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4 REVISÃO DAS BASES DA BIOÉTICA GLOBAL: TESE PROCEDIMENTAL

4.3 ALTERIDADE ENQUANTO FUNDAMENTO DA BIOÉTICA GLOBAL

4.3.2 Propostas de aproximação entre bioética e alteridade no Brasil

4.3.2.3 O papel da alteridade na Bioética complexa

A Bioética complexa é corrente da bioética latino-americana que propõe um modelo orientador para a resolução de problemas bioéticos. Para tanto, os referenciais teóricos são aproximados da realidade, devendo-se identificar adequadamente o problema, os fatos e as circunstâncias envolvidos, as alternativas e suas respectivas consequências. Ao longo desse processo analítico, são tidos como parâmetro os referenciais teóricos e a análise de casos

pretéritos semelhantes ou correlacionados. Ademais, também as experiências e vivências prévias são passíveis de discussão racional, assim como os sistemas de crenças, valores e afetividade633.

O primeiro passo consiste na identificação precisa dos fatos e circunstâncias a serem analisados. Quanto mais informações de qualidade forem coletadas, menor será o risco de ambiguidades na compreensão do problema. Identificá-lo com precisão é determinante para o mapeamento de alternativas. Goldim salienta que, em regra, as questões éticas são abordadas sob a forma de dilemas, o que remete a situação em que há apenas duas possibilidades de solução. Porém, no campo da saúde, as alternativas costumam ser múltiplas, de modo que se faz mais adequado fazer referência a problemas éticos634.

A análise devida das alternativas possíveis com vistas à tomada de decisão requer a busca por justificativas quanto à adequação ou não de determinada ação. Goldim parte da premissa de que a Ética consiste na busca de justificativa para verificar a adequação ou não de dada decisão635. Nessa etapa, é possível recorrer a diversos modelos, assumindo a Bioética complexa quatro grandes referenciais teóricos: as virtudes, os princípios – beneficência, respeito às pessoas e justiça, os direitos – insidividuais, coletivos e transpessoais, e a alteridade636.

Dentre os referenciais teóricos está a Ética das Virtudes, baseada no reconhecimento de traços adequados do caráter de uma pessoa. Os princípios são os referenciais mais adotados, sobretudo pelo amplo estudo da obra de Beauchamp e Childress. São considerados deveres prima facie a serem atendidos, exceto se entrarem em conflito com outro princípio à luz de uma situação particular. Na Bioética são utilizados três princípios básicos: beneficência, respeito às pessoas e justiça. Na bioética principialista, acrescentou-se a não-maleficência e o respeito às pessoas assume a denominação de respeito à autonomia637.

Além das virtudes e princípios, devem integrar a análise do problema bioético os direitos individuais, coletivos e transpessoais garantidos nos ordenamentos jurídicos nacional e internacional. Faz- menção especial aos Direitos Humanos, além da desafiante missão de conciliar direitos individuais e coletivos. Nas palavras de Goldim: “Todos estes direitos [individuais] devem ser preservados, contudo em situações excepcionais como de uma pandemia, podem ser suplantados pelos direitos coletivos, como a saúde, a educação e a assistência social, que são garantias de todos”638.

Some-se ao conjunto de referenciais teóricos a alteridade, considerado por Goldim o mais fundamental e fundante para a Bioética. A partir da abordagem filosófica, a alteridade é

concebida como o reconhecimento de que o Outro tem papel essencial na ressignificação do Mesmo, estabelecendo-se entre eles uma relação de copresença ética e corresponsabilidade. Por essa via, é possível ressignificar as relações profissional-paciente, pesquisador-participante da pesquisa, profissional-família e entre os profissionais de saúde639. A interação efetiva com o Outro retira o Mesmo da posição de indiferença640.

