesmo. Como espectadora nessa relação, eu e a obra, não há jogo verbal, nem uma realidade histórica que é visível para todos. E, está em todos nós. Dessa forma a dificuldade do olhar e entender as múltiplas realidades visíveis, experimentadas e retidas pelo sujeito, que para fundar suas próprias ações e seu modo de vê-las e vivê-las, transforma-as em uma realidade discreta e anônima, como homem: homem do campo, homem da rua, homem público, homem da multidão, sem carne, sem sangue, sem impressões, senão expressões, planejadas e controladas pelo manejo dos pincéis e das tintas na paleta.
Figura: 19 - Auto Retrato. Óleo sobre tela. Convento São Domingos da Igreja São Judas Tadeu, Goiânia.
Eis aí, de modo exemplar a experiência profunda já tecida do pintor com seu auto-retrato.