Ao analisar a tomada de decisão sobre ações diante de uma pandemia de influenza, Melnik e Goldim desenvolveram o seguinte percurso analítico a partir da alteridade:

Em uma situação de pandemia, de risco presente e compartilhado, a co- responsabilidade é que justifica ações de caráter preventivo, de impedimento de propagação da doença. Especialmente em uma situação de pandemia, todos são co- responsáveis, sejam profissionais de saúde, jornalistas, governantes, professores, ou seja, cidadãos. Neste tipo de situação não há possibilidade de se manter neutro, todos estão engajados em um mesmo esforço solidário, não por dever, mas por reconhecer que é este conjunto de ações que nos torna humanos641.

Percebe-se que a alteridade oferece à análise do problema bioético a percepção da corresponsabilidade em sentido diverso ao dever legal. A motivação do agir em colaboração reside no reconhecimento de que a relação com o Outro é fundamental à própria percepção de si mesmo enquanto ser humano. Cada um dos referenciais teóricos guarda pontos de contato com os demais, numa relação de complementaridade. O direito à privacidade está relacionado com o princípio de respeito às pessoas, assim como o princípio da justiça se associa ao direito transpessoal de solidariedade. Subjacente aos direitos e princípios estão as virtudes, sendo a própria justiça uma delas642.

Nessa linha, a alteridade é tida como referencial que pode conferir unidade às diferentes perspectivas suscitadas pelos princípios, virtudes e direitos643. Não resta claro de que forma essa unidade seria alcançada, não sendo a alteridade dotada de conteúdo material ao ponto de orientar a eleição de uma dada alternativa dentre as disponíveis. Também não é conferida atenção ao papel da alteridade enquanto ruptura da totalidade, postura de abertura em relação ao Outro, tornando-o irredutível a qualquer tentativa de categorização. A corresponsabilidade referida deriva justamente do não ignorar a interpelação do Outro, tal como ele se mostra.

Com vistas a este aspecto da teoria levinasiana, que integra a contrução da Bioética complexa, adotar a bioética principialista como premissa já introduz na relação com o Outro uma perspectiva cultural não necessariamente compartilhada. A própria significação de autonomia e justiça, por exemplo, recebe os influxos da cultura em que cada partícipe da relação se encontra imerso. Garantir o respeito às diferenças nesse contexto, em especial quando os sujeitos da relação são estranhos morais, requer esclarecimentos sobre a tábua axiológica a ser

levada em consideração, assim como a percepção de determinados fenômenos – como vida, doença e morte.

Além dos fatos, circunstâncias e referencial teórico, a resolução de problemas bioéticos requer consulta a casos relacionáveis. Dessa forma, é possível integrar a história e vivências pretéritas à resolução de um desafio presente, conferindo-se coerência às decisões. É importante que os casos sejam reais, pois há diversas limitações que interferem na indicação das alternativas possíveis que, muitas vezes, não se verificam em casos hipotéticos. Mesmo que o problema oposto assuma contornos inéditos, identificar casos relacionáveis colaboram com a reflexão, fazendo-se as devidas distinções entre eles numa postura de rigor metodológico644.

Também deve ser levado em consideração o sistema de crenças – valores, tradições e interesses envolvidos no problema bioético sob análise. Entende-se por crenças o conjunto de julgamentos subjetivos a respeito de si e de seu meio. Os valores, por sua vez, são crenças duradouras que compõem um modelo específico de conduta, pautado em ações pretéritas, que pode ser adotado de forma pessoal ou social. A tradição encerra uma memória individual ou coletiva que dá sentido de partilha e pertencimento. Os interesses, por fim, se referem a satisfação vinculada à representação da existência de um dado objeto, despertando evolvimento e atenção645.

A afetividade também integra o itinerário de análise e resolução de problemas bioéticos, elemento que se refere aos afetos, emoções e sentimentos. Nesse âmbito, Goldim destaca os vínculos afetivos, especialmente os familiares, e os desejos – projeção de futuro que pode impactar nas consequências associadas às alternativas de solução. O autor frisa que a Bioética complexa não visa dar respostas, mas conferir ferramentas aos profissionais de saúde na tomada de decisão sobre o viver. Trata-se de um apoio qualificado á busca de justificativas para a adequação das ações no âmbito da bioética clínica646